Vida, paixão e morte do PT

Charge do Fred, reprodução de Notícias UOL

Sebastião Nery

O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina, Em 1978, o jovem prefeito de Criciúma Walmor de Luca, líder estudantil de esquerda, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os grupos políticos que se reorganizavam no país lutando pela anistia e as eleições diretas e com as mais destacadas lideranças sindicais da oposição.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, líder dos bancários do Rio Grande do Sul. Perguntei a Lula:

– Quem é esse Olívio?

– É o melhor de nós. Olívio é quem vocês pensam que eu sou.

Também estavam lá Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo, e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, do Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco, Ceará, o pais quase todo.

Desde a primeira assembleia, um assunto centralizou os debates: o movimento sindical deve ter partido político? As lideranças sindicais devem entrar para partidos políticos?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Durante dois dias discutimos muito. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas, cassados ou não, ligados a Leonel Brizola (José Talarico, Rosa Cardoso, João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido, liderado por Brizola, que havia saído do Uruguai e ido para os Estados Unidos.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros estados que Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os do Rio Grande do Sul, de Minas, de São Paulo, do ABC, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? Esses necessitavam de cobertura política. Lembrei os sindicatos do fumo e cacau no Recôncavo e no sul da Bahia.

LULA PEDIU UMA ÁGUA -No último dia, no jantar, vi Lula mudando de posição. Já rouco de discutir, pediu uma água. Veio, toda branquinha, em uma garrafinha. Pedi um gole. Era uma cachaça mineira. Pediu outra. E fez um belo discurso, caloroso, defendendo as lutas dos trabalhadores nos seus sindicatos. Mas não combateu mais os partidos. Concordou que era uma luta só.

De Criciúma Lula saiu direto para Belo Horizonte e Salvador. Foi conversar com os petroleiros de Minas e da Bahia, onde já o esperava o presidente do Sindicato do Petróleo e deputado socialista Mario Lima.

Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho do PT.

SOB AS BÊNÇÃOS DA IGREJA – No dia 10 de fevereiro de1980, em um colégio de freiras, em São Paulo, sob as bênçãos da Igreja e nos braços dos trabalhadores do ABC, nascia o PT, o mais luminoso partido da história política brasileira. Mais até que a Revolução de 30, um parto das oligarquias, o PT era um filho do povo, comandado pelos trabalhadores e acalentado pelos estudantes nas faculdades, pelos padres nas sacristias. Sob as bênçãos de Deus.

Em Santo André, vigilante, firme e lúcido, Dom Jorge Marcos de Oliveira, o bispo do PT. Apoiando-o com seu quase silêncio e sua sabedoria, o arcebispo Dom Evaristo Arns e Dom Balduino, Dom Pedro Casaldaliga, Dom Jairo Matos no sertão baiano. Logo a melhor juventude brasileira começou a ver no PT uma tocha para as suas esperanças. E a universidade, que mal sabia onde ficavam os sindicatos, viu no PT o seu futuro. Mas de repente chegou o poder. E o PT mergulhou profundamente no lamaçal da corrupção.

LULA DESCOBRIU O DINHEIRO – Lula, o operário do ABC, descobriu o dinheiro. E o triplex de Guarujá e o sítio de Atibaia, o contubérnio com as empreiteiras e, mais grave, o escândalo dos escândalos que está surgindo agora nas lanternas da Lava Jato: os 50 bilhões de dólares do BNDES distribuídos com os ditadores amigos e em propinas externas que já estão surgindo.

O advogado Luiz Francisco Correa Barboza disse ao Globo: “Não só Lula sabia do Mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento, pela TV, a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”. Os companheiros do partido no banco dos réus e ele, só ele, de fora. Logo ele que é o grande réu, “o réu”.

Um gênio chamado Glauber e a união de Educação e Cultura

Glauber, fazendo seu primeiro filme, “Barravento”

Sebastião Nery

Na boate do Hotel da Bahia, onde eu morava, em Salvador, em 1963, numa noite de sexta-feira, depois do jantar, eu ouvia o Blecaute, o negro cantor de voz calorosa, com suas canções americanas, acompanhado de uma jovem alta, esguia e bela, gaúcha e também negra, bem negra, com olhos de amêndoa. Depois de cantar, veio sentar-se à minha mesa.

Era a Leila. Entrou Glauber Rocha, agitado e falando atropeladamente no filme que ia fazer, “Barravento”. Apresentei-lhe a Leila. Ainda de pé, Glauber olhou longamente para ela, chegou bem perto do rosto e gritou alto:

– Sophia Loren em negativo!

Sentou-se. A Leila ficou surpresa, assustada. Ele continuou:

– Você nunca fez cinema? Nunca a chamaram para filmar?

– Não. Sou de Porto Alegre. Eu só canto.

– Você vai fazer um teste de fotos e de fago.

Ela ficou parada, ansiosa. Falei-lhe mais do Glauber, de sua liderança em um grupo de jovens intelectuais baianos, ela sorriu aliviada:

– Claro que aceito. Sempre sonhei com isso. Quando será?

– Amanhã. Mas antes temos que resolver um problema. Seu nome. Leila é bonito, mas não é nome de atriz. Tem que ser outro.

E ficou pensando. Entrei na conversa:

– Que tal Luiza?

– Ótimo, disse Glauber. É simples e forte. Mas tem que ser duplo.

Levantou-se, foi até o bar, pediu uma água, voltou:

– Já tenho o nome: Luiza Maranhão.

Tímida, a gaúcha Leila, a nova Luiza, respirou fundo:

– Também gostei muito. E você, Nery?

– Ótimo. Para manchete de jornal e capa de revista é perfeito.

E nasceu ali a deslumbrante e queridíssima atriz Luiza Maranhão. Marcamos encontro para as fotos no dia seguinte, na redação do “Jornal da Bahia”, onde Glauber era editor de Polícia e eu colunista. Ela só voltou a Porto Alegre depois de filmar “Barravento”, primeiro longa de Glauber. Depois Glauber fez o clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “Terra em Transe” e outros. Ele era isso: um “vulcão cultural”, como o chamou em magnífico livro o João Carlos Teixeira Gomes, o primoroso poeta Joca.

CINEMA NOVO – A revista francesa “Cahiers du Cinema”, a bíblia dos cinéfilos, elogiou o filme “Cinema Novo”, que recebeu a “Palma de Ouro” de documentário no Festival de Cannes, na França. O documentário é de Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha (1939-1981). A revista diz assim:

– “O Cinema Novo é o cinema do futuro: Eryk Rocha restitui a força criativa, a energia incandescente, o desejo e a paixão de um movimento que nunca deixou de ser contemporâneo”.

Como dizia Otavio Mangabeira, “baiano bom é o que brilha lá fora”.

CPC-UNE

Eram mil coisas ao mesmo tempo, naqueles tumultuados dias do governo João Goulart. Impulsionado pelo meu “Jornal da Semana”, tinha acabado de me eleger deputado. O candidato do PCB (Partido Comunista) a deputado estadual, meu amigo Aristeu Nogueira, não se elegeu. Ficou como primeiro suplente do Partido Socialista.

O PCB queria criar na Bahia o CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) e não tinha recursos. Fui a Brasília. O perene e incansável Waldir Pires, então Consultor Geral da Republica, me encaminhou ao MEC (ministro da Educação e Cultura, Julio Sambaqui). O dinheiro só poderia ir através da Inspetoria Seccional do MEC em Salvador. Era um grande baiano, ex-prefeito de Mutuípe, Julival Rebouças. Para cuidar da verba, um funcionário federal, Noenio Spinola, depois consagrado jornalista, diretor de redação do “Jornal do Brasil”.

E foi assim que, também com a lucidez e o estimulo do grande reitor da Universidade Federal da Bahia, o professor Edgard Santos, começaram a nascer esses maravilhosos tsunamis culturais baianos que foram o “Cinema Novo” e a nova “Musica Baiana”.

Instalado no sub-solo da Faculdade de Direito, ali na Piedade, o CPC trouxe Gilberto Gil de São Paulo, Tom Zé de Irará, Caetano e Maria Betânia de Santo Amaro e outros de outros lugares e setores, como as artes plásticas, a musica clássica, o teatro, escritores como João Ubaldo Ribeiro, Flavio Costa, Paulo Gil Soares. Outros, como o pioneiro Gilberto Gil, já ensinavam.

Hoje, estão ai ridículos e desinformados, faturadores da Lei Rouannet combatendo a união da Educação com a Cultura, como se a principal revolução cultural brasileira deste século não tivesse nascido exatamente da junção da Educação com a Cultura no CPC do PCB. Perguntem a Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor (Paulo Pontes e Vianinha não respondem mais).

As duas esquerdas (positiva e negativa) de Santiago Dantas

Tancredo e Santiago, dois gênios

Sebastião Nery

Naquela noite de 1963, já quase 1964, Santiago Dantas jogou sua ultima cartada. Doente, muito pálido, falando com dificuldade, comido por um câncer atroz, já arrumando as gavetas da vida com a violência de sua luminosa lucidez, convidou deputados, líderes sindicais, dirigentes estudantis e, sobretudo, o comando da Frente de Mobilização Popular de Brizola, para uma conversa em sua casa da rua Dona Mariana, no Rio de Janeiro, cercado de arvores e livros. Tentou um último esforço para salvar o barco da República, que adernava, escorregando o governo de João Goulart para o naufrágio.

Santiago imaginou, elaborou, articulou, coordenou uma Frente Ampla (a de Lacerda, em 1966, foi a segunda; o nome é direito autoral de Santiago) que conseguisse reunir do PSD ao Partido Comunista, passando pelo PTB e pelo PSB, todas as forças naquele momento comprometidas com a defesa da democracia, para evitar que a radicalização do processo político acabasse levando, como levou, o País ao impasse do golpe militar.

SEM ENTENDIMENTO
Foi impossível um entendimento. A esquerda (o PTB, o Partido Socialista, o Partido Comunista e outras forças reunidas na Frente de Mobilização Popular de Brizola) já havia dado um salto para a radicalização do processo, denunciando “a política de conciliação de João Goulart” e a “aliança com o PSD”, que Santiago considerava o lastro do pacto político e social do País.

Depois de horas de debates, Santiago, exausto, visivelmente desencantado, tirou o lenço do bolso, limpou longamente os óculos, pôs a mão no ombro do deputado Mário Lima, presidente do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, um dos poucos que ali aceitavam a proposta de Santiago, e suspirou:

– Tenho a impressão de que o resto desta discussão será da cadeia.

Foi. Sem ele, que logo depois morreria, mas com todos nós presos.

SANTIAGO
No Governo de João Goulart, Celso Furtado formulou o Plano Trienal com disciplina na política econômica e forte ajuste fiscal. Foi combatido e boicotado por uma parte da esquerda no governo. Santiago apoiou Celso dizendo que no Brasil havia duas esquerdas, a positiva e a negativa. Não teve tempo de dizer, mas a negativa ajudou a derrubar Jango.

Santiago, que já nasceu sábio, fazia parte do “Grupo de Itatiaia”, com Augusto Schmidt, Jorge Serpa, Antonio Balbino, Chagas Freitas, Antonio Galotti, Gerardo Mello Mourão, filósofos, poetas, juristas que se especializaram em variadas sabedorias. Na Faculdade Nacional de Direito, onde a maioria estudou, Santiago disse a Balbino:

– Sou cristão. Como cristão, devo ser modesto. Só peço a Deus que me dê três coisas: cultura, dinheiro e poder.

Quando já tinha cultura e dinheiro, Santiago foi a João Goulart:

– Presidente, quero entrar no PTB porque não sou burro.

– Mas o senhor não é o grande advogado das empresas estrangeiras? A linha do PTB é nacionalista, professor.

– Presidente, se o senhor me der sua licença e me ajudar, eu mudo.

A partir daquele dia, Santiago foi conselheiro de Jango.

Santiago candidatou-se a deputado federal por Minas, em 1958. Jango pediu a Doutel de Andrade e Raul Ryff que fossem lá “ajudar o professor na campanha”. Chegaram a uma cidade do interior, foram almoçar com um velho magrinho, muito calado, desconfiado, chefe político do PTB local. Santiago, como sempre fazia, começou a falar aplicadamente sobre a história da cidade, seus fundadores, sua economia. Sabia tudo. Não entrava num município sem se preparar convenientemente. Encantou a todos: prefeito, vereadores. E o velho magrinho, calado, desconfiado, na cabeceira da mesa. Quando se fez silêncio, o velhinho levantou a voz:

– Quer dizer, professor, que o senhor quer ganhar só no “boquejo”?

O professor não queria. Abriu a pasta, fez um cheque, teve os votos.

EM CRACÓVIA
Santiago estava na Polônia, recebendo o título de doutor “Honoris Causa” da multissecular Universidade de Cracóvia. Na solenidade, deu-se conta de que não preparara por escrito o discurso de agradecimento.

Mas era preciso não ser indelicado. Chamou o embaixador Marcílio Marques Moreira, seu assessor, pediu-lhe algumas folhas em branco, levantou-se com elas nas mãos e, fitando-as com firmeza, pronunciou longo discurso em francês, como se estivesse lendo. Só Marcílio sabia.

BALANÇO DO PT
1.- O professor Marcelo Medeiros, da Universidade de Brasília e os pesquisadores Pedro Ferreira e Fábio de Castro, do Ipea, constatam que não houve queda na desigualdade da renda do Brasil (como dizem Lula e o PT): os 5% mais ricos em 2006 tinham 40% da renda total. Em 2012 já era 44%.

2.- Os encargos e juros da dívida pública pagam, em um ano, o equivalente a 15 anos do “Bolsa Família”.Na outra ponta de apropriação de renda, a “Bolsa Empresário” foi ativa integrante da agenda daqueles governos. E não ficou apenas no BNDES, mas se estendeu a subsídios, desonerações e regimes diferenciados para setores privilegiados.

Vi a morte na tarde azul, junto com Tancredo e Ulysses

Ulysses e Tancredo estavam juntos, na aterrissagem forçada

Sebastião Nery

Treze horas na sala Vip do Aeroporto de Brasília. A “Frente de Redemocratização” se preparava para o voo da Vasp para Goiânia, onde fariam um comício. Sentados nas macias poltronas negras, Magalhães Pinto e dona Berenice, deputados Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, senadores Teotônio Vilela, Mauro Benevides e Evandro Cunha Lima, deputado Rafael Almeida Magalhães, jornalistas Sílvia Fonseca, de O Globo, Marcondes Sampaio, Nélson Penteado e eu, da Folha.

O general Euler Bentes e os senadores Roberto Saturnino e Marcos Freire haviam vindo ao Rio e seguido de automóvel com o jornalista Pompeu de Souza. Chega uma jovem da Vasp e avisa que o voo ia atrasar porque o avião estava em conserto, na pista. Quando anunciaram o voo, pela porta víamos na pista mecânicos deitados embaixo do avião, puxando carrinhos e consertando coisas. Fomos. Exatamente às 16:00, o avião rolou na pista, foi até o fim, decolou, mas em visível dificuldade.

Começou a voar baixo, muito baixo, sobre o planalto verde. A asa direita bastante inclinada, os motores trêmulos, entrou em longa curva e a arquitetura branca de Brasília ali cada vez mais perto. Voou alguns minutos e, de repente, a aeromoça, com voz tensa, informa:

– Senhores passageiros, vamos voltar para o Aeroporto de Brasília, em emergência. Fiquem tranquilos, vai dar tudo certo, é uma pane no sistema hidráulico. Façam o obséquio de tirar canetas, objetos, folgar as gravatas, tirar os relógios, anéis, alianças e curvar o corpo sobre os joelhos.

A PANE

E a aeromoça morena, muito calma, e duas bem alvas, nem tão calmas, passaram a distribuir travesseiros e cobertores para o apoio do rosto, e pegar embrulhos, objetos e levar lá para o fundo. Um passageiro, atrás do deputado Tancredo Neves, chama a aeromoça baixinho:

– Não estou entendendo porque tirar tudo.

– Meu senhor, há uma pane no sistema hidráulico. Se, ao tocar o chão, o avião virar, haverá incêndio e é preciso sair rápido.

Olhei o relógio, 16:22. Tive consciência da gravidade e me preparei para ver o máximo de detalhes. À minha frente, a Sílvia tira a aliança. Põe novamente no dedo e diz a Marcondes, que era uma pedra de tranquilidade:

– Não vou tirar a aliança não. Sei que vou morrer e só poderei ser reconhecida por ela. Não quero meu marido chorando em cova errada.

Imediatamente peguei meu relógio, que havia posto no bolso, e pus novamente no pulso. Também queria ser reconhecido. Atrás de mim, Magalhães Pinto segura forte a mão de dona Berenice que, de olhos fechados, reza profundamente. Ulysses e Tancredo, impassíveis, olham em frente sem piscar o olho. Teotônio aperta ao máximo o cinto e Rafael folga a gravata e curva o corpo sobre os joelhos. Mauro Benevides olha pela janela em silêncio. Evandro Cunha Lima, vermelho. Lá na frente, uma mulher chora, mas chora baixo. A seu lado, uma cigana toda de roxo treme e reza lívida, os olhos molhados. Sílvia sorri:

– Meu Deus, olha uma cigana!

Sílvia volta o rosto sobre a cadeira:

– Nery, você está pálido.

– O que é que você queria? Que, com esse medo estivesse luminoso?

O MEDO

E ela ficou longamente olhando pela janela, serena, como os que sabem que vão morrer e se conformam.O avião vai descendo, passa baixo sobre um campo verde. Ao longe três grandes carros vermelhos dos Bombeiros, uma ambulância e dois carros azuis da Aeronáutica. Fico olhando o azul muito azul da tarde linda, nuvens brancas esgarçadas lá longe no horizonte interminável do planalto, uma novilha esgalga andando mansa no pasto e o avião trêmulo mas tranquilo, descendo empenado.

Amarrei o medo dentro de mim como um louco incontrolável, e por segundos mergulhei infinitamente nos braços da morte. Uma procissão de amor passou em relâmpago: meus pais, filhos, a infância, meu amor azul, Santo Afonso Maria de Liguori nas “Meditações sobre a Morte”, de manhã, no Seminário da Bahia: “É preciso conquistar a intimidade da morte”.

O avião avançava sobre a pista e entre faíscas se arrastou até o fim.

O medo voltou frio, e o “Domingo Azul do mar”, de Paulo Mendes Campos, entrou olhos a dentro, na estupidez de morrer na tarde azul.

O CATA MILHO

Não seria um ministério. Seria um cata-milho. De tal maneira o PT abastardou a vida pública nacional que agora queriam o MINC (Ministério da Cultura) reduzido a um lupanar de picaretas arrancando verbas em troca de votos. Iludem-se imaginando que o pais não vê.

Os verdadeiros criadores culturais continuarão nos palcos com suas peças, seus filmes, seus espetáculos, seus livros, suas artes, honrando a cultura e a vida da Nação. Pouco importam os impostores. A historia sempre caminhou para a frente e a máfia cultural vai ficando atrás.

O que conta são os o que contam. O que contou foi Gustavo Capanema, Anísio Teixeira, José Aparecido, Celso Furtado, Antonio Houaiss, Luis Roberto Nascimento Silva, Francisco Weffort.

O beijo de Judas de Sérgio Machado e o gravador do Juruna

Juruna era um Sergio Machado com caráter

Sebastião Nery

Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças, Mato Grosso, estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que, em Brasília, “governo de branco mente”.  Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que trouxesse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysâneas Maciel e a mim para recebermos Juruna no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, na Avenida Atlântica, em Copacabana, onde Darcy os esperava. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado. Mal falava português. Na mão, uma pasta aberta. Na pasta aberta um gravador.

Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando duro para Brizola. Darcy disse a Brizola que ele não se sentava porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele se sentou.

Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, mas Juruna saiu candidato a deputado federal, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

LENDO OS JORNAIS

Em Brasilia, com 12 filhos, Juruna morava no 1º andar da quadra 202 Norte, prédio dos deputados, e eu no 5ºandar. Quase toda manhã, sempre entre as nove e as dez, Juruna chegava com um punhado de jornais, tocava a campainha, todo solene, não cumprimentava ninguém, só perguntava:

– Nerú tá?

Ia para meu escritório, jogava os jornais na mesa, trancava a porta:

– Nerú, Juruna confia em Nerú. Nerú não conta pra ninguém que Juruna não sabe ler. Jornal fala de Juruna?

Eu já tinha lido alguns, olhava rápido os outros, lia para ele, marcava o nome dele em lápis vermelho, ele rasgava o pedaço, dobrava, punha no bolso e saía sem se despedir, sem falar nada.

GENIAL ANALFABETO

Na Câmara, Juruna entregava os recortes à sua assessoria, como se fosse ele que tivesse lido, dizia o discurso que queria fazer na tribuna, como queria fazer, o que queria dizer. Escreviam o discurso para ele, liam e reliam, ele ia para a tribuna, repetia tudo, e ia passando lauda por lauda e pondo fora, à direita, sobre a estante, como se estivesse lendo.

Juruna ia falando mais ou menos o que estava em cada uma. É só conferir nas notas taquigráficas da Câmara. O que ele falava era mais ou menos o que estava escrito, mas não era exatamente o que estava escrito, porque Juruna não sabia ler, só escrevia o nome. Era um genial analfabeto. Esse é um segredo que guardei enquanto ele viveu. Cumpri.

ÍNDIO FILHO DA PUTA

Enganava 500 políticos que se consideravam muito mais sábios e espertos do que ele. Um dia, em Roma, muito tempo depois, à beira de um Brunello Di Montalcino, contei essa história ao inesquecível Ulysses Guimarães. Ele ficou besta. Riu muito:

– Que índio filho da puta. Me enganou quatro anos.

SERGIO MACHADO

O paíis se estarrece com as delações do ex-senador do Ceará Sergio Machado à Operação Lava-Jato comandada pelo exemplar juiz Sergio Moro de Curitiba. A “delação premiada” é um recurso legal que a justiça usa para ouvir depoimentos em troca de vantagens a prisioneiros. Há em quase todos os países. Alguns cretinos dizem que ela é como uma tortura na ditadura. Quem fala isso não sabe o que é ditadura nem nunca foi torturado. A “delação premiada” é uma troca de informações que o preso dá ou não dá. A decisão é dele. Delator traiçoeiro é diferente.É um canalha.

Temos dois exemplos para mostrar a diferença. O deputado Pedro Corrêa, de Pernambuco, depois de uma dezena de mandatos, contou minuciosamente à “Veja” sua atuação de presidente do PP (Partido Progressista), sobretudo as negociações com Lula Presidente.

Já o Sergio Machado ia visitar seus amigos em casa, 7 horas da manhã, com um gravador escondido e os atraia para armadilhas políticas. Fez isso com o ministro Jucá, o senador Renan e o presidente Sarney. Logo os três que garantiram seu emprego na Petrobrás durante 12 anos. Depois negociava as conversas. Com Sarney cometeu a suprema canalhice. Foi visitá-lo no hospital, beijou-lhe a mão e o rosto e vendeu seus segredos.

Como Judas. O Judas do Ceará.

O GRAVADOR

Juruna tinha razão de desconfiar do homem branco. Ficamos amigos na campanha de 1982, nós dois candidatos a deputado no Rio. Íamos para o subúrbio, o interior, Brizola me dizia: – “Tu estás eleito. Fala no índio”.

Eu falava, pedia votos para ele, ficou meu amigo eterno.

Tinha birra do Bocaiúva Cunha, que gostava muito dele mas o achava engraçado, ria dele, Juruna detestava quem risse dele. Desconfiava que as notas engraçadas que o Zózimo dava sobre ele na coluna eram fornecidas por Bocaiúva. Vivia dizendo que ia bater em Bocaiúva:

Chamava o saudoso Zózimo de “Gosmo”. Um dia me perguntou:

– Nerú, “Gosmo” todo dia fala de Juruna. O que é que “Gosmo” quer?

Juruna era índio. Um homem verdadeiro. Sempre de gravador aberto.

Os cinco deputados do Piantella, 14 anos depois

Acompanhados de Jucá, os cinco deputados do Piantella

Sebastião Nery

Tarde de sábado no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estávamos a um canto, almoçando e conversando sobre o pais. De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eliseu Padilha, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.

Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

MAIORIA NO CONGRESSO

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia exatamente os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.

Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos – disse Lula. Fica mais barato.

NASCIA O MENSALÃO

Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o Mensalão.

Quinta-feira, quatorze anos depois, na posse do governo Temer no palácio do Planalto, na primeira fila, lá estavam precisamente os “Cinco do Piantella” daquela tarde de domingo: Michel, Moreira, Padilha, GedDel e Henrique: o presidente e seus mais próximos amigos.

A RESPOSTA DA HISTÓRIA

É unânime: dos mais de 60 discursos feitos da tribuna do Senado, na noite de quarta para quinta-feira, o mais brilhante e primoroso, o mais profundo e inteligente, um discurso que ficará na Historia dos grandes discursos do Parlamento brasileiro, foi o do ex-presidente e senador Fernando Collor. O Senado o ouviu do começo ao fim em total silêncio. Como nos grandes dias do Congresso.

Infelizmente, lá não estavam, para ouvi-lo, o presidente Mauro Benevides e o relator Amir Lando, derrotados, os ex-deputados Lula, José Dirceu, José Genoino, Aloísio Mercadante, o marqueteiro João Santana, da tropa de choque da acusação, prisioneiros ou quase, e outros.

A História anda devagarinho, mas sempre chega.

GETÚLIO

Se consultar os “Anais do Congresso Nacional”, o brasileiro lerá ali um discurso do general deputado Euclydes de Figueiredo, da UDN do Rio, herói da Revolução Constitucionalista Paulista de 1932, que na Constituinte de 1946 pedia a convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para “apurar os crimes da ditadura”.

E ele dizia, da tribuna da Câmara, que foram crimes que estarreceram a nação, escandalizaram o Brasil diante do mundo e, por isso, era preciso que a Câmara os investigasse, punisse os responsáveis, para que servisse de lição para as próximas gerações. E o principal réu era o ditador, Vargas.

Por que agora esconder Lula atrás das cortinas?

OS MUÇULMANOS

Dois em um só mês. Em trinta dias, dois ilustres muçulmanos, um inglês e um brasileiro assumiram o comando de sua capital ou de seu país: o prefeito de Londres, Sadic Khan e o presidente do Brasil, Michel Miguel Elias Temer Lulia. E ainda há os idiotas que fazem discriminação racial.

Jânio Quadros, a morte da muriçoca e a dívida pública

Em família: Jânio Quadros, dona Eloá e a filha Tutu

Sebastião Nery

Chegamos cedo, dez da manhã. O ex-deputado José Aparecido, o poeta Gerardo Mello Mourão, eu. Era um belo domingo de sol em São Paulo, na Rua Santo Amaro, 5. Jânio Quadros veio abrir o portão, feliz, sorridente. Cortava a grama com um carrinho anavalhado. Era 1970, a ditadura militar corria feroz. Todo mês, quando em São Paulo, Aparecido arrebanhava alguns amigos para almoçarmos com Jânio. Foram chegando o padre Godinho, Roberto Cardoso Alves, Luís Carlos Santos. Esperávamos Oscar Pedroso Horta. Tomávamos uísque ou vinho. Aparecido pediu um vinho branco. Janio escandia as sílabas:

– Não há vinho branco, Zé. O Nery, que foi quase bispo, sabe que vinho é tinto. Vinho branco é uma bebida dos homens. A bebida de Deus é o vinho tinto. Se vinho branco fosse vinho, a missa seria com vinho branco. Já viu missa com vinho branco? Os grandes porres da Bíblia, o de Noé, o de Davi, foram com vinho tinto Quando Jesus transformou água em vinho nas Bodas de Caná o vinho saiu tinto. E era tinto o vinho da Ultima Ceia.

Fomos para o almoço. A mesa, farta e colorida. Já estávamos no cafezinho, antes do conhaque e do charuto, quando dona Eloá chega perto de Jânio e diz-lhe alguma coisa ao ouvido. Jânio encrespa as mãos, revolve os olhos, passa os dedos retorcidos pelos cabelos e geme fundo: – Não pode ser! Meu Deus, não pode ser!

As lágrimas desabam pelo rosto, ele se levanta e grita: – Muriçoca! Muriçoca morreu!

Pensei que era alguma desgraça com a filha Tutu. Perplexos, levantamo-nos todos. Ele andando na frente, nós atrás. No fim do jardim, deitada na grama, morta, uma cachorrinha branca, meio amarelada. Jânio senta-se no chão, pega-a nos braços, aperta contra o peito, beija-a em soluços, chorando convulsivamente.

Dona Eloá tenta levantá-lo: – Jânio, temos outros cães no jardim. Ela foi, os outros ficaram.

– Cães, Eloá! Cães! Cães há muitos, eu o sei. Mas a Muriçoca era única. E não porque a rainha Elizabeth m`a deu. Quando o algoz fardado caiu sobre mim, todos me abandonaram, Eloá, até tu. E tu também, Aparecido. Até tu. Só a Muriçoca me acompanhou na solidão e na dor.

Dona Eloá olhou para nós, desolada:

– Não diga isso, Jânio. Você sabe que não é verdade. Aqui estão seus amigos. Aqui está o Aparecido.

– Amigos, Eloá. Mas a Muriçoca era um pedaço da minha alma.

Ele ali no chão, soluçando, a cachorrinha no colo, e nós abestalhados, sem ter o que fazer. Revirava os olhos e arquejava: – Deixem-me só. Deixem-me com minha dor.

Aparecido quis acabar com aquilo: – Presidente, vamos para o gabinete. Os empregados enterrarão a Muriçoca debaixo das árvores.

Ele deu um salto, ficou de pé, a cachorrinha nos braços, com o pescoço caído, como uma boneca de Chaplin: – Eles não, Zé. Eu. Sepultá-la-ei eu mesmo, com minhas mãos e minhas lágrimas, no vértice do jardim. Ficará eterna na minha saudade, sob uma lápide de bronze. Prometi-lhe, cumprirei.

E saiu andando a passos largos, os olhos tortos, os cabelos desgrenhados, para o centro do jardim, beijando e apertando a cachorrinha contra o peito. E nós atrás. Uma tensa procissão medieval, como em um filme de Buñuel na Andaluzia. No meio do gramado, Jânio parou, olhou para os quatro cantos, deu um passo, bateu o pé no chão:

– Será aqui, no vértice. Ela sempre comigo, até o último dia.

JANIO EM LÁGRIMAS

Um rapaz trouxe uma picareta, Janio começou a cavar. Vermelho, em lágrimas, cavava e suava. Luis Carlos Santos e Robertão chegaram com a cal. A cova estava pronta. Dona Eloá pediu flores ao empregado. Jânio pôs Muriçoca na cova, cobriu-a de flores, disse uma série de coisas incompreensíveis, chamou o padre Godinho:

– Padre, uma prece última, por favor. Ela era um ser humano. Reze liturgicamente a derradeira prece.

Padre Godinho, entre a liturgia, que não permitia, e o amigo enlouquecido, olhou para mim e começou a recitar, em seu perfeito latim, um belo poema do poeta romano Horácio. Jânio olhava para o céu, procurando a alma de Muriçoca na tarde fria que caía.

Voltei lá outros dias. No vértice do jardim, com o nome da Muriçoca e a saudade de Janio, uma lápide de bronze cobria o túmulo de Muriçoca. Jânio enganou São Paulo e o Brasil. Não enganou a Muriçoca.

DÍVIDA PÚBLICA

No final de fevereiro, a dívida bruta da União, Estados e Municípios ultrapassou R$ 4 trilhões, crescendo R$ 4,2 bilhões por dia. A dívida pública federal responde por R$ 2,9 trilhões. No ano passado, a União, os Estados e municípios cortaram 35% dos investimentos. Em contrapartida os investimentos privados seguiram no mesmo rumo. O investimento público e o privado é que elevam a capacidade produtiva da economia.

A previsão da morte de Tancredo e a vidente do Alvorada

Sebastião Nery

Ela chegou com um sorriso aberto no rosto jovem e bonito, elegante, simpática, turbante na cabeça, colares, braceletes, joias esfuziantes nos dedos e um olhar distante, misterioso. Era dona Flávia, a mulher do presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã, Mário José Batista, gauchão vermelho, com cara de terra e sol. Lembro-me bem, era 8 de março de 1985, meu aniversário. As testemunhas continuam ai: Carlos Monforte, da TV Globo, Silvestre Gorgulho, do Jornal de Brasília, Milano Lopes, do Estado de S. Paulo, eu e outros jornalistas, na festa da maçã, que todo ano se realiza lá no Sul.

Jantávamos no belo Hotel Laje de Pedra, em Gramado. Faltava uma semana para a posse de Tancredo na Presidência. Surgiu o nome dele. Dona Flávia falava sobre a magia da Bahia e outras sabedorias. Ficou tensa: – Os senhores são amigos do doutor Tancredo?

– Somos, sim.

O marido, ao lado, não gostou: – Flávia, estamos aqui na nossa festa e comemorando o aniversário do Nery, não vamos falar de coisas tristes.

Silvestre insistiu: – Que coisas tristes?

Dona Flávia ficou corada, olhou serenamente para o marido: – Desculpem os senhores que são amigos dele, mas devo dar uma notícia ruim, que peço que fique aqui. Infelizmente nosso querido doutor Tancredo não vai ser Presidente, não vai assumir no dia 15. Ele vai morrer.

– Vai morrer de quê? De doença ou de um golpe militar? -perguntei.

– Não sei o que será. Mas posse ele não tomará. Tenho rezado muito para ele e para o doutor Sarney, que vai assumir. Estou vendo e conferindo toda manhã. Está nos globos, mapas, cristais, cartas, búzios, no escritório, onde os senhores estão convidados para almoçar conosco amanhã. Não sou uma profissional. Não trabalho por dinheiro. É apenas um dom, uma curiosidade intelectual, recebo amigos para sessões.

Ficamos lívidos. No dia seguinte, antes do almoço, ela nos mostrou, no vasto escritório ao lado do casarão, seus mapas, globos, cristais, baralhos e búzios. Balançando os coloridos balangandãs, apontava: – Vejam. Está aqui. Ele não vai assumir. Não vai ser Presidente.

Um leão enorme rugia e dava saltos numa jaula de ferro, aberta em cima, no meio do gramado do jardim. Fizemos um acordo. Ninguém publicaria. Alguns ficaram indignados: – Essa mulher é uma maluca.

Não era. Uma semana depois, todos já aqui em Brasília, Tancredo se internou e não voltou nunca mais.

ESTRANHA MAGIA

Agora, Brasília está vivendo dias alucinantes de estranha magia. Ninguém dá mais um tostão pelo mandato da presidente Dilma. Todo mundo já sabe que no dia 11 de maio o Senado vai aprovar a primeira fase do impeachment por uma diferença enorme de votos. O pais não aguenta mais o abismo em que o desastrado governo dela o lançou. Vai para casa.

Mas a lei lhe dá 180 dias de vadiagem no palácio da Alvorada, proibida de assinar qualquer ato ou dar palpite no governo. Mas como mantê-la seis meses sem nada fazer? Tenho uma sugestão: ela instala uma banca de magia no Alvorada e despacha com seus fantasmas: Lula, PT.

DIZ DILMA

1.- “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Teria sido a resposta de Dilma, então ministra das Minas e Energia, quando um empresário a alertou sobre os escândalos que ocorriam na Petrobrás. O bem informado jornalista Elio Gaspari, na “Folha de São Paulo” (18/04/2016) transcreveu o diálogo. À época, ela presidia o Conselho de Administração da estatal. Ao não se preocupar com “pequenas ilegalidades”, deixou o terreno fertilizado para as “grandes ilegalidades”. Seria o eixo garantidor da ação livre, leve e solta dos corruptores e corruptos na empresa. E veio logo a desastrada compra da Refinaria de Pasadena.

2.- Fato pouco destacado: nos dois governos de Lula, Dilma ao deixar o Ministério das Minas e Energia, assumindo a Casa Civil em 2005, manteve, de maneira inédita, a presidência do Conselho de Administração da Petrobrás. Eleita Presidente, ela designou o ministro Guido Mantega para a presidência do Conselho. Controlava assim a Petrobrás.

PETROBRÁS

– Em quatro anos, somente com o subsídio à gasolina, ao diesel e outros derivados, acumulou um prejuízo (atualizado) de R$ 100 bilhões. Importava o barril de petróleo na média de 100 dólares e o revendia na variável de 70/75 dólares, para mascarar os índices inflacionários.

– Há décadas, paralelamente à exploração do “pós-sal” na Bacia de Campos, o seu corpo técnico desenvolvia estudos e pesquisas para uma nova fronteira geológica: o “pré-sal”, que foi mentirosamente anunciada como o milagroso descobrimento realizado pelo governo Lula.

– A sua carnavalização, aliada ao oportunismo político e eleitoral, em falácia do mais baixo nível, atropelou a racionalidade do verdadeiro debate público que envolveria as potencialidades do “pré-sal”. Em seu lugar, a demagogia populista atropelou a realidade com o “pré-sal político”, ignorando que, nas décadas de 80 e 90 foram perfurados mais de 150 poços no “pré-sal”.

A falta que fazem os grandes parlamentares

Sebastião Nery

Um dia, quando sobre nossos dias ainda mais se dobrarem as páginas do tempo e a crua crônica daquela nossa época for totalmente escrita, muito se há de dizer daqueles homens que construíram aqueles tempos. Volto a Brasília anos depois e, como dizia o poeta, “em cada canto uma saudade”. Não há colinas como em Roma, mas colunas como no Alvorada. Penso em Juscelino, Lucio Costa, Niemeyer. Mas também em Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Burle Max.

O tempo não volta. O tempo rola. Não há por que querer o passado agarrado nas nossas pernas. Entro no Congresso e não podia mesmo ser o mesmo. O país muda, o voto muda, os lideres mudam. Mas também não precisa aquele deprimente espetáculo de baixo nível mental na votação do Impeachment, chamando a vovozinha, a mãezinha, o filhinho, o netinho.

A Nação não precisava esperar votos da altitude intelectual de Otavio Mangabeira e Carlos Lacerda, de Vieira de Melo e Ulysses Guimarães. O voto de hoje é assim porque os lideres de hoje não são mais Tancredo Neves, Leonel Brizola, Franco Montoro, Miguel Arraes, Orestes Quércia, Pedroso Horta, Petrônio Portela. José Aparecido, Teotônio Vilela.

OS ELEITORES

Não culpemos o povo. O povo vota em quem conhece. Um dia as escolas formarão eleitores que votarão melhor. Sem choro nem vela.

Saímos do “Mensalão” para o “Petrolão”, a caminho do “Fundão”. O novo escândalo está vindo aí. A poupança voluntária, administrada pelos fundos de pensão, é instrumento do desenvolvimento. A poupança interna brasileira tem, na riqueza gerada dos seus assalariados de classe média e trabalhadores, poderoso instrumento na maximização da prosperidade em algumas das maiores empresas e empreendimentos na economia brasileira. O fator segurança nesses investimentos decorre da visão de longo prazo para o seu fluxo de caixa em um universo temporal de 35 a 50 anos. O gestor deve ter disponibilidade de recursos para atender as necessidades decorrentes dos pagamentos dos aposentados e pensionistas.

HÁ 278 FUNDOS

Existem no Brasil 278 fundos de pensão públicos e privados. Os dez maiores são vinculados a empresas estatais e representam 53% do total do patrimônio e real capacidade de investimento. O grande patrimônio formado pela poupança voluntária de milhões de trabalhadores não pode ser administrado ignorando os critérios de competência técnica.

Com a chegada do PT ao poder e o ativismo sindical originário do Sindicato dos Bancários de São Paulo, a competência técnica foi substituída pelos sindicalistas-gestores. Transformaram-se em instrumento de governo, patrocinando investimentos nada ortodoxos, arrombando a Previdência Complementar.

O grande teórico do modelo foi o falecido sindicalista Luiz Gushiken, ex-deputado federal e ex-presidente do sindicato paulista, ao ser nomeado chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

O sindicalista Berzoini ocuparia o Ministério da Previdência, enquanto João Vaccari assumia a presidência do Sindicato em São Paulo.

FUNDÃO

O aparelhamento nominal dos Fundos se daria com a ida dos sindicalistas Sérgio Rosa para a direção da Previ, do Banco do Brasil; Wagner Pinheiro para a Petros, da Petrobrás; e Guilherme Lacerda para o Funcef, da Caixa Econômica. A ocupação dos fundos de outras estatais seguiria a mesma filosofia. Todos vinculados â CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Agora, em 2015, a conta do aparelhamento se expressa nos prejuízos causados pelas operações temerárias e perdas de bilhões de reais, provocados por incompetência generalizada. No ano passado, o acumulo de déficits, destacadamente na Previ, Petros e Funcef atingiu R$ 77,8 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira de Previdência Privada, confirmado pela Superintendência de Previdência Complementar (Previc) considerada o grande xerife do setor.

Nos outros fundos de pensão o cenário não é diferente, afetando o futuro de mais de 500 mil aposentados e pensionistas.

POSTALIS

O mais dramático e chocante ocorreu no Fundo Postalis, dos Correios, que afetará a vida de 100 mil trabalhadores da ativa e aposentados. O déficit de R$ 5,6 bilhões será arcado por 71mil trabalhadores da ativa e por 30 mil aposentados.

De maneira injusta e cruel, por um período de 23 anos, a partir de maio, pagarão em 279 meses, até o ano de 2039, um déficit milionário gerado por corrupção e administração temerária. Terão descontos do salário de 17,92%, mensalmente, desfalcando o orçamento de dezenas de famílias.

A medida injusta foi aprovada pelo Conselho de Administração dos Correios. A dilapidação patrimonial do Fundo será paga pelos próprios funcionários.

Golpe de estado foi o que ocorreu em 1964

Em 1964, o golpe militar nada tinha de democrático

Sebastião Nery

O Centro Edgard Leuenroth, da Universidade Estadual de Campinas, onde toda a documentação do Ibope está arquivada desde sua fundação, tem depositada uma documentação do Ibope provando que nas vésperas do golpe militar de 31 de março de 1964 a popularidade do presidente João Goulart era de 74%. O levantamento foi feito entre os dias 9 e 26 de março de 1964, incluindo oito capitais brasileiras, atestando que Goulart tinha 74% de apoio dos brasileiros.

Em tempo: Dilma Rousseff tem hoje também 70%, mas de impopularidade. Exatamente o contrário). No Estado de São Paulo, principal base de combate ao seu governo, 69% dos paulistanos apoiavam Goulart, com a seguinte distribuição: 15% consideravam a administração “ótima”; 30% “boa” e 24% “regular”; e 16% entendiam ser um governo “péssimo”.

Durante 35 anos a Pesquisa Ibope, contratada pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, permaneceu sigilosa, proibida pelos militares de ser divulgada. A pesquisa atestava também que 59% dos brasileiros apoiavam as “reformas de base”, seu programa de governo.

GOLPE DE 64

Neste ano de 2016, Lula e Dilma Rousseff buscaram traçar paralelo entre a situação atual e a crise que levou ao “Golpe de 64”. É um delírio dos ignorantes da história. A substituição de uma presidente da República pelo impeachment, obedecendo a todo o rito constitucional, é um ato democrático amparado pela Constituição. Acreditar que a ação golpista contra Goulart tinha na “impopularidade” o seu fundamento é de uma falsidade gritante. Ao contrário, o ‘pecado’ de Jango foi exatamente a popularidade de seu governo, determinante para a sua deposição.

Certos de que Juscelino Kubitschek ganharia as eleições do ano seguinte (1965), comandantes militares brasileiros e americanos, dominados pelos interesses dos Estados Unidos, juntaram-se à UDN de Carlos Lacerda e outros e deram o golpe sem nenhuma reação. Ao contrário do que dizia a UDN, o povo não tinha armas. E Jango não quis jogar o país numa guerra civil e entre militares brasileiros.

CELSO FURTADO

A defesa dos interesses nacionais e não a corrupção, em tempos de radicalização da “Guerra Fria”, foi testemunhada e demonstrada por Celso Furtado na obra autobiográfica “A Fantasia Desfeita” (II tomo, página 253), onde relata episódio insólito. Celso era ministro do Planejamento. Tramitava no Congresso Nacional, por iniciativa parlamentar, um projeto de reforma bancária. O ministro da Fazenda San Tiago Dantas recebeu ultimato do banqueiro americano David Rockefeller:

– “Ou vocês tiram de imediato esse projeto de lei ou mando cortar todas as linhas de crédito que hoje beneficiam o Brasil”.

E continua Celso Furtado:

– “San Tiago dava a impressão de estar arrasado. Mas longe de esmorecer, continuava a empenhar-se para criar um clima de compreensão nos círculos de negócios dos Estados Unidos. Se fracassasse na tentativa, as incertezas cresceriam com respeito ao processo político brasileiro.”

E foi o que aconteceu em 1964: tanques na rua e nós na cadeia.

Isso sim é que é golpe.

DILMA PERDIDA

Domingo foi diferente : foi um dia de desfile democrático diante das televisões. Um a um, os 513 deputados foram chamados para darem seus votos, livremente, abertamente, sem coações partidárias. Salvo um ou outro caso de partidos que fecharam questão, a imensa maioria votou como quis, anunciando de viva voz e justificando os votos em pequenos discursos.

Os números finais atestam o flagrante isolamento do governo, que só conseguiu 137 votos enquanto a oposição fez 367. Mais de um terço.

LAVA VOTO

A Operação Lava Jato e o juiz Sergio Moro, além de tudo que a Nação já lhes deve, ficaram credores de mais uma: caiu significativamente o nível de corrupção nas negociações espúrias de compra e venda de votos nos três palácios: Alvorada, Planalto e Royal Tulip.

Deputados que entravam lá imaginando saírem com nomeações, empregos e até “presentes” em dinheiro eram advertidos logo ao chegarem de que ali não se falava em troca-troca, cambalacho, dinheiro fácil. Era preciso ficar de olho na Lava Jato. Se alguém fosse flagrado numa operação de delação premiada seria um escândalo sem conserto.

Imaginem se o santo vigário da Paróquia de Brasília, que ajudava Gim Argello a limpar o dinheiro sujo das propinas, fosse flagrado com R$ 350 milhões de “esmola”? Desde que Jesus Cristo fundou a sua igreja há 2 mil anos jamais se viu uma “esmola” tão generosa.

DESPACHO

A preocupação do PT no final da noite de sábado era “aonde a Dilma vai despachar” nos próximos meses antes de o processo chegar ao final. Isso não é mais problema. Ela já foi “despachada” pela Câmara Federal

O supremo telefone contornou a crise política

Charge do Ivan Cabral, reprodução da Charge Online

Sebastião Nery

No dia 11 de novembro de 1955, internado Café Filho, presidente da República, com problemas cardíacos, o presidente da Câmara, Carlos Luz, que estava exercendo a Presidência da Republica, tentou demitir o general Lott do Ministério da Guerra, para impedir a posse de Juscelino e João Goulart, que haviam ganho as eleições de 3 de outubro.

Mas não conseguiu. A Câmara reuniu-se, derrubou Carlos Luz e pôs Nereu Ramos, presidente do Senado, lá no Catete.

Antonio Balbino, governador da Bahia, amigo de Nereu, veio para o Rio visitá-lo. Nereu acabava de receber uma carta de Café Filho, comunicando-lhe que ia reassumir a Presidência. Mas o General Denis, comandante do I Exército, já havia mandado cercar a casa de Café para ele não sair de lá.

Quando Balbino chegou ao Catete, o general Lima Brayner, chefe da Casa Militar de Nereu e muito amigo de Balbino, pediu-lhe que convencesse Nereu a não devolver o governo a Café. Nereu foi claro:

– Só vou agir dentro da lei. O Café, através de Prado Kelly e Adauto Cardoso, entrou com mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal. Se o STF conceder o mandado, entrego o governo a ele e volto para o Senado.

Lott soube da conversa, chamou Balbino:

– Vá conversar com o presidente do Supremo.

Balbino foi. O velhinho estava em casa, noite alta, já de pijama:

– Ministro, o país está vivendo um momento difícil. Compreenda. A casa do Café Filho está cercada pelo Exercito. O Catete está cercado. Nereu não vai poder passar o governo.

– Mas o mandado de segurança está em pauta para amanhã. Se o Tribunal conceder, o Café vai reassumir.

– Ministro, entenda. Enquanto se fecha o Legislativo, ainda se entende. Mas, e se o Judiciário for fechado? Para onde vamos?

O presidente do Supremo levantou-se, passou para o escritório, pegou um telefone negro, antigo, daqueles de gancho, e começou a ligar para os outros ministros, falando baixinho, cochichando, cochichando.

Da sala, Balbino só ouvia fiapos de conversas. No dia seguinte, o mandado de segurança não entrou em pauta. Café continuou em casa, Nereu no Catete e JK assumiu no dia em que a Constituição mandava.

DÍVIDA PUBLICA

1.- No final de 2015, a dívida bruta do governo brasileiro atingiu 66,2% do PIB (Produto Interno Bruto). Analistas de diferentes instituições financeiras projetaram que, no ritmo atual, ao final de 2018, poderá atingir 85% do PIB. Representaria quase toda a riqueza produzida pelo País para a sua liquidação. O economista Armínio Fraga considera que “o crescimento da dívida pública é galopante e põe em risco o trabalho de décadas”, agravada pela maior recessão econômica da história no período republicano

2.- Anteriormente, no biênio 1930-1931, com a Revolução de 30 e a quebra da Bolsa de Nova York, nosso PIB encolheu por dois anos. Agora a recessão foi de 4% em 2015, projeta 4% para 2016 e 1% para 2017.

Significa três anos de contração da economia brasileira. Se os indicadores econômicos são negativos, os sociais são brutalizadores, de acordo com a pesquisa “Pnad Contínua” do IBGE, que aponta o desemprego alcançando 13,5% em 2017, representando perda de emprego e renda para os trabalhadores.

JUROS À BRASILEIRA

No Brasil, a dívida pública é remunerada na taxa Selic de 14,25% ao ano. Em 2015, significou o pagamento de juros acima de R$ 502 bilhões. No Japão, a taxa de juros é negativa de 0,05%, com títulos de dez anos do Tesouro japonês. A confiabilidade e a certeza de que o governo não vai mudar a política econômica são fator de segurança.

Nos EUA, os títulos da dívida pública são remunerados em 1,7% ao ano. Na Alemanha, a remuneração é de 1%. Na Itália, por volta de 1,5%. Os títulos da dívida pública desses países têm esse perfil de resgate decorrente do nível de confiabilidade nos seus governos. No caso do Japão, ao final de dez anos o investidor receberá valor menor do que o total do seu investimento. Resgatará menos do que aplicou.

O AZEVEDO

Vi na TV o rosto sereno do presidente (ex) da empreiteira mineira Andrade Gutierrez, Octavio Marques de Azevedo, que “propinou” as campanhas da Dilma Rousseff em 2010 e 2014, coagida pelo PT.

Nunca vi o empresário antes. Mas aquele rosto e aquele Azevedo não me enganam. Os Azevedo de Minas eu os conheço há mais de 60 anos. Em 1954, o jovem engenheiro Celso Melo de Azevedo, fundador e presidente da “Construtora Melo de Azevedo”, desafiou as velhas forças políticas de Minas (PSD, PTB, UDN), saiu candidato a prefeito de Belo Horizonte por uma aliança de pequenos partidos (PSB, PDC) com apoio das “esquerdas”, ganhou (eu me elegi vereador) e fez uma administração moderna, exemplar. Ao final do mandato, elegeu-se presidente da “Associação Brasileira dos Municípios”. O comandante de suas campanhas era o jovem jornalista José Aparecido de Oliveira.

O primeiro João Dória

Duas gerações de João Dória reunidas em uma foto (Foto: Arquivo Pessoal)

O deputado João Doria e o filho, que agora se lança na política

Sebastião Nery

João Doria, João Agripino da Costa Doria, baiano de excepcional talento, foi o mais brilhante marqueteiro do pais, do time de Nizan Guanaes, Washington Olivetto, Duda Mendonça.

Empolgado com a candidatura de Juracy Magalhães, governador da Bahia, à presidência da Republica, pela UDN, ficou contra Janio Quadros que, em novembro de 1960, ia disputar a candidatura com Juracy na convenção da UDN. Doria criou um slogan arrasador, como tudo que fazia:   – “A UDN não precisa de vassoura. Juracy é limpo”.

E teve a ideia de mobilizar lideranças políticas do Nordeste: – “Chegou a Vez do Nordeste – Para presidente, Juracy”.

“A Tarde” gostou do projeto e lá fui eu pelo Nordeste para ouvir os governadores. A segunda escala foi Pernambuco. Encontrei o rastro luminoso de Doria, o criador do marketing político brasileiro.

No ano anterior havia comandado a propaganda da renovadora candidatura do industrial Cid Sampaio, da UDN, e concunhado de Miguel Arraes, depois secretario da Fazenda do governo de Cid.

O adversário de Cid era o respeitado professor, ex-deputado e senador Jarbas Maranhão, do PSD. Doria criou nas rádios uma devastadora campanha contra ele. Às seis da manhã, um relógio despertava, o locutor chamava: -“Acorda, Jarbas! Cid já acordou!” Às sete horas, de novo o despertador tocando e o locutor : – “Acorda, Jarbas! Cid já acordou”! E assim à oito, às nove, às dez, às onze. Às doze, afinal : – “Jarbas acordou! Muito bem, Jarbas! Mas agora é tarde. Cid já ganhou”.

Cid me disse que ele e a UDN de Pernambuco iriam votar em Juracy, mas achava muito difícil a UDN resistir à avalanche da aliança de Janio com Carlos Lacerda. Não resistiu.

Em 1962 Doria saiu candidato a deputado federal pela Bahia, eu a deputado estadual. Fizemos a campanha juntos. E ganhamos.

Um dia Salvador amanheceu coberta de cartazes: – “João Doria vem ai”. Um mês depois: “João Doria vai chegar”. Mais um mês e afinal:

-“João Doria chegou”. Foi uma campanha eletrizante.

Agora vejo o filho João Doria candidato a prefeito de São Paulo. Conheço a bravura deles. DNA não falha.

O NOSSO “AI-2”

Na Câmara Federal, dirigente da Frente Parlamentar Nacionalista, logo João Doria se revelou um parlamentar de primeira linha. Forte na tribuna, competente nas negociações, o golpe militar de 64 não o perdoou. Foi cassado logo na primeira lista, entre os 100 do 10 de abril.

E fomos, cada um em seu canto, resistir a seu jeito. A maioria, como eu, entre prisões e aparelhos, perdeu logo todo o ano de 64. E em 65 um grupo baiano foi afinal encontrar-se em um esconderijo em São Paulo.

Não nos conformávamos em a ditadura estar roubando preciosos anos de nossas vidas, sem podermos atuar abertamente.

João Dória, cassado, antes de exilar-se em Paris, onde se bacharelou em Psicologia na Universidade da Sorbonne, e fazer mestrado e doutorado na Inglaterra na Universidade de Sussex, chamou um pequeno grupo para despedir-se, os que ele conhecia da campanha na Bahia: Mario Lima, Helio Duque, Domingos Leonelli, Luiz Gonzaga, eu.

E sugeriu fazermos um “Ato Institucional nº 2”, que seria “assinado” pelo general-presidente Castelo. Ele na maquina, com seu talento e agilidade e nós, em volta, sugerindo coisas, palpitando. De madrugada, estava pronto, multiplicado em dezenas de copias. Cada um saiu com seu pacote, para discretamente levarmos aos Correios e mandarmos a todos os jornais, revistas e TVs.

Lembro o artigo 1º: – “A partir desta data, o Brasil deixa de ser “Estados Unidos do Brasil” e passa a ser “Brasil dos Estados Unidos”.

Eram doze artigos. Cada um mais objetivo e indiscutível. Começaram a pipocar notas pelos jornais e revistas. E lá um dia o Carlos Heitor Cony, com sua bravura, publicou na integra no “Correio da Manhã”. Foi um escândalo nacional. O governo ficou possesso. Cony foi preso. Nunca ninguém descobriu a origem, que revelei pela primeira vez em meu livro “A Nuvem”, em homenagem a Doria e Cony.

REVISTA “DIA 1”

Era começo de 1965. Meses depois, em 27 de outubro de 65, o general-presidente Castelo Branco assinou o Ato Institucional nº 2, com 33 artigos, muito pior do que o nosso : (eleição indireta para a presidência da Republica para liquidar Lacerda pois Juscelino já estava cassado; dissolução de todos os partidos políticos; estupro do Supremo Tribunal aumentando de 11 para 16 o numero de ministros, o que daria absoluta maioria ao governo; reabertura do processo de cassações etc).

O sucesso do nosso “AI-2” nos animou a continuar cutucando o cão com vara curta. O que a maioria daquela baianada acuada em São Paulo, sabia fazer era jornal, revista. Uma revista com poucos nomes legais e a maioria falsos.- “Dia 1”! Em homenagem ao 1º de abril deles.

Quando o governo percebeu que “Dia 1” era para valer, fechou.

A volta dos pelegos e a inflação de centrais sindicais

O sindicalismo brasileiro vive hoje da Contribuição Sindical: um dia de desconto no salário de cada trabalhador. No ano passado arrecadou R$ 3,2 bilhões, retirados do orçamento dos assalariados. recursos repassados aos 10.620 sindicatos e centrais sindicais, sem fiscalização. A Caixa Econômica, responsável pela arrecadação e distribuição,nega-se a mostrar com transparência quanto é destinado às várias entidades. Alega sigilo bancário por eles não serem órgãos públicos.

Já o Ministério do Trabalho não fiscaliza os balanços das organizações sindicais sob a alegação de liberdade sindical. A prosperidade da indústria sindical e a consolidação de autêntica aristocracia de dirigentes sindicais ficam bem definidas e sem nenhum controle publico ou privado.

O brilhante professor Helio Duque, doutor em economia, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, tem um estudo primoroso.

1.- Em todo o mundo existem 140 centrais sindicais. Na Espanha a UGT criada em 1888. Na França a CGT (1895) e a FO. Na Itália, a CGL (1906) e nos Estados Unidos a AFL (1881). Representam toda a classe trabalhadora. No Brasil, no Ministério do Trabalho, no seu cadastro, existem 12 centrais sindicais. Um recorde mundial. Já legalizadas: CUT (Central Única dos Trabalhadores), Força Sindical, CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil), UGT (União Geral dos Trabalhadores),NCTS (Nova Central Sindical dos Trabalhadores), CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil); CBBT (Central do Brasil Democrático dos Trabalhadores) e UST (União Sindical dos Trabalhadores). Ainda não legalizadas: COB (Confederação Operária Brasileira) e CSP (Central Sindical e Popular Conlutas). As outras estão sob análise ministerial. Realidade surrealista que nos remete à existência de duas paralelas: líderes sindicais vivem no paraíso, trabalhadores frequentam o inferno cotidiano.

2.- O economista Gil Castelo Branco, dirigente da ONG Contas Abertas é objetivo: “A simples existência do Imposto Sindical já é uma aberração. Poucos países no mundo têm esse sistema, um atraso”.

PAZIANOTTO

Almir Pazzianotto, ex-ministro do Trabalho, ex-presidente do Tribunal Superior do Trabalho e competente advogado trabalhista, constata:

– “O que faz os sindicalistas tomarem atitudes irresponsáveis, é o imposto sindical e a estabilidade de que eles gozam.Ninguém se sindicaliza. Como o sindicalista tem sua fonte de renda garantida, não se preocupa com o mercado de trabalho. Hoje, no Brasil, poucos são tão privilegiados quanto a elite sindical, que não quer perder seus privilégios”.

O CORONEL CIENTISTA

Em 5 de fevereiro fez 100 anos, lúcido, escrevendo, trabalhando, ensinando, um grande brasileiro: Milton Thiago de Mello, presidente da Academia Brasileira de Medicina Veterinária,há 80 anos militar e cientista.

Começou na Escola de Veterinária do Exército (em 1933). Nos 80 anos seguintes deu importantes contribuições para a ciência e a profissão veterinária no Brasil e no mundo. Passou décadas pesquisando e ensinando no Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz). Tem recebido as devidas homenagens.

É um belo currículo. A Associação Mundial de Veterinária elegeu-o Membro Honorário em 1993 por pesquisas com primatas, coordenando cursos para graduados sobre conservação do meio ambiente e animais silvestres na Amazônia, participando ou organizando congressos nacionais e internacionais sobre ciências veterinárias, animais de laboratório, conservação da vida silvestre, bem-estar animal e segurança alimentar.

E mais: formulou convênios de cooperação sobre ciências veterinárias entre Brasil e China (medicina tradicional chinesa, acupuntura e aquacultura) e com diferentes instituições da França (Escolas de Veterinária de Alfort e Lyon), Alemanha (Escola de Veterinária de Hannover, Instituto Von Ostertag) e Inglaterra (Museu de História Natural).

O Comitê Francês da Associação Mundial de Veterinária deu-lhe a Medalha de Honra, o Comitê Brasileiro da Associação Mundial de Veterinária uma Placa de Honra, o Comitê de Bem-Estar Animal da AMV o título de Membro Honorário, a Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária a Grã Cruz da Ordem do Mérito Veterinário e a Sociedade Mundial de Epidemiologia Veterinária o Prêmio James H. Steele.

Recentemente, a mais alta distinção da Profissão Veterinária, o Prêmio John Gamgee, foi-lhe outorgado durante o 31º Congresso Mundial de Veterinária (em Praga, setembro de 2013). Foi funcionário regional ou consultor para Agências das Nações Unidas (FAO, WHO e PAHO) e na Organização Mundial de Saúde (OMS), por suas pesquisas sobre brucelose humana e animal e membro do Comitê Conjunto FAO/WHO de Peritos em Brucelose, com sede em Genebra, Suiça, durante vários anos (1957/1972).

Tudo isso e muito mais está sem seu livro “O Poste de Cozumel”.

O Coronel Jararaca

Charge do Jorge Braga, reprodução de O Popular

Sebastião Nery

Chico Heráclio foi o mais famoso coronel do Nordeste. Em Limoeiro, Pernambuco, quem mandava era ele. Era o senhor da terra, do fogo e do ar. Ou obedecia ou morria. Fazia eleição como um pastor. Punha o rebanho em frente à casa e ia tangendo, um a um, para o curral cívico. Na mão, o envelope cheinho de chapas. Que ninguém via, ninguém abria, ninguém sabia. Intocado e sagrado como uma virgem medieval.

Depois, o rebanho voltava. Um a um. Para comer. Mesa grande e fartura fartíssima. Era o preço do voto. E a festa da vitória. Um dia, um eleitor foi mais afoito que os outros:

– Coronel, já cumpri meu dever, já fiz o que o senhor mandou. Levei as chapas, pus tudo lá dentro, direitinho. Só queria perguntar uma coisa ao senhor: em quem foi que eu votei?

– Você está louco, meu filho? Nunca mais me pergunte uma asneira dessa. O voto é secreto.

AGAMENON

Chico Heraclio jogou tudo na campanha de Agamenon Magalhães, do PSD, contra João Cleofas, da UDN, na disputa do governo do Estado, em 1950. Deu mais de 70 por cento dos votos da região a Agamenon.

Agamenon tomou posse, ele foi lá. Agamenon estava eufórico:

– Chico, use e abuse do meu governo.

– Governador, muito obrigado. A Secretaria da Fazenda e a Secretaria de Segurança o senhor não dá a ninguém. As outras não valem nada, não quero nada. A não ser pedir pelos meus amigos quando for preciso e para colocar água em Limoeiro.

Pouco depois, voltou ao Palácio para pedir a Agamenon a aposentadoria de um amigo, juiz com poucos anos de função.

– Mas Chico, isso é muito difícil.

– Se fosse fácil eu não vinha lhe pedir. Governo existe é para fazer as coisas difíceis. As fáceis a gente mesmo faz.

Mas entre Heraclio e Lula há uma diferença. Heraclio não dizia palavrão. Lula é um boca-suja. Mulher e menino não podem chegar perto.

O JUIZ

Dia de festa em Limoeiro. O time da cidade ia jogar com o escrete de Garanhuns, disputando o primeiro lugar no campeonato Intermunicipal. Coronel Chico Heráclio chegou todo de branco, sentou-se na cadeira de vime, a partida começou.

Primeiro tempo, segundo tempo, nada. Zero a zero. Não saia gol. Cinco minutos para acabar o jogo, o juiz, que tinha ido do Recife, marcou pênalti contra Limoeiro. A torcida da cidade endoidou, invadiu o campo. O juiz correu para junto do coronel Heráclio com medo de ser linchado. O coronel levantou a bengala, todo mundo parou:

– O que é que houve, seu juiz?

– Um pênalti que eu marquei, coronel.

– O que é esse negócio de pênalti?

– É quando o jogador comete uma falta dentro de sua área. Aí, a bola fica ali naquela marca, em frente à trave e um jogador adversário chuta. Só ele e o goleiro.

– E faz o gol, seu juiz?

– Geralmente faz, coronel, é difícil goleiro pegar pênalti.

– Muito bem, seu juiz. Sua explicação é muito boa, E eu não vou tirar sua autoridade. Já que houve o tal do pênalti, faça como a regra do futebol manda. Só que o senhor, em vez de botar a bola em frente da trave de Limoeiro, faça o favor de botar do outro lado e mandar um jogador daqui da cidade chutar.

– Mas, coronel, isto é contra a lei.

– Pois já ficou a favor. Aqui em Limoeiro a lei sou eu.

Limoeiro ganhou.

LULA

Como Lula mesmo falou, o Brasil está criando uma jararaca. Um Coronel Jararaca. Ele não fala, morde. Ele não diz, xinga. Ele não disputa, rouba o jogo. Não quer aliados, correligionários. Quer vassalos, escravos. Não quer um partido. Quer uma gangue para roubar, roubar, roubar.

A filosofia dele é a dos facínoras. Para ele e para eles, “vale tudo”.

DILMA

Até a Dilma, que parecia de caráter diferente, aderiu logo ao bando. Já na campanha eleitoral dizia que “para ganhar vale tudo”.

Agora, conta a “Folha de S. Paulo”:

– “O ministro da Educação, Aloizio Mercadante (logo ele, da Educação) falou em alternativas para tirar o senador Delcídio da prisão, dizendo que “em política tudo pode”.

É a lição, a sórdida lição do PT, de Lula e do governo Dilma.

Lula é o “jarareco” desastrado

Charge reproduzida de umsabadoespecial.com

Sebastião Nery

O Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, estava agitado naquela noite, em 1984. O governador Franco Montoro tinha convocado os governadores do PMDB e Leonel Brizola, do PDT, para jantar. Com a derrota das eleições diretas na Câmara, ia ser lançada a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, pelo Colégio Eleitoral. Montoro tinha dado ordens expressas à portaria: só entravam os convidados: governadores, senadores, deputados federais e estaduais e os jornalistas credenciados.

De repente surgiu uma confusão lá fora. Um homem baixinho chegou sem convite e foi barrado. O major-chefe da guarda não o deixou entrar. Ele disse que era governador, o major não acreditou. O baixinho reclamou aos gritos. Lá da varanda, vi, reconheci o visitante e avisei ao governador Franco Montoro, que saiu rápido.

O major grandalhão estava barrando com o braço o pequenino governador do Acre, depois senador Nabor Júnior, um metro e meio de altura. Montoro chegou aflito e irado:

– Major, pode ir embora! Está afastado do Palácio! Não tem condições de exercer essa função. Não conhece o governador Nabor Júnior, do Acre?

O major coitado quase chorou, abaixou a cabeça e foi saindo:

– Ai meu Deus! Desde a escola primária que esse Acre me persegue. Eu nunca acertava a capital. Como é que eu ia acertar agora o governador?

Nabor já estava lá dentro. E nós, alguns deputados e jornalistas, às gargalhadas, pedimos a Montoro para perdoar o pobre major. Foi perdoado.

LULA

Lula é o major do palácio Bandeirantes. Um desastrado. Só se mete na hora errada. E diz besteiras sem parar. Preocupado em manter-se como líder maior do PT, quando abre a boca é para escancarar o baixo nível político de sua esperteza. E o pais lhe dando novos, criativos e perfeitos apelidos, como agora o de “Jarareco”: mistura de “jararaca com pixuleco”.

MILTON REIS

Conheci Milton Reis nos anos 50. Vizinhos de andar no Hotel Financial, em plena Avenida Afonso Pena, no coração de Belo Horizonte. Educadíssimo, de simpatia cativante e boas posições políticas, ele trabalhava para o banqueiro Antônio Luciano, dono do hotel e do Banco Financial e dava seus primeiros passos na vida pública, onde exerceria sucessivos mandatos de deputado estadual e federal pelo PTB mineiro.

Milton era homem de confiança de João Goulart em Minas, amigo próximo de Juscelino Kubitschek e aliado fiel de Tancredo Neves. Foi fidelíssimo à candidatura do marechal Lott à presidência em 1960, mesmo sabendo do naufrágio que se anunciava diante do furacão janista.

Dispensou a presença do pesado candidato da coligação PSD-PTB e percorreu sua região de influência, o rico e histórico sul de Minas, levando a suave e carismática Edna Lott, a filha, que encantava com sua palavra fácil e seu charme, e que iria ter morte trágica, anos depois, na estância climática de Lambari, assassinada por um ex-namorado.

Em 1964 Milton Reis escapou do Ato Institucional nº 1 por conta da má informação dos milicos. Passou por puro descuido, após ter sido um escudeiro fiel do governo de Jango. Reelegeu-se deputado federal pelo MDB mineiro em 1066, ao lado de outros grandes nomes como Tancredo Neves, Simão da Cunha, José Maria Magalhães, Renato Azeredo, João Herculino, Celso Passos e Nísia Carone. Fez dura oposição ao regime militar e, como vice-líder do líder Mário Covas, encaminhou a votação em que a Câmara dos Deputados negou licença para processar Márcio Moreira Alves. No AI-5, em dezembro de 1968, apenas o discreto Renato Azeredo e Tancredo Neves (irmão de general…) escaparam da fúria que dizimou a admirável bancada do MDB de Minas.

POETA E POLÍTICO

Cassado, Milton Reis foi cuidar da vida. Publicou livros de poesia (um deles, “Vozes da Minha Fonte”, prefaciado pelo mestre Agripino Grieco, foi saudado pela crítica como de altíssimo nível), abriu uma financeira e ficou rico. Mas não transigiu, não se acumpliciou, não aderiu aos golpistas de 64. Manteve-se retilíneo e fiel às suas profundas convicções democráticas. Até que em 1982, fazendo a campanha de Tancredo ao governo mineiro, recuperou o mandato que a ditadura lhe havia roubado. Foi meu colega na Câmara, dos melhores e mais atuantes.

Milton era um animal político. Amigo de Tancredo, apoiou Aécio para a Presidência e fez um concorrido jantar em sua casa para o ex-deputado Pimenta da Veiga, candidato tucano ao Palácio da Liberdade. Perguntado pelas possibilidades de Pimenta, foi mineiramente sibilino:

– “Venha, te espero. Não é um jantar de homenagem, é de solidariedade. O Pimenta é boa gente e vai ganhar muita experiência”.

Morreu em Minas meu querido colega, dileto amigo Milton Reis.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Também fui amigo de Milton Reis, que era uma figura notável, tinha uma casa em Copacabana, no Posto Dois, onde deu uma grandiosa festa para Tancredo Neves, quando ele foi eleito presidente. Era educadíssimo, sempre de bom humor, virou um cidadão do mundo, mas tinha paixão por Pouso Alegre, no Sul de Minas, que era sua base eleitoral. Foi o principal responsável pelo desenvolvimento socioeconômico daquela região. É mais um personagem da boa política que se vai, deixando muitos amigos e admiradores. (C.N.)

A bala de ouro atingiu Santana, o Tio Patinhas

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Reprodução da revista Época

Sebastião Nery

Era uma vez dois amigos, Patinhas e Gereba. Lá em Tucano, no sertão da Bahia. Colegas de escola, inteligentes, talentosos, brilhantes, faziam música juntos. Patinhas escrevia, compunha e cantava, Gereba tocava instrumentos, compunha e cantava.

Em 1973, fizeram um disco juntos: “Bendengó”, um LP com 12 faixas. Era uma homenagem ao meteorito “Bendengó” que caiu na cidade no final do século 19, grande e belo, e que está até hoje no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Música de maior sucesso: “A Bala de Ouro”.

Um dia vieram juntos para Salvador e a vida os separou: Gereba continuou fazendo sua música, cada dia melhor, e Patinhas foi ser jornalista, também cada dia mais experiente e escrevendo melhor. Descobriu o mestre Duda Mendonça e o marketing político. Era a “A Bala de Ouro”, o caminho de ganhar dinheiro, muito dinheiro, formulando, escrevendo, criando a magia política: 50% de talento, 50% de mentira.

DUDA MENDONÇA

Duda Mendonça, catedrático do marketing, explodiu na campanha presidencial de Lula em 2002, quando o PT lhe pagou os serviços com 5 milhões de dólares do Mensalão em Caixa 2, nos Estados Unidos. Na reeleição de 2006 já era o auxiliar Patinhas quem comandava o espetáculo.

Patinhas já estava de nome novo: João Santana, herdeiro político e profissional do talento de várias gerações de Santanas na Bahia. Saiu de Lula, colou em Dilma. E nela encontrou terreno fértil para aplicar dissimulação, audácia e mentira. Na cabeça disfarçada de fingida inocência, plantou violência nunca vista na política brasileira:

1 – “Eleição é para ganhar, custe o que custar”.

2 – “A política é a sublimação e o exercício da violência”.

3 – “Os candidatos são às vezes mais frágeis do que o eleitor”.

4 – “Ninguém gosta de levar bordoada. Ou reage ou se quebranta”.

Do Mensalão, Santana pulou para o Petrolão. Em 2010 e 2014, transformou-se no Rasputin, no grande conselheiro da Presidente.

SANTANA

João Santana é uma das raríssimas pessoas que têm intimidade com a Presidente e ela ouve sem gritar. Pede conselhos:

– “Vou com roupa de que cor”?

Ele não gostou do primeiro programa presidencial de 2014 na TV:

– “Tive que ser duro com ela”.

Na última campanha a empresa de Santana recebeu R$ 88,9 milhões.

Uma bala de prata derrubou Duda Mendonça. Uma de ouro derrubou João Santana. Gula demais levou João Santana, o Patinhas, para a cadeia.

LULA E O ESCÂNDALO

Lá no Nordeste o povo avisa: – “Sabedoria quando é demais vira bicho e come o dono”. É espantoso o espetáculo promovido pelo ex-presidente Lula no escândalo da Petrobrás. A cada semana a Operação Lava-Jato apresenta novos fatos, novas provas contra Lula. Nem os mais crédulos aliados já não toleram o mistério que leva Lula a negar-se a dar uma versão, qualquer que ela seja, sobre o Triplex do Guarujá, o sitio de Atibaia, as contas secretas do Instituto Lula, as palestras milionárias que ninguém soube, no contubérnio libertino com as grandes empreiteiras.

Se é tudo natural, tudo correto, por que ele não diz, não explica? Vem sempre com uma conversa atravessada, despistada, de “cerca lourenço”, de quem não tem explicação. Se a solução é a fórmula Dilma, de inventar uma historia, mentir, mentir sempre, permanentemente, que ao menos lance mão dela. Mas esnobar a opinião pública, fazer de conta que ela não existe, convocar os tolos para a rua sem saberem do que se trata é maldade, é explorar até o fim a ignorância popular. Um dia vão pagar.

LEMBRANDO TANCREDO

Três horas da manhã, toca o telefone em casa de Tancredo Neves. Era o ex-ministro Gustavo Capanema, de Brasília:

– Olhe, Tancredo, estou acordando você porque estou com um problema e não consigo dormir. Talvez você tenha uma ideia mais clara. Fui chamado hoje à tarde ao Planalto e durante três horas discuti o projeto do Voto Distrital com o ministro Leitão de Abreu. Ele estava muito interessado nos meus estudos e acha que o Distrital pode ser um bom instrumento para aperfeiçoar a representação política no Congresso.

– Embora eu seja contra, reconheço que o assunto é importante e precisa ser discutido. Só não entendo é por que você não consegue dormir.

– Pois é, Tancredo. Não consigo dormir. O ministro me deu pressa.

– Ah, deu pressa, deu? Então deve haver mais coisa.

– Você também acha, Tancredo? Ótimo. Agora, vou dormir.

O desastre deste governo é que nem projeto tem. Nem se pode dormir.

A vingança da floresta caiu sobre Santana e Lula

Charge do Ique (www.ique.com.br )

Sebastião Nery

Gilberto Amado, deputado federal de Sergipe de 1915 a 1917 e de 1921 a 1926, senador de 1927 a 1930 , em 1934 queria ser governador. Já escritor famoso, honra e glória de sua gente, decidiu governá-la. A eleição era indireta, pela Assembleia, comandada pelo Catete.Foi a Getúlio:

– Presidente, quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto?

– Porque quero. É a hora.

– Mas, Gilberto, você um homem tão grande, ser governador de um Estado tão pequeno?

– Quero dirigir minha tribo. Isto é fundamental para minha vida.

– Ora, Gilberto, conheço você muito bem. Esta não é a verdadeira razão. Não pode ser. Governar por governar, isso não existe para um homem de seu tamanho, da sua grandeza.

Gilberto Amado sentiu que era preciso apelar. Apelou:

– Pois o senhor quer que eu diga mesmo? Quero ser governador para roubar, roubar, roubar, do primeiro ao último dia. Roubar desesperadamente.

Getúlio ficou perplexo, deu uma gargalhada. Gilberto já estava de pé, andando de um lado para o outro, as mãos para o alto, os olhos incendiados:

– Isto mesmo, Presidente. Roubar, roubar, roubar!

Gilberto Amado não ganhou Sergipe. Mas Getúlio ficou tão encantado que o nomeou embaixador no Chile e Roma até 1942, depois representante permanente do Brasil na ONU. Tudo que ele queria.

MARINA

Quem conhece a Amazônia sabe que os deuses da floresta são implacáveis. Não se pisa em pescoço de preso. Mas o que o marqueteiro do PT, João Santana, e a Dilma fizeram nas eleições com a índia Marina Silva e o governador Eduardo Campos para “desconstruí-los” (no Houaiss, “destruí-los”) é quase o que o “Estado Islâmico” faz. É a maldade babante.

O olho de peixe do Santana e o chiclete da Monica são um retrato do cinismo levado ao extremo. Ele diz que não sabe quem depositou 7,5 milhões de dólares em sua conta. Ela, que cuida das contas, também não.

O que Lula, Dilma, Santana, Monica, sabem? Alô, Gilberto Amado!

LULA

Quando Lula teve sua bela vitória em 2002, o país o elegeu vendo no PT uma estrela de novos tempos, uma mensagem de ética na vida publica. Mas minha mãe adivinhou. Ela passeava com meu filho ao lado da Igreja de nossa querida cidade de Jaguaquara, na Bahia, e ele pintou o nome de Lula no longo muro branco. Depois ele pediu:

– Minha avó, vou fazer uma foto sua com o Lula.

No infinito de sua sabedoria, ela respondeu.

– Meu filho, estou com o nome, mas não estou com o homem.

Como na ironia de Gilberto Amado, esta é a dolorosa decepção que o Brasil tem hoje: o PT, que parecia ter vindo para salvar, veio para roubar.

SUPREMO

1- O jurista e professor Ives Gandra Martins publicou na “Folha de São Paulo” um artigo arrasador : “O Supremo Constituinte”. Denunciou : -“Subordinar a Casa do Povo (a Câmara) à Casa do Poder (o Senado) tornando-a uma Casa Legislativa de menor importância, como fez o Supremo Tribunal, é subverter por inteiro o Estado democrático de Direito, onde a Câmara, que tem 100% da representação popular, resta sujeita ao Senado, em que os eleitores escolhem um ou dois nomes pré-estabelecidos e que, indiscutivelmente, traz a marca de origem de ter sido a instituição que garantiu a escravidão americana por 80 nos”.

2- Absurdamente, a Câmara dos Deputados teve as suas prerrogativas constitucionais limitadas pelo ministro Luis Roberto Barroso, o “Barrosinho”, do STF. O Regimento interno, aprovado em 1989, foi adulterado pelo inacreditável parecer. E apoiado por 8 ministros enterrando o parecer jurídico do ministro Edson Fachin sobre o rito do impeachment.

3- Com indiscutível vocação pública, o advogado e constituinte Oswaldo Macedo alerta para o fato de o STF ignorar o artigo 86 da Constituição: “Admitida a acusação contra o Presidente da República, por dois terços da Câmara dos Deputados, será ele submetido a julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, nas infrações penais comuns, ou perante o Senado Federal, nos crimes de responsabilidade”. O ministro Barroso, a um só tempo, ignorou a Constituição e o Regimento interno da Câmara dos Deputados, decretando que o rito do impeachment na escolha dos integrantes da Comissão Especial, ao invés do voto secreto dos parlamentares, deve ser indicação dos líderes partidários.

4- O barrento ministro delegou ao Senado a palavra final sobre o rito do impeachment, transformando a Câmara em órgão subsidiário do Senado, hierarquizando a Câmara em função subalterna, como no “pacote de Abril” de 1977, no governo Geisel, que criou os “senadores biônicos”.

Vai custar demais ao país a nomeação de cada ministro do STF.

Moro acertou no queixo de Santana, o Tio Patinhas

O ditado diz que dinheiro tem coração de coelho e patas de lebre

Sebastião Nery

O marqueteiro do PT e de Dilma Rousseff, João Santana, com seus fluidos olhos de peixe, que vende faturas políticas a partir da sinistra e amoral teoria de que “em eleição vale tudo”, imaginou que iria intimidar e atropelar o tranquilo e bravo juiz Sergio Moro, como já fez com frágeis candidatos em outras campanhas. Recebeu de Moro a sutil resposta:

– “Foram instauradas investigações que ainda tramitam em sigilo. Medida como rastreamento financeiro demanda para sua eficácia sigilo sob risco de dissipação dos registros ou dos ativos. Como diz o ditado, dinheiro tem coração de coelho e patas de lebre”…

Agora, Moro acertou no queixo do marqueteiro. Na Bahia o nome de João Santana é “Tio Patinhas”

O MUSEU DO HOMEM

A Turquia não é um país. É um mapa. É o único país do mundo que já teve 12 capitais: Troia, Hattusa, Xanthos, Sardes, Pergamo, Amaseia, Bizâncio, Constantinopla, Bursa, Edirne, Istambul e Ancara hoje. De belos e estranhos nomes, viveram desde o começo dos tempos naqueles 780 mil km2, com hoje 65 milhões de habitantes. São uma enciclopédia da humanidade, herança de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Ali há marcas do homem 100 mil anos antes de Cristo. .

A Turquia é “o maior museu a céu aberto do mundo”. Cada cidade um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações. Toda a história antiga girou em torno de brutais batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, nos estreitos de Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bosforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. Toda ela é patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Ali a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou marcas e garras, a Mesopotâmia virou Europa, o Cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio e viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Ali a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria. Ali nasceram Homero o poeta, São Paulo o jornalista, Teles de Mileto, Pitágoras, Anaxímenes, Anaximandro, Ali ensinaram Platão e Apelikon. Ali Hipódromos criou o urbanismo. Ali se fez a primeira Escola de Escultura. Ali Cleópatra e Marco Antonio se amaram.

Quando Noé ancorou sua arca foi ali, no monte Ararat (5.165 metros). O Tigre e o Eufrates são dali. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso estão (estavam) ali. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram para lá e lá morreram. São Pedro falou ali, pela primeira vez, a palavra cristão. A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, ali. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, pelos da barba, dente e pegadas de Maomé estão ali. Ali houve uma biblioteca de 200 mil volumes, antes de Cristo, a mais importante do Império Romano.

O terrorismo sangra a Turquia porque ela é o rosto da humanidade.

PRÊMIO NOBEL

Com imenso atraso, mas ainda em tempo, academias e acadêmicos, poetas e escritores brasileiros e gentes d’além mar lançam o nome da suave e brilhante Lygia Fagundes Telles para o Prêmio Nobel de Literatura.

Não sei se a gélida Fundação Nobel vai perceber que já premiou gente talentosa mas com menos talento que a genial escritora paulista, que há décadas faz literatura de qualidade incomparável. Lygia nos presenteou com obras monumentais: “Ciranda de Pedra” (1954), “Antes do Baile Verde” (1969), “As Horas Nuas” (1989) e outras já consagradas entre o que há de melhor na literatura em língua portuguesa. Quando entrou na Academia Brasileira de Letras, Lygia já era imortal ha muito tempo.

Conheci Lygia nos anos 50, então casada com outro monumento da cultura nacional, o jurista Goffredo da Silva Teles. Impossível saber o que é mais belo, se a literatura que ela produz ou ela mesma. Passado meio século, Lygia envelheceu linda, nobre, bela, simples, vitoriosa.

Seria uma boa oportunidade de os frios suecos quitarem uma dívida com o Brasil. Eles já nos calotearam em casos históricos: em cientistas como César Lattes e Miguel Nicolelis, escritores como Jorge Amado e Guimarães Rosa, nosso monumental Carlos Drummond de Andrade, e os Nobel da Paz merecidos e jamais concedidos aos irmãos Villas-Boas, os maiores sertanistas de todos os tempos; o marechal Cândido Rondon, um arauto da paz; o inesquecível Dom Hélder Câmara (com veto da ditadura militar através do Itamaraty, agora revelado em documentos históricos e vergonhosos); nossa santa Irmã Dulce da Bahia; o incomparável humanista Paiva Netto, líder da aguerrida LBV, distribuindo fraternidade e salvando milhões de brasileiros longe dos holofotes da mídia e dos cofres públicos; os educadores Paulo Freire e Anísio Teixeira e o professor Josué de Castro, brasileiros celebrados nos cinco continentes.

Que o Senhor do Bonfim impeça a Lygia de entrar para essa absurda galeria de injustiças.

Surge nos Estados Unidos um velho Kennedy?

Sanders é uma espécie de Kennedy de cabelos brancos

Sebastião Nery

Éramos como três adolescentes em férias, terminado o longo Congresso Internacional de Municípios em San Diego, na Califórnia, em 1960, que durou mais de duas semanas: o deputado baiano Valter Lomanto, o simpático e mais velho secretário de Saúde de Recife, João Ferreira Filho. Alugamos um carro e saímos por aí, até São Francisco.

Eu tinha ficado amigo do presidente do Conselho Municipal de Los Angeles, jornalista como eu, que me convidou para ser hóspede de sua cidade por uma semana e ver o que só conhecia do cinema de Hollywood.

Vavá e Ferreira também toparam a viagem toda na hora. E ainda fiz um charme. Convidei minha bela amiga Mara, já mais do que amiga, jornalista da Guatemala, cara, cabelos e grandes olhos aveludados de índia, como um desenho de Paul Gauguin, que ia voltar exatamente para lá, onde estava a representação do seu jornal e revista da Guatemala e ela morava.

O Impala Rabo de Peixe, amarelinho, capota conversível, alugado pelos três, dava perfeito para os quatro: Vavá e Ferreira dirigindo na frente, eu e a Mara namorando atrás. Rodamos a Califórnia por um mês, das praias geladas do Pacífico até a Serra Nevada, as divinas pontes de São Francisco.

Em Los Angeles liguei para meu anfitrião. Ele estava eufórico:

– Jornalista precisa mesmo ter estrela. Hoje à tarde vamos encontrar o futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy. Daqui a pouco estarei aí para pegá-los para o almoço e depois levá-los ao grande comício.

Exatamente naquele dia Kennedy abria sua campanha na Califórnia. Almoçamos com vinhos da Califórnia (“Sebastien” e “Augustus”) e quando chegamos ao hotel onde seria o comício ,pequena multidão já enchia as ruas próximas desde cedo. Na frente do hotel, um palanque e, tocando guitarra e pulando, um rapaz muito branco, pálido, cabelos bem pretos até a testa, arrebatava os ouvintes com seu rock meio alucinado: era Elvis Presley.

No fim da tarde, jovem, alto, flor no paletó, Kennedy subiu correndo a escada para o palco. Só quase madrugada o prefeito de Los Angeles nos apresentou para umas poucas palavras. Mas deu para ver e sentir bem, no discurso e naqueles poucos minutos, que havia “uma força estranha no ar”.

No hotel, escrevi que ele ia ganhar. Derrotou Nixon por 1%.

SAMUEL

Uma semana em Los Angeles, conversando com jornalistas e políticos, a maioria evidentemente suspeita porque do Partido Democrata, deu para sair de lá convencido de que havia alguma coisa errada na imprensa americana e também na brasileira, que já davam Nixon, vice de Eisenhower, como eleito. A Mara morava e trabalhava lá há muito tempo e tinha um grande circulo de amigos jornalistas europeus, latino-americanos e da América Central. A maioria achava que Nixon ganharia.

Em São Francisco, vimos outro comício de Kennedy. A mesma competência de comunicação, o sorriso aberto, as frases curtas e fortes e como sempre a promessa de que era preciso mudar. A cada dia a convicção aumentava. Nixon era o candidato oficial, mas quem falava ao povo era Kennedy. E a imprensa, a americana e a nossa, insistindo em Nixon.

Anos depois, o saudoso Samuel Wainer me disse em São Paulo:

-Você escreveu aquilo como em um cassino de Las Vegas. Arriscou e acertou. Naquela hora sua certeza não se justificava. O José Guilherme (Mendes, mineiro correspondente da “Última Hora” nos Estados Unidos), me disse que você ficou envolvido pelo rock de Elvis Presley.

Mas, com Elvis ou sem Elvis, quem ganhou foi Kennedy.

SANDERS

Fiquem de olho nesse Bernie Sanders. Não tem o charme e a força de Kennedy. Mas fala para os jovens, os negros, os imigrantes marginalizados, os explorados pelos banqueiros, o que o povo americano quer ouvir. Se a Hillary continuar insistindo nas mesmas velhas teses que a derrotaram para Obama, poderão ter um novo Kennedy, e socialdemocrata, de 74 anos.

AEDES CORRUPTUS

O “rombo do caixa” da Petrobrás foi ainda 10 vezes maior do que o “roubo do caixa” investigado pela Operação Lava Jato. A causa determinante da crise que vive a estatal, envolvendo grandes empresas, diretores delinquentes, funcionários graduados e políticos corruptos não é apenas a petro-roubalheira que representa R$ 6 bilhões. Há mais R$ 44 bilhões de projetos superfaturados, desviados pelo cartel das empreiteiras e outros fornecedores que ”roubaram” a Petrobrás por uma década.

A situação dramática em que está atolada veio a partir de 2003, com o aparelhamento partidário da diretoria e do Conselho de Administração presidido 7 anos por Dilma. Lula protege Dilma, Dilma defende Lula. O rombo do caixa” é o principal responsável pelo endividamento que hoje representa R$ 520 bilhões, sendo a empresa mais endividada do mundo.

Pior do que o “Aedes Aegipti” é o “Aedes Corruptus”. Para livrar-nos do “aedes corruptus”, vamos ter que tolerar o PT mais de dois anos. Dose!

O porre de Gallotti e a compra da Light

Gallotti corrompeu o governo Geisel em 79

Sebastião Nery

Era meia noite de um fim de semana de 1979. O restaurante Antonio’s, varanda lírica da República do Leblon, no Rio de Janeiro, começava seu fim de noite. Nas mesas, os profissionais da madrugada penduravam esperanças e desencantos nas beiras dos copos.

Um conversar silencioso e humilde, como do feitio dos calejados. Cada grupo em sua mesa, como monges de uma missa noturna. De repente, o tufão. A porta se abre forte e aparece, cabelos brancos displicentemente penteados, rosto queimado de sol, terno azul sem gravata, Antonio Gallotti. Foi como se Napoleão entrasse em um bistrô de Paris, mal chegando da conquista do Egito. O restaurante explodiu numa salva de palmas, calorosa, continuada, visivelmente sarcástica. Alguém gritou:

– Apaguem-se as luzes! Não precisa mais! A luz chegou!

Tarso de Castro comandou:

– Ótimo. Todas as contas pagas!

Paulo Casé, desconsolado:

– Que pena! Eu tinha acabado de pagar a conta.

Gallotti faz um gesto amplo com a mão direita, cumprimenta-nos a todos e senta-se à mesa de Miguel Lins, Mauro Salles e Otto Lara Rezende. Estava visivelmente excitado, como quem tivesse ganho na Loteria.

Tirei um pequeno bloco do bolso, a caneta, e, discretamente, atrás da garrafa de vinho, fui anotando tudo que ouvia. Otto Lara e Mauro Salles falavam baixo. Miguel Lins, sorvendo seu charuto, celestialmente, quase em transe, mal falava. Só Gallotti, com sua voz anasalada, seu sotaque de tenor italiano,“allegro, allegríssimo”, falava. Alguém pergunta:

– Como é que foi?

– No dia 12 de julho, mergulhei. Quando voltei à tona, o negócio estava garantido. Aí, viajei. Não fui morto pelos acionistas de lá porque fugi. Cheguei aqui, todo mundo contra mim.

Alguém interrompe:

– Volta, Gallotti!

– Não ganhei nada na transação. Não ganhei zero da Light. Tive só 39 da Brascan (Imaginei 39 milhões de dólares – SN).Gosto de ganhar dinheiro. Quero ganhar dinheiro. Mas, sobretudo, quero morar na glória dos amigos. Às vezes, fico pensando e na minha insensatez me digo: “Que besteira que eu fiz! Melhor, só para os acionistas da Light.”

E dá uma gargalhada nervosa, estrepitosa, delirante, quase histérica.

(E foi assim que o Brasil “comprou” de novo a Light já nossa).

O CHÔRO

Galotti pára, cala, baixa os olhos, como se estivesse triste. Alguém levanta um brinde “à vitória do negócio”. E ele atrás dos óculos de aro preto:

– Agora, vou dizer uma coisa a vocês. A vitória não foi só minha. Tive companheiros dedicados, tive juristas, tive muita gente importante a meu lado. Mas que foi bonito, foi. Foi ou não foi bonito? Foi maravilhoso! Eu estou emocionado! Eu estou chorando! Tô chorando! Me dá um lenço que eu vou chorar! Me dá teu lenço, Mauro, para eu enxugar minhas lágrimas! Eu chorei! Como no samba, eu chorei!

E as lágrimas lhe rolaram rosto abaixo, indisfarçadas. A mesa ficou tensa, calada. Gallotti, quase soluçando, tenta consertar a emoção.

Rubem Braga levanta-se, dá um abraço em Otto e lhe diz ao ouvido:

– O Sebastião Nery está anotando tudo ai atrás.

Otto olha para trás, me vê, passa as mãos pela cabeça branca, e suspira. Miguel Lins sente alguma coisa no ar, diz a Gallotti:

– Fale baixo, estão ouvindo sua conversa.

Chico Buarque levanta-se, vai saindo, Miguel Lins chama-o:

– Antonio, você conhece o Chico?

– Muito prazer, meu filho. Você ainda é muito mais charmoso pessoalmente do que nas fotos.

Chico sorri seu sorriso discreto, Gallotti insiste:

– Você sabe quem eu sou?

– Sei sim. O senhor não é o homem da história mal contada?

E sai. A mesa fica gelada. Rubem Braga vai saindo também, seu passo manso, o olhar sábio de caçador de instantes.

– Rubem, um abraço.

– Um abraço. Saibam vocês que, haja o que houver, estou neutro.

E sai. Uma mesa começa a cantar com a música do Flamengo:

– “Gallotti, Gallotti, tua glória é lucrar!/ Gallotti, Gallotti, campeão de faturar!”

Ele fala com Norma Benguel. Ela ironiza:

– O senhor é português? Tem um sotaque multinacional.

Ele volta para meu lado:

– Nery, você sabe quem eu sou?

– Claro, doutor Galotti.O senhor é a luz que ilumina o triste fim do governo Geisel.

– Não é nada disso, Nery. Leio você todos os dias, na Tribuna, conheço seus livros, vejo você todos os dias na TV Bandeirantes. Não sei se gosto mais de seu estilo, de seu talento ou de seu patriotismo. Mas confesso que às vezes me assusto com sua maledicência.

(Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata Galotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).