O Lava-Bife lulôôooo!!!

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Com o fim da ditadura Vargas, Washington Luiz volta do exílio

Sebastião Nery

Com o fim da ditadura de Vargas em 1945, o ex-Presidente Washington Luiz voltou do longo exílio. Veio de navio, foi recebido na Praça Mauá por uma multidão emocionada. Saudou-o o general Euclides de Figueiredo, da Revolução Constitucionalista de São Paulo, pai do escritor Guilherme de Figueiredo e do general João Baptista de Figueiredo.

Depois do discurso, Washington Luiz entrou em um carro aberto e saiu desfilando pela Avenida Rio Branco, lotada de gente. A seu lado, o general Alcio Souto, Chefe da Casa Militar do então Presidente Dutra.

Na esquina da Presidente Vargas, o jovem líder estudantil e jornalista baiano Nilson de Oliva César, o “Pixoxó”, do “Diário Trabalhista”, totalmente de porre, pulou no carro de Washington Luiz e começou a gritar:

– Viva! Vivôôô!!! Viva!!! Vivôôô!!!

O velhinho ex-presidente, a barba toda branca e o terno preto, sorria manso e passava a mão na cabeça de Nilson. De repente, outras pessoas começaram a subir também no carro aberto. E Nilson gritando:

– Vivaaa!!! Vivôôôô!!! Vivôôoo!!!

Na esquina de Almirante Barroso, o carro não resistiu ao peso e parou. O general Alcio Souto mandou os caronas todos saírem:

– Desce todo mundo, exceto o neto.

O falso ‘neto’ era Nilson, de porre, gritando Vivôôôô!

FRIBOI

Como no brinquedo “Chicotinho Queimado”, está esquentando o escândalo do BNDES com a “Friboi”. Quem levantou a lebre foi o Tribunal de Contas, que pediu ao BNDES informações sobre o empréstimo de 7 bilhões e meio à “Friboi”. O BNDES, atrevidamente, respondeu que nada tinha a responder porque o “sigilo bancário” o obrigava ao segredo.

O BNDES, como o Banco do Brasil, a Caixa, o Banco do Nordeste, são públicos, submetidos à fiscalização do Tribunal de Contas, Polícia Federal, Procuradoria da Republica, Controladoria da União. Convocado, o ministro Fux, do Supremo, determinou que o BNDES entregasse tudo.

Essa história da Friboi com o BNDES é uma Lulada, uma Frilula, uma Frilulinha. Está apenas começando. Vem aí uma CPI, uma Lava-Bife.

MARSHALL

Leio um texto como sempre brilhante e lúcido do economista e professor Helio Duque, baiano-paranaense, três vezes deputado federal, sobre o ultimo relatório da Petrobrás, que começa a sair do abismo do PT.

O Plano Marshall, programa implantado na Europa depois da II Guerra Mundial, de 1945 até 1951, sob o comando do general americano George Marshall, para salvar a Europa estraçalhada pelos bombardeios, teve o custo de 13 bilhões de dólares. Atualizando aqueles valores para os dias atuais, equivaleria a 110 bilhões de dólares, dois terços investidos na reconstrução da infraestrutura da Alemanha Ocidental, ancorados em reforma monetária estabilizadora, executada pelo notável economista Ludwig Erhard, ministro da Economia e criador da economia de mercado social, foi base fundamental para o reerguimento da Alemanha, até hoje.

PETROBRÁS

  1. – No balanço, a Petrobrás registrou dívida líquida de 332 bilhões de reais. Em dólares, equivale ao montante dos recursos aplicados pelo Plano Marshall na reconstrução europeia. No “Relatório da Administração e Demonstrações Contábeis Auditadas” de 2014, os números são impressionantes. Os ativos imobilizados têm valor de 580 bilhões de reais.
  2. – Os financiamentos para amortização do endividamento têm escala variável de 1 a 5 anos, sendo aproximadamente 80% em dólar. Os investimentos temerários são citados, dentre outros o das refinarias Premium I (no Maranhão) e Premium II (no Ceará), projetos desativados por serem inviáveis, representando prejuízo de 2.825 bilhões.
  3. – No Japão, a refinaria de Okinawa, comprada na gestão Gabrielli, com capacidade para processar 100 mil barris/dia, vai ter suas atividades encerradas por inviabilidade econômica. A refinaria de Passadena no Texas, não merece considerações. Outros investimentos desastrosos são mencionados, destacadamente as investigações na operação da lava jato.
  4. – O relatório destaca: “Ao longo de 61 anos, construímos uma trajetória de superação de desafios, tornando-nos líderes mundiais em tecnologia para exploração e produção em águas profundas e ultraprofundas onde estão cerca de 90% das nossas reservas”.

PETISMO

A indiscutível competência técnica dos profissionais de carreira é responsável e construtora dessa Petrobras que orgulha os brasileiros, infelizmente levada a viver o inferno astral que estamos assistindo.A sua ressurreição ocorrerá nos anos próximos, se a interferência descabida e incompetente do governo Dilma não atrapalhar,impedindo o aparelhamento da estrutura administrativa como empreguismo terceirizado.

A nova diretoria descobriu estarrecida que o setor de comunicação, dirigido por 12 anos pelo sindicalista Wilson Santarosa (já demitido), tinha 1.146 funcionários contratados. No Banco do Brasil, o setor tem 105 servidores; na Vale, são 46.É o retrato do empreguismo irresponsável.

Patrimonialismo constitucional

https://sandromeira12.files.wordpress.com/2008/09/neoliberalismo1.jpgSebastião Nery

As diferentes Constituições brasileiras, as elaboradas por constituintes ou impostas pelo autoritarismo, têm um consenso: o Estado burocrático e patrimonialista é intocável. O notável escritor latino-americano Otávio Paz definiu que “patrimonialismo é a vida privada incrustada na vida pública”.

No Brasil, o patrimonialismo é secular. Muito bem definido pelo jurista e historiador Raymundo Faoro em “Os Donos do Poder”, ele demonstra que na herança ibérica, ao lançarem as bases para a formação do Estado tutor, “o governo tudo sabe, administra e provê, distribuindo riqueza e qualificando os opulentos.”

Na mesma perspectiva, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, comprova que o patrimonialismo brasileiro tem profunda resistência à meritocracia e impessoalidade na administração da gestão pública. Certamente havia lido “Economia e Sociedade” de Max Weber, adaptando o seu pensamento à realidade brasileira.

Nele, Weber afirma que o patrimonialismo é quando o governo se apodera de recursos do Estado, distribuindo para grupos poderosos na economia. O interesse público e o privado tornam-se aliados intocáveis na dominação e usufruto da máquina do Estado.

BNDES

Um exemplo: na última década o Tesouro Nacional transferiu R$ 435 bilhões de recursos para o BNDES, pagando taxas de mercado. São emprestados a juros negativos, a TJLP, para empresas “apelidadas” de campeões nacionais do desenvolvimento. Hoje o grupo JBS (Friboi) tem 25% de participação do banco e outros como Eike Batista deram com os burros n´água. A fila é gigantesca. Hoje a TJLP – Taxa de Juros de Longo Prazo é de 6% ao ano.

Podem esperar. Depois da roubalheira na Petrobras, explodida pela coragem do juiz Sergio Moro e seus companheiros do Ministério Publico e da Policia Federal, um dia há de aparecer a podridão do BNDES e seus Fribois, Lulas e Lulinhas. E vamos ter saudade da Petrobras.

FIGUEIREDO

Não se escreve sobre livro que não se leu mais da metade. Ainda estou no meio de “1964 – O Ultimo Ato”, de Wilson Figueiredo (Editora Gryphus). Quem como eu viveu e sofreu o turbilhão do golpe militar de 1964 fica até hoje surpreso com a inacreditável lucidez e sabedoria com que o poeta, escritor e redator do Jornal do Brasil, com seu estilo brilhante, fulgurante, testemunhou e interpretou, dia a dia, aqueles turvos dias.

Tudo começou em Londrina

Sebastião Nery 

Em 1954, o principal líder estudantil e presidente da União Paraibana  de Estudantes era o François, de Campina Grande. Preparando o congresso nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes) que seria no Rio, uma comissão foi ao Norte e Nordeste. Em Campina Grande, o François nos garantiu que a maioria da delegação paraibana votaria com a esquerda. E votou. 20 anos depois, em 1974, recebi no Rio um telefonema de Londrina :

– Nery, aqui é o Leite Chaves, o François de Campina Grande. Sou candidato a senador pelo MDB do Paraná. Queria que você viesse ao comício de lançamento, para dar um depoimento sobre minha atuação no movimento estudantil, no nosso tempo da UNE.

Cheguei à tarde. O comício era à noite. No aeroporto,faixas e uma charanga tocando a musica da campanha.Vi logo o François:

– François, meu companheiro!

François deu um passo à frente, me abraçou e disse ao ouvido :

– Nery, não fale em François, pelo amor de Deus. Aqui em Londrina sou o doutor Leite Chaves, advogado. François aqui é cabeleireiro ou veado.

O doutor Leite Chaves, em plena ditadura, fez uma campanha brilhante pela oposição, ganhou e foi um senador valente e exemplar.

JANENE

Infelizmente em Londrina não havia apenas a banda boa do Leite Chaves com seus companheiros José Richa prefeito, senador e governador, Alencar Furtado varias vezes deputado, Helio Duque três vezes deputado, Álvaro Dias governador e senador e tantos outros.

Também havia a banda podre que nasceu lá atrás com José Janene deputado, Alberto Youssef doleiro, Antonio Belinati deputado duas vezes prefeito e duas vezes cassado e tantos outros.

O Mensalão estava em Londrina com Janene. O Petrolão também está em Londrina com o mesmo Youssef do Mensalão. E reaparece a  historia rocambolesca do Janene, agora feito cadáver insepulto. E não é que  quem assinou o atestado de óbito do Janene foi o Youssef?

Está na hora de Londrina deixar o Janene dormir em paz.

As quedas de Lucio Bittencourt e os juízes de Brasília

Sebastião Nery

A campanha nacional do “O Petróleo é Nosso”, pela criação da Petrobrás, estava no auge, em 1953. Em Belo Horizonte, estudantes, lideres sindicais, jornalistas e intelectuais de esquerda convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares. A polícia proibiu, dizendo que era dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais, na praça cheia, cercada pela polícia.

Na frente, servindo de palanque, um caminhão sem as laterais e com um microfone. De repente, chegou o deputado federal do PTB e candidato a senador, Lucio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigode preto, e foi direto para o caminhão. Fomos juntos. Com ele, a polícia não teve coragem de barrar-nos. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou :

– Ontem, li nos jornais que a policia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive duvidas de vir. Mas, à noite ouvi o povo me dizendo:

– Vai, Lucio, vai! Vai!

E Lucio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Rasgou. Nosso querido professor da Faculdade de Direito desabou. Acabou o comício.

No dia seguinte, no palácio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem que disse a ele : – “Não vai, Lucio! Não vai”

Afinal, a bela noticia. A Petrobrás, livrando-se do bando de ladrões comandados pelo PT, já teve lucro de 5 bilhões em três meses.

Lucio, nosso querido professor de Direito, não caiu em vão.

LUCIO BITTENCOURT

Dois anos depois, em 1955, o Partido Comunista apoiava Juscelino e Jango para presidente e vice, e Lucio Bittencourt do PTB para governador. Ele disputava com Bias Fortes do PSD e Bilac Pinto da UDN. Fui destacado como jornalista para viajar com ele pelo interior. Ele me chamou:

– Vamos lá, você ensinou em Pedra Azul, conhece bem a região.

Mas logo o “Jornal do Povo” me propôs acompanhar Juscelino ao Nordeste. Falei com ele, outro companheiro foi em meu lugar e fui com JK.

Em Campina Grande, Juscelino estava no palanque com Rui Carneiro, Alcides Carneiro, Samuel Duarte, Abelardo Jurema, o PSD todo da Paraíba. Chega um telegrama especial da “Ultima Hora” informando que Lucio Bittencourt acabava de morrer em desastre de avião, em Minas, quase chegando a Pedra Azul. Morreram o piloto, ele e meu substituto.

Era setembro de 1955. Faz 60 anos

O MOINHO E O REI

O rei da Prússia, Frederico II, um “déspota esclarecido”, com sólida formação cultural, em 1745, querendo ampliar o castelo de Sans Souci, sua residência de verão próxima a Berlim, propôs ao dono de um pequeno moinho ao lado a compra da sua área. Mas o moleiro recusou, porque ali estavam enterrados os seus antepassados. Ante a recusa, o rei ameaçou:

– Você bem sabe que, mesmo que não me venda a terra, eu como rei poderia tomar-lhe sem nada lhe pagar.

– O Senhor tomar-me o moinho? Ainda há juízes em Berlim!

Frederico II recuou e desistiu da ampliação do castelo. O moleiro, dono da propriedade ameaçada, demonstrava a certeza de que seu direito seria reconhecido pela justiça, mesmo lutando contra a Casa Real.

JUSTIÇA

No Brasil, na “Operação Banestado”, com as contas secretas enviando ilegalmente recursos para o exterior, apesar de toda a luta do bravo juiz Sérgio Moro, com o tempo os processos contra os banqueiros e doleiros prescreveram. E os corruptos deliquentes não foram punidos.

Na “Operação Castelo de Areia”, onde evasão de divisas, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e ilicitudes foram amplamente comprovadas pelo Ministério Público e a Polícia Federal, em 2011, o STJ (Superior Tribunal Justiça) anulou as provas com a alegação de a operação ter se originado de denúncias anônimas e escutas telefônicas ilegais.

Em fevereiro deste ano, o Ministério Público de São Paulo recorreu ao STF (Supremo Tribunal Federal) tentando reabrir a “Castelo de Areia”. O ministro Luiz Roberto Barroso negou o recurso com a alegação de que seria necessário o reexame de todas as provas. Os corruptos ficaram com o “castelo” e o Ministério Público e a Polícia Federal com a “areia”.

ALDO MORO

Como em todas as ações criminais, também na Operação Lava-Jato, depois das sentenças de primeira instância, medidas protelatórias, claramente retardatárias, certamente chegarão ao Supremo Tribunal Federal. O professor Oscar Vilhena Vieira, de Direito Constitucional da FGV (Fundação Getúlio Vargas), adverte:

-“A Lava Jato ou qualquer processo judicial no Brasil não está livre de acabar na prescrição. A prescrição ocorre quando se encerra o prazo legal para o Estado executar a sua capacidade punitiva. O que leva a opinião pública a acreditar que o sistema jurídico favorece a impunidade”.

Mas o pais, que aplaude nas ruas e dá flores ao exemplar juiz Sergio Moro, está de olhos abertos. Vamos saber se ainda há juízes em Brasília.

Lembranças de guerra

Os judeus foram vítimas da “purificação racial” de Hitler

Sebastião Nery

Fazia frio naquela manhã de 8 de maio de 1945, no Seminário de Amargosa, na Bahia. Às 8 horas o Padre Feliciano já nos dava sua aula de italiano. Baixinho, compenetrado, vaidoso por sua pronúncia perfeita, balançava as pernas curtas que não chegavam ao chão.

De repente, pelas janelas abertas, começamos a ouvir um rumor que ia crescendo na praça em frente, com o povo pulando e cantando:

– “Hitler morreu, o urubu comeu, o couro é teu”!

O padre tentou impedir, mas corremos para a calçada e pulamos e cantamos também. A guerra tinha acabado: 8 de maio de 45. Tinha 12 anos. Escrevi a meu pai:

– “Aqui todos muito alegres pela paz, pelo fim desta terrível guerra. Ontem, benção com Te Deum, missa cantada, parada e festas na rua. Hoje, uma missa pelos soldados mortos”.

A guerra havia atingido a humanidade inteira

STALINGRADO

Dez anos depois, eu estava comemorando o fim da guerra do outro lado do mundo, em Stalingrado (hoje Volgogrado), a “cidade – martírio”: o “Morro da Mamãe” foi 9 vezes tomado pelos alemães e 9 vezes retomado pelos russos (o chão é um cascalho de cascas de balas), e onde estão enterrados mais de 200 mil habitantes, mortos pelas tropas de Hitler.

Foi lá que se entregou prisioneiro o general alemão Von Paulus, com todo o Exercito de Hitler, marcando o começo do fim da guerra. Estive dentro da casinha em que o general se apresentou preso. A gente sente bem de perto a tragédia que os russos sofreram com bombas caindo sobre a cidade 5 meses inteiros, dia e noite e 27 milhões de soldados mortos.

LENINGRADO

Stalingrado é sul. Lá em cima é Leningrado (hoje São Petersburgo), outra “cidade martírio”. O rio Neva corta Leningrado de todos os lados. São mil hectares de parques e jardins públicos, 101 ilhas, 65 canais, 48 pontes. E 3 milhões de habitantes. A cidade foi cercada, encurralada durante 3 anos, de 1941 a 1944, pelos alemães e toda bombardeada.

Voltei lá agora. Leningrado ainda tem a cara do horror da guerra.

VARSÓVIA

Varsóvia também é uma “cidade martírio”. Numa madrugada branca, toda pingada de neve, naquele já quase inverno de 1957, o velho motorista de táxi, olhos azuis e cabelos fogueados, ia me contando coisas de sua vida, entre o restaurante Krokodila e o hotel Bristol. De repente, a praça imensa, quadrada, seca, vazia, absolutamente vazia, como um pedaço de deserto caído sobre a cidade, com um discreto monumento negro ao centro.

– O que é isso, esta praça estranha?

– Aqui foi o gueto de Varsóvia. Aqui perdi pai, mãe, irmãos, filhos, minha família inteira. Aqui vivíamos, nós, os judeus. Em 1943, cansados do cerco de Hitler, indignados com as perseguições, violências e assassinatos diários dos nazistas, explodimos. Fizemos um levante armado, um desesperado suicídio. Fomos arrasados pela superioridade militar dos nazistas. Sobramos poucos, pouquíssimos. Fui um deles.

Arrastando seu francês cansado, o velho motorista de Varsóvia parou o carro pequeno de quatro lugares, saltou, chegou junto ao monumento e passou as gordas e avermelhadas mãos sobre a pedra negra, como se alisasse o rosto inútil dos pais, irmãos e filhos mortos. Tremi de frio e angústia na madrugada branca de Varsóvia vendo aquele homem encardido de desesperanças acarinhando a saudade de tudo que ele foi e a vida dilacerou nas garras da violência, do radicalismo, do racismo.

HITLER

Cheguei ao hotel, comecei a escrever uma série de indignadas reportagens sobre os crimes de Hitler contra os judeus: Treblinka, às margens do rio Buz, onde foram cremados os heróis do gueto de Varsóvia. Auschwitz, hoje museu da loucura dos homens, onde 3 milhões de judeus (180 mil franceses, holandeses, russos) foram massacrados e queimados.

Os campos todos da ignomínia, da barbárie racista alemã visitei e guardei a convicção de que, na dura luta do homem pela existência, uma coisa sobretudo não se justifica; a agressão pelo preconceito, a violência em nome da religião e a invasão dos países mais fracos para vender armas.

GUERRA

Faz 70 anos o fim desse festival de horrores. E o mundo não consegue festejar a paz. Por toda parte continuam pipocando guerras. Há sempre um tarado fabricando armas e um pais vendendo. Drummond sabia.

– “Toda guerra é ganha pelos generais e perdida pelos soldados”.

Como Hitler, hoje os Estados Unidos inventam guerras para vender armas. Eles, os grandes gigolôs da guerra, os maiores fabricantes de armas do mundo, não resistiram a Hitler como os ingleses, os franceses. Hoje invadem Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria, África.

Lembrai-vos de Hitler!

Os filhos do PSD

Sebastião Nery

Em 1963, o PSD achou que o presidente João Goulart não queria eleições. Resolveu forçar a barra e lançar logo o “JK 65”. Marcaram a convenção nacional. Mas havia uma encruzilhada difícil. O PSD não podia ficar contra as “reformas de base” porque o país estava emocionalmente conquistado para elas. Mas também não queria ficar abertamente a favor, para não perder suas bases latifundiárias, sobretudo os coronéis de Minas, do Nordeste e do Centro-Oeste.

Durante uma semana Juscelino e seu staff discutiram o discurso da convenção. Terminou escrito a seis mãos, dentro da mais fina sabedoria pesedista mineira. Tinha até a fraudulenta frase famosa:

– “Vamos fazer as reformas sem reformar a bandeira nacional”.

Na tarde da convenção, chegaram ao Rio os delegados dos Estados. Um deles fincou o pé:

– Só voto se ler antes o discurso do candidato.

Juscelino achou um desaforo, ficou irritado, vieram as ponderações: o delegado era importante líder estadual, mostraram o discurso. O líder estadual ficou uma fera:

– Então é isto? Então o País quer uma reforma total de suas estruturas e nosso candidato vai fazer esse discurso flor de laranja? Não voto e meu Estado não vota. Temos que apresentar uma mensagem radical. Como as massas estão exigindo.

Foi um corre-corre. Amaral Peixoto e a cúpula do PSD foram para a casa de Juscelino, mexeram no discurso, puseram umas frases radicais de efeito, o líder estadual gostou, aprovou, o discurso foi lido. Eu estava lá.

O líder estadual que radicalizou o discurso de Juscelino (e foi esse o principal pretexto para a cassação do ex-presidente logo depois no golpe militar de 64) chamava-se Paulo Guerra, do PSD de Pernambuco e vice-governador de Miguel Arraes. Quando veio o golpe, Arraes foi preso em Fernando de Noronha e Paulo Guerra posto no governo de Pernambuco.

RENAN E CUNHA

O PMDB está em pé de guerra. Renan e Eduardo Cunha atacam Dilma por causa da injustiça do ajuste fiscal que come os direitos dos trabalhadores e da traição da lei da Terceirização. Michel Temer defende a Presidente sem convicção nenhuma. No Senado e na Câmara o governo perde todas as votações. Dilma não abriu a boca no 1º de maio com medo de mais um panelaço e o PT se esconde com medo de ir para a cadeia.

São filhos do PSD. Não largam o osso do poder.

A QUEBRA DA PETROBRÁS

No início do governo de Dilma Rousseff, em 2011, a dívida da Petrobrás era de R$ 115 bilhões, hoje é de R$ 351 bilhões. Uma empresa sólida e lucrativa foi quebrada e levada a um estágio de quase ruína. E farta e imoral publicidade anestesia a consciência crítica dos brasileiros.

Os governos Lula e Dilma capturaram a Petrobrás para seu sórdido projeto de 20 anos de poder e produziram o desastre. Há um século, o pioneiro do petróleo nos EUA, John D.Rockefeller disse uma verdade que nem por ser tão repetida perdeu a atualidade:

-“O melhor negócio do mundo é uma refinaria bem administrada; o segundo melhor negocio é uma refinaria mal administrada; o terceiro é uma refinaria pessimamente administrada”.

DILMA E LULA

O lúcido e bravo jornalista Josias de Souza, em seu “blog” (em 23/04/2015), registrou sem qualquer contestação:

– “A ruína da Petrobras tem nome(s): Lula e Dilma. A Petrobras, por delegação de Lula, está sob a alçada de Dilma desde a chegada do PT ao governo, em janeiro de 2003. Primeiro, foi ministra das Minas e Energia, de cujo organograma pende a Petrobras. Depois acumulou as atribuições de supergerente da Casa Civil com a presidência do Conselho de Administração da Petrobras. Em seguida, como presidente da República”.

Em 7 de outubro de 2010, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro,o então presidente Lula da Silva discursava:

– “No nosso governo a Petrobras é uma caixa branca e transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro. E a gente decide muitas coisas que ela vai fazer”.

JANOT

Demonstrando que a Petrobras foi vítima de bandidagem e vigarice, onde o cinismo e a rapinagem passaram a ser programa de governo, o honrado Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, disse:

– “Essas pessoas roubaram o orgulho dos brasileiros”.

AJUSTE

O ajuste fiscal está abalando os alicerces do governo Dilma. Até fieis aliados, como Renan Calheiros, já não aguentam mais calados o embuste:

– “O Congresso está ao lado dos trabalhadores e não será um mero espectador do ajuste fiscal. O Congresso é o próprio fiscal do ajuste. Ajuste que penaliza o trabalhador é desajuste”.

O Che que nos coube

Lerer, o herói que salvava vidas, ao invés de tirá-las

Sebastião Nery

Fez 40 anos aquele 25 de abril. Desci no aeroporto de Portela de Sacavem, em Lisboa, contratado pela Editora Francisco Alves para escrever um livro (“Portugal Um Salto no Escuro”) sobre a “Revolução dos Cravos”, ante o sucesso de meu livro anterior, sobre as eleições de 15 de novembro de 74:-“As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil”, com a derrota da ditadura. Telefonei para Marcio Moreira Alves exilado lá. Atende outro:

– Nery, aqui é o David Lerer.

– O guerrilheiro africano? Estou indo para aí agora.

E o taxi me deixava na rua Sant`Ana em Lapa, onde ouvi a mais extraordinária historia de guerras vividas por um brasileiro no exilio:

– David, vamos arranjar um gravador para escrever um livro.

Começamos. Eu bebia vinho e perguntava. David bebia vinho e contava. Depois de quatro horas de gravação, David empacou :

– Não dá mais, Nery. Mais para a frente a gente continua.

Logo David começou a dar aulas na Faculdade de Medicina de Lisboa, esperando o fim do exílio. E publiquei, na revista “Status”, um perfil desse pequeno e bravo “Che Guevara Que nos Coube”, na exata definição de Antonio Callado, personagem do romance“La Vida Exagerada de Martin Romanan” do grande escritor peruano Alfredo Bryce Etchenique

GOLPE DE 64

Paulista de 1937, filho de imigrantes poloneses, formado em 1961, em 1962 era medico do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e se elege vereador pelo Partido Socialista. No golpe de 64, preso durante dois meses numa cela com o historiador Caio Prado Junior, o físico Mario Shemberg e o medico Feruz Gicovati, presidente do PSB paulista. Sai em 65, foi vice de Franco Montoro, do PDC, para a prefeitura de São Paulo. Perderam.

Em 1966, deputado federal pelo MDB. No AI-5 de 13 de dezembro de 68, é preso, barbaramente espancado, costelas e rosto quebrados. É cassado na lista de Carlos Lacerda, com 10 deputados e 2 juízes.

Solto, tem a prisão preventiva decretada. Atravessa clandestino a fronteira do Brasil com o Uruguai, exílio. Do Uruguai, pelo Chile, para o Peru. Em maio de 71, o maior terremoto da historia do Peru soterra varias cidades e mata 300 mil pessoas. Atravessando a pé dezenas de quilometros, por dentro do frio andino, foi o primeiro estrangeiro a chegar à cordilheira. Nos Andes, reencontra a medicina, resolve urgências, cura feridos.

Recebe da França uma bolsa para estagiar em um grande hospital de Paris. Durante três anos faz cirurgias e tratamento médico dos exilados brasileiros sem direito à Previdência e opera vitimas das torturas no Brasil.

A aventura mal começava.

MOÇAMBIQUE E ANGOLA

Samora Machel, comandante da “Frelimo” (Frente de Libertação de Moçambique), chega à Itália para divulgar a guerrilha heroica da miserável colônia portuguesa perdida no sul da África, onde dezenas de negros enfrentavam, nas florestas, 60 mil soldados do general Kaulza Arriaga.  David foi a Roma, apresentou-se a Samora Machel, recebeu convite para trabalhar na linha de frente da Frelimo que desesperadamente precisava de um cirurgião. Primeiro brasileiro e dos raros brancos a entrar naquela guerra sem manchetes.

Entrou pela Tanzânia, atravessou o rio Rovuna infestado de crocodilos e penetrou pelo norte de Moçambique numa coluna de 30 homens. Era um caminho sem volta. Ou a vitória ou a morte. Durante um ano percorreu as selvas e savanas de Cabo Delgado, Niassia e Zambezia. Único médico em milhares de quilômetros quadrados, operando feridas no mato, nas condições mais precárias, sem oxigênio, sem transfusão de sangue. Ele e a morte, frente a frente.

E uma solidão profunda. Os guerrilheiros mal falavam algumas dezenas de palavras em português. A exaustão das longas marchas dentro da floresta, a sujeira, os insetos e a fome amoleceram-lhe os dentes, incharam pés e mãos e cobriram o corpo de feridas e infecções. Em 7 de abril de 74, foi ferido em combate em um ataque de helicópteros portugueses a uma base guerrilheira na região de Mueda. Sangrando, rolou por um barranco. Descoberto por um soldado português, quase foi morto. Anos depois reencontrou o soldado português vendendo bilhetes de loteria nas ruas de Lisboa. Perdera as duas pernas numa mina.

Vitoriosa a guerrilha de Samora, David virou ministro da Saúde e criou o primeiro plano de saúde de Moçambique, que tinha 95% de analfabetos. E reduziu o receituário médico a 300 remédios, para baratear.

Quando Angola chega às batalhas finais de Luanda, David está lá como médico do líder Agostinho Neto e diretor do Hospital Militar.

Missão cumprida, foi para Lisboa ajudar a Revolução dos Cravos.

DAVID LERER

Sexta-feira, recebi do David este e-mail:

“ Caro amigo, nessa véspera de 25 de Abril, lembrei-me mais uma vez de você, o primeiro e melhor cronista da “Revolução dos Cravos”. Um comuna português, que participou comigo das Campanhas do MFA (Movimento das Forças Armadas) em 1975, mandou-me fotos da época, que te repasso. Com saudades e boas lembranças, David Lerer”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Nosso Che é muito melhor do que o argentino-cubano. Salva vidas, ao invés de tirá-las. Vida longa a David Lerer e a você também, amigo Nery. (C.N.)

O Papa está certo ao defender os armênios

Papa lembra o holocausto que o mundo parece esquecer

Sebastião Nery

Era um mês de férias. Acabara a Constituinte espanhola, eu estava em Paris no inverno de 1977, tinha um convite para um mês no Mar Negro e arredores: Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Armênia, Mar Cáspio. Fui.

Um a um, viajando e flanando de dia e escrevendo de noite no hotel. Tudo lá, país a país, no meu livro “A Nuvem – O Que Ficou do Que Passou”.

A Armênia erra de nome. Devia ser Armenian. Tudo e todos, lá, terminam em “an”. Sua grande marca histórica é que foi o primeiro Estado a adotar o Cristianismo como religião oficial. Antes de Constantino e Constantinopla, São Gregório converteu o rei Tiridates, em 301.

Por isso é tão forte, até hoje, a Igreja Gregoriana Armênia, cristã e dividida. A metade reconhece Roma e o Papa como chefe. A outra metade não, com seu chefe supremo, o Khatolikós, que desde 301 reside no mosteiro de Etchmiadzin, eternidade nas crespas montanhas escarpadas.

BARCA DE NÓE

Quando Noé ficou zanzando sobre as águas do dilúvio, sua barca pousou em cima do monte Ararat (4.090 metros), então da Armênia, ponto mais alto da cordilheira do Cáucaso. Como toda aquela atormentada ponta do mundo, a história da Armênia é um rosário de resistências nacionalistas (negavam-se a pagar imposto a quem quer que fosse), invasões, expulsões: árabes, bizantinos, otomanos, persas, romanos, russos. A última expulsa foi a URSS, em 1990, quando o Império Soviético desmoronou.

Era província do império Persa, Trajano, o imperador romano, invadiu a Armênia em 114. Adriano, também romano, liberou-a. Marco Aurélio, com toda sua vã filosofia, reinvadiu e o general Prisco (163) destruiu a velha capital Artáxata, no coração das montanhas. No lugar construíram Kainépolis. A capital hoje é Yerevan. Caracala, lá de suas voluptuosas termas em Roma, mandou invadir outra vez, mas perdeu e teve que voltar.

Em 1915 (24 de abril) os turcos fizeram o segundo maior genocídio da historia da humanidade, depois do Holocausto Judaico: massacraram mais de um milhão e meio de armênios e deportaram o que restou para Síria, Iraque, Europa, Estados Unidos, America Latina, Brasil. Agora o Papa relembrou o crime, a Turquia ficou furiosa. Não se lava a História.

Espremida entre a Geórgia e sua Batum no Mar Negro e o Azerbaidjão e sua Bakum no Mar Cáspio, dois belos mares tão pertos um do outro, a Armênia não tem nenhum. Mas tem um Papa para defendê-la.

OS ZELOTES

Você sabe o que é o Carf ? O economista e professor baiano Helio Duque explica. Na Judéia ocupada pelo Império Romano, os “Zelotes” pregavam o não pagamento de impostos a Roma. No Brasil, dois mil anos depois, o zelotismo renasceu em poderosa quadrilha com assento no Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão do Ministério da Fazenda, agora descoberta pela “Operação Zelotes” da Policia Federal.

  1. – O Carf é o tribunal administrativo em segunda instância para os contribuintes autuados no recolhimento dos impostos federais. Subordinado diretamente ao Ministério da Fazenda, é constituído por mais de 200 conselheiros (!), metade auditores indicados pelo Ministério e a outra metade por entidades empresariais. Dividido em câmeras julgadoras, cada uma é integrada por seis conselheiros: três representando as empresas.
  2. – A cooptação de um conselheiro da cota da Fazenda basta para definir o resultado, pela simples razão de os representantes dos contribuintes empresariais votarem sempre contra a autuação. A “propina” ofertada ao cidadão corrompido varia, segundo a PF, de 1% a 10% do montante da infração que seria recolhida aos cofres da União.

CARF: 105 MIL PROCESSOS

  1. – A vice-presidente do Carf, advogada tributarista Maria Teresa Martinez, funcionária do Bradesco há 31 anos, atua no órgão há 15 anos. De acordo com a Polícia Federal, o Bradesco tem processos de débitos naquele órgão no valor de R$ 2,7 bilhões. É surrealismo em estado bruto.
  2. – O esquema de corrupção agora descoberto envolve sofisticada cadeia de conselheiros e de empresas poderosas, consultores econômicos, escritórios de advocacia e extensa malha de “malandros engravatados”. O secretário-adjunto da Receita Luiz Fernando Teixeira Nunes exemplifica:

– “Uma decisão do Carf favorável ao contribuinte é terminativa, é final. Não há a menor possibilidade de revisão por via judicial.”

  1. – Tramitam hoje no Carf 105 mil processos, representando 10% do PIB (Produto Interno Bruto), da ordem de R$ 518 bilhões. É uma Pompeia.

O grande enganador

Sebastião Nery

Queiróz Filho, paulista, professor, jornalista, conta que o general gaúcho Flores da Cunha se reconciliou com Getúlio Vargas em 1936 e foi visitá-lo. Getúlio estava preocupado com a sucessão:

– Sabe, Flores, os tempos são outros. Vou fazer eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra.

– Quem sabe o Aranha.

– Tenho pensado nele, mas não serve. O Oswaldo comprometeu-se demasiadamente com os norte-americanos e considero essa política de submissão muito perigosa.

– Talvez o Zé Américo.

– José Américo é um grande romancista mas um péssimo político.

– Quem sabe se, esquecendo ressentimentos pessoais, não teria chegado o momento de você indicar o Eduardo Gomes.

– Impossível. O brigadeiro é honesto, íntegro, mas isso não é tudo. É um carola. Só vive metido entre padres e bispos. Com ele no poder, a religião absorveria inteiramente o Estado.

– E o Góis Monteiro?

– O Góis bebe demais. Não pode ser o timoneiro do barco nacional.

– Então só nos resta o Ademar.

– Deus nos livre do Ademar, Flores.

– Bem, nesse caso, você está num beco sem saída.

Getúlio deu uma longa baforada no charuto:

– Flores, quem sabe se não é isso mesmo que eu quero?

Getúlio já estava construindo o golpe de 1937 para continuar

LULA

Lula finge que está preocupado com o destino do governo Dilma. Rifou o Aloizio Mercadante e entregou a política do governo ao PMDB. Tudo farsa. Como o personagem de Chico Anísio, ele quer mais que Dilma ‘se exploda”. Ele só pensa em 2018. E acha que só com o desastre de Dilma ele pode querer voltar como “salvação nacional”.

Lula é o grande enganador.

A CLT

Em toda a história dos trabalhadores e das lutas sociais no Brasil a maior vitoria foi a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), de 1942. Por mais que alguns partidos, grupos políticos e empresariais em algum tempo tenham tentado, ninguém conseguiu rasgar a CLT; salário mínimo, férias, previdência, dezenas da direitos intocáveis. É uma vitória da Historia.

Na Constituinte de 1946, os sábios bacharéis da UDN não ousaram atacá-la. O governo do general Dutra manteve-a. Voltou Getulio que a ampliou. Juscelino foi o grande herdeiro. Jânio respeitou. Jango reforçou.

Os generais da ditadura deixaram-na intocada. Collor também : afinal o avô dele, Lindolfo Collor, primeiro ministro do Trabalho e da Previdência, foi seu principal autor. Itamar era um trabalhista de verdade. Fernando Henrique chegou a anunciar “o fim da era Vargas”. Mas deixou a CLT intacta. Foi preciso vir um falso Partido dos Trabalhadores, liderado por um falso operário, para estuprar a CLT com essa criminosa lei da Terceirização. Há meses o Congresso discute e vota o projeto. E não se ouviu uma palavra de Lula. Como sempre, escondido. O silencio é o estilo dos farsantes.

FUNDOS

Três coisas sempre orgulharam os brasileiros e todas amarelinhas: a camisa da Seleção,o Banco do Brasil e os Correios Agora estão implodindo o Postalis (como também há perdas bilionárias que atingem o Previ do Banco do Brasil, o Petrus da Petrobrás, o Funcef da Caixa Econômica).

A Secretaria de Previdência Complementar, agregada ao Ministério da Previdência, que deveria ser o poder fiscalizador, é omissa.

POSTALIS

O Fundo Postalis dos Correios aplicou parte dos seus recursos nos Bancos Cruzeiro do Sul e BVA que quebraram. E nas empresas do grupo X, do notório Eike Batista, que viraram pó. E aplicou em papéis da dívida pública na Argentina e Venezuela. O Postalis tem um déficit de R$ 5,6 bilhões. O rombo vem de dívida de R$ 1,1bilhão dos próprios Correios.

Os R$ 4,5 bilhões são de gestão irresponsável. A solução revolta os funcionários dos Correios: os contracheques dos aposentados e pensionistas vêm tendo um corte de 25,98%. Já os servidores, entre 1,71% e 24,28%.

Era a Petrobras. Depois Fundos, Caixa, Saúde. O PT é insaciável.

Charutos para Lula e a “rolagem” da dívida

Sebastião Nery

Da tribuna da Câmara, Carlos Lacerda, líder da UDN, fazia violento discurso contra o presidente Vargas, insinuando que ele era conivente com a corrupção. Flores da Cunha, general, gaúcho, deputado pela UDN, liderado de Lacerda, pediu um aparte:

– Sr. Deputado e líder Carlos Lacerda. Sabe a Câmara e sabe a Nação que sou adversário de Getúlio. Mas não admito que ninguém, nem mesmo V. Exa., meu correligionário e meu líder, diga ou sequer insinue que o presidente Vargas tenha ficado, em qualquer época, com um tostão sequer que não fora seu. Vargas sempre foi um homem probo e incorruptível.

De noite, no Catete, após o jantar, Getúlio conversava com amigos:

– O Flores deu uma boa hoje. Como eu tinha vontade de lhe mandar uns charutos! Quem os levaria? Nos seus rompantes, pode querer devolver.

No dia seguinte, um funcionário saiu com uma caixa de “Havanas”. Entrou na Câmara, no Palácio Tiradentes. O general estava na sala do café conversando numa roda, com a roupa branca, a bengala e o eterno charuto:

– General, preciso falar com o senhor.

– Pois não, meu filho. Pode falar aqui mesmo.

– Trago uns charutos que o Presidente mandou.

Flores arregalou os olhos, bateu a bengala no tapete:

– Que presidente, meu filho? Tem muito presidente por aí.

– O presidente do Flamengo, general.

– Ah, muito bem. Então me dê os charutos.

E soprou uma fumaça, feliz como um minuano.

Dilma está precisando mandar uns charutos para Lula.

ALCKMIN

O poeta Fagundes Varela sofreu dor igual. Perdeu filho em desastre:

“Eras na vida a pomba predileta
que sobre um mar de angústias
conduzias o ramo da esperança”.

Não há lágrimas que apaguem jamais. Quem o conhece sabe. O governador Alckmin é um ser humano intrinsecamente bom. E é um cristão.

JUROS

Todos falam em ajuste de tudo. Mas do ajuste nos escandalosos lucros dos bancos ninguém diz nada. Na Constituição de 1988, em seu artigo 166, o lobista dos banqueiros Nelson Jobim pôs a prioridade para o pagamento da dívida. O professor paranaense Helio Duque denuncia :

– O Orçamento de 2015 estabelece o total das despesas em R$ 2.863 trilhões, prevendo R$ 1,356 trilhão (47%) só para a rolagem da Dívida Pública, O extravagante número está na página 97 do Orçamento. O Orçamento de 2015 diz que aproximadamente 70% do endividamento seja “refinanciado”. Significa que o pagamento das amortizações ocorrerá pela emissão de novos títulos e a dívida velha será trocada por dívida nova,com juros mais altos, aumentando o saldo devedor.

– Em 2014, somente com pagamento de juros a conta foi de R$ 311 bilhões. Os principais “credores” são: A) Bancos nacionais e estrangeiros 47,24%. B) Fundos de Investimentos 17,77%. C) Investidores estrangeiros 11,32%. D) Fundos de Pensão 12,84%. E) Seguradoras 3,13%. F) Fundos administrados pelo governo 4,58%. G) Outros, 2,12%.

– Os títulos da dívida remuneram com uma das maiores taxas de juros do planeta. Os papéis emitidos pelo Tesouro Nacional são disputados com voracidade pelos bancos. Compram a quase totalidade, passando a ter influência fundamental na administração da Dívida e representando brutal transferência de recursos públicos para entidades privadas.

BANQUEIROS

– Em 2014, o Itaú teve lucro de R$ 20 bilhões e o Bradesco de R$ 15 bilhões. No orçamento de 2014, de R$ 2,48 trilhões, 42% foi rubricado para pagamento de juros e amortizações, no total de R$1.003 trilhão.

– Lula anunciou que havia pago toda a Dívida Externa, uma fraude e mentira colossal, já que parte da dívida era junto ao FMI, com juros de 4% ao ano, e o governo emitiu títulos da dívida Interna pagando juros de 19% ao ano para resgatar as parcelas devedoras junto ao FMI, ficando devedor dos bancos internacionais que “financiam a rolagem” da Dívida .

– Em agosto de 2014, o Banco Central registrava a Dívida Externa em 333 bilhões de dólares e as reservas em 379 bilhões de dólares, sustentada na quase totalidade pela emissão de títulos junto ao Tesouro.

Quem vai ajustar esse desajuste, hein bravo e brilhante doutor Levy?

Um país apodrecido

Garcia Marquez: “Onde encosta o dedo sai pus…”

Sebastião Nery

Éramos quase crianças, 19 anos. Eu, professor de latim e português. Ele, professor de matemática e ginástica. No ginásio de Pedra Azul, lá no infinito e saudoso norte de Minas.Os outros professores tínhamos inveja dele. Era o único que via as pernas das meninas da cidade. Não havia praia nem piscina. Nas aulas de ginástica, as alunas usavam short. João Bênio era um Salomão, naquela Jerusalém de virtudes.

Um dia, fomos embora. De quando em vez, tinha notícias dele. Ator, correu o país fazendo “As Mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch. Depois, foi para o cinema. Terminou diretor e produtor, fazendo sucesso e dinheiro.

Naquela tarde, seis anos depois, nos encontramos numa esquina de Zurique (Suíça), a caminho do “Festival Mundial da Juventude” de Moscou. Com champanha, celebramos nossa vitória sobre aquele pequeno mundo que nos quis segurar para vereador e delegado, prefeito e marido.

O trem até Praga e Moscou saia às 10. Resolvemos comprar máquinas fotográficas, com preços os menores da Europa. Chovia uma chuvinha fina, magra e feia, subdesenvolvida, poça na rua, pingo na cabeça, Os carros passavam ordeiros no asfalto, sem contramão e sem buzina.

Encostados na vitrina de uma loja ainda fechada, doídos de frio, esperávamos. Aquelas mulheres feias, cheias de luvas e capotes, pisando ligeiro o passeio molhado, brancas, branquelas, pernas finas e cara gorda, davam-nos saudade do Rio. João Bênio dizia besteiras. Cada uma que passava, um comentário. E as mulheres feias seguindo para o trabalho.

De repente, aponta uma linda. Alta, loura, rosto fino, andar esguio, parecia uma potranca árabe pisando aqueles passeios arrumadinhos. Vinha acompanhada de um homem muito alto, quase dois metros. Quando chegaram perto, bem em frente a nós, João Bênio não se conteve:

– Nesta eu dava uma dentada no pescoço.

O homem alto, muito alto, forte, muito forte, virou nos calcanhares, pôs o dedo bem no nariz de nós dois e grunhiu:

– Morder pescoço puta “parrriu”. “Trrrês anos Santa “Catarrrrina!”

A loja abriu. Pulamos dentro. E compramos nossas “Rolleiflex ”.

Não é preciso ter vivido três anos em Santa Catarina para saber que o pais está apodrecido. Cada dia um novo escândalo. Agora, na Receita, um rombo de 19 bilhões: HSBC, Santander, os grande bancos, todos bandidos.

GARCIA MARQUEZ

Quando chegamos a Moscou, no Hotel Zariá, ao lado da Universidade dos Povos (hoje Lumumba), os brasileiros logo conhecemos um jornalista colombiano, estudante de cinema, 30 anos, exilado em Paris:

– Na Colômbia está tudo tão ruim que onde se encosta o dedo sai pus.

Era Gabriel Garcia Marquez. Meio século depois, o Brasil igual.

DILMA

A recente pesquisa do “Instituto Data Folha” sobre o governo Dilma chega a ser surrealista quando analisa as diferentes regiões do pais. Consideram o governo “ruim e péssimo”, no Sudeste, 66%. No Sul, 64%; No Centro-Oeste, 75%. No Norte, 51%. No Nordeste, 55%.

Há 15 meses, em novembro de 2013, o “ruim e péssimo” do governo era de 22% no Sudeste, 20% no Sul, 17% no Centro-Oeste, 10% no Norte, e 11% no Nordeste. A “marola” da insatisfação com o governo Dilma transformou-se em um gigante “tsunami” indonésio.

RENDA E IMPOSTO

Por que essa violenta repugnância diante do governo?:

1.- A renda dos mais ricos cresceu na velocidade da Fórmula 1. O Brasil tem 50% do seu PIB nas mãos de 10% da população.

  1. – Nossa distribuição de renda é selvagemente desigual e a política tributária é confiscadora da renda da maioria da sociedade.
  2. – Vejam no Imposto de Renda. O contribuinte que ganha mais de R$ 5.000,00 tem a alíquota de 27%. Quem ganha R$ 50.000,00 ou R$ 300.000,00 por mês, tem a mesma alíquota. O sistema tributário é algoz de quem trabalha e produz. E o governo do PT escorchando quem trabalha.

JANIO DE FREITAS (Folha)

– “Se Joaquim Levy “não sabe de onde tirar os R$3 bilhões” que o governo deixará de receber se encerrada a agiotagem oficial, basta-lhe dar uma olhada no imposto cobrado à especulação financeira e às remessas de lucros – aliás não precisa olhar, porque sabe muito bem e dá a sua proteção”

O cabeleireiro de Dilma

Sebastião Nery

No enterro do professor Lineu de Albuquerque, diretor da Faculdade Nacional de Direito do Rio, o cemitério São João Batista estava lotado. Falou o reitor da Universidade do Brasil, Pedro Calmon. Falou o ministro Hermes Lima, em nome do presidente Goulart. Quando o caixão já se cobria de flores, pronto para descer, uma voz gritou lá de longe:

– Um momento!

E um desconhecido, cara modesta, voz trêmula, fez um discurso de arrepiar coveiro. Acabou assim:

– Desculpem, os senhores não me conhecem. Eu era o barbeiro do professor Lineu de Albuquerque.

Na saída, cada um dos presentes recebia o cartão de um desconhecido, cara modesta, voz trêmula. Era o barbeiro-orador.

O BARBEIRO

No enterro do poeta Augusto Frederico Schmidt, o cemitério estava também lotado. Falou Manoel Bandeira, da Academia Brasileira de Letras. Falou Francisco Parente, jornalista e poeta. Quando o caixão já se cobria de flores, pronto para descer, uma voz gritou lá de longe:

– Um momento!

E um desconhecido, cara modesta, voz trêmula, fez um discurso também de arrepiar coveiro. Acabou assim:

– Desculpem, os senhores não me conhecem. Eu era barbeiro do poeta Augusto Frederico Schmidt.

Na saída, cada um dos presentes recebia o cartão de um desconhecido, cara modesta, voz trêmula.

Era ele.

O MINISTRO

Sem ministro da Educação, em um segundo governo de dois meses, depois de inventar o slogan gaiato de “Brasil – Pátria Educadora”, a presidente Dilma sofre o vexame de não conseguir um nome para ministro.

O PT exige que o ministério seja dele. Mas não tem quem. Um partido que nasceu da rebeldia da intelectualidade nacional aliada aos movimentos sindicais não tem um nome à altura. Os que tinha perdeu. O senador Cristovam Buarque, o professor Paulo Delgado, que honrariam qualquer governo, foram isolados e tiveram que fugir do PT.

Agora Dilma tenta nomear Gabriel Chalita, um tapa-buraco. Mas é PMDB. E nomear alguém do PMDB o Cid Gomes iria pôr a peruca e dar um piti.

O Rui Falcão, mais urubu do que falcão, tenta desesperadamente arranjar um nome. Nem no Google. Petistas ainda sensatos temem que ele tente convencer a Presidente de que a saída é a do barbeiro do São João Batista: um dos cabeleireiros da Presidente. Ninguém é contra cabeleireiro.

CASA CIVIL

Não é só na Educação. A Presidente está engasgada também na Casa Civil. Lula, o proprietário da Presidente, exige que ela tire o Aloízio Mercadanta, isto é Mercadante, um peso pesado, e o substitua ao menos por um bigode menos arrogante.Mas ele é o ultimo amigo de Dilma no governo

Talvez a solução seja lembrar o sábio mineiro Negrão de Lima:

– “Política é a ordem natural das coisas”.

Por exemplo. Aloízio Mercadante é Mercadante da mãe mas é Oliva, filho do brilhante e então poderoso general Oswaldo Muniz Oliva, da Bahia, quatro estrelas, diretor da Escola Superior de Guerra. O filho dele, Aloízio Mercadante, bem poderia ser o ministro da Defesa. Ficaria em casa.

Mas iria desbancar o Jacques Wagner. E daí? Nome judaico, cabeleira judaica, pinta judaica, excelente negociador, bom de conversas, acordos e acertos, Wagner bem poderia ir para a Casa Civil, onde a Dilma está precisando de alguém que comande a articulação política.

Não cobro nada pela consultoria. Não sou Palocci nem Dirceu.

A GUERRA

Lula disse que se a oposição continuar criticando Dilma ele vai chamar e jogar na rua o Exército do Stedile “com suas botas engraxadas”. Uma semana depois, a Dilma vai ar Rio Grande do Sul e o Stedile lhe anuncia marchas, ocupações e invasões do MST no dia 7 de abril.

As redes sociais já haviam convocado novo 15 de março para 12 de abril. É a perigosa guerra das ruas oficializada pela estupidez do governo.

A pata manca

Sebastião Nery

Palácio das Laranjeiras, Rio, meia-noite de 31 de março de 1964. De Minas continuavam chegando as notícias das tropas do general Mourão Filho para derrubar o presidente João Goulart. Cercado de ministros e amigos, Jango dava telefonemas, conferenciava com militares e civis. E o nervosismo, de minuto a minuto, ia tomando conta do palácio.

De repente, o indefectível general Assis Brasil, chefe da Casa Militar, que até há pouco dizia ser invencível o esquema militar do governo, aconselhou o Presidente a abandonar o palácio, por não oferecer segurança. A resistência devia ser dirigida de um local mais garantido.

TENÓRIO

Tenório Cavalcanti, que estava lá em solidariedade a Jango, soube do conselho de Assis Brasil, correu a seu gabinete:

– General, o senhor não disse há pouco ao senador Barros de Carvalho que o esquema militar do governo está tinindo?

– Disse, sim, deputado. E está.

– Por que então o senhor sugeriu que o Presidente saia daqui do Laranjeiras?

– Porque aqui ele não terá muita segurança.

– Nada disso, general, o que o senhor está dizendo é uma loucura. Não há lugar mais seguro do que este. O palácio é uma verdadeira fortaleza, dominando a colina, acessível apenas por um dos flancos, através de uma estreita garganta inexpugnável. O Presidente não deve sair daqui.

Parecia que o general era Tenório, que logo passou a dar ordens, aos gritos, como se estivesse em sua fortaleza de Caxias:

– Sargento, coloque um grupo ali. Capitão, instale um ninho de metralhadoras ali embaixo. E os fuzis, onde estão os fuzis? Tragam fuzis!

Ao meio-dia do dia seguinte, Jango abandonou o palácio. Não acreditava nem nas teorias de Assis Brasil nem na prática de Tenório.

DILMA

História puxa história. Em 1974, o escândalo Watergate (escuta ilegal na sede do oposicionista Partido Democrata, em Washington) levou o presidente dos EUA, Richard Nixon, a renunciar. O seu vice, Spiro Agnew, já havia sido afastado por envolvimento com a corrupção. Constitucionalmente coube ao deputado Gerald Ford, presidente da Câmara, assumir a Casa Branca, no pleno exercício do poder.

Sua administração de dois anos foi marcada por incompetência e tempos tempestuosos. Foi quando o jornal “New York Times” reabilitou expressão popular em desuso há muitos anos, na realidade política e administrativa dos norte-americanos: “lame duck”. O presidente Ford seria um “pato manco”, à frente de um governo impotente e ineficaz.

Na manhã deste domingo, no palácio da Alvorada, a presidente Dilma começou zombando das manifestações. Pensou que iriam ficar restritas à matinal e domingueira praia de Copacabana:

– Não há foco. Falta foco.

Daí a pouco, a arrogante e desastrada Presidente percebeu que havia foco, sim. E no pais inteiro. Milhões nas ruas, de Manaus a Porto Alegre. O foco era ela, o foco dela, o governo dela, o PT dela, o Lula dela, o desastre.

Só em São Paulo muito mais de um milhão. O povo já fez o impeachment dela. Com que cara a pata manca vai aparecer para governar?

MARTA

O lúcido professor Milton Lahuerta, coordenador do Laboratório de Política e Governo da Universidade Estadual Paulista, adverte :

– “Em grande parte isso se deve ao ex-presidente Lula, que incentivou essa polarização do se apresentar como aquele que estava inaugurando uma nova era, uma transformação social que, em quatro séculos não havia ocorrido. Como se fosse possível traduzir toda a luta pela democracia no País a um personagem e a um partido político. Agora estamos vivendo algo muito grave”.

Outra voz sabia é a da brilhante e brava ex-ministra Marta Suplicy:

– “O que está em jogo é a governabilidade, a sobrevivência do país. Não há como continuar com uma equipe de governo que se distanciou, quase rompeu com o Congresso e que, por seus vícios sectários e métodos excludentes, estabeleceu verdadeira ruptura com a vida nacional. Se não podemos trocar de comandante em pleno voo de turbulências, o mínimo que podemos exigir é a troca imediata da equipe de comando. A começar pelo copiloto, responsável maior pela desastrada rota de voo”.

Os lábios de Dilma e a falta de governo

Dilma está subindo o “tom” no Planalto

Sebastião Nery

Padre Godinho, doutor em teologia em Roma, uma catedral de cultura, deputado federal da UDN e do MDB de São Paulo, imitava perfeitamente as vozes alheias. Uma noite, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre (MDB de Minas) em Brasília, amigo do Padre Godinho:

– É o senhor Padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton, arcebispo. Soube que o senhor está na Comissão de Finanças da Câmara e estamos precisando de ajuda para as obras de assistência aos menores da arquidiocese. O senhor poderia providenciar uma verba?

– Pois não, senhor arcebispo. Com todo prazer. Farei isso amanhã.

– Muito obrigado, padre. E ajoelhe-se para receber minha benção.

No dia seguinte, na Câmara. Padre Godinho encontra padre Nobre:

– Nobre, sonhei esta noite com você ajoelhado à beira da cama, recebendo uma benção.

PADRE GODINHO

Padre Nobre entendeu o trote, ficou uma fera, mas não disse nada ao Padre Godinho. Deixou para vingar-se depois. Um mês depois, de manhã bem cedo, toca o telefone no apartamento do Padre Nobre:

– É o senhor Padre Nobre? Padre Nobre, aqui é dom José Newton,

– Vá à puta que o pariu, seu arcebispo de merda.

E bateu o telefone. À tarde, chega à Câmara, preocupado, monsenhor Ávila, secretário do arcebispo:

– Padre Nobre, o que é que houve hoje cedo durante o telefonema do senhor arcebispo para o senhor, que ele passou mal logo que desligou o telefone?

Padre Nobre ligou aflito para o arcebispo contando a história do trote de padre Godinho e pedindo desculpas. Dom José Newton ouviu, desculpou:

– Está explicado, Padre Nobre. Mas que linguajar nos lábios de um sacerdote!

Padre Nobre queria matar seu amigo Padre Godinho.

DILMA

Os amigos e assessores da presidente Dilma andam preocupados com a acelerada que a presidente deu nos seus costumeiros palavrões e despautérios. Ela sempre foi assim, mas não tanto. O hábito de xingar quem discorda dela ou aqueles de quem ela discorda vem de longe. Mas sempre teve um mínimo de limites. Agora, desandou. É palavrão aos borbotões.

Depois que a Operação Lava Jato subiu as escadarias do palácio do Planalto e cada dia ficam mais claras a omissão e conivência dela na roubalheira da Petrobras, mais ela sobe o tom e generaliza a gritaria;

Se as lânguidas colunas da curvilínea arquitetura de Niemeyer não fossem tão sólidas, algumas paredes palacianas já teriam esboroado ao sopro dos furiosos adjetivos nos turvos lábios presidenciais.

CUPIM PETISTA

Os números do governo petista cada dia mais corroem o país.

1.- A administração federal tem 39 ministérios, 128 autarquias e 141 empresas estatais A prioridade de um governo responsável é canalizar recursos para o crescimento econômico, investindo na infraestrutura e estimulando os investimentos privados em uma economia cujas carências são abismáticas, e também no fortalecimento dos gastos com os programas sociais, a exemplo do Bolsa Família que tem um custo da ordem de 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).

Para comparar, só o pagamento de juros da dívida pública ao mercado financeiro, em 2014, fica acima de 6% do PIB. Não são os programas sociais os responsáveis pelos descontroles da economia. No ano, o Bolsa Família recebe o que os banqueiros ganham em um mês.

FALTA GOVERNO

– A Presidente deveria buscar informações na Secretaria de Gestão Pública, órgão do Ministério do Planejamento, que registra: o Executivo tem 757.158 cargos de serviços efetivos, mais 113.869 cargos de confiança e comissionados, além de 20.922 contratos temporários de trabalho.

Só a presidência da República em dezembro de 2014 era responsável por 23.008 cargos de confiança e comissionados, Na Alemanha, a primeira-ministra Angela Merkel dispõe de 600 funções de confiança.

O que falta ao Brasil é governo.

Quem quebrou a Petrobras

Sebastião Nery

José de Almeida Alcântara, alto, cabeleira branca exposta ao vento, talentoso, audacioso, coletor federal, prefeito, deputado, era um terror para seus adversários na política de Itabuna, sul da Bahia.

Em 1960 apoiou Jânio Quadros, da UDN. Teixeira Lott, candidato do PSD e PTB, foi a Conquista com uma grande caravana. Tão grande que o palanque não aguentou, desabou, quase quebrou a perna do velho marechal que ficou impedido de seguir para o comício de Itabuna. Ele não foi, mas a comitiva foi e fez comício na praça. No dia seguinte Alcântara, que apoiava Jânio, convocou um comício contra Lott. E fez como sempre um discurso desabusado:

– “Ontem esteve nesta praça um punhado de contrabandistas: João Goulart, contrabandista de boi para a Argentina. Batista Luzardo, contrabandista de ovelhas para o Uruguai. Orlando Moscoso, contrabandista de cacau e até o padre Nestor Passos contrabandista de…

Parou, pensou, continuou:

– “Contrabandista de almas. Encomenda as almas para o céu e manda todas para o inferno.”

Jânio ganhou em Itabuna.

ALCÂNTARA

Prefeito, Alcântara brigou com Gileno Amado, compadre do governador Juracy e líder da UDN na região. Gileno lançou uma campanha para forçar Alcântara a renunciar. Chamou o vereador da UDN Manoel Alvarandio e promoveram uma marcha popular até a prefeitura, todos gritando “impeachment! impeachment!”

Alcântara apareceu na porta da prefeitura com os brancos cabelos esvoaçantes, um pedaço de papel na mão esquerda, uma caneta na mão direita e desafiou a multidão:

-“Voces querem meu impeachment, eu renuncio. Mas antes preciso que este moleque, o vereador Alvarandio, escreva a palavra impeachment aqui neste papel.”

Alvarandio e a multidão foram dormir.

IMPEACHMENT

Março começou com o país se preparando para a grande marcha do dia 15 contra os desvarios da presidente Dilma. O povo vai dizer nas ruas porque não está engolindo esta farsa de uma candidata que ganhou a eleição dizendo uma coisa e agora, com toda a sua cara de pau, que está murchando dia a dia, faz tudo ao contrário.

Não se trata, por enquanto, de fazer impeachment agora, que é uma arma que a Constituição entrega ao país só nas horas do desastre final. Mas é preciso que cada um assuma suas responsabilidades. Essa história de Lula e Dilma rebolando nos palanques e televisões como se nada tivessem a ver com a roubalheira na Petrobrás é asquerosa e intolerável.

Cada um, presidentes da República, presidentes da Petrobrás, presidentes e membros do Conselho Administrativo, vai ter que assumir suas responsabilidades e pagar pelo que fizeram ou deixaram de fazer.

LULA

Em Angra dos Reis, no dia 7 de outubro de 2010, o presidente Lula proclamava: “No nosso governo a Petrobrás é uma caixa branca e transparente. A gente sabe o que acontece lá dentro. E a gente decide muitas coisas que ela vai fazer.”

A autossuficiência promoveu o festival de incompetência de projetos inviáveis, como as refinarias de Pernambuco, Ceará, Maranhão e Rio de Janeiro. Todas elas consideradas inviáveis pelo corpo técnico da Petrobrás. No parecer “Análise empresarial dos projetos de investimento”, de 25 de novembro de 2009, era documentado o ponto de vista técnico da empresa, atropelado e desconsiderado pelo então presidente da República, que agora queda-se em silêncio constrangedor ante as revelações da “Operação Lava Jato”.

DILMA

A presidente do Conselho de Administração da estatal era Dilma Rousseff. Chegando depois à presidência da República, o seu governo ampliou e agravou a situação financeira da empresa. O caixa foi dilapidado à exaustão para atender ao populismo fundamentalista. Importava petróleo à média de 100 dólares/barril e vendia internamente a 75 dólares/barril. Estimava-se o prejuízo em R$ 65 bilhões.

Agora o grupo de Economia e Energia da Universidade Federal do Rio de Janeiro encontrou outro número. O economista Edemar de Almeida, na “GloboNews”, coordenador do Grupo, afirmou que o prejuízo da Petrobrás foi de R$ 106 bilhões. No governo Dilma Rousseff, por consequência, o endividamento da Petrobrás quadriplicou.

A maior crise da história da estatal teve pai e mãe, autênticos carrascos na mutilação da quinta maior empresa de petróleo do mundo.

A rapina foi a garantia da roubança e do conluio dos corruptos e corruptores na expropriação de bilhões de reais alimentando quadrilhas.

Lições do velho quartel

Sebastião Nery

De repente, noite alta, lá dos fundos do quartel escuro e imundo uma voz desesperada começou a gritar, urrar:

– “Ai, meu São Gonçalo! Me salve, meu padroeiro! Eles estão me matando”.

Um tombo surdo, sons pesados como patadas de elefante em filme indiano, gargalhadas histéricas e palavrões contínuos ecoavam no silencio úmido do quartel e não se ouvia mais a voz lancinante do devoto de São Gonçalo. Mas ela voltava, pastosa:

– “Me salve, meu São Gonçalo! Eles estão me matando”!

Novo tombo surdo, novas patadas, novas gargalhadas e palavrões, e caía outra vez sobre a madrugada o silêncio molhado do quartel. Para daí a pouco começar tudo de novo. Até parar no amanhecer.

A TORTURA

Da cela-porão, onde eu estava enfiado, nu, só de cueca, em maio de 1964, no infecto e multissecular quartel do Exercito, o Forte do Barbalho, em Salvador, dos tempos da invasão holandesa na Bahia, não dava para saber nem sequer imaginar o que acontecia.

Éramos mais de duzentos presos políticos no quartel. O deputado federal Mário Lima e eu, deputado estadual, estávamos confinados em dois fedorentos depósitos de tambores de gasolina, transformados em celas-solitárias. Os prefeitos Francisco Pinto, de Feira de Santana, Pedral Sampaio, de Vitória da Conquista, e outros, vereadores, professores, líderes sindicais e estudantis, amontoavam-se em celas coletivas, dormindo no chão crispado de cimento antigo e terra, sem banheiro, só com latas.

De onde viriam aqueles apelos a São Gonçalo? Ainda não havia tortura a presos políticos no quartel do Barbalho, em 1964. Ninguém era tirado da cela para apanhar. Alguns, como Mário Lima e eu, porque resistimos ao ser presos, levamos pancadas na rua, que lá dentro logo pararam. Havia a bárbara nudez sobre o chão molhado de gasolina e óleo, o dormir sobre o cimento frio, esburacado de séculos, mas tortura não havia.

“Ainda”não havia,como contou depois o Emiliano José em “Galeria F”.

O COMANDANTE

De manhã, perguntei ao discreto e humano capitão Caliga, o médico do quartel, que visitava diariamente as celas, o que tinha acontecido. Ficou constrangido:

– Deputado, não faça perguntas, sobretudo ao comandante. Pode lhe ser pior.

Mas fiz. Tirado da cela-porão pelo civilizado major Guadalupe Montezuma para depor no gabinete do comandante, o tarado capitão sergipano José Hermes de Figueiredo Ávila (como esquecer o nome dele?), apelidado ali de “Hermes 30”, porque era a pena mínima de solitária que dava a qualquer sargento ou soldado, rosnou quando lhe perguntei.

– “Deputado, não se meta no que não é de sua conta. Agradeça não ser com você”.

Apurei depois. Um soldado saiu escondido do quartel para ir ao aniversário da mãe, em São Gonçalo, no Recôncavo da Bahia. Buscaram-no no meio da festa e o Exercito o torturou a noite inteira.

Meio século depois, voltei ao velho e infecto quartel do Barbalho (hoje desativado), quando estava escrevendo meu livro “A NUVEM – O QUE FICOU DO QUE PASSOU” (Editora Geração – SP), onde contei minuciosamente as barbaridades que ali vi e vivi, meses a fio, em 1964.

Ainda ressoavam em meus ouvidos os gritos lancinantes do soldado torturado porque foi dar um beijo na mãe que fazia aniversario. De que adianta a violência se o tempo passa? A História não perdoa.

O MINISTRO

Cada dia está mais escrachado, perante o pais, o papelão desse inacreditável ministrinho Cardozo, da Justiça, escondidinho no escurinho do gabinete com as empreiteiras, tentando um golpe para anular o bravo e brilhante trabalho do juiz Sergio Moro, do Ministério Publico e da Policia Federal, que desvendaram o escândalo do “Petrolão”.

Quando os depoimentos e provas se multiplicam, através de mais de uma dezena de “delações premiadas”, e o carrossel de crimes vai chegando perto do PT, de Dilma, de Lula, dos políticos e empresas envolvidos, mais o governo se desespera e põe sua matilha de perdigueiros na rua.

Não adianta. É outra lição da História. Um dia as cortinas se abrem.

O Ministro de Patos

Ministro Cardozo mais parece o delegado de Patos, na Paraíba

Sebastião Nery

João Grande, lá na Paraíba, era um tropeiro muito alto e muito forte, de mãos enormes, pernas arqueadas e botas cravadas de ferro. Levou uma tropa para Patos, cidade vizinha, depois sentou-se no bar, pediu uma cerveja e ficou ali olhando a praça e o povo.Percebeu que, na calçada em frente, as pessoas iam andando e, de repente, quando chegavam diante de uma casa, desciam da calçada, davam uns passos na rua, subiam novamente a calçada e seguiam.

Foi ver o que era. Era a casa do delegado, que tinha posto uma placa na porta proibindo qualquer pessoa de passar pela calçada da casa dele, para não fazer barulho, porque ele gostava de tirar uma madorna, uma soneca, toda tarde.

JOÃO GRANDE

João Grande ficou indignado. Arrancou a placa e começou a andar na calçada proibida, batendo forte no chão com suas botas cravadas de ferro. O delegado, irado, saiu de lá de dentro como uma fera, os olhos esbugalhados, abriu a porta, viu aquele homenzarrão de botas barulhentas, deu um sorriso amarelo, afinou a voz:

– Boa taaarde!

João Grande não disse nada. O delegado também calou e não disse nada. Na calçada, já pronto para descer, andar pela rua e subir novamente a calçada, como fazia o dia inteiro, a semana toda, vinha vindo um homenzinho baixinho, pequenininho, trotando, quase correndo, com um cesto na cabeça, equilibrando numa rodilha de pano. Quando viu a cara amofinada do delegado, parou, olhou bem para ele e gritou:

– Olha o abacaxi!!!!

Nunca mais, a partir daquele dia, o homenzinho do abacaxi desceu da calçada do delegado. Ele nem ninguém. João Grande jogou a placa na rua e voltou para sua terra com as mãos enormes e as botas cravadas de ferro.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO

Em 1969, logo depois do AI-5, Carlos Petrovich, diretor do Curso de Teatro da Universidade de Brasília, ocupada e estrangulada pela ditadura, convidou o saudoso Ariano Suassuna, gênio rebelde de “A Pedra do Reino” e “Auto da Compadecida”, para uma palestra. O auditório estava cheio de arapongas do SNI. Suassuna começou contando a história de João Grande.

Esta semana, o ministro da Justiça, Eduardo Cardoso, foi apanhado em flagrante reunindo-se às escondidas, no próprio ministério, com um punhado de advogados dos réus do escândalo da “Operação Lava a Jato”, na roubalheira da Petrobrás para dar dinheiro ao PT e seus aliados.

Ora, o processo é uma gravíssima e indispensável operação da Policia Federal, do Ministério Publico Federal e do Supremo Tribunal Federal para desbaratarem “o maior escândalo financeiro da historia do pais”. O ministro da Justiça não tem o direito de estuprar a legalidade para tentar desviar e obstruir o encaminhamento das atribuições da Polícia Federal, da Procuradoria Geral da Republica, da Controladoria Geral da Republica, do Tribunal de Contas da União e do Supremo Tribunal.

O ministro da Justiça precisa respeitar o pais. Se ele quer ser o delegado de Patos de um século atrás só chamando um tropeiro João Grande para jogar a placa dele na rua.

JOAQUIM BARBOSA

Tem razão o sempre lúcido, equilibrado e bravo ex-presidente do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa:

– “Nós, brasileiros honestos, temos o direito e o dever de exigir que a Presidente Dilma demita imediatamente o Ministro da Justiça”.

“Reflita você: – para defender alguém em um processo judicial, ao invés de usar argumentos e métodos jurídicos perante o juiz, você vai recorrer à política?”

E logo a pior política, com o governo rasgando o processo e a lei?

A LISTA DO XILINDRÓ

O clássico do cinema americano, filme de 1993, de Steven Spielberg, chamava-se “A Lista de Schindler!”. Um poema da bravura humana.

Está chegando fevereiro. E foi para fevereiro que o Procurador Geral da Republica, Rodrigo Janot, e o ministro relator da ação no Supremo Tribunal, Teori Zavascki, prometeram a divulgação da lista dos políticos acusados na Operação Lava a Jato, por terem foro privilegiado.

Vai ser a “Lista do Xilindró”.

A andorinha da Suíça e a fábrica de lavar dinheiro

Ziegler foi relator da ONU para assuntos de alimentação

Sebastião Nery

O nome dele é Jean Ziegler (80 anos). Professor de sociologia da Universidade de Genebra, na Suíça, em 1976 lançou o livro “A Suíça Acima de Qualquer Suspeita”. Foi um Deus nos acuda, Denunciava o poderoso, intocável e corrompido sistema bancário suíço. Começava a largada para uma batalha que se prolongaria por décadas.

A repercussão do livro no mundo acadêmico, na Europa, nos Estados Unidos, mostrava a necessidade de o combate ser travado também no parlamento. Eleito deputado por alguns mandatos na Confederação Helvética (a Câmara dos Deputados da Suíça), Ziegler logo se transformou no inimigo nº 1 dos “paraísos fiscais”, que tinham na Suíça seu porto mais seguro. Como um D. Quixote moderno, viu que os bancos suíços eram os principais “moinhos” que deveria guerrear.

Brutais campanhas difamatórias patrocinadas pelos banqueiros buscaram intimidar a sua consciência crítica. Em vez de ficar amedrontado,  ele, destemido, contra-atacava. Demonstrava que os seus compatriotas eram hipócritas e falsamente liberais frente aos problemas do mundo. Estava ferindo de morte o segredo bancário que tinha “status” de sacralidade. Sua origem vinha desde 1714, ratificado por lei específica em 1934. Os banqueiros de Berna, Lausanne, Zurique e Basiléia, sentindo-se atingidos, acionaram a justiça e o processaram. E  o parlamento, submisso, promoveu a “cassação” de seu mandato e de sua imunidade parlamentar.

JEAN  ZIEGLER

Fora do legislativo, o contra-ataque de Jean Ziegler foi devastador. Lançou o livro “A Suíça Lava Mais Branco”, que se transformaria em “best-seller” mundial, inclusive no Brasil. Suas ideias marcaram a sociedade moderna, onde a avassaladora supremacia financeira no mundo contemporâneo encontrou nele um resistente irremovível. Seus opositores, políticos e banqueiros, diziam que eliminar o segredo bancário do “dinheiro sujo” seria uma catástrofe econômica. Ele respondia:

– “O manejo do dinheiro  na Suíça se reveste de um caráter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos atos que se revestem de uma majestade ontológica que nenhuma palavra deve macular e se realizam em silêncio e recolhimento.”

Ziegler calculava em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros “offshore” do mundo, à frente do Caribe, Luxemburgo e Extremo Oriente. Demonstrava que o dinheiro sem origem lícita, fruto do caixa 2, da corrupção pública e privada,  movimentava US$ 6 trilhões.

Continuou lutando. Seu livro seguinte, “Os Senhores do Crime”, é obra irretocável sobre a delinquência dos poderosos do mundo. Quando a Confederação Helvética cassou sua imunidade parlamentar, o governo suíço chegou a patrocinar emenda constitucional para que “o segredo bancário seja inscrito e garantido pela Constituição Federal”. A repercussão do livro “A Suíça Lava Mais Branco” foi tal que a iniciativa não teve êxito.

Mas a roda da historia rola para a frente. Neste  2015, o governo da Suíça e sua estrutura jurídica tornaram-se aliados no combate à lavagem do “dinheiro sujo” no mundo. A radical mudança do governo suíço teve como fator determinante a luta solitária do parlamentar e intelectual talentoso, dono de coragem e destemor invulgar.Processado pelos poderosos, cassado pelo parlamento, continuou a lutar e ao final foi o grande vitorioso.

Meu amigo o bravo professor e escritor baiano Helio Duque, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná, tem razão :

– “A luta do valente suíço deveria servir de exemplo para muitos homens públicos brasileiros. Às vezes uma andorinha só faz verão”.

A BAHIA NO SUPREMO

Desde Rui Barbosa, eleito pelo Conselho da Liga das Nações para a Corte Permanente de Justiça Internacional, em Haia, na Holanda, a Bahia  é sinônimo de Direito, Justiça e Lei, Sempre esteve presente no Supremo Tribunal.Os últimos foram Amarílio Benjamin, Adalício Nogueira, Hermes Lima, Aliomar Baleeiro, Ilmar Galvão. Agora, toda a Bahia se une para ver no Supremo seu mais ilustre jurista de hoje, o professor Augusto Aras.

É uma bela e grandiosa biografia: mestre e doutor em Direito, subprocurador-geral da Republica com assento no STJ, professor das Faculdades de Direito das Universidades Federais de Brasília e da Bahia, membro da Comissão de Juristas do Ministério da Justiça, Procurador da Fazenda, vários livros de Direito publicados, sobretudo de Direito Eleitoral,

Tem currículo, tem sabedoria e tem nome de ministro.

Apagão do governo

Sebastião Nery

Major Irineu de Princesa Isabel, na Paraíba, rico, pão duro e ateu, não dava um tostão para a igreja. A mulher pedia, o padre pedia, nada. Uma noite chegaram aflitos dois empregados:

– Coronel, o açude está subindo. A água já está no respaldo.

Major Irineu começou a andar de um lado para outro. Água no respaldo era açude em perigo. E se o açude rompesse, a fazenda estava inundada. A mulher pedia:

– Velho, vá ao Santuário, leve o óbolo e faça uma promessa. Precisamos salvar o açude.

E ele andando. E novos emissários chegando. E a água já em cima. Major Irineu entrou no quarto, abriu o nicho, pegou as imagens dos santos, enrolou todos em um cobertor, selou o cavalo, montou, tocou para o açude. Na barragem, de metro em metro pôs um santo:

– Rapaziada, vocês mesmos é que sabem aonde querem ir.

A água baixou.

DILMA

Dilma nem santo tem para pendurar no açude. É o maior desastre de governo que já se viu no pais. Os generais ditadores eram impostos, enfiados garganta abaixo da Nação. Mas Dilma nem esta desculpa tem: foi eleita pelo povo. Na base da mais sórdida violência oficial e da mais deslavada corrupção, mas foi votada, escolhida. Ganhou.

Agora, já indisfarçadamente arrependido, o povo chia, se queixa, reclama. É tarde. Golpe não. A não ser uma CPI e um “impeachment” bem alicerçados na Constituição (e o “petrolão” já dá razões de sobra para isso), temos que esperar 2018. Democracia é assim: ensina até no meio do lodo.

A imprensa é e tem que ser a foto do abismo de um pais falido: crescimento zero, inflação já mais de 7, juros mais de 12, indústria demitindo de norte a sul, inclusive o protegido automobilismo, dívida publica de 2 trilhões e 300 bilhões, rombo de 32 bilhões, maior da historia.

Apagão de luz, apagão de água, apagão da saúde, apagão da educação, mas desgraça mesmo é o apagão de Governo. É Dilma Roscofe.

O PISTOLEIRO

Um livro exemplar e oportuno: ““João Santana: Um Marqueteiro no Poder””, de Luiz Maklouf (Editora Record). É o retrato não de um coronel, mas de um pistoleiro. No Colégio da Bahia, em Salvador, Santana era chamado de “Tio Patinhas” : doido por dinheiro. Continuou e piorou.

No Globo de 23 de janeiro está ele lá, ao lado da Dilma, com seus olhos fluidos, agredindo desrespeitosamente Duda Mendonça, seu ex-sócio:

– “O Duda é a bicha mais invejosa que tem”. E mais -“O pensamento de que quem bate perde eleição é falso. Perde é quem não sabe bater. A política é ao mesmo tempo a sublimação e o exercício da violência”.

Não é um marqueteiro, é um pistoleiro.

Os cães da Bahia

Ulysses e Tancredo enfrentaram os cães da ditadura

Sebastião Nery

SALVADOR – Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita  da direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao MDB que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal, disse Ulysses. – A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

ULYSSES

Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um campo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

– Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo Filho, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos,  um oficial gritou:

–Parem! Parem! Ninguém passa!

O COMÍCIO

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

Meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo todo foi em frente. Três imensos cães negros saltam sobre Ulysses. Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um. Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta do partido, entramos aos tombos e solavancos.

Ulysses chega à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E seus cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado: 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.

O LIVRO

Livro é como banana na feira. Se o feirante não anuncia o freguês não compra. Continuo minha maratona nacional de lançamento de meu último livro, “NINGUÉM ME CONTOU EU VI – De Getúlio a Dilma” (Geração Editorial – São Paulo).

Cada semana uma capital. Na semana passada foi no Recife. Ontem, terça-feira, aqui em minha Salvador, na Livraria Cultura (Salvador Shopping). Uma onda de autógrafos.

PETROLÃO

Quem duvidava que a Procuradoria Geral da República e a Justiça Brasileira fossem cumprir seu dever e explodir o escândalo da Petrobrás enganou-se. O juiz Moro do Paraná e o ministro Teori do Supremo estão escrevendo uma nova e magnífica página na história do pais.

FÉRIAS

Como todo ano, desde 1952, quando entrei pela primeira vez em um jornal, janeiro é férias, férias é na Bahia e Bahia é Jaguaquara.

Volto em fevereiro.