Histórias pernambucanas, de Julião a Arraes

Sebastião Nery

RECIFE – Vim a Recife quase com Mauricio de Nassau. Em 1954, já lá se vão 60 anos, estava eu por aqui ajudando a organizar nossas tropas da esquerda para o congresso da UNE (União Nacional dos Estudantes). E nunca mais passei um ano sem voltar e sem gostar. Pernambuco e política são sinônimos. Esta a sua principal lição.

JULIÃO

Francisco Julião me roubou a China. Acabado o Festival Mundial da Juventude pela Paz e Contra a Guerra, em Moscou, em 1957, cada um foi tomando o rumo de casa. Muitos, como eu, sairíamos de lá para visitar outros países ligados à União Soviética. A indicação evidentemente era das direções da Juventude Comunista e do Partido Comunista do Brasil.

Consultado, preferi a China. Era tão mais distante quanto mais misteriosa e Mao Tse Tung uma estátua ambulante do século XX.

Tudo certo, iríamos um pequeno grupo de brasileiros. Mas meu amigo Francisco Julião, sem saber de nada, atrapalhou tudo.   Fundador das Ligas Camponesas, deputado estadual de Pernambuco pelo nosso PSB (Partido Socialista Brasileiro) em que eu me elegera vereador em Belo Horizonte, apareceu em Moscou à frente de uma delegação de 22 deputados estaduais pernambucanos e pediu ao PCB, que decidia com os russos as coisas do Brasil, para irem a Pequim.

O argumento era irreplicável: os jovens companheiros deveríamos dar o lugar aos deputados, porque sempre teríamos outra oportunidade. E lá foram eles e não fomos nós. Mas haveria compensações. A minha estava na minha ficha: – “estudante, jornalista, professor”.

EM MOSCOU

Em vez de ir à China, iria passar meses participando de programas de radio e de debates sobre o Brasil e a juventude brasileira na Universidade da Amizade dos Povos e entre estudantes e operários de Moscou. E depois, em Leningrado e Stalingrado. E Varsóvia, Praga, Budapeste e Berlim, o mundo mítico do comunismo mundial.

Fui a todos. Deixei a China para quando ela se vestia de azul.

CID SAMPAIO

Em Pernambuco, em 1958, encontrei o rastro luminoso de João Doria, o criador do marketing político brasileiro, pai do talentoso João Dória Júnior e “avô” do nosso hoje imbatível Duda Mendonça.

João Doria havia assumido a propaganda das “Oposições Unidas de Pernambuco”, em torno da renovadora candidatura do industrial Cid Sampaio, da UDN, e concunhado de Miguel Arraes, depois secretário da Fazenda do governo de Cid.

O adversário de Cid era o respeitado professor, ex-deputado e senador Jarbas Maranhão, do PSD. Doria criou nas rádios uma devastadora campanha contra ele. Às seis da manhã, um relógio despertava, o locutor chamava: -“Acorda, Jarbas! Cid já acordou!”

Às sete horas, de novo o despertador tocando e o locutor :

– “Acorda, Jarbas! Cid já acordou”!

E assim às oito, às nove, às dez, às onze. Às doze, afinal : – “Jarbas acordou! Muito bem, Jarbas! Mas agora é tarde demais. Cid já ganhou”.

E ganhou mesmo. Em 1960, Cid me disse que ele e a UDN de Pernambuco iriam votar em Juracy Magalhães, mas achava muito difícil a UDN resistir à avalanche da aliança de Janio com Lacerda. E não resistiu.

ARRAES

A história é a crônica do novo contra o velho. Cristo construiu a mais eterna das instituições aos 30 anos. Maomé, aos 40, era o guia de seu povo. Buda, aos 29, estava nas montanhas mudando a cabeça do Oriente. Lênin, aos 30, era o principal criador do partido que ia mudar a história do século. Napoleão, aos 27, presidia o “Diretório” e comandava a França. Bolívar, aos 24, já havia libertado 4 países e voltava herói à Venezuela, em carro aberto puxado por dez virgens. Churchill, aos 40, carregava a Inglaterra na cinza de seu charuto. Mitterrand, aos 29, ajudava Charles de Gaulle a reconstruir a França libertada.

No dia 13 de maio de 1989, Waldir Pires deixou o governo da Bahia para ser candidato a vice-presidente na chapa de Ulysses Guimarães. Depois da transmissão do cargo ao vice-governador Nilo Coelho, houve almoço. Dirigentes do PMDB de quase todos os Estados foram saindo para pegar seus aviões de volta. Ficamos, numa mesa, tomando um conhaque, Waldir, os governadores Miguel Arraes de Pernambuco e Pedro Simon do Rio Grande do Sul, e eu.

Arraes, fumando seu charuto cubano, com seu ar de professor marxista, estava impressionado com a penetração de Fernando Collor no Brasil e em Pernambuco:

– Os prefeitos e vereadores chegam do sertão de Pernambuco me dizendo que o povo quer votar no “caçador de marajás” de Alagoas. É um fenômeno político que precisa ser decifrado.

Waldir e Pedro Simon em silêncio. Arraes não conversava, falava. Fiquei ouvindo aquilo sem saber se vinha da crispada boca sertaneja de Arraes ou da fumaça de seu charuto.

Vinha era de sua continuada e indestrutível sabedoria.

O juiz Moro italiano

Di Pietro conduziu a operação “Mãos Limpas” na Itália

Sebastião Nery

O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 1991. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata.  Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim, pobre marquês, Adido Cultural.

Íamos aos mais discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma.

Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava. Dele eu sabia que era conde da Santa Sé, “gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Banco Ambrosiano do Vaticano, diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984, apresentado pelo jornalista  José Nêumanne Pinto, do “Estadão”.

PASSAPORTE

O que ele queria de mim? Queria o Brasil. Queria que eu convencesse o embaixador Carlos Alberto Leite Barbosa a convencer o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois também tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Impossível. Quem tomou o passaporte foi o governo italiano. O Brasil nada tinha com aquilo. Mas ele achava que, insistindo, talvez conseguisse. Queria fugir de novo. Ou não tinha companhia melhor para sua conversa admirável sobre a política italiana e seus magníficos vinhos? Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da Bulgari:

– Desta sala saíram sete primeiros-ministros: Andreotti, Craxi etc.

O conde é uma historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando, como ele, um banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele cardeal Marcinkus  foragido nos Estados Unidos.

MÃOS LIMPAS

No comando da “Operação Mãos Limpas” havia o juiz Di Pietro, Sergio Moro de lá. Quando, a partir de 1991, a  “Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia:

– Isso não vai acabar bem.

Depende o que é acabar bem. Em 17 de fevereiro de 1992, o bravo juiz Di Pietro prendeu em Milão Mario Chiesa, diretor de uma instituição filantrópica e pública, dando inicio à “Operação Mãos Limpas” (“Mani Pulite”). Chiesa aceitou fazer uma “delação premiada”, alegando que “tutti rubiamo cosi” (”todos roubamos assim”). Houve suicídios, assassinatos. Foram 2993 mandados de prisão, 6.059 pessoas sob investigação, mais de 3 mil suspeitos e milhões de liras descobertas como propina e suborno.

O centro do problema é que há muito a Máfia assumira o comando da política: da política, do governo e do Estado italianos. Os três maiores partidos explodiram:a Democracia Cristã de Andreotti,  o Partido Socialista de Betino Craxi e o Partido Comunista de D’Alema. Todos devastados. Políticos foram para a cadeia, cardeais fugiram, diretores de jornais sumiram, meu amigo Conde pegou 20 anos de prisão, morreu com 90 anos.

PRIETO E MORO

A história às vezes demora de acontecer, à espera de que apareçam homens à altura do instante. Sempre há diferenças de tamanho e violência. A Máfia é muito mais violenta do que o PT, embora ambos matem pelo poder – lembrai-vos de Santo André. Na Itália o juiz Falcone, no Brasil o prefeito Celso Daniel.

São grandes as semelhanças entre as “Mãos Limpas” de Di Prietro na Itália e a “Lava-Jato” de Sergio Moro aqui no Brasil.  Prietro estudou no interior (no Seminário), formou-se em Direito por uma Faculdade do interior e aos 42 anos assumiu sua primeira grande causa, como Sergio Moro também se formou em Direito por uma Faculdade de Umuarama, no Paraná, e apareceu exatamente aos 42 anos. A historia consagrou Di Prieto. De sua valentia e sua luta nasceu uma nova Itália. Será que da Operação Lava-Jato surgirá um novo Brasil?

MEU LIVRO

Quarta-feira, 10, a partir das 19 horas, estarei no Clube Português no Recife (Av. Conselheiro Rosa e Silva, 172, Graças), lançando meu último livro “Ninguém me Contou Eu vi – De Getúlio a Dilma” (Geração Editorial SP), com o patrocínio do glorioso “Diário de Pernambuco” (dois séculos).

www.sebastiaonery.com   nerysebastiao@gmail.com

Lembranças de Juscelino, segundo Murilo Melo Filho

Três dias antes de morrer, Juscelino viera de sua fazendinha em Luziânia e pernoitara no apartamento do primo Carlos Murilo, em Brasília. Estava triste e deprimido por tantas injustiças e perseguições, e fez a esse seu primo a seguinte confissão que, autorizado por ele, agora, pela primeira vez, vou revelar:

-Meu tempo, aqui na terra, está acabado. Tenho o quê, de vida? Mais dois, três ou cinco anos? O que eu mais quero agora é morrer. Não tenho mais idade para esperar. Meu único desejo era ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Mas isso vai demorar muito e eu quero ir embora.

Estava sem dinheiro e tomou 10 mil cruzeiros emprestados. Tendo Ulysses Guimarães e Franco Montoro como companheiros de voo, viajou para São Paulo e desceu em Guarulhos, porque o aeroporto de Congonhas estava fechado. Ficou hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo.

No dia seguinte, JK despediu-se de Adolfo Bloch, que depois revelava:

-Ele deu-me um abraço tão forte e tão prolongado que parecia estar adivinhando ser aquele o nosso ultimo encontro. E chegou a mostrar-me o bilhete da Vasp, como prova da sua viagem, naquela noitinha, para Brasília.

E morreu dormindo. Mas, desde a véspera, havia telefonado para seu fiel motorista, Geraldo Ribeiro, pedindo-lhe que fosse a São Paulo buscá-lo de carro, e marcando um encontro no posto de gasolina, quilômetro 2 da Dutra.

Pergunta-se hoje: por que Juscelino estava despistando e escondendo a sua real intenção de não ir para Brasília e sim de retornar ao Rio? Não queria que dona Sarah soubesse?  Seria algum encontro amoroso?

E era.

Esta é uma das muitas, numerosas historias contadas pelo veterano jornalista e acadêmico Murilo Melo Filho (nasceu em Natal, com a revolução de 30), com mais de meio século de redações, em seu livro “Tempo Diferente” (primorosa edição da Topbooks) sobre 20 personalidades da política, da literatura e do jornalismo brasileiro.

HISTÓRIAS REAIS

-Aqui estão contadas histórias reais e verazes, acontecidas com tantos homens importantes no universo literário e político do pais, que viveram num tempo diferente: Getúlio, JK, Jânio, Café Filho, Lacerda, Chateaubriand, Tristão de Athayde, Augusto Frederico Schmidt, Carlos Drummond de Andrade, Celso Furtado, Evandro Lins, Austregésilo de Athayde, Guimarães Rosa, Jorge Amado, José Lins do rego, Rachel de Queiroz, Raimundo Faoro, Roberto Marinho, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende.

É bom relembrar outras historias contadas pelo depoimento de testemunha de Murilo, no capitulo “JK, do Seminarista ao Estadista”.

-Eu era então (em 56) chefe da seção política da “Tribuna da Imprensa”, jornal de oposição, dirigido por Carlos Lacerda, que movia feroz campanha contra JK. Apesar disso, Juscelino sempre me distinguiu com especial atenção e, na sua segunda viagem a Brasília, me convidou para acompanhá-lo.

Saímos do Rio num Convair da Aerovias-Brasil e aterrissamos numa pista improvisada, perto do Catetinho, que tinha sido inaugurado no dia 1o de novembro. Às quatro horas da madrugada do dia seguinte, ainda noite escura, JK já estava de paletó esporte, camisa de gola rolê, chapéu de aba larga, botinas e um rebenque, batendo à porta de nossos quartos, e convidando-nos para irmos com ele visitar as obras de Brasília, naquele imenso descampado:

-Aqui será o Senado, ao lado da Câmara, mais adiante os Ministérios. No outro lado, o Supremo e o palácio do Planalto, onde irei despachar.

-Naquela nossa primeira noite em Brasília, após um dia de calor escaldante, os engenheiros estavam na varanda do Catetinho, em torno de uma garrafa de uísque, que era bebido ao natural, isto é, quente, porque em Brasília não havia ainda energia elétrica e, portanto, não havia gelo, que era artigo de luxo. Juscelino, presente, comentou:

-Vocês sabem que eu não gosto de uísque. Mas que uma pedrinha de gelo, aí nos copos, seria muito bom, seria.

Nem bem ele acabou de pronunciar essas palavras, o céu se enfaruscou e uma chuva de granizo despencou sobre aquele planalto, levando os boêmios candangos a aparar as pedras, jogar nos copos e tomar uísque com gelo.

Era o primeiro milagre de Brasília.

BILHETE DE ADOLFO BLOCH

E este bilhete de Adolfo Bloch a Murilo, já na “Manchete” em Brasília:

-Murilo, ai vai esta lancha para você fazer relações publicas no lago de Brasília. Não faça economia em relações publicas. Nós, os judeus, perdemos o Cristo por falta de relações publicas. E fizemos um mau negócio, porque um homem como aquele não se perde.

O presidente do “Clube”

Sebastião Nery

Abreu Sodré estava deixando o governo de São Paulo, em 1970, e o general  Medici articulava a escolha dos novos governadores. Mandou pelos Estados, numa sondagem prévia, o presidente da Arena, Rondon Pacheco, carregando uma pasta cheia de papéis em branco, com aquele ar e aquela gorda palidez de comissário do povo. Uma tarde, Abreu Sodré entrou no Palácio do Planalto para uma conversa com Médici:

– Presidente, sei que o governador será escolhido pelo senhor. Trago-lhe, como colaboração, essa lista dos 15 nomes lembrados em São Paulo.

E começou a ler a lista. Medici o interrompeu:

– Governador. Agradeço-lhe a colaboração. Vou estudar depois.

– Presidente, desejava dizer-lhe apenas uma coisa. Não tenho candidato. Mas, desses 15, há dois nomes que eu não poderia aceitar, porque são adversários e romperam relações comigo: o deputado Herbert Levy, que foi meu secretário de Agricultura e saiu brigado comigo, e o ex-governador Laudo Natel, que me hostiliza desde o primeiro dia de governo.

Sodré voltou para São Paulo e no dia seguinte me dizia, no palácio: –  Sei que nesta cadeira pode não sentar-se quem eu quero. Mas sei também que não se sentará quem eu não quero.

Dias depois, Brasília anunciava o novo governador: Laudo Natel.

LULA

Anos depois, eu voltava ao palácio Bandeirantes. Atrás de uma mesa quadrada e amarela, sentado numa cadeira com cara de trono, o governador Paulo Egídio apontou-me o retrato de Rodrigues Alves, ex-governador de São Paulo e ex-presidente da Republica, bem à sua frente:

– Está ali Rodrigues Alves. A cadeira não é mais a mesma, mas a mesa é. Ele dizia: “Quem tem força não sou eu. É esta cadeira”.

Contei-lhe que anos atrás o governador Abreu Sodré me dissera a mesma coisa: que podia não fazer o sucessor que queria, mas naquela cadeira não se sentaria quem ele não quisesse. Meses depois, estava sentado ali o governador Laudo Natel, adversário e inimigo pessoal de Sodré.

Lula dizia que Dilma podia escolher quem quisesse , “menos um economista neoliberal, gente ligada ao PSDB e ao Aécio”. Deu no Levy.

DILMA

O empresário Ricardo Pessoa, presidente da empreiteira UPC e do “Clube” do cartel das 13 empresas, que o professor Helio Duque chama de “Clube da Roubança”, ainda hoje preso na Policia Federal, confessou :

– “Só tenho um amigo no governo, o Lula”

É por isso que de repente Lula sumiu. Ele está sentindo a batata assando perto dele. As “delações premiadas” continuam, cada dia mais numerosas e mais reveladoras. O Ministério Publico já começou a encaminhar ao Supremo Tribunal Federal, que é o relator da ação, as confissões, denúncias e provas de crimes  de políticos ou onde os políticos são citadas ou denunciados. Um paiol de escândalos. Lula e Dilma já ardem.

O doleiro confessou que Lula e Dilma sabiam de tudo. E é evidente que sabiam. Com tantos milhões de dólares escorrendo por cima e por baixo das mesas e gavetas deles, seria impensável não saberem de nada.

Quando deixou o Governo, Lula saiu pelo mundo, em jatinhos dos empreiteiros, financiado pelos empreiteiros, fingindo que estava fazendo “conferências lá fora” (logo ele que mal e tropegamente fala o  português), mas na verdade fazendo lobby para os empreiteiros, patrões do “Clube”.

GANDULA

Carlos Alberto di Franco, intelectual respeitado, doutor pela Universidade de Navarra, na Espanha, e diretor do IICS (Instituto Internacional de Ciencias Sociais) escandaliza-se com o cinismo deles:

1- “Os pronunciamentos da presidente só podem ter duas explicações : cinismo ou preocupante desligamento da realidade. A presidente não é uma espectadora passiva. O escândalo permeou os mandatos de Lula e estourou com força no atual governo. Dilma foi ministra de Minas e Energia, chefe da Casa Civil e presidente do Conselho da Administração da Petrobrás no governo Lula. Não pode fazer de conta que está em outro planeta. Ela está, queira ou não, no olho do furacão”.

2. – “Dois recentes editoriais do “Estado de S. Paulo” (“Lula e Dilma Sempre Souberam” e Crime de Responsabilidade”) mostram com total clareza o que parcela significativa da sociedade já intuía : Lula e Dilma são responsáveis pelo descalabro da Petrobrás. Diante do esquema de corrupção armado para carrear recursos para o PT e seus aliados, não surpreende que os dois presidentes soubessem o que estava ocorrendo”.

Lula é o presidente do “Clube”. Dilma, a gandula.

Com Dilma e o PT, o Brasil no fundo do poço

Sebastião Nery

Nos fins de 1963, os jornalistas Murilo Marroquim e Benedito Coutinho, então os dois mais antigos repórteres políticos de Brasília, foram chamados à Granja do Torto, uma das residências oficiais do Presidente. João Goulart os esperava à beira da piscina, sozinho.Serviu uísque aos dois:

– Vocês já estiveram na Rússia?

Murilo já, Benedito não.

– Pois se preparem que brevemente iremos a Moscou. Isso é inteiramente confidencial. Só sabem disso eu, o embaixador soviético e, agora, vocês.Vamos construir a hidrelétrica de Sete Quedas (Itaipu).

– Com que recursos, presidente?

– São 12 milhões de quilowatts. Técnicos brasileiros e soviéticos. Três planos quinquenais. Financiamento russo a juros mínimos. Grandes exportações de produtos agrícolas brasileiros para a União Soviética, para facilitar o pagamento. Só os russos têm hoje turbinas para o porte de Sete Quedas. A energia ociosa do Paraguai será comprada por nós. O embaixador soviético me disse que eles não têm interesse em disputar o mercado ocidental. Interessam-lhe obras como a de Assuan, no Egito.

JANGO

Os dois ouviam espantados, Jango sorriu:

– Vocês não acreditam? Tem mais. O plano global inclui a ligação do Amazonas ao Prata. Vamos realizar o velho sonho brasileiro.

Murilo Marroquim interrompeu:

– O plano é maravilhoso, mas o senhor não vai executar. A Rússia não fará uma Assuan na América Latina. Os americanos não vão deixar.

– Somos um país livre, independente. Contarei com as Forças Armadas para resistir a qualquer pressão externa, e com o povo. Vou fazer.

Três meses depois João Goulart era derrubado pelo golpe militar de 1964 a serviço dos Estados Unidos. Itaipu foi feita com dinheiro americano a preços absurdos e juros máximos. Meio século depois, a presidente Dilma confessa que a dívida pública explodiu e o Brasil chegou ao fundo do poço.

GABEIRA

No começo deste ano o ministro Guido Mantega anunciava que o “superávit primário” (poupança para pagar juros da divida)  seria de R$ 99 bilhões. Ocorreu o contrário. Até outubro havia um “déficit” de R$ 15,3 bilhões e só há R$10 bi para os juros da divida. A lei de Responsabilidade Fiscal foi rasgada. Nesse ano eleitoral as despesas cresceram 7,2%.

A “Folha de S. Paulo “ denunciou na primeira pagina de domingo :

– “Rombo de R$100 Bilhões Desafiará Novos Ministros”.

Até o sereno e sábio Fernando Gabeira está assustado no “Globo”:

– Será preciso muita humildade para sobreviver. E isso não é forte de quem quer dobrar a aritmética nas contas publicas, esconde o salto de 122% do desmatamento das Amazônia e põe para baixo do tapete números da redução da miséria. Para preservar o emprego, dizia Dilma. E 30.283 pessoas perderam seus empregos no mês em que ela se reelegeu”.

FGV E BC

Este é o governo Dilma :

1) crescimento econômico em 2014, zero;

2) investimento nas atividades produtivas em queda crescente;

3) consumidores com  endividamentos angustiantes;

4) perda de competitividade no comércio externo;

5) dívida pública em crescimento cavalar;

6) inflação aumentando e ultrapassando a meta no seu teto máximo;

7) bancos públicos com “creditos podres” para “amigos do poder”.

A economista Silvia Matos, da Fundação Getúlio Vargas, já prevê:

– “O crescimento em 2015 será fraco, perto de 1%. Depois de um ano de crescimento zero, é muito pouco”.

Ex-diretor do Banco Central no governo Lula, o economista Alexandre Schwartsman (“Folha” de (5/11/2014) afirma:

– “O tamanho do ajuste fiscal requerido para pôr a casa em ordem é  sem precedentes. É inviável atingir tal melhora em apenas um ano. Trata-se de um programa de ajuste para ser realizado em três anos, contra o pano de fundo de uma administração que não só se mostrou incapaz de atingir suas metas mas também deliberadamente produziu a maior deterioração fiscal de que se tem notícia no país nos últimos 20 anos”.

Dilma e o PT jogaram o Brasil no fundo do poço.

O escândalo tem nome. Chama-se Dilma.

Sebastião Nery

Severo Gomes, industrial, ministro da Agricultura  no governo Castelo Branco e da Industria e Comercio no governo Geisel, senador por São Paulo, culto e patriota, chegou a Tutóia, pequeno porto do Parnaíba, no Piauí. Entrou no bar miúdo, ponta de rua. Na cabeceira da mesa, cabelos grisalhos, olhos esfuziantes, paletó e gravata, o velho professor do grupo escolar contava histórias de muito longe:

– Alexandre, o grande Alexandre, o maior dos generais da antiguidade, filho de Felipe da Macedônia, nas batalhas era uma águia, depois das batalhas um deus, bom e clemente. Um dia, ao fim de um combate terrível, foi visitar os prisioneiros e encontrou os generais do exército inimigo de joelhos, prontos para serem degolados. Um se levanta:

– Grande Alexandre, vamos morrer. Mas nossa morte será a maior das vitórias. Porque não há maior glória do que ter a cabeça cortada pela espada do grande Alexandre.

Alexandre olhou para o alto, como um deus:

– Levantem-se! Homens dessa bravura não podem morrer.

O bar estava calado, embriagado nos lábios do velho professor, que se ergueu, foi saindo devagar e já lá da rua encerrou a história:

– E o grande Alexandre levou todos para a sua Casa Civil.

DILMA

Pronto. A solução está ai. Vem lá de Tutóia, no Piauí.  Dilma já pode resolver o insolúvel problema de como compor os 40 ministérios de seu novo governo, quando ela não conseguiu até agora nomear sequer o novo ministro da Fazenda, para substituir Mantega, o ex-futuro-quem sabe.

Dilma pode pedir ao bravo e lúcido juiz Sergio Moro, do Paraná, a lista de seus convidados para a cadeia da Policia Federal de Curitiba e leva-los todos para sua Casa Civil, como fez o grande Alexandre da Macedônia.

Eles vão sentir-se em casa. Todos a conhecem muito bem, desde 2003, no primeiro governo de Lula, quando ela foi ser ministra de Minas e Energia, pôs a Petrobrás embaixo do braço, levou para casa e não devolveu.

BAHIA

Em 3 de outubro de 1963 a Petrobrás fazia 10 anos. Em Salvador, uma iluminada torre de petróleo foi erguida na praça do Campo Grande, em frente ao Teatro Castro Alves, onde se realizou um comício para milhares e milhares de pessoas, com a presença dos governadores da Bahia Lomanto Junior, de Pernambuco Miguel Arraes e de Sergipe Seixas Doria.

Também no palanque Waldir Pires, Consultor Geral da Republica, deputados federais Fernando Santana, Henrique Lima Santos e Mario Lima, deputados estaduais Enio Mendes, Newton Valença e eu. Seis meses depois, com a única exceção do governador Lomanto da Bahia, fomos todos cassados pelo raivoso, histérico e americano golpe militar de 1964.

PETROBRÁS

A Petrobrás tinha acabado de ter grandes presidentes, patriotas e honrados: o deputado amazonense Janary Nunes (governo JK), o gaúcho general Idalio Sardenberg (governo JK) e os baianos Geonisio Barroso (governo Janio Quadros) e Francisco Mangabeira (governo João Goulart). Os militares mantiveram o padrão e Ernesto Geisel presidiu a Petrobrás.

Não havia o ministério de Minas e Energia. Era o Conselho Nacional do Petróleo, presidido no governo Janio por Josafá Marinho. Para presidir o Conselho de Administração da Petrobrás, Janio criou o ministério de Minas e Energia, cujo primeiro titular foi o ministro paraibano João Agripino.

JK

No governo Juscelino (1956-1961) o general Idalio Sardenberg comandou um grande salto da Petrobrás: novas unidades das refinarias Landulfo Alves na Bahia e Duque de Caxias no Rio, o terminal e oleoduto da Ilha D’água no Rio, o terminal Madre de Deus na Bahia, a fabrica de Borracha Sintética em Duque de Caxias, dobrou a capacidade da refinaria de Cubatão em São Paulo e a produção total de petróleo passou de 60 mil barris/dia em 59 para 72 mil em 60 e o refino foi a 300 mil barris diários.

Tudo isso e nunca se ouviu falar em escândalo. Veio o primeiro governo Lula e Dilma caiu em cima da Petrobrás como uma ave de rapina. Saiu das Minas e Energia para a Casa Civil e levou a Petrobrás com ela, para ela, continuando como presidente do Conselho de Administração. Esse escândalo de agora, o maior da historia do pais, tem nome: Dilma.

Tempos de Jânio Quadros

Para onde vamos, Jânio Quadros?

Sebastião Nery

RIO – Em 1968, nos turvos dias entre a passeata dos 100 mil no Rio e o AI-5, Jânio Quadros, cassado e longe de qualquer atividade política (ficou fora até da Frente Ampla de Juscelino e Lacerda) pediu ao deputado estadual Fernando Perrone, do MDB de São Paulo, um encontro com a esquerda. Queria conversar mais para saber melhor.Perrone, líder estudantil ligado ao Partido Comunista, inteligente e atuante, tinha amigos nos vários grupos da esquerda que começavam a se preparar para a luta armada.

Na primavera e invasão de Praga pelos tanques soviéticos. Perrone tinha estado lá e fez um belo livro-depoimento. Depois do AI-5, foi para Paris, onde seu apartamento era uma embaixada da esquerda paulista exilada: Aloysio Nunes Ferreira, José Aníbal, Itobi, tantos outros.

PERRONE

O encontro com Jânio, Perrone não quis fazer na casa dele porque muitos já estavam na clandestinidade. Arranjou a suíte do Hotel Comodoro, no centro, na Duque de Caxias. Jânio e Perrone, legais, chegaram primeiro. Os outros foram entrando, um a um, separadamente, cheios de cuidados.

Um deles, já na legalidade, estava se separando litigiosamente da mulher, que contratou dois detetives, de máquina fotográfica em punho, para pegá-lo em flagrante de adultério. A mulher, dentro do carro, viu o marido chegar sozinho. Os detetives subiram atrás e tocaram a campainha.

Como ainda faltava um, Perrone abriu naturalmente a porta. Os flashs das máquinas começaram a pipocar e os detetives entrando gritando:

– Cadê a mulher? Cadê a mulher?

Não havia mulher nenhuma. Foi uma correria louca, todo mundo saindo aos empurrões, escada abaixo. Perrone ficou com Jânio, que, sentado a um canto, com seu uísque na mão, arregalava os olhos e interrogava os detetives:

– Se-nho-res, o que é is-so? Não es-tou en-ten-den-do!

Eles também não.

A “base aliada” de Dilma está como Janio : sem entender nada. Quanto menos senadores e deputados elegeu, mais o PT quer impor.

LULA

Outra historia. Jânio era governador de São Paulo em 1955 e apoiava a candidatura de Juarez Távora (UDN) a presidente da República, contra Juscelino (PSD-PTB) e Ademar (PSP). Lacerda reclamou que a campanha de Juarez em São Paulo estava fraca. Jânio fez uma grande reunião com secretarias, presidentes de empresas estatais, empresários e banqueiros:

– Como sabem os senhores, o general não pode perder em São Paulo. Seria o fim de minha vida publica. Vamos mobilizar apoios, recursos, muitos recursos. Temos que conseguir imediatamente umas 140 “peruas”.

Entra na sala o deputado Fauze Carlos, amigo de Jânio, e lhe mostra a última pesquisa nacional, com Juarez na frente. Jânio disse a Fauze:

– Va-mos pa-rar, meu ca-ro, se-não o ho-mem ga-nha!

A sala ouviu, não entendeu nada, sobretudo quando ele encerrou a reunião. Jânio queria que Juarez ganhasse em São Paulo, mas não demais, para não ganhar no País, porque ele já era candidato a presidente em 1960 e preferia disputar na oposição, como sempre fez quando ganhou.

Juarez ganhou em São Paulo, Ademar no Rio e Juscelino no País. Como Jânio queria, já pensando em 1960.

Lula é o Janio de agora. Vai ficar o tempo inteiro de olho em Dilma. Não quer que ela faça um bom governo porque isso pode atrapalhar seus planos. Lula acha que quanto mais o pais estiver em dificuldades mais espaços haverá entre “o povão” para uma candidatura dele em 2018.

CAMARA E SENADO

Está tudo errado. Estão pisando na Constituição e chutando para debaixo da mesa. O presidente da Câmara Federal, deputado Henrique Eduardo, foi “chamado”, “convocado” pelo ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante para uma reunião no palácio do Planalto.E foi.

Ora, o presidente da Câmara é o terceiro homem na liturgia da Republica. Acima dele só a Presidente e o vice-presidente. Quem tinha que chamar, convocar, era ele. E o ministro da Casa Civil, se queria reunir-se com ele, é quem tinha que ir à Câmara. É assim nas democracias.

A “Folha”: “A expectativa é de que o presidente do Senado, Renan Calheiros, seja chamado (!) para uma conversa com o ministro Berzoini”.

O presidente do Senado é o chefe do Poder Legislativo. Como pode ser “chamado” por um ministreco qualquer? O ministro é que tem que ir.

O professor de grego e a corrupção

Sebastião Nery

RIO – Faustino de Albuquerque era Promotor no interior do Ceará.  Um amigo deu-lhe o filho para batizar e ainda pôs o nome dele no menino. Depois, Faustino foi juiz, desembargador, presidente do Tribunal de Justiça e acabou governador. Uma tarde, entra no palácio o afilhado Faustino de Albuquerque Silva com uma carta do compadre pedindo um emprego para o filho. Não havia vagas. A muito custo, o governador descobriu uma de professor de grego. Nomeou Faustino de Albuquerque Silva.

– Mas, padrinho, eu não sei grego.

– Não precisa saber, porque não há aluno de grego. Vá embora e não me crie problemas.

Todo fim de mês, Faustino de Albuquerque Silva passava no Liceu, recebia seu ordenado de professor de grego. Até que apareceu um ex-seminarista muito piedoso, muito estudioso, querendo estudar grego. O afilhado correu ao palácio:

– Padrinho, me demita que apareceu um aluno de grego.

– Vá embora e não me crie problemas.

No fim do mês, Faustino de Albuquerque Silva foi ao Liceu receber o ordenado, procurou o diretor:

– Onde está o ex-seminarista que queria estudar grego?

– Não sei. Aconteceu uma coisa horrível com ele. Era tão bonzinho, tão piedoso, tão estudioso, andava na biblioteca estudando, veio a polícia, levou. E nunca mais ele apareceu.

FAZENDA E JUSTIÇA

O primeiro ministro da Fazenda do Brasil era corrupto. O primeiro ministro da Justiça do Brasil era corrupto. O governador–geral Tomé de Souza, nomeado pelo rei de Portugal, desembarcou em Salvador em 1549, instalando a primeira capital do Brasil. Os dois principais colaboradores do nascente poder colonial eram fidalgos portugueses com prestígio na corte de Lisboa. O primeiro, Antonio Cardoso de Barros,  “Provedor-mor”, responsável pela arrecadação de impostos. O segundo, Pero Borges, “Ouvidor-mor”, administrava a justiça. Roubaram muito,ficaram riquíssimos

Pero Borges, não veio por vontade própria. Havia sido condenado pela justiça portuguesa por ato de corrupção. Motivo: administrador  da obra, desviara parte do dinheiro destinado à construção do aqueduto de Mafra, cidade próxima a Lisboa. Ao invés da prisão, as relações familiares de prestígio na Casa Real negociaram sua vinda ao Brasil.

Antonio Cardoso de Barros seria o administrador das finanças públicas e gestor da economia. Sua missão: arranjar recursos para a construção da cidade de Salvador e áreas do Recôncavo baiano. Era de fato o ministro da Fazenda, tributando com rigor os poucos engenhos de açúcar existentes. Partes dos recursos eram incorporadas ao seu patrimônio pessoal. Ficou milionário, tornando-se proprietário de engenhos açucareiros, acumulando poder e fortuna. Era o tiro de largada na “roubalheira” do patrimônio público no Brasil.

BOLIVAR E MURILO

Cinco séculos depois, 2014, o professor e cientista político Bolívar Lamounier, no livro “A Cultura da Transgressão no Brasil”, afirma:

– “O Brasil é essencialmente corrupto e precisamos encarar isso. É falso que a elite é ruim mas o povo é essencialmente bom. Essa impressão é profundamente artificial.”

O professor José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traduziu essa realidade:

– “Há uma cultura generalizada de transgressão que afeta as classes sociais, de alto a baixo. Furtam o político, o empresário, alguns magistrados, de um lado. Furtam, do outro, o profissional liberal, o policial, o trabalhador informal. Tal cultura tem a ver com valores e instituições. O valor republicano de respeito à lei e à coisa pública não existe.”

HELIO DUQUE

O professor Helio Duque, doutor em economia pela Unesp, adverte:

– “Nos próximos meses o Brasil viverá crise institucional de gravidade inédita. A cassação de mandatos será consequência das delações feitas pelo ex-diretor da estatal e pelo doleiro lavador das fortunas desviadas da roubalheira da Petrobrás. Foram mais de dez anos (governos Lula e Dilma) de assalto para favorecer “larápios políticos” investidos de funções públicas. Daí ser fácil entender porque nas recentes CPIS sobre a Petrobrás. a maioria governista sempre foi contra investigações sérias”.

Não adianta nem ensinar grego. O trovão “Sergio Moro” vem ai.

O voto de Minas

Sebastião Nery

Barbosa Lima Sobrinho, pelo PSD, e Neto Campelo Júnior, pela UDN, tinham disputado o governo de Pernambuco depois da ditadura de Getúlio, em 1947: Barbosa Lima, candidato de Agamenon Magalhães, e Neto Campelo, ministro da Agricultura de Dutra, candidato da Oposição.

Na apuração, quase empate. Urna a urna, Pernambuco disputava, pelas rádios e alto-falantes, voto por voto. Ganhou Barbosa Lima. Mas houve muitas urnas impugnadas e as decisões passaram para o Tribunal Eleitoral. Continuou o impasse. Nas esquinas, nos bares, nas casas, o povo ao pé do rádio e dos alto-falantes para saber da chegada final.

Nequinho Azevedo, figura popular do Recife, estava num botequim torcendo por Barbosa Lima. Era a última decisão sobre a última urna, onde Barbosa Lima havia vencido bem. Anulada, estaria derrotado.

BARBOSA LIMA

O locutor fez um suspense:

– Atenção, senhoras e senhores, última urna! O Tribunal aprovou a urna pelo voto de Minerva! Confirmada a eleição de Barbosa Lima!

Começou a festa. Nequinho Azevedo, cheio de cachaça, comemorava. Alguém perguntou lá do fundo:

– O que é o voto de Minerva?

Ninguém respondeu, Nequinho pôs o copo no balcão:

– Um voto maior do que os outros.

– De que tamanho?

– Vale uns 300.

Valia mais. Valia a eleição.

MINAS

Quem conhece Minas sabe : mineiro não vota contra governo.

O primeiro que votou, Tiradentes, perdeu o pescoço. E nunca mais ninguém ousou. Aécio Neves, mineiro, mineiríssimo, dois avós ilustres (Tancredo Neves e Tristão da Cunha), disputou com a gaucha Dilma, que apenas nasceu em Minas; mas saiu da votação tomando chimarrão.

Minas decidiu. Ganhou a eleição. Com o governo. Contra Minas.

DIVIDA  EXTERNA

Dilma acordou da vitória com uma bomba explodindo nas mãos: a divida externa. Em agosto de 2014 o Banco Central informava que a dívida externa bruta totalizava US$ 333,1 bilhões. E atestava que as reservas internacionais totalizam US$ 379,4 bilhões. O Brasil integra o ranking dos 15 países com maior dívida externa, segundo relatório do Banco Mundial.

O economista, professor e três vezes deputado pelo PMDB do Paraná, Helio Duque, adverte que a manipulação marqueteira,  misturando reservas internacionais e dívida externa, para induzir os brasileiros a acreditarem na liquidação do endividamento externo, é criminosa.

Como as “reservas” são maiores do que o montante da dívida externa, alimenta-se a tese mentirosa. Mas é a dívida interna pública que cresce e sustenta a emissão de títulos públicos, para acumular “reservas” e trocar, paralelamente, títulos da dívida externa por papéis da dívida pública do Tesouro, garantindo a ciranda financeira do endividamento brasileiro.

O economista Marco Mendes é didático: “Quando o governo se endivida para comprar dólares, ele ao mesmo tempo aumenta o seu passivo (pelo aumento da dívida interna) e o seu ativo (pela compra de dólares). Significa que a dívida líquida (passivo mais ativo) não se altera”. O custo efetivo da captação de recursos se reflete na “taxa selic”,em torno de 12%”.

“RESERVAS”

Do total das “reservas” de  US$ 379,4 bilhões, dois terços são aplicados em títulos do Tesouro dos EUA, de grande liquidez, com remuneração média de 1,9% ao ano. O custo da diferença de quase R$ 50 bilhões decorre da disparidade entre os 12% pagos para captação de 1,9% recebido como remuneração é bancado pela sociedade. Vale dizer as “reservas” custam caro para o Brasil.

O economista e professor Reinaldo Gonçalves, titular de economia internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro exemplifica:

– “A China e o Japão acumulam reservas para ampliar o poder na economia global e se contrapor aos EUA. O Brasil, até agora, só formou “reservas” para administrar custos altos”.

Hoje a dívida pública interna federal está por volta de R$2,2 trilhões, Quando o PT assumiu,  a divida interna era de R$ 640 bilhões e a dívida externa de R$ 212 bilhões, somando uma dívida real de R$ 852 bilhões. Quase triplicou o endividamento interno nos 12 anos do PT.

Dilma e o Diabo na Terra do Sol

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Um criativo protesto de produtores rurais no interior da Paraíba

Sebastião Nery

PARIS – Se o saudoso e talentoso baiano Glauber Rocha estivesse aqui, teria que trocar o título de seu belo filme (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”) para “Deus e Dilma na Terra do Sol”.

Ela não enganou ninguém. No começo da campanha Dilma disse a jornalistas no Palácio da Alvorada:

– “Numa eleição a gente faz o diabo”.

E como está fazendo! No primeiro turno Dilma escalpelou, martirizou, torturou a elegante e tímida Marina, que preferia calar-se a responder à altura a mentiralhada e as grosserias de Dilma.

Agora vem o campeão do cinismo, esse inefável Lula, e acusa Aécio de ser “grosseiro” com Dilma porque “uma mulher não pode ser chamada de leviana”. Ora, a coisa mais leve que se pode dizer de Dilma é que é uma “leviana”. Na verdade o que a Dilma é é uma profissional da mentira. Como dizia o Padre Antonio Vieira dos ladrões, ela mente, mente, mente mais ainda, mente sempre, sempre, não pára de mentir.

Dilma agride a oposição com as palavras mais duras e até gestos obscenos. Perguntem a seus ministros o que é que ela faz quando é contrariada. E Lula quer convencer o país de que ela é só gordinha, uma inocente, pobrezinha, coitadinha, tão fragilzinha, santinha do pau oco.

DICIONÁRIO

O país gasta bilhões para ensinar a língua a seus alunos e aparece a Dilma estuprando a língua e criando novo dicionário. Quando a maioria de seus ministros apareceu enlameada em falcatruas, em vez de dizer que eles estavam fazendo roubalheiras ela inventou que o que eles faziam era apenas “malfeitos”. E porque era só “malfeitos” voltaram todos ao governo nos mesmos ministérios ou em penduricalhos do governo.

Quando explodiu o escândalo da roubalheira na Petrobras o país sabia que o que havia era roubo mesmo. Enfiaram a mão no dinheiro. Pois volta a dona Dilma a pôr os corruptos embaixo de suas vastas saias e os protege dizendo que não houve roubo. Houve apenas “desvios”.

O grave é que o hábito do cachimbo põe a boca torta. De tanto defender os corruptos do seu governo dona Dilma pode acabar agarrada pelo Supremo Tribunal Federal no “Mensalão da Dilma”.

O escândalo da Petrobrás é tão geral, tão amplo, tão vasto, que ninguém vai impedir que toda essa história acabe em uma rumorosa CPI no Congresso atingindo o dicionário, os “mal feitos” e os “desvios” da Presidente. Ela vai ter que providenciar um novo dicionário só dela.

TSE

Esta campanha eleitoral desmoralizou uma banda fundamental da política brasileira. Por exemplo, o uso do dinheiro público pelos candidatos oficiais. Dona Dilma transformou o Palácio da Alvorada em um escritoriozinho de segunda categoria onde ela reúne cabos eleitorais e apaniguados todos os dias. E tudo com dinheiro público.

Quem é que está controlando a farra aérea da Presidente com os aviões oficiais? Quem é que vai cobrar os gastos públicos da Presidente em toda a sua campanha pelo pais afora? Já sei. Vocês vão dizer que é o Tribunal Superior Eleitoral. Ora, o Tribunal Superior Eleitoral, com perdão da palavra, é um escritório eleitoral do Palácio do Planalto.

Afinal a maioria deles foi nomeada pela Presidente e está devolvendo em violações ilegais a nomeação que ganharam.

PESQUISAS

Ufa, passamos uma semana sem ouvir falar em pesquisas. Os principais institutos nacionais de pesquisas têm mais de meio século. Mas no primeiro turno de tal forma alguns chafurdaram na corrupção do governo que acabaram totalmente desmoralizados. O país com vergonha deles e eles, com mais vergonha ainda deles, calaram a boca, sumiram.

Mas evidente que esta semana eles vão voltar. Não perderiam a última faturada. Como dizem amigos meus, estudiosos de pesquisas, da Universidade de Brasília, as pesquisas brasileiras se transformaram no melhor negócio do mundo: você contrata uma pesquisa, negocia com outro instituto, os dois fingem que fazem a pesquisa e os dois apresentam o mesmo resultado, faturando ambos duas vezes de cada lado: com os jornais e  televisões que publicaram as pesquisas e com os candidatos protegidos pelas pesquisas fajutas. Isso se chama mamão com açúcar.

IMPRENSA

Sócia e apaniguada dos falsos institutos de pesquisa, a nossa querida imprensa vai sair gravemente atropelada desta eleição. E em tantas armações entraram que os leitores, por  não serem bobos,  já perceberam que tudo não passa de uma trapaça geral. Como vai ficar a fidelidade dos leitores? Como vão ficar as compras nas bancas e as assinaturas? Como vão ficar os hábitos de leitura vindos de gerações?

E os anúncios? As agências de publicidades, os empresários vão engolir assim essa agressão escancarada aos leitores?

O pior é que atrás dos espertos veem os espertinhos, os chamados “formadores de opinião”. Envergonhados de mentirem por conta própria, inventaram agora as “pesquisas qualitativas”. O gordinho sinistro da página 2 do “Globo” rola e embola inventando “pesquisas qualitativas”. Isto é uma asquerosa falta de respeito aos leitores e assinantes como eu.

A lição de JK

Sebastião Nery

PARIS – Ninguém me contou, eu vi. Foi há muito tempo, na década de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista político (“O Diário”, “Diário da Tarde”e “Jornal do Povo”do Partido Comunista). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getúlio ao suicídio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas à Presidência da República em 1955.

Todos os dias invariavelmente íamos ao Palácio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no pais e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartéis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados.

Enfrentou tudo: a oposição desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, às vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televisão,  e sobretudo a resistência de uma banda do PSD dentro do seu partido, a começar por Benedito Valadares em Minas.

MINAS

Dias atrás uma jornalista perguntou ao senador Aécio Neves se ele se sentia um homem de sorte. Respondeu tranquilamente:

– Eu sou é determinado. Quando decido vou em frente.

Esta foi a grande lição que o Aécio recebeu de Juscelino e herdou do avô Tancredo Neves. Ser determinado e vencer os obstáculos. O que a UDN fez naquela época para detonar a candidatura de Juscelino pareceria hoje inacreditável. Só não era pior do que a artilharia bandida do PT hoje.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro à vontade: “Correio do Dia”. Nele escreviam os líderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia.

Nas salas de aula eram sábios varões gregos. Nos palanques e jornais, demônios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, José Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatíveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhães Pinto, Zezinho Bonifácio, pelo determinado Juscelino.

Para ganhar tiveram que rasgar a história libertária de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros de 1943, indo buscar nos quartéis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e em 1955 elegeu-se  Presidente.

AÉCIO

Até sábado, a internet trazia a notícia de que as primeiras pesquisas do IBOPE e do Data Folha no segundo turno, davam 2 pontos de frente para Aécio diante de Dilma. Já domingo chegava a bomba: o Instituto Sensus de Minas trazia a disparada de Aécio com 15 pontos a mais.

Conheço o Sensus. Conheço o Ricardo Guedes. É um instituto sério. É um pesquisador sério. Tem seu nome a zelar. Não iria comprometer a história, a imagem do instituto que ele dirige numa pesquisa fajuta que viesse a ser desmentida em 15 dias, como aconteceu com o espetáculo ridículo do IBOPE e do Data Folha no primeiro turno, errando em 15 pontos de diferença na última semana. Sem falar na espantosa e inacreditável Boca de Urna do Ibope, “pela margem de erro”.

Em 1955 a UDN dizia que Minas “massacraria” Juscelino na eleição. Quem garantiu a vitória de JK com 36,8% dos votos nacionais (não havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votação esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitoria de Adhemar de Barros em São Paulo e de Juarez Távora  no Rio.

Assim como Minas e tirando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do país também deu a vitória a Juscelino.

Está na hora de Minas pedir perdão ao Brasil pelo crime que cometeu em 1964 ajudando os norte-americanos e os generais golpistas a tomarem o poder e expulsarem Minas e seus líderes (Juscelino, Magalhães Pinto, Pedro Aleixo, Milton Campos), liquidando  seus bancos (Moreira Salles, Nacional, Mineiro do Oeste), vetando seu comando no Congresso Nacional, martirizando sua economia.

A missão de Aécio é recolocar Minas no seu tamanho nacional. Segunda maior população, segundo maior eleitorado, segunda maior economia, Minas tem a oportunidade de cobrar seu passado e é preciso que os mineiros tenham consciência disso e no segundo turno reparem o erro do primeiro, dando a Aécio a maior votação do Estado.

DILMA

Quem precisa de maracutaias e falcatruas  é Dilma e o PT com o escândalo da Petrobrás surpreendendo os mais incrédulos dos petistas. Agora a nação já sabe que o PT (Lula, Dilma, a direção nacional) instalou na Petrobrás a mesma “organização criminosa” que a Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal de Joaquim Barbosa denunciaram, condenaram e prenderam no Mensalão.

A Nação sabe também que Dilma é uma siderúrgica de mentiras. Ela mente, mente demais, repete, insiste, e tudo o que diz é mentira, só mentira, sempre mentira. Mente nos números do governo, mente nos dados da economia e mente sobretudo no seu falso e dissimulado olhar.

Dilma sai desta campanha com nome novo: “Dilmentira”

Dona Perolina do PMDB

Sebastião Nery

Imbituba, Santa Catarina, 1962, eleição para prefeito. A UDN, comandada por Álvaro Catão, dono das docas da cidade e deputado federal, tinha seu candidato. O PTB, dirigido pelo brilhante líder Doutel de Andrade, lançou Moacir Orige, candidato dos estivadores, casado com dona Perolina, agente local do IAPETEC.

A eleição ia ser decidida no distrito de Vila Nova, onde a UDN dos Catão era mais forte. Dona Perolina foi a Laguna, chamou um enfermeiro do SAMDU, alto, pretão, elegante. Meteu-lhe um jaleco branco, calça branca, sapato branco, maleta preta, estetoscópio no pescoço, entrou orgulhosa em Vila Nova:

– Chegou o médico. O doutor vai dar consulta e remédio de graça pra todo mundo. É uma colaboração do PTB para o povo de Vila Nova.

PTB

Juntou gente, dona Perolina abriu duas malas enormes, entupidas de amostras-grátis que havia conseguido em Laguna e Imbituba, estendeu uma toalha branca sobre a mesa longa e pôs os remédios em fila, por ordem alfabética: A, Aspirina. B, Beladona. C, Coristina. E assim por diante. O “médico”, de jaleco e estetoscópio, ia fazendo as consultas: – O que é que o senhor tem? – Dor no peito. – Dor no peito, letra P. Dona Perolina pegava um remédio da letra P, o homem saia. – E a senhora? – Estou passando mal do coração. – Coração, letra C. Dona Perolina pegava um remédio da letra C, a mulher saia. Ninguém piorou, muitos foram curados e o PTB ganhou as eleições

MICHEL

Michel Temer é a dona Perolina do PMDB. Na farmácia do governo, ele tem remédio para tudo. Distribui empregos como quem aplica pomada para pereba e vai comprando correligionários. Foi assim na ultima convenção do partido. Anunciou que ganharia com mais de 80% dos votos. Saiu de lá humilhado. Não passou de 59%. Apesar de todas as pressões, cambalachos e corrupção urdidas por ele e sua turma, a oposição teve 41% e sobretudo venceu em 6 dos 7 maiores Estados: Minas, Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco. Em todos eles o PMDB não vai apoiar a chapa Dilma-Michel.

PIRRO

A convenção foi uma vitória de Pirro para o palácio do Planalto. (Pirro foi aquele rei do Épiro e da Macedonia, na Grecia, inimigo irreconciliável de Roma e dos romanos, que, depois da batalha de Heracleia, proclamou-se vitorioso apesar de perder todos os seus soldados).

Uma das lambanças foi, entre os votos apurados, os brancos, nulos e abstenções terem sido desconsiderados, omitidos, em lance de esperteza à altura da contabilidade criativa prevalecente no governo federal. Ficou claro o nível de desprestígio do vice-presidente da República, licenciado da presidência do PMDB e comprovando ter uma liderança fragilizada na condução da legenda, mal assegurando o horário de rádio e televisão para a chapa Dilma-Temer sem conseguir garantir a mobilização dos seus lideres e militantes nos maiores colégios eleitorais.

ULYSSES

Em política, não adianta a fantasia. A verdade surge das urnas. Em 1989, o exemplar Jarbas Vasconcelos, vice-presidente do PMDB, assumiu a presidência do partido com a licença do titular, o saudoso e gigante Ulysses Guimarães, lançado candidato à presidência da República, e honrou até o fim seu dever de sustentar a bandeira do partido. Ocupou a vice-presidência o bravo deputado Helio Duque, do Paraná. Eram os melhores do partido. O tempo de rádio e televisão que Ulysses tinha era mais do que o dobro do mais próximo.

Ao final da eleição, Ulysses ficou em 6º lugar, com votação constrangedora. A militância peemedebista se encaminhou majoritariamente para as candidaturas de Mário Covas e Brizola, comprovando que o tempo de mídia eletrônica não é suficiente para ganhar eleição. Voto não é pereba que se cuida com pomada, com maracutaia.

O dedo de Dilma

Sebastião Nery

Alegrete, no Rio Grande do Sul, estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado à cidade para jogar contra oAlegrete Esporte Clube. Banda de música, rodeio, bombacha e chimarrão. Um ardor cívico. Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O reserva tinha caído do cavalo, quebrado a perna. O outro reserva fugira na véspera com a namorada.

A solução era o circo. Foram buscar “Adalardo”, o macaco prodígio, que agarrava coco nos quatro cantos do picadeiro.

ADALARDO

“Adalardo” não negou fogo. Vestido com a camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegava tudo quanto era bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. “Adalardo”, acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete berrava e cantava a trave fechada e a vitória. Mas houve um pênalti. Contra o Alegrete.

“Adalardo” compreendeu que tinham mudado a regra do jogo. Era sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem de preto que tinha botado a bola ali na frente e mandado outro chutar. O outro chutou, a bola entrou. “Adalardo” enlouqueceu. Saiu da trave, deu uns urros no meio do campo, avançou em cima do homem de preto e arrancou o dedo do juiz.

A VAIA

A presidente Dilma sabia que, quando aparecesse no estádio na solenidade de abertura da Copa, ou em qualquer outro dia, seria vaiada. Lula, caráter sem jaça, velho fujão, pulou logo fora. Ficou em casa, não foi. Mas Dilma tinha que ir. Ir e falar. Foi assim em todas as Copas, em todos os países, com todos os presidentes, até a rainha da Inglaterra. Todos sempre abriram as Copas. Todos sempre falaram.

Ela decidiu a pior solução: a da covardia. Ir sem ir. Ir escondida, disfarçada, e não falar. Proibiu as televisões de filmá-la. Proibiu os telões de mostrar-lhe a cara. Certa de que atrás do Michel e da Fifa daria tudo certo. Mas deu azar.

PALAVRÕES

Por erro ou por inspiração patriótica de alguém, de repente, logo depois do hino nacional, aparece, toda inteira, no telão, a cara dela. E uma vaia incontrolável, uníssona, bravíssima, irrompe no estádio inteiro. Depois, outra vez, mais outra vez, várias vezes. E lá no fundo da tribuna de honra, atrás do gringo da Fifa e do vice Michel Temer, a televisão mostrou aquela mulher, antes tão enérgica, de repente humilhada, amofinada, escondendo as envergonhadas mãos.

E a multidão, até então eufórica, esfuziante e civilizada, surpreendentemente apelou. Começou a gritar-lhe insultantes e ritmados palavrões, o que jamais havia acontecido no pais com tal fúria.

Era mesmo para agredir. Como se o macaco Adalardo lhe tivesse arrancado o dedo.

OSWALDO ARANHA

Na mesma Alegrete, que os habitantes chamam de “a Londres gaúcha” e por isso apelidada de “Alegraite”, havia um famoso cabaré: o “Lulu” dos Caçadores. Toda noite tinha uma briga. Ia tudo calmo, tudo alegre, mas quando dava duas horas, era batata. A briga estourava.

Depois da Revolução de 30, Oswaldo Aranha, muito jovem, foi ser prefeito de Alegrete. Sabia do “Lulu dos Caçadores”, sabia das brigas. Uma noite, apareceu lá, bebeu, saiu às três da manhã, não houve briga nenhuma. Gostou, voltou. No dia seguinte, estava lá de novo. E no outro, no outro. As brigas acabaram.

No quinto dia, quando Oswaldo Aranha entrou, pendurada na parede do cabaré, estava uma faixa grande: “Dr. Oswaldo Aranha, acabaram-se as considerações”. Às duas da manhã, a pancadaria começou.

RANCOR

Nos dois governos de Lula houve vaia no Maracanã, mas vaia comum, apoteótica mas civilizada. Dilma também já foi vaiada. Mas politicamente. Agora, não. O PT tanto abusou, tanto enfiou as mãos nos cofres públicos, Dilma tanto mentiu que o país perdeu a paciência. Acabaram-se as considerações. Esse rancor não é brasileiro. É filho do PT.

Rabo de cavalo, crescendo para baixo

Sebastião Nery

O Galaxie azul parou na porta da casa do economista, barão e meu amigo Zito Souza Leão, em Recife, em 1974. Saltaram senhores sisudos, excessivamente preocupados. Trancaram-se numa sala. Duas horas depois, o Galaxie azul rolou para o aeroporto dos Guararapes. Cid Sampaio, Paulo Guerra e Nilo Coelho já podiam esperar em paz o senador Petrônio Portela, que chegava a Pernambuco para escolher o novo governador. Os três caciques tinham encontrado, afinal, uma fórmula de acordo.

Durante meses, cada um tinha trabalhado sua lista. Cid Sampaio: Paulo Maciel, Sebastião Barreto Campelo, Leal Sampaio. Paulo Guerra: Geraldo Magalhães, José do Rego Maciel, general Bandeira. Nilo Coelho : Marco Maciel, Roberto Magalhães, coronel Vilarinho. Na casa de Zito Souza Leão, tinham fundido as três listas numa só: Paulo Maciel, Marco Maciel, Roberto Magalhães. Sentiam-se invencíveis.

MOURA

No aeroporto, Arnaldo Maciel, ex-secretário de Cid Sampaio no governo, chama o governador Eraldo Gueiros a um canto:

– De Brasília, o ministro Costa Cavalcanti acaba de telefonar dizendo que o Planalto informa que o governador vai ser o Dr. Leal Sampaio.

– Se o Planalto informa isto, vou dizer ao Petrônio Portela que passe direto para a Paraíba.

O deputado Luís de Magalhães Melo cochichava:

– Preciso falar urgente com o Eraldo. O candidato quente hoje em Brasília é o Dr. José do Rego Maciel (pai de Marco Maciel). E infelizmente eu não tenho como denunciá-lo. Estou vendo se consigo uma certidão de nascimento para provar que ele tem mais de 70 anos.

Petrônio Portela chegou, “somou o consenso”: Moura Cavalcanti 46 votos; Paulo Maciel 22; Marco Maciel 20. Voltou para Brasília. Pernambuco soube que o governador era Marco Maciel. E era Moura Cavalcanti.

DILMA

Na ditadura era assim : nomeação. E Geisel nomeou Moura. Na democracia não adianta estrebuchar. Quem nomeia é o povo. Geisel ainda nomeou Figueiredo, que já não podia nomear Maluf. Ganhou Tancredo.

Lula e o PT acharam que poderiam nomear quem quisessem e para sempre. No governo, Lula nomeou Dilma e Haddad em São Paulo. E é o fracasso que se sabe. Fora do governo, Lula tenta nomear Alexandre Padilha e Dilma de novo. E é o desastre que se vê: Padilha não sai dos 3% e Dilma escorrega ladeira abaixo, mês a mês. Caiu 10% em dois meses.

Escandalosamente acobertada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o escritório eleitoral do PT, Dilma usa a Presidência da Republica como Comitê Central de campanha e faz dos palácios do Planalto e da Alvorada sede de convescotes e comícios internos diários. Os demais candidatos são proibidos pelo TSE de pronunciamentos eleitorais. Mas Dilma, como mico de cemitério, salta diariamente de televisão em televisão, dando entrevistas, fazendo campanha. E nem assim. A pesquisa dela cresce como rabo de cavalo. Para baixo. Chegou a 33.

FUTEBOL

Todo mundo fala em futebol. Falo eu também. Meu amigo Helio Duque, economista, professor, está preocupado com o outro lado da Copa.

1- O escritor Eduardo Galeano, no livro “Futebol ao Sol e à Sombra”, constata: “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos expectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo. O futebol profissional não tem escrúpulos, porque integra um sistema de poder inescrupuloso”.

2. – Na Europa, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade oficial respeitada mundialmente, denunciou: “Os clubes de futebol são vistos por criminosos como veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro. A lavagem de dinheiro no futebol se revela como sendo mais profunda e mais complexa do que se pensava antes.”

3. – O jornalista Jamil Chade, de Genebra, atesta: “Apenas em 2011, a FIFA registrou mais de 5 mil vendas e compras de jogadores, com uma movimentação de US$ 2,3 bilhões. Segundo a Fifa, é apenas parte da história e 4 de cada 10 dólares negociados nunca aparecem nas contas”.

Presidencialismo de corrupção

Sebastião Nery

Era cabo do Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista, quando Ademar era governador. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grosso, fechado, bem fechado.

Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã cedo, bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.

O CABO

Um dia, o cabo não se conteve. Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão, escrito à mão: – “50 contos no bicho que der.”

O cabo não resistiu. Pegou uma caneta num botequim, emendou: – “50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.

Nunca mais lhe deram o envelope fino e muito menos o pacote grosso. Foi demitido.

PT SEM ENVELOPE

Bons tempos aqueles em que a corrupção ia de envelope fino e voltava de pacote grosso. O caixa das maracutaias era desovado no jogo do bicho. Depois que o PT inventou o “Presidencialismo de Corrupção”, criado por Lula e ampliado por Dilma, a rota das negociatas passa pelos cofres insaciáveis das empreiteiras, é garantido pelos gorduchos favores do BNDES e sangra as gavetas amanteigadas do Tesouro Nacional.

Lula chegou como o guerreiro dos sindicatos, Dilma como a Mãe do PAC. Em dez anos os dois tiraram a máscara. O guerreiro virou um lobista de negócios dos ditadores africanos e de Cuba.E o PAC da Dilma empacou. O “Presidencialismo de Corrupção” é a maior fonte de negociatas do pais. Nunca houve coisa igual, nem no Império ou na Republica Velha.

Corrupção sempre houve. O Poder é uma instituição voraz. Mas nos níveis em que o PT a instalou, aberta, escancarada, escrachada, jamais houve igual.

PÂNTANO

A desculpa é que a “Base Aliada” é insaciável, que quase 30 partidecos são incontroláveis, que com mais de 30 ministérios ninguém administra. Ora, quem alimenta, engorda, sova esta máquina infernal? . Era Lula, hoje é Dilma. Os dois são a alma do PT.Vivem dele. Sangue do sangue. Chegou a campanha eleitoral, o PT saltou no pântano. Vale tudo. São os “blogs de assalto”, os “colunistas de aluguel”. É a guerra suja. E o palácio do Planalto comprando tudo com dinheiro público.

Já não bastam os asquerosos convescotes vespertinos em que a presidente da República distribui dinheiro e cargos aos partidos como banana a macacos. E Lula diz a Dilma, debochando, que senadores e deputados “não se dão ao respeito”.

NOTÍCIA BOA

Sinto até constrangimento de misturar uma informação decente com um pântano podre como essa campanha eleitoral do PT. Mas ainda bem que nem tudo está perdido e há homens públicos cumprindo seu dever. Amanhã, dia 4 de junho, toma posse a nova diretoria, recém-eleita, da AJUFE (Associação dos Juizes Federais). Será comandada por dois jovens, experientes e provados magistrados: Antonio Cesar Bochenek, do Paraná, e André Thobias Granja, de Alagoas. Parabéns e sucesso.

NINGUÉM ME CONTOU

Não digam meus leitores que estou amargo, por causa dessas notas aí em cima. Estou é chocado com o massacre que o PT está fazendo no país. Quanto a mim, muito pelo contrario. Depois do sucesso que foi, na semana passada, o lançamento, no Rio, de meu novo livro “Ninguém me Contou, Eu Vi” (Editora Geração), foi a vez de assinar dezenas de exemplares em São Paulo na “Livraria Cultura” do Conjunto Nacional. Um reencontro com meus queridos companheiros de São Paulo, em cuja imprensa (jornais e televisões) escrevo desde 1975. Garanto o novo filho. Leiam. É tão bom quanto “A Nuvem”.

O Supremo cochicho

Sebastião Nery

No “11 de Novembro” de 1955, internado Café Filho, presidente da República, com problemas cardíacos, o golpista Carlos Luz, presidente da Câmara no exercício da Presidência, tentou demitir o general Lott do Ministério da Guerra para impedir a posse de Juscelino – que havia ganho as eleições de 3 de outubro – mas não conseguiu. A Câmara reuniu-se, derrubou-o e o substituiu por Nereu Ramos, presidente do Senado.

Antonio Balbino, governador da Bahia, amigo de Nereu, veio para o Rio visitá-lo. Nereu acabava de receber carta de Café Filho comunicando-lhe que ia reassumir a Presidência. Mas o General Denis, comandante do I Exército, já havia mandado cercar a casa de Café para ele não sair de lá.

NEREU

Quando Balbino chegou ao Catete, o general Lima Brayner, chefe da Casa Militar de Nereu, pediu a Balbino que convencesse Nereu a não devolver o governo a Café, que queria dar o golpe. Nereu foi claro:

– Só vou agir dentro da lei. O Café, através de Prado Kelly e Adauto Cardoso, entrou com mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal. Se o STF conceder o mandado, entrego o governo e volto para o Senado.

Lott soube da conversa, chamou Balbino:

– Governador, vá conversar com o presidente do Supremo. Balbino foi. O velhinho estava em casa, noite alta, já de pijama:

– Ministro, o país está vivendo um momento difícil. Compreenda. A casa do Café está cercada. O Catete está cercado. Nereu não vai poder passar o governo ao Café porque Café não quer dar posse ao Juscelino.

– Mas, governador, o mandado de segurança está em pauta para amanhã. Se o Tribunal conceder, o Café vai reassumir.

– Ministro, entenda. Enquanto se fecha o Legislativo, ainda se entende. Mas, e se o Judiciário for fechado? Para onde vamos?

O ministro levantou-se, passou para o gabinete interno da casa, pegou o telefone vermelho, daqueles de gancho, e começou a ligar para os outros ministros, falando baixinho, cochichando, cochichando. O mandado de segurança não entrou em pauta. Nereu continuou presidente e deu posse a Juscelino no dia em que a Constituição mandava.

TEORI

Não sei com quem o ministro Teori Zavascki, do Supremo, cochichou. Mas deve ter cochichado com um cochicho muito poderoso, para chegar a uma decisão tão estapafúrdia, a uma teoria tão zavascada. Tudo bem.Ninguém entende mesmo cabeça de alguns juízes. Mas tentem entender o tortuoso Zavascki. Eram 12 presos. Ele queria soltar um, o cochichado. Em vez de manter 11 presos e soltar o cochichado, ele soltou à noite todos os 12 e prendeu novamente 11 ao amanhecer. O pais levou um susto, as manchetes das TVs e jornais explodiram. E o cochichado? O cochichado, ora,! continua cochichando.

PAC EMPACOU

O economista Gil Castello Branco, fundador da Associação Contas Abertas, analisa o desempenho do PAC, criado para lançar a candidatura da Dilma, “a Mãe do PAC”, em 2010. Os resultados são devastadores:

1.- Na Saúde, das 24.006 obras prometidas só 2.547 (11%) foram colocadas à disposição da sociedade. Unidades Básicas de Saúde (UBS): das 15.652 previstas, irrisórias 1.404 (9%) foram concluídas. Unidades de Pronto Atendimento (UPAs): 503 previstas, somente 14 prontas.

2. – Saneamento e recursos hídricos: das 7.911 iniciativas, apenas 1.129 (14%) finalizadas. Dilma prometeu 6 mil creches, que poderiam chegar a 9 mil. Das 5.257 creches e pré-escolas constantes do PAC 2, apenas 223 em funcionamento até o fim do ano passado.

3. – Esporte: das 9.158 quadras esportivas, apenas 481 (5%) inauguradas. Nenhum dos 285 centros de iniciação ao esporte ficou pronto.

4. – Transportes: dos 106 empreendimentos em aeroportos, 70% ainda em fases burocráticas. De cada 3 obras de rodovias, apenas uma concluída. Das 48 intervenções em ferrovias, só 12 no fim. Mais da metade do PAC 2 sequer saiu do papel. De cada 10 iniciativas, menos de 4 estão em obras ou em execução. Apenas 12% concluídas. O PAC empacou.

Um partido fascista

Sebastião Nery

Uma tarde de 1970, o governador do Paraná, Paulo Pimentel, conversou longamente com o deputado da Arena, Haroldo León Perez, no escritório do Estado, no Rio. Saiu Perez, Pimentel estava furioso:

– Este Haroldo é um idiota. Imagina que veio aqui me dizer que vai ser o próximo governador. Já está escolhido, mas gostaria de ter o meu apoio. Em troca, assegura um ministério para mim, o da Agricultura. Mal conseguiu eleger-se deputado, não tem prestígio nenhum, eu não o quero, o Ney não aceita, como é que vai ser governador e negociando ministério?

Uma semana depois, ao fim de um jantar, em Brasília, em um jogo de cartas,o general Médici disse à mulher do deputado León Perez (Paraná):

– A senhora está de parabéns. Amanhã, saberá.

MEDICI

No dia seguinte o governador Paulo Pimentel e o senador Ney Braga foram chamados ao Palácio do Planalto pelo presidente Médici:

– Quero comunicar aos senhores que o governador do Paraná vai ser o deputado Leopoldo Perez. Ney Braga, pálido, baixa os olhos. Paulo Pimentel sorri amarelo:

– Mas, Presidente, o deputado Leopoldo Perez, secretário-geral da Arena, é do Amazonas. Não tem nada a ver com o Paraná.

– Não é esse, não, governador. É o outro.

– Que outro, presidente?

Medici fica irritado, grita irado:

– É o outro, o do seu Estado.

– O Haroldo Perez?

– Sim, sim. Esse mesmo.

Paulo saiu do Palácio para o aeroporto, Ney para uma casa de saúde. Um ano depois o Perez de Medici foi posto fora do governo por ladroagem.

MUSSOLINI

O nome disso é fascismo. Quando o poder é imposto pela força. Medici queria, Medici podia, Medici nomeava. O pais que se danasse. Em 1922, na Itália, Benito Mussolini dizia-se um “líder socialista”. Criou seus camisas negras, seus grupos de assalto, os “Fascio”, organizou uma “Marcha Sobre Roma”, recebeu “plenos moderes” do Parlamento, prendeu seus antigos companheiros Antonio Gramsci, Silvio Pelico, matou milhares, criou o “Movimento Social Italiano” tendo como pedra angular a “unicidade sindical”, impôs à Itália o regime fascista e se aliou a Hitler.

Deu no que deu. Fanfarrão como Lula, acabou pendurado de cabeça para baixo, berrando como um bode imundo, em um posto de gasolina.

LULA

Lula começou a pôr as unhas de fora. Apareceu como um inofensivo líder sindical retirante protegido pelo legalista delegado Romeu Tuma, agarrado nas batinas da Igreja e nas botas do general Golbery. Tantos de nós, direta ou indiretamente, de uma forma ou de outra, o ajudamos. Criou o PT, o “Partido dos Trabalhadores”, como se só eles fossem trabalhadores, e a CUT, a Central “Única” dos Trabalhadores, como se só ela fosse dos trabalhadores. Era a repetição da “unicidade sindical” de Mussolini.

De repente, Lula convocou o PT a ser um partido fascista. (seus “fascio”) sob o comando de seu presidente Rui Falcão, indisfarçado “teórico fascista”, e “sair para a guerra, guerra total a quem ameaçar a conquista da hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade” (Globo).

HEGEMONIA

Em política, em matéria de conquista de poder, “hegemonia” está com toda a simplicidade muito bem definida pelo saudoso mestre Houaiss:

– “Hegemonia – Supremacia ou superioridade cultural, econômica ou militar de um povo… supremacia, influencia preponderante… autoridade soberana… liderança, predominância ou superioridade”.

É toda a base do fascismo. Antes o PT rosnava. Agora já começaram a morder. Na TV, o deslumbrado baiano aprendiz de Goebbels (chefe da propaganda de Hitler) João Santana apela para o mais escrachado terrorismo, querendo fazer do medo o centro das próximas eleições. Com Dilma derrapando toda semana nas pesquisas, vaiada toda vez que aparece em publico, só podendo mostrar a cara nos fundos do Planalto ou nos convescotes do Alvorada, eles estão com medo de perderem as bocas sujas, os conselhos fajutos, as maracutaias passagenas. As urnas vêm ai.

Lições para Aécio e Eduardo Campos

Sebastião Nery

Logo depois do suicídio de Getúlio em 24 de agosto de 1954, Nereu Ramos, presidente da Câmara dos Deputados e do PSD de Santa Catarina, chamou Juscelino, governador de Minas,ao Rio, para uma reunião no PSD. Lá estava o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, do PSD.

Etelvino propôs o adiamento das eleições para o Senado, a Câmara e as Assembleias, que iriam realizar-se em 3 de outubro. Alegava que uma eleição ainda sob o impacto do suicídio de Vargas daria ao PTB uma votação em massa, que provocaria uma reação dos militares.

Com a tese de Etelvino concordaram Nereu Ramos, Benedito Valadares presidente do PSD de Minas, Lucas Garcez, governador de São Paulo, e outros. Lacerda, da UDN, e Raul Pila, do PL, também queriam o adiamento. Juscelino foi totalmente contra. Sabia que aquele era o ovo da serpente para adiar também as eleições presidenciais do ano seguinte. Mesmo assim Nereu, Etelvino e Lucas Garcez foram a Café Filho, vice de Getúlio, que tinha assumido a presidência e virado udenista desde criancinha, e propuseram o adiamento. E Juscelino declarou que “como governador de Minas, lançaria mão de todo o poder que lhe conferia o cargo para impedir que o calendário eleitoral fosse alterado”.

JUSCELINO

Recuaram. Houve as eleições e não aconteceu nada do que eles diziam. O PSD tinha 112 deputados e passou para 114, a UDN com 84 caiu para 74 e o PTB com 51 subiu só para 56. JK começava a ganhar a briga. Mas Benedito, presidente do PSD de Minas, com pavor dos militares, não queria Juscelino de jeito nenhum. Juscelino teve de derrotá-lo na executiva estadual.

Depois de horas trancados lá dentro, numa reunião dramática, até a madrugada, a porta se abriu e vimos Juscelino sair com um sorriso de arco-íris. Até os olhos presos arregalaram. Ganhou por um voto. Benedito, cabeça baixa, pálido, pela primeira vez derrotado numa reunião política do partido.

No dia 19 de novembro de 54, todos os diretórios do PSD de Minas mandaram telegramas a Benedito encarregando-o de indicar Juscelino à direção nacional. No dia 25, o diretório nacional do PSD, presidido por Amaral Peixoto, contra a oposição de Benedito, Nereu e Etelvino, e do PSD do Rio Grande do Sul e outros apavorados, aprovou Juscelino por 123 a 36 votos.

Afinal, no dia 10 de fevereiro de 1955, dos 1925 delegados da convenção nacional, 1646 lançaram Juscelino. Os diretórios de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e 160 da Bahia e 26 do Rio ficaram contra.

ETELVINO

A grande imprensa do Rio e São Paulo, quase toda antigetulista, procurava convencer a opinião pública de que o país atravessava uma situação de extrema gravidade, que só tenderia a aumentar com a disputa eleitoral.

Etelvino propôs a Milton Campos, ex-governador de Minas, para propor à UDN, uma lista tríplice (Juscelino, Gustavo Capanema e Lucas Lopes, todos do PSD) para uma candidatura interpartidária, com apoio do PSD, UDN, PL e outros penduricalhos. Juscelino não topou. Era contra ele. Fez uma visita aos ministros militares e comunicou que seria candidato. E saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PTB, ainda estava em duvida:

– Juscelino, qual a verdadeira posição do Café?

– Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

DILMA

JK foi para Pernambuco. Etelvino insistia na “união nacional”.

– Etelvino, já sei que você está contra mim.Quando fala em união nacional está pensando em União Democrática Nacional. Candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois da posse.

O chefe da Casa Militar da Presidência, Juarez Távora, depois candidato derrotado por JK, divulgou na “Voz do Brasil”, em 27 de janeiro, documento dizendo que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Schmidt: – “Deus me poupou o sentimento do medo”.

Conversando com os jornalistas, Juscelino ensinava:

– Em eleição, todo neutro é um adversário disfarçado.

As pesquisas mostram que Dilma cai, Aécio e Eduardo sobem. Hoje só há uma unidade nacional: O país não aguenta mais o PT.

A bomba não era minha

Sebastião Nery

Por volta das 7 horas da manhã de 12 de julho de 1966, fiz uma conexão no pátio de manobras do Aeroporto dos Guararapes, no Recife, desembarcando de uma velha aeronave procedente de João Pessoa e seguindo viagem numa mais nova e bem maior, para o Rio. Ia participar no Rio, como palestrante, de um debate sobre cineclubismo no Nordeste, promovido pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna – MAM…

O então deputado Manoel Gaudêncio (que foi meu companheiro de viagem nos dois voos, inclusive ocupando cadeira contígua à minha), quando saía da área de recolhimento das bagagens, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, foi informado por um amigo de um grande ataque terrorista que havia ocorrido horas antes, no Aeroporto dos Guararapes (Recife).

Como ele, fiquei gelado com o que acabava de ouvir… Sentamos num banco no saguão do aeroporto, em busca de maiores informações e só então tomamos conhecimento da gravidade do atentado: o seu alvo era o Ministro da Guerra, general Costa e Silva, candidato à presidência da República.

A explosão de uma bomba deixara cerca de 20 feridos e dois mortos (um almirante e um jornalista). Como não tínhamos nada a ver com a lamentável ocorrência, nos despedimos ali mesmo e cada um tratou de cumprir sua agenda na Cidade Maravilhosa…

COSTA E SILVA

Dois dias depois, já em São Paulo, quando estava assistindo ao filme “O Dólar Furado”, no miniauditório da Universidade Casper Libero, fui chamado para atender a um telefonema na diretoria e, na linha, bastante aflita, estava minha mãe, informando que a Polícia Federal e o Exército tinham estado lá em casa à minha procura. Sem me deixar falar, foi logo dizendo que estava certa de que as “visitas” tinham relação direta com o atentado de Recife.

Fiquei “estatelado” e só encontrei uma solução para acalmá-la: como não tinha nada a ver com essa bomba, disse que iria voltar para a Paraíba imediatamente e entregar-me no 15º RI (Exército)”…

Em João Pessoa, fui visitar o ministro José Américo de Almeida, na então deserta praia do Cabo Branco. Depois de dar total atenção às minhas informações, com apartes adicionais de Zé Leal, o ministro foi objetivo: – “Assuntos de militares só se resolvem com os militares. Vou falar com o “Reinardo” (puxando bem a voz, referindo-se a seu filho general Reinaldo, nome de peso no Movimento de 64) e tenho certeza de que, após tudo devidamente esclarecido, você não terá mais problemas. Acho também, como todos aqui ventilaram, que você espontaneamente deve se apresentar ao 15º RI, ou mesmo ao Grupamento de Engenharia, e aguardar os resultados dos contatos que vou fazer”.

O SÓSIA

Fui informado naquele momento pelo ministro que mais de mil pessoas já estavam presas no Nordeste, como parte das investigações sobre o atentado… Saltei calmamente na porta do 15º RI, em Cruz das Armas, e me apresentei ao oficial de dia. Levou-me para o primeiro andar, deixando-me sentado na biblioteca…

Uma noticia do jornal “O Globo”, bem destacada, numa pagina dedicada ao atentado, deixou-me alarmado. Dizia que as últimas investigações apontaram que a bomba fora mesmo deixada por um homem de 25 anos, magro, alto e cabelos lisos. (Como eu). E fiquei em estado de choque com uma outra : a sacola onde estava a bomba fora deixada bem perto da porta de uma livraria no saguão principal do aeroporto… (Onde quis comprar o “Diário de Pernambuco” mas já ia embarcar)… Depois de vários dias de interrogatórios e louca prisão, fui solto.

Raimundo Gonçalves Fernandes, conhecido como “O Chico”, foi oficialmente apontado como o homem que colocou a bomba no Aeroporto dos Guararapes. Foi morto em 1971em confronto com “forças de repressão”).

WILLS LEAL

Esta historia surreal e aterradora não está sozinha. Vem ao lado de outras, muitas e ainda mais fascinantes (prisão na Holanda por “traveller check” falsificado por um agente de viagens angolano, sequestros no Paraguai e em João Pessoa etc.) vividas e brilhantemente contadas pelo culto jornalista e professor paraibano Wills Leal em um livro imperdível: “Primeiro de Abril, Antes e Depois de 1964” (Editora Ideia – JP)

Fala sério, Dona Dilma

Sebastião Nery

RIO – Rivadávia de Sousa, gaúcho, jornalista, amigo de Getúlio Vargas, assessor de João Goulart, redator da Agência Nacional, preso no golpe militar de 1964, estava depondo no III Exercito:

– O que o senhor sabe sobre enriquecimento ilícito no governo de Jango?

– Nada. Eu é que quero saber quem é o responsável pelo meu empobrecimento ilícito. O coronel mandou-o para casa.

PETROBRÁS

Em Pernambuco, fantasiada com o macacão dos trabalhadores da Petrobrás, a presidente da República, incorporando o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, pensando que estava em Macondo, disse que os críticos dos escândalos na Petrobrás são “inimigos da Petrobrás”.

Ora, os verdadeiros inimigos da empresa o pais agora conhece:

1 – São os que desvalorizaram a Petrobrás em 101 bilhões e 500 milhões de dólares, rebaixando-a de 12ª maior empresa do mundo em valor de mercado para a 120ª posição, afetando os programas de investimentos fundamentais para o futuro do desenvolvimento nacional.

2 – São os que nomearam e mantiveram por oito anos o diretor Paulo Roberto Costa na estratégica área de abastecimento e refino. Pela primeira vez na história, um dirigente da Petrobrás foi preso pela Polícia Federal como integrante de uma quadrilha de lavagem de dinheiro.

PASADENA

3 – São os que patrocinaram a compra da Refinaria de Pasadena, a um preço astronômico de 1 bilhão e 200 milhões de dólares, anteriormente comprada pelo Barão belga Albert Frère por 42 milhões de dólares.

4 – São os que lançaram a pedra inaugural da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, com custo projetado de 3 bilhões de dólares e hoje a previsão do seu custo final está próxima dos 20 bilhões de dólares, mostrando o superfaturamento caviloso e nocivo às finanças da Petrobrás.

5 – São os que promoveram o desalinhamento dos preços dos combustíveis em função da demagogia populista, obrigando a empresa a importar derivados de petróleo a preços de mercado e vender internamente a preço bem menor. A cada 30 dias a Petrobrás perde 1 bilhão de dólares.

6 – São os que não respeitam o padrão de excelência em tecnologias inovadoras construídas pelos seus quadros técnicos, ignorando que a Petrobrás responde por 12% do PIB brasileiro, sendo responsável, apesar de tudo, por um programa de investimento maior do que o da União.

LULA E DILMA

7 – São os que levaram o valor das ações da Petrobras a um recorde de desvalorização. Em janeiro de 2003, o seu valor era de R$ 46,56. Hoje o seu teto vem sendo de R$ 16,00. Para atingir o valor real teria de ter uma correção de 223%. Os acionistas minoritários, donos de 48% do seu capital, tiveram suas finanças confiscadas e deterioradas.

8– São os que pela primeira vez obrigaram a Policia Federal a entrar na sede da Petrobrás e ficar de 9 da manhã às 3 da tarde revirando papeis. São fatos chocantes e indesmentíveis e têm como responsáveis os governos Lula e Dilma Rousseff.

Quem são os inimigos da Petrobrás? O ex-presidente da empresa, Sergio Gabrielli, aponta Dilma. Disse e repetiu que “a presidente Dilma precisa assumir suas responsabilidades”. Vem dona Dilma e diz que são os críticos. Fala serio, dona Dilma.

COLLOR

Pela segunda vez o Supremo Tribunal absolveu o ex-presidente Collor das acusações do Impeachment de 1992. O saudoso advogado Evaristo de Morais Filho, o Evaristinho, me disse na época e publiquei:

– Quantas vezes esse processo contra o Collor chegar ao Supremo ele será absolvido. A denúncia do procurador Aristides Junqueira não tem um só fato consistente. É pura bolha. É puramente política.

O lúcido jurista e ex-senador Amir Lando, relator do processo do Impeachment no Congresso, disse a um grupo de estudantes de Direito de Minas, que lhe perguntavam como ele definiria o Impeachment:

– Foi uma quartelada parlamentar.

“O tempo é o senhor da razão”. Só que anda devagar e chega tarde.