Dilma e o Diabo na Terra do Sol

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Um criativo protesto de produtores rurais no interior da Paraíba

Sebastião Nery

PARIS – Se o saudoso e talentoso baiano Glauber Rocha estivesse aqui, teria que trocar o título de seu belo filme (“Deus e o Diabo na Terra do Sol”) para “Deus e Dilma na Terra do Sol”.

Ela não enganou ninguém. No começo da campanha Dilma disse a jornalistas no Palácio da Alvorada:

– “Numa eleição a gente faz o diabo”.

E como está fazendo! No primeiro turno Dilma escalpelou, martirizou, torturou a elegante e tímida Marina, que preferia calar-se a responder à altura a mentiralhada e as grosserias de Dilma.

Agora vem o campeão do cinismo, esse inefável Lula, e acusa Aécio de ser “grosseiro” com Dilma porque “uma mulher não pode ser chamada de leviana”. Ora, a coisa mais leve que se pode dizer de Dilma é que é uma “leviana”. Na verdade o que a Dilma é é uma profissional da mentira. Como dizia o Padre Antonio Vieira dos ladrões, ela mente, mente, mente mais ainda, mente sempre, sempre, não pára de mentir.

Dilma agride a oposição com as palavras mais duras e até gestos obscenos. Perguntem a seus ministros o que é que ela faz quando é contrariada. E Lula quer convencer o país de que ela é só gordinha, uma inocente, pobrezinha, coitadinha, tão fragilzinha, santinha do pau oco.

DICIONÁRIO

O país gasta bilhões para ensinar a língua a seus alunos e aparece a Dilma estuprando a língua e criando novo dicionário. Quando a maioria de seus ministros apareceu enlameada em falcatruas, em vez de dizer que eles estavam fazendo roubalheiras ela inventou que o que eles faziam era apenas “malfeitos”. E porque era só “malfeitos” voltaram todos ao governo nos mesmos ministérios ou em penduricalhos do governo.

Quando explodiu o escândalo da roubalheira na Petrobras o país sabia que o que havia era roubo mesmo. Enfiaram a mão no dinheiro. Pois volta a dona Dilma a pôr os corruptos embaixo de suas vastas saias e os protege dizendo que não houve roubo. Houve apenas “desvios”.

O grave é que o hábito do cachimbo põe a boca torta. De tanto defender os corruptos do seu governo dona Dilma pode acabar agarrada pelo Supremo Tribunal Federal no “Mensalão da Dilma”.

O escândalo da Petrobrás é tão geral, tão amplo, tão vasto, que ninguém vai impedir que toda essa história acabe em uma rumorosa CPI no Congresso atingindo o dicionário, os “mal feitos” e os “desvios” da Presidente. Ela vai ter que providenciar um novo dicionário só dela.

TSE

Esta campanha eleitoral desmoralizou uma banda fundamental da política brasileira. Por exemplo, o uso do dinheiro público pelos candidatos oficiais. Dona Dilma transformou o Palácio da Alvorada em um escritoriozinho de segunda categoria onde ela reúne cabos eleitorais e apaniguados todos os dias. E tudo com dinheiro público.

Quem é que está controlando a farra aérea da Presidente com os aviões oficiais? Quem é que vai cobrar os gastos públicos da Presidente em toda a sua campanha pelo pais afora? Já sei. Vocês vão dizer que é o Tribunal Superior Eleitoral. Ora, o Tribunal Superior Eleitoral, com perdão da palavra, é um escritório eleitoral do Palácio do Planalto.

Afinal a maioria deles foi nomeada pela Presidente e está devolvendo em violações ilegais a nomeação que ganharam.

PESQUISAS

Ufa, passamos uma semana sem ouvir falar em pesquisas. Os principais institutos nacionais de pesquisas têm mais de meio século. Mas no primeiro turno de tal forma alguns chafurdaram na corrupção do governo que acabaram totalmente desmoralizados. O país com vergonha deles e eles, com mais vergonha ainda deles, calaram a boca, sumiram.

Mas evidente que esta semana eles vão voltar. Não perderiam a última faturada. Como dizem amigos meus, estudiosos de pesquisas, da Universidade de Brasília, as pesquisas brasileiras se transformaram no melhor negócio do mundo: você contrata uma pesquisa, negocia com outro instituto, os dois fingem que fazem a pesquisa e os dois apresentam o mesmo resultado, faturando ambos duas vezes de cada lado: com os jornais e  televisões que publicaram as pesquisas e com os candidatos protegidos pelas pesquisas fajutas. Isso se chama mamão com açúcar.

IMPRENSA

Sócia e apaniguada dos falsos institutos de pesquisa, a nossa querida imprensa vai sair gravemente atropelada desta eleição. E em tantas armações entraram que os leitores, por  não serem bobos,  já perceberam que tudo não passa de uma trapaça geral. Como vai ficar a fidelidade dos leitores? Como vão ficar as compras nas bancas e as assinaturas? Como vão ficar os hábitos de leitura vindos de gerações?

E os anúncios? As agências de publicidades, os empresários vão engolir assim essa agressão escancarada aos leitores?

O pior é que atrás dos espertos veem os espertinhos, os chamados “formadores de opinião”. Envergonhados de mentirem por conta própria, inventaram agora as “pesquisas qualitativas”. O gordinho sinistro da página 2 do “Globo” rola e embola inventando “pesquisas qualitativas”. Isto é uma asquerosa falta de respeito aos leitores e assinantes como eu.

A lição de JK

Sebastião Nery

PARIS – Ninguém me contou, eu vi. Foi há muito tempo, na década de 50. Eu morava, estudava e trabalhava em Minas como jornalista político (“O Diário”, “Diário da Tarde”e “Jornal do Povo”do Partido Comunista). Juscelino havia resistido ao golpe que levou Getúlio ao suicídio em 24 de agosto de 1954 e era candidato natural do PSD, do PTB e das esquerdas à Presidência da República em 1955.

Todos os dias invariavelmente íamos ao Palácio da Liberdade ver o governador e saber o que havia no pais e em Minas. Juscelino era um forte sitiado. A UDN mobilizou um cerco nacional no Congresso, na imprensa e sobretudo nos quartéis para vetar e impedir a candidatura de JK. Ele nunca perdeu o sorriso aberto com os olhos apertados.

Enfrentou tudo: a oposição desvairada de Lacerda na imprensa, o jogo duplo, às vezes triplo, de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho nos seus jornais e televisão,  e sobretudo a resistência de uma banda do PSD dentro do seu partido, a começar por Benedito Valadares em Minas.

MINAS

Dias atrás uma jornalista perguntou ao senador Aécio Neves se ele se sentia um homem de sorte. Respondeu tranquilamente:

– Eu sou é determinado. Quando decido vou em frente.

Esta foi a grande lição que o Aécio recebeu de Juscelino e herdou do avô Tancredo Neves. Ser determinado e vencer os obstáculos. O que a UDN fez naquela época para detonar a candidatura de Juscelino pareceria hoje inacreditável. Só não era pior do que a artilharia bandida do PT hoje.

A UDN de Minas, achando pouco ter quase a unanimidade da imprensa nacional, ainda criou um jornal de luta, bem feito, bem escrito, com dinheiro à vontade: “Correio do Dia”. Nele escreviam os líderes nacionais da UDN como os de Minas, a maioria nossos brilhantes e queridos professores nas faculdades de Direito e de Filosofia.

Nas salas de aula eram sábios varões gregos. Nos palanques e jornais, demônios: Pedro Aleixo, Milton Campos, J M de Carvalho, José Cabral, Horta Pereira, Afonso Arinos, tantos outros. Pareciam imbatíveis, no entanto foram derrotados todos, um a um, e mais seus aliados Magalhães Pinto, Zezinho Bonifácio, pelo determinado Juscelino.

Para ganhar tiveram que rasgar a história libertária de Minas, inclusive o valente Manifesto dos Mineiros de 1943, indo buscar nos quartéis os generais hoje envergonhados do golpe de 1964. JK resistiu a tudo, venceu dentro de seu partido, o PSD, ganhou o apoio dos trabalhistas e da esquerda e em 1955 elegeu-se  Presidente.

AÉCIO

Até sábado, a internet trazia a notícia de que as primeiras pesquisas do IBOPE e do Data Folha no segundo turno, davam 2 pontos de frente para Aécio diante de Dilma. Já domingo chegava a bomba: o Instituto Sensus de Minas trazia a disparada de Aécio com 15 pontos a mais.

Conheço o Sensus. Conheço o Ricardo Guedes. É um instituto sério. É um pesquisador sério. Tem seu nome a zelar. Não iria comprometer a história, a imagem do instituto que ele dirige numa pesquisa fajuta que viesse a ser desmentida em 15 dias, como aconteceu com o espetáculo ridículo do IBOPE e do Data Folha no primeiro turno, errando em 15 pontos de diferença na última semana. Sem falar na espantosa e inacreditável Boca de Urna do Ibope, “pela margem de erro”.

Em 1955 a UDN dizia que Minas “massacraria” Juscelino na eleição. Quem garantiu a vitória de JK com 36,8% dos votos nacionais (não havia segundo turno, o mais votado do primeiro era o eleito) foi a votação esmagadora que Minas deu a Juscelino, anulando a vitoria de Adhemar de Barros em São Paulo e de Juarez Távora  no Rio.

Assim como Minas e tirando Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o resto do país também deu a vitória a Juscelino.

Está na hora de Minas pedir perdão ao Brasil pelo crime que cometeu em 1964 ajudando os norte-americanos e os generais golpistas a tomarem o poder e expulsarem Minas e seus líderes (Juscelino, Magalhães Pinto, Pedro Aleixo, Milton Campos), liquidando  seus bancos (Moreira Salles, Nacional, Mineiro do Oeste), vetando seu comando no Congresso Nacional, martirizando sua economia.

A missão de Aécio é recolocar Minas no seu tamanho nacional. Segunda maior população, segundo maior eleitorado, segunda maior economia, Minas tem a oportunidade de cobrar seu passado e é preciso que os mineiros tenham consciência disso e no segundo turno reparem o erro do primeiro, dando a Aécio a maior votação do Estado.

DILMA

Quem precisa de maracutaias e falcatruas  é Dilma e o PT com o escândalo da Petrobrás surpreendendo os mais incrédulos dos petistas. Agora a nação já sabe que o PT (Lula, Dilma, a direção nacional) instalou na Petrobrás a mesma “organização criminosa” que a Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal de Joaquim Barbosa denunciaram, condenaram e prenderam no Mensalão.

A Nação sabe também que Dilma é uma siderúrgica de mentiras. Ela mente, mente demais, repete, insiste, e tudo o que diz é mentira, só mentira, sempre mentira. Mente nos números do governo, mente nos dados da economia e mente sobretudo no seu falso e dissimulado olhar.

Dilma sai desta campanha com nome novo: “Dilmentira”

Dona Perolina do PMDB

Sebastião Nery

Imbituba, Santa Catarina, 1962, eleição para prefeito. A UDN, comandada por Álvaro Catão, dono das docas da cidade e deputado federal, tinha seu candidato. O PTB, dirigido pelo brilhante líder Doutel de Andrade, lançou Moacir Orige, candidato dos estivadores, casado com dona Perolina, agente local do IAPETEC.

A eleição ia ser decidida no distrito de Vila Nova, onde a UDN dos Catão era mais forte. Dona Perolina foi a Laguna, chamou um enfermeiro do SAMDU, alto, pretão, elegante. Meteu-lhe um jaleco branco, calça branca, sapato branco, maleta preta, estetoscópio no pescoço, entrou orgulhosa em Vila Nova:

– Chegou o médico. O doutor vai dar consulta e remédio de graça pra todo mundo. É uma colaboração do PTB para o povo de Vila Nova.

PTB

Juntou gente, dona Perolina abriu duas malas enormes, entupidas de amostras-grátis que havia conseguido em Laguna e Imbituba, estendeu uma toalha branca sobre a mesa longa e pôs os remédios em fila, por ordem alfabética: A, Aspirina. B, Beladona. C, Coristina. E assim por diante. O “médico”, de jaleco e estetoscópio, ia fazendo as consultas: – O que é que o senhor tem? – Dor no peito. – Dor no peito, letra P. Dona Perolina pegava um remédio da letra P, o homem saia. – E a senhora? – Estou passando mal do coração. – Coração, letra C. Dona Perolina pegava um remédio da letra C, a mulher saia. Ninguém piorou, muitos foram curados e o PTB ganhou as eleições

MICHEL

Michel Temer é a dona Perolina do PMDB. Na farmácia do governo, ele tem remédio para tudo. Distribui empregos como quem aplica pomada para pereba e vai comprando correligionários. Foi assim na ultima convenção do partido. Anunciou que ganharia com mais de 80% dos votos. Saiu de lá humilhado. Não passou de 59%. Apesar de todas as pressões, cambalachos e corrupção urdidas por ele e sua turma, a oposição teve 41% e sobretudo venceu em 6 dos 7 maiores Estados: Minas, Rio, Bahia, Rio Grande do Sul, Ceará e Pernambuco. Em todos eles o PMDB não vai apoiar a chapa Dilma-Michel.

PIRRO

A convenção foi uma vitória de Pirro para o palácio do Planalto. (Pirro foi aquele rei do Épiro e da Macedonia, na Grecia, inimigo irreconciliável de Roma e dos romanos, que, depois da batalha de Heracleia, proclamou-se vitorioso apesar de perder todos os seus soldados).

Uma das lambanças foi, entre os votos apurados, os brancos, nulos e abstenções terem sido desconsiderados, omitidos, em lance de esperteza à altura da contabilidade criativa prevalecente no governo federal. Ficou claro o nível de desprestígio do vice-presidente da República, licenciado da presidência do PMDB e comprovando ter uma liderança fragilizada na condução da legenda, mal assegurando o horário de rádio e televisão para a chapa Dilma-Temer sem conseguir garantir a mobilização dos seus lideres e militantes nos maiores colégios eleitorais.

ULYSSES

Em política, não adianta a fantasia. A verdade surge das urnas. Em 1989, o exemplar Jarbas Vasconcelos, vice-presidente do PMDB, assumiu a presidência do partido com a licença do titular, o saudoso e gigante Ulysses Guimarães, lançado candidato à presidência da República, e honrou até o fim seu dever de sustentar a bandeira do partido. Ocupou a vice-presidência o bravo deputado Helio Duque, do Paraná. Eram os melhores do partido. O tempo de rádio e televisão que Ulysses tinha era mais do que o dobro do mais próximo.

Ao final da eleição, Ulysses ficou em 6º lugar, com votação constrangedora. A militância peemedebista se encaminhou majoritariamente para as candidaturas de Mário Covas e Brizola, comprovando que o tempo de mídia eletrônica não é suficiente para ganhar eleição. Voto não é pereba que se cuida com pomada, com maracutaia.

O dedo de Dilma

Sebastião Nery

Alegrete, no Rio Grande do Sul, estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado à cidade para jogar contra oAlegrete Esporte Clube. Banda de música, rodeio, bombacha e chimarrão. Um ardor cívico. Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O reserva tinha caído do cavalo, quebrado a perna. O outro reserva fugira na véspera com a namorada.

A solução era o circo. Foram buscar “Adalardo”, o macaco prodígio, que agarrava coco nos quatro cantos do picadeiro.

ADALARDO

“Adalardo” não negou fogo. Vestido com a camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegava tudo quanto era bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. “Adalardo”, acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete berrava e cantava a trave fechada e a vitória. Mas houve um pênalti. Contra o Alegrete.

“Adalardo” compreendeu que tinham mudado a regra do jogo. Era sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem de preto que tinha botado a bola ali na frente e mandado outro chutar. O outro chutou, a bola entrou. “Adalardo” enlouqueceu. Saiu da trave, deu uns urros no meio do campo, avançou em cima do homem de preto e arrancou o dedo do juiz.

A VAIA

A presidente Dilma sabia que, quando aparecesse no estádio na solenidade de abertura da Copa, ou em qualquer outro dia, seria vaiada. Lula, caráter sem jaça, velho fujão, pulou logo fora. Ficou em casa, não foi. Mas Dilma tinha que ir. Ir e falar. Foi assim em todas as Copas, em todos os países, com todos os presidentes, até a rainha da Inglaterra. Todos sempre abriram as Copas. Todos sempre falaram.

Ela decidiu a pior solução: a da covardia. Ir sem ir. Ir escondida, disfarçada, e não falar. Proibiu as televisões de filmá-la. Proibiu os telões de mostrar-lhe a cara. Certa de que atrás do Michel e da Fifa daria tudo certo. Mas deu azar.

PALAVRÕES

Por erro ou por inspiração patriótica de alguém, de repente, logo depois do hino nacional, aparece, toda inteira, no telão, a cara dela. E uma vaia incontrolável, uníssona, bravíssima, irrompe no estádio inteiro. Depois, outra vez, mais outra vez, várias vezes. E lá no fundo da tribuna de honra, atrás do gringo da Fifa e do vice Michel Temer, a televisão mostrou aquela mulher, antes tão enérgica, de repente humilhada, amofinada, escondendo as envergonhadas mãos.

E a multidão, até então eufórica, esfuziante e civilizada, surpreendentemente apelou. Começou a gritar-lhe insultantes e ritmados palavrões, o que jamais havia acontecido no pais com tal fúria.

Era mesmo para agredir. Como se o macaco Adalardo lhe tivesse arrancado o dedo.

OSWALDO ARANHA

Na mesma Alegrete, que os habitantes chamam de “a Londres gaúcha” e por isso apelidada de “Alegraite”, havia um famoso cabaré: o “Lulu” dos Caçadores. Toda noite tinha uma briga. Ia tudo calmo, tudo alegre, mas quando dava duas horas, era batata. A briga estourava.

Depois da Revolução de 30, Oswaldo Aranha, muito jovem, foi ser prefeito de Alegrete. Sabia do “Lulu dos Caçadores”, sabia das brigas. Uma noite, apareceu lá, bebeu, saiu às três da manhã, não houve briga nenhuma. Gostou, voltou. No dia seguinte, estava lá de novo. E no outro, no outro. As brigas acabaram.

No quinto dia, quando Oswaldo Aranha entrou, pendurada na parede do cabaré, estava uma faixa grande: “Dr. Oswaldo Aranha, acabaram-se as considerações”. Às duas da manhã, a pancadaria começou.

RANCOR

Nos dois governos de Lula houve vaia no Maracanã, mas vaia comum, apoteótica mas civilizada. Dilma também já foi vaiada. Mas politicamente. Agora, não. O PT tanto abusou, tanto enfiou as mãos nos cofres públicos, Dilma tanto mentiu que o país perdeu a paciência. Acabaram-se as considerações. Esse rancor não é brasileiro. É filho do PT.

Rabo de cavalo, crescendo para baixo

Sebastião Nery

O Galaxie azul parou na porta da casa do economista, barão e meu amigo Zito Souza Leão, em Recife, em 1974. Saltaram senhores sisudos, excessivamente preocupados. Trancaram-se numa sala. Duas horas depois, o Galaxie azul rolou para o aeroporto dos Guararapes. Cid Sampaio, Paulo Guerra e Nilo Coelho já podiam esperar em paz o senador Petrônio Portela, que chegava a Pernambuco para escolher o novo governador. Os três caciques tinham encontrado, afinal, uma fórmula de acordo.

Durante meses, cada um tinha trabalhado sua lista. Cid Sampaio: Paulo Maciel, Sebastião Barreto Campelo, Leal Sampaio. Paulo Guerra: Geraldo Magalhães, José do Rego Maciel, general Bandeira. Nilo Coelho : Marco Maciel, Roberto Magalhães, coronel Vilarinho. Na casa de Zito Souza Leão, tinham fundido as três listas numa só: Paulo Maciel, Marco Maciel, Roberto Magalhães. Sentiam-se invencíveis.

MOURA

No aeroporto, Arnaldo Maciel, ex-secretário de Cid Sampaio no governo, chama o governador Eraldo Gueiros a um canto:

– De Brasília, o ministro Costa Cavalcanti acaba de telefonar dizendo que o Planalto informa que o governador vai ser o Dr. Leal Sampaio.

– Se o Planalto informa isto, vou dizer ao Petrônio Portela que passe direto para a Paraíba.

O deputado Luís de Magalhães Melo cochichava:

– Preciso falar urgente com o Eraldo. O candidato quente hoje em Brasília é o Dr. José do Rego Maciel (pai de Marco Maciel). E infelizmente eu não tenho como denunciá-lo. Estou vendo se consigo uma certidão de nascimento para provar que ele tem mais de 70 anos.

Petrônio Portela chegou, “somou o consenso”: Moura Cavalcanti 46 votos; Paulo Maciel 22; Marco Maciel 20. Voltou para Brasília. Pernambuco soube que o governador era Marco Maciel. E era Moura Cavalcanti.

DILMA

Na ditadura era assim : nomeação. E Geisel nomeou Moura. Na democracia não adianta estrebuchar. Quem nomeia é o povo. Geisel ainda nomeou Figueiredo, que já não podia nomear Maluf. Ganhou Tancredo.

Lula e o PT acharam que poderiam nomear quem quisessem e para sempre. No governo, Lula nomeou Dilma e Haddad em São Paulo. E é o fracasso que se sabe. Fora do governo, Lula tenta nomear Alexandre Padilha e Dilma de novo. E é o desastre que se vê: Padilha não sai dos 3% e Dilma escorrega ladeira abaixo, mês a mês. Caiu 10% em dois meses.

Escandalosamente acobertada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o escritório eleitoral do PT, Dilma usa a Presidência da Republica como Comitê Central de campanha e faz dos palácios do Planalto e da Alvorada sede de convescotes e comícios internos diários. Os demais candidatos são proibidos pelo TSE de pronunciamentos eleitorais. Mas Dilma, como mico de cemitério, salta diariamente de televisão em televisão, dando entrevistas, fazendo campanha. E nem assim. A pesquisa dela cresce como rabo de cavalo. Para baixo. Chegou a 33.

FUTEBOL

Todo mundo fala em futebol. Falo eu também. Meu amigo Helio Duque, economista, professor, está preocupado com o outro lado da Copa.

1- O escritor Eduardo Galeano, no livro “Futebol ao Sol e à Sombra”, constata: “A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos expectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo. O futebol profissional não tem escrúpulos, porque integra um sistema de poder inescrupuloso”.

2. – Na Europa, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade oficial respeitada mundialmente, denunciou: “Os clubes de futebol são vistos por criminosos como veículos perfeitos para a lavagem de dinheiro. A lavagem de dinheiro no futebol se revela como sendo mais profunda e mais complexa do que se pensava antes.”

3. – O jornalista Jamil Chade, de Genebra, atesta: “Apenas em 2011, a FIFA registrou mais de 5 mil vendas e compras de jogadores, com uma movimentação de US$ 2,3 bilhões. Segundo a Fifa, é apenas parte da história e 4 de cada 10 dólares negociados nunca aparecem nas contas”.

Presidencialismo de corrupção

Sebastião Nery

Era cabo do Palácio Bandeirantes, sede do governo paulista, quando Ademar era governador. Todo fim de mês, de manhã cedo, recebia um envelope fino, fechado, muito bem fechado, para entregar a um senhor gordo e estranho nos subúrbios da capital. E trazia de volta, mandado pelo senhor estranho e gordo, um pacote grosso, fechado, bem fechado.

Um mês, dois meses, seis meses, todo dia 30, de manhã cedo, bem cedo, o cabo levando o envelope fino e trazendo o pacote grosso. Morria de curiosidade, mas não tocava o dedo. Estava ali cumprindo seu dever. E o segredo era o preço primeiro do dever.

O CABO

Um dia, o cabo não se conteve. Abriu pela ponta, discretamente, o pacote grosso. Era dinheiro, muito dinheiro. Tudo nota de mil. Resistiu à tentação, entregou o pacote inteiro, intocado. No mês seguinte, dia 30, deram-lhe de novo o envelope fino. Abriu. Era um cartão, escrito à mão: – “50 contos no bicho que der.”

O cabo não resistiu. Pegou uma caneta num botequim, emendou: – “50 contos no bicho que der. Aliás, 55”.

Nunca mais lhe deram o envelope fino e muito menos o pacote grosso. Foi demitido.

PT SEM ENVELOPE

Bons tempos aqueles em que a corrupção ia de envelope fino e voltava de pacote grosso. O caixa das maracutaias era desovado no jogo do bicho. Depois que o PT inventou o “Presidencialismo de Corrupção”, criado por Lula e ampliado por Dilma, a rota das negociatas passa pelos cofres insaciáveis das empreiteiras, é garantido pelos gorduchos favores do BNDES e sangra as gavetas amanteigadas do Tesouro Nacional.

Lula chegou como o guerreiro dos sindicatos, Dilma como a Mãe do PAC. Em dez anos os dois tiraram a máscara. O guerreiro virou um lobista de negócios dos ditadores africanos e de Cuba.E o PAC da Dilma empacou. O “Presidencialismo de Corrupção” é a maior fonte de negociatas do pais. Nunca houve coisa igual, nem no Império ou na Republica Velha.

Corrupção sempre houve. O Poder é uma instituição voraz. Mas nos níveis em que o PT a instalou, aberta, escancarada, escrachada, jamais houve igual.

PÂNTANO

A desculpa é que a “Base Aliada” é insaciável, que quase 30 partidecos são incontroláveis, que com mais de 30 ministérios ninguém administra. Ora, quem alimenta, engorda, sova esta máquina infernal? . Era Lula, hoje é Dilma. Os dois são a alma do PT.Vivem dele. Sangue do sangue. Chegou a campanha eleitoral, o PT saltou no pântano. Vale tudo. São os “blogs de assalto”, os “colunistas de aluguel”. É a guerra suja. E o palácio do Planalto comprando tudo com dinheiro público.

Já não bastam os asquerosos convescotes vespertinos em que a presidente da República distribui dinheiro e cargos aos partidos como banana a macacos. E Lula diz a Dilma, debochando, que senadores e deputados “não se dão ao respeito”.

NOTÍCIA BOA

Sinto até constrangimento de misturar uma informação decente com um pântano podre como essa campanha eleitoral do PT. Mas ainda bem que nem tudo está perdido e há homens públicos cumprindo seu dever. Amanhã, dia 4 de junho, toma posse a nova diretoria, recém-eleita, da AJUFE (Associação dos Juizes Federais). Será comandada por dois jovens, experientes e provados magistrados: Antonio Cesar Bochenek, do Paraná, e André Thobias Granja, de Alagoas. Parabéns e sucesso.

NINGUÉM ME CONTOU

Não digam meus leitores que estou amargo, por causa dessas notas aí em cima. Estou é chocado com o massacre que o PT está fazendo no país. Quanto a mim, muito pelo contrario. Depois do sucesso que foi, na semana passada, o lançamento, no Rio, de meu novo livro “Ninguém me Contou, Eu Vi” (Editora Geração), foi a vez de assinar dezenas de exemplares em São Paulo na “Livraria Cultura” do Conjunto Nacional. Um reencontro com meus queridos companheiros de São Paulo, em cuja imprensa (jornais e televisões) escrevo desde 1975. Garanto o novo filho. Leiam. É tão bom quanto “A Nuvem”.

O Supremo cochicho

Sebastião Nery

No “11 de Novembro” de 1955, internado Café Filho, presidente da República, com problemas cardíacos, o golpista Carlos Luz, presidente da Câmara no exercício da Presidência, tentou demitir o general Lott do Ministério da Guerra para impedir a posse de Juscelino – que havia ganho as eleições de 3 de outubro – mas não conseguiu. A Câmara reuniu-se, derrubou-o e o substituiu por Nereu Ramos, presidente do Senado.

Antonio Balbino, governador da Bahia, amigo de Nereu, veio para o Rio visitá-lo. Nereu acabava de receber carta de Café Filho comunicando-lhe que ia reassumir a Presidência. Mas o General Denis, comandante do I Exército, já havia mandado cercar a casa de Café para ele não sair de lá.

NEREU

Quando Balbino chegou ao Catete, o general Lima Brayner, chefe da Casa Militar de Nereu, pediu a Balbino que convencesse Nereu a não devolver o governo a Café, que queria dar o golpe. Nereu foi claro:

– Só vou agir dentro da lei. O Café, através de Prado Kelly e Adauto Cardoso, entrou com mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal. Se o STF conceder o mandado, entrego o governo e volto para o Senado.

Lott soube da conversa, chamou Balbino:

– Governador, vá conversar com o presidente do Supremo. Balbino foi. O velhinho estava em casa, noite alta, já de pijama:

– Ministro, o país está vivendo um momento difícil. Compreenda. A casa do Café está cercada. O Catete está cercado. Nereu não vai poder passar o governo ao Café porque Café não quer dar posse ao Juscelino.

– Mas, governador, o mandado de segurança está em pauta para amanhã. Se o Tribunal conceder, o Café vai reassumir.

– Ministro, entenda. Enquanto se fecha o Legislativo, ainda se entende. Mas, e se o Judiciário for fechado? Para onde vamos?

O ministro levantou-se, passou para o gabinete interno da casa, pegou o telefone vermelho, daqueles de gancho, e começou a ligar para os outros ministros, falando baixinho, cochichando, cochichando. O mandado de segurança não entrou em pauta. Nereu continuou presidente e deu posse a Juscelino no dia em que a Constituição mandava.

TEORI

Não sei com quem o ministro Teori Zavascki, do Supremo, cochichou. Mas deve ter cochichado com um cochicho muito poderoso, para chegar a uma decisão tão estapafúrdia, a uma teoria tão zavascada. Tudo bem.Ninguém entende mesmo cabeça de alguns juízes. Mas tentem entender o tortuoso Zavascki. Eram 12 presos. Ele queria soltar um, o cochichado. Em vez de manter 11 presos e soltar o cochichado, ele soltou à noite todos os 12 e prendeu novamente 11 ao amanhecer. O pais levou um susto, as manchetes das TVs e jornais explodiram. E o cochichado? O cochichado, ora,! continua cochichando.

PAC EMPACOU

O economista Gil Castello Branco, fundador da Associação Contas Abertas, analisa o desempenho do PAC, criado para lançar a candidatura da Dilma, “a Mãe do PAC”, em 2010. Os resultados são devastadores:

1.- Na Saúde, das 24.006 obras prometidas só 2.547 (11%) foram colocadas à disposição da sociedade. Unidades Básicas de Saúde (UBS): das 15.652 previstas, irrisórias 1.404 (9%) foram concluídas. Unidades de Pronto Atendimento (UPAs): 503 previstas, somente 14 prontas.

2. – Saneamento e recursos hídricos: das 7.911 iniciativas, apenas 1.129 (14%) finalizadas. Dilma prometeu 6 mil creches, que poderiam chegar a 9 mil. Das 5.257 creches e pré-escolas constantes do PAC 2, apenas 223 em funcionamento até o fim do ano passado.

3. – Esporte: das 9.158 quadras esportivas, apenas 481 (5%) inauguradas. Nenhum dos 285 centros de iniciação ao esporte ficou pronto.

4. – Transportes: dos 106 empreendimentos em aeroportos, 70% ainda em fases burocráticas. De cada 3 obras de rodovias, apenas uma concluída. Das 48 intervenções em ferrovias, só 12 no fim. Mais da metade do PAC 2 sequer saiu do papel. De cada 10 iniciativas, menos de 4 estão em obras ou em execução. Apenas 12% concluídas. O PAC empacou.

Um partido fascista

Sebastião Nery

Uma tarde de 1970, o governador do Paraná, Paulo Pimentel, conversou longamente com o deputado da Arena, Haroldo León Perez, no escritório do Estado, no Rio. Saiu Perez, Pimentel estava furioso:

– Este Haroldo é um idiota. Imagina que veio aqui me dizer que vai ser o próximo governador. Já está escolhido, mas gostaria de ter o meu apoio. Em troca, assegura um ministério para mim, o da Agricultura. Mal conseguiu eleger-se deputado, não tem prestígio nenhum, eu não o quero, o Ney não aceita, como é que vai ser governador e negociando ministério?

Uma semana depois, ao fim de um jantar, em Brasília, em um jogo de cartas,o general Médici disse à mulher do deputado León Perez (Paraná):

– A senhora está de parabéns. Amanhã, saberá.

MEDICI

No dia seguinte o governador Paulo Pimentel e o senador Ney Braga foram chamados ao Palácio do Planalto pelo presidente Médici:

– Quero comunicar aos senhores que o governador do Paraná vai ser o deputado Leopoldo Perez. Ney Braga, pálido, baixa os olhos. Paulo Pimentel sorri amarelo:

– Mas, Presidente, o deputado Leopoldo Perez, secretário-geral da Arena, é do Amazonas. Não tem nada a ver com o Paraná.

– Não é esse, não, governador. É o outro.

– Que outro, presidente?

Medici fica irritado, grita irado:

– É o outro, o do seu Estado.

– O Haroldo Perez?

– Sim, sim. Esse mesmo.

Paulo saiu do Palácio para o aeroporto, Ney para uma casa de saúde. Um ano depois o Perez de Medici foi posto fora do governo por ladroagem.

MUSSOLINI

O nome disso é fascismo. Quando o poder é imposto pela força. Medici queria, Medici podia, Medici nomeava. O pais que se danasse. Em 1922, na Itália, Benito Mussolini dizia-se um “líder socialista”. Criou seus camisas negras, seus grupos de assalto, os “Fascio”, organizou uma “Marcha Sobre Roma”, recebeu “plenos moderes” do Parlamento, prendeu seus antigos companheiros Antonio Gramsci, Silvio Pelico, matou milhares, criou o “Movimento Social Italiano” tendo como pedra angular a “unicidade sindical”, impôs à Itália o regime fascista e se aliou a Hitler.

Deu no que deu. Fanfarrão como Lula, acabou pendurado de cabeça para baixo, berrando como um bode imundo, em um posto de gasolina.

LULA

Lula começou a pôr as unhas de fora. Apareceu como um inofensivo líder sindical retirante protegido pelo legalista delegado Romeu Tuma, agarrado nas batinas da Igreja e nas botas do general Golbery. Tantos de nós, direta ou indiretamente, de uma forma ou de outra, o ajudamos. Criou o PT, o “Partido dos Trabalhadores”, como se só eles fossem trabalhadores, e a CUT, a Central “Única” dos Trabalhadores, como se só ela fosse dos trabalhadores. Era a repetição da “unicidade sindical” de Mussolini.

De repente, Lula convocou o PT a ser um partido fascista. (seus “fascio”) sob o comando de seu presidente Rui Falcão, indisfarçado “teórico fascista”, e “sair para a guerra, guerra total a quem ameaçar a conquista da hegemonia em torno do nosso projeto de sociedade” (Globo).

HEGEMONIA

Em política, em matéria de conquista de poder, “hegemonia” está com toda a simplicidade muito bem definida pelo saudoso mestre Houaiss:

– “Hegemonia – Supremacia ou superioridade cultural, econômica ou militar de um povo… supremacia, influencia preponderante… autoridade soberana… liderança, predominância ou superioridade”.

É toda a base do fascismo. Antes o PT rosnava. Agora já começaram a morder. Na TV, o deslumbrado baiano aprendiz de Goebbels (chefe da propaganda de Hitler) João Santana apela para o mais escrachado terrorismo, querendo fazer do medo o centro das próximas eleições. Com Dilma derrapando toda semana nas pesquisas, vaiada toda vez que aparece em publico, só podendo mostrar a cara nos fundos do Planalto ou nos convescotes do Alvorada, eles estão com medo de perderem as bocas sujas, os conselhos fajutos, as maracutaias passagenas. As urnas vêm ai.

Lições para Aécio e Eduardo Campos

Sebastião Nery

Logo depois do suicídio de Getúlio em 24 de agosto de 1954, Nereu Ramos, presidente da Câmara dos Deputados e do PSD de Santa Catarina, chamou Juscelino, governador de Minas,ao Rio, para uma reunião no PSD. Lá estava o governador de Pernambuco, Etelvino Lins, do PSD.

Etelvino propôs o adiamento das eleições para o Senado, a Câmara e as Assembleias, que iriam realizar-se em 3 de outubro. Alegava que uma eleição ainda sob o impacto do suicídio de Vargas daria ao PTB uma votação em massa, que provocaria uma reação dos militares.

Com a tese de Etelvino concordaram Nereu Ramos, Benedito Valadares presidente do PSD de Minas, Lucas Garcez, governador de São Paulo, e outros. Lacerda, da UDN, e Raul Pila, do PL, também queriam o adiamento. Juscelino foi totalmente contra. Sabia que aquele era o ovo da serpente para adiar também as eleições presidenciais do ano seguinte. Mesmo assim Nereu, Etelvino e Lucas Garcez foram a Café Filho, vice de Getúlio, que tinha assumido a presidência e virado udenista desde criancinha, e propuseram o adiamento. E Juscelino declarou que “como governador de Minas, lançaria mão de todo o poder que lhe conferia o cargo para impedir que o calendário eleitoral fosse alterado”.

JUSCELINO

Recuaram. Houve as eleições e não aconteceu nada do que eles diziam. O PSD tinha 112 deputados e passou para 114, a UDN com 84 caiu para 74 e o PTB com 51 subiu só para 56. JK começava a ganhar a briga. Mas Benedito, presidente do PSD de Minas, com pavor dos militares, não queria Juscelino de jeito nenhum. Juscelino teve de derrotá-lo na executiva estadual.

Depois de horas trancados lá dentro, numa reunião dramática, até a madrugada, a porta se abriu e vimos Juscelino sair com um sorriso de arco-íris. Até os olhos presos arregalaram. Ganhou por um voto. Benedito, cabeça baixa, pálido, pela primeira vez derrotado numa reunião política do partido.

No dia 19 de novembro de 54, todos os diretórios do PSD de Minas mandaram telegramas a Benedito encarregando-o de indicar Juscelino à direção nacional. No dia 25, o diretório nacional do PSD, presidido por Amaral Peixoto, contra a oposição de Benedito, Nereu e Etelvino, e do PSD do Rio Grande do Sul e outros apavorados, aprovou Juscelino por 123 a 36 votos.

Afinal, no dia 10 de fevereiro de 1955, dos 1925 delegados da convenção nacional, 1646 lançaram Juscelino. Os diretórios de Pernambuco, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e 160 da Bahia e 26 do Rio ficaram contra.

ETELVINO

A grande imprensa do Rio e São Paulo, quase toda antigetulista, procurava convencer a opinião pública de que o país atravessava uma situação de extrema gravidade, que só tenderia a aumentar com a disputa eleitoral.

Etelvino propôs a Milton Campos, ex-governador de Minas, para propor à UDN, uma lista tríplice (Juscelino, Gustavo Capanema e Lucas Lopes, todos do PSD) para uma candidatura interpartidária, com apoio do PSD, UDN, PL e outros penduricalhos. Juscelino não topou. Era contra ele. Fez uma visita aos ministros militares e comunicou que seria candidato. E saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PTB, ainda estava em duvida:

– Juscelino, qual a verdadeira posição do Café?

– Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

DILMA

JK foi para Pernambuco. Etelvino insistia na “união nacional”.

– Etelvino, já sei que você está contra mim.Quando fala em união nacional está pensando em União Democrática Nacional. Candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois da posse.

O chefe da Casa Militar da Presidência, Juarez Távora, depois candidato derrotado por JK, divulgou na “Voz do Brasil”, em 27 de janeiro, documento dizendo que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Schmidt: – “Deus me poupou o sentimento do medo”.

Conversando com os jornalistas, Juscelino ensinava:

– Em eleição, todo neutro é um adversário disfarçado.

As pesquisas mostram que Dilma cai, Aécio e Eduardo sobem. Hoje só há uma unidade nacional: O país não aguenta mais o PT.

A bomba não era minha

Sebastião Nery

Por volta das 7 horas da manhã de 12 de julho de 1966, fiz uma conexão no pátio de manobras do Aeroporto dos Guararapes, no Recife, desembarcando de uma velha aeronave procedente de João Pessoa e seguindo viagem numa mais nova e bem maior, para o Rio. Ia participar no Rio, como palestrante, de um debate sobre cineclubismo no Nordeste, promovido pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna – MAM…

O então deputado Manoel Gaudêncio (que foi meu companheiro de viagem nos dois voos, inclusive ocupando cadeira contígua à minha), quando saía da área de recolhimento das bagagens, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, foi informado por um amigo de um grande ataque terrorista que havia ocorrido horas antes, no Aeroporto dos Guararapes (Recife).

Como ele, fiquei gelado com o que acabava de ouvir… Sentamos num banco no saguão do aeroporto, em busca de maiores informações e só então tomamos conhecimento da gravidade do atentado: o seu alvo era o Ministro da Guerra, general Costa e Silva, candidato à presidência da República.

A explosão de uma bomba deixara cerca de 20 feridos e dois mortos (um almirante e um jornalista). Como não tínhamos nada a ver com a lamentável ocorrência, nos despedimos ali mesmo e cada um tratou de cumprir sua agenda na Cidade Maravilhosa…

COSTA E SILVA

Dois dias depois, já em São Paulo, quando estava assistindo ao filme “O Dólar Furado”, no miniauditório da Universidade Casper Libero, fui chamado para atender a um telefonema na diretoria e, na linha, bastante aflita, estava minha mãe, informando que a Polícia Federal e o Exército tinham estado lá em casa à minha procura. Sem me deixar falar, foi logo dizendo que estava certa de que as “visitas” tinham relação direta com o atentado de Recife.

Fiquei “estatelado” e só encontrei uma solução para acalmá-la: como não tinha nada a ver com essa bomba, disse que iria voltar para a Paraíba imediatamente e entregar-me no 15º RI (Exército)”…

Em João Pessoa, fui visitar o ministro José Américo de Almeida, na então deserta praia do Cabo Branco. Depois de dar total atenção às minhas informações, com apartes adicionais de Zé Leal, o ministro foi objetivo: – “Assuntos de militares só se resolvem com os militares. Vou falar com o “Reinardo” (puxando bem a voz, referindo-se a seu filho general Reinaldo, nome de peso no Movimento de 64) e tenho certeza de que, após tudo devidamente esclarecido, você não terá mais problemas. Acho também, como todos aqui ventilaram, que você espontaneamente deve se apresentar ao 15º RI, ou mesmo ao Grupamento de Engenharia, e aguardar os resultados dos contatos que vou fazer”.

O SÓSIA

Fui informado naquele momento pelo ministro que mais de mil pessoas já estavam presas no Nordeste, como parte das investigações sobre o atentado… Saltei calmamente na porta do 15º RI, em Cruz das Armas, e me apresentei ao oficial de dia. Levou-me para o primeiro andar, deixando-me sentado na biblioteca…

Uma noticia do jornal “O Globo”, bem destacada, numa pagina dedicada ao atentado, deixou-me alarmado. Dizia que as últimas investigações apontaram que a bomba fora mesmo deixada por um homem de 25 anos, magro, alto e cabelos lisos. (Como eu). E fiquei em estado de choque com uma outra : a sacola onde estava a bomba fora deixada bem perto da porta de uma livraria no saguão principal do aeroporto… (Onde quis comprar o “Diário de Pernambuco” mas já ia embarcar)… Depois de vários dias de interrogatórios e louca prisão, fui solto.

Raimundo Gonçalves Fernandes, conhecido como “O Chico”, foi oficialmente apontado como o homem que colocou a bomba no Aeroporto dos Guararapes. Foi morto em 1971em confronto com “forças de repressão”).

WILLS LEAL

Esta historia surreal e aterradora não está sozinha. Vem ao lado de outras, muitas e ainda mais fascinantes (prisão na Holanda por “traveller check” falsificado por um agente de viagens angolano, sequestros no Paraguai e em João Pessoa etc.) vividas e brilhantemente contadas pelo culto jornalista e professor paraibano Wills Leal em um livro imperdível: “Primeiro de Abril, Antes e Depois de 1964” (Editora Ideia – JP)

Fala sério, Dona Dilma

Sebastião Nery

RIO – Rivadávia de Sousa, gaúcho, jornalista, amigo de Getúlio Vargas, assessor de João Goulart, redator da Agência Nacional, preso no golpe militar de 1964, estava depondo no III Exercito:

– O que o senhor sabe sobre enriquecimento ilícito no governo de Jango?

– Nada. Eu é que quero saber quem é o responsável pelo meu empobrecimento ilícito. O coronel mandou-o para casa.

PETROBRÁS

Em Pernambuco, fantasiada com o macacão dos trabalhadores da Petrobrás, a presidente da República, incorporando o realismo fantástico de Gabriel Garcia Marquez, pensando que estava em Macondo, disse que os críticos dos escândalos na Petrobrás são “inimigos da Petrobrás”.

Ora, os verdadeiros inimigos da empresa o pais agora conhece:

1 – São os que desvalorizaram a Petrobrás em 101 bilhões e 500 milhões de dólares, rebaixando-a de 12ª maior empresa do mundo em valor de mercado para a 120ª posição, afetando os programas de investimentos fundamentais para o futuro do desenvolvimento nacional.

2 – São os que nomearam e mantiveram por oito anos o diretor Paulo Roberto Costa na estratégica área de abastecimento e refino. Pela primeira vez na história, um dirigente da Petrobrás foi preso pela Polícia Federal como integrante de uma quadrilha de lavagem de dinheiro.

PASADENA

3 – São os que patrocinaram a compra da Refinaria de Pasadena, a um preço astronômico de 1 bilhão e 200 milhões de dólares, anteriormente comprada pelo Barão belga Albert Frère por 42 milhões de dólares.

4 – São os que lançaram a pedra inaugural da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, com custo projetado de 3 bilhões de dólares e hoje a previsão do seu custo final está próxima dos 20 bilhões de dólares, mostrando o superfaturamento caviloso e nocivo às finanças da Petrobrás.

5 – São os que promoveram o desalinhamento dos preços dos combustíveis em função da demagogia populista, obrigando a empresa a importar derivados de petróleo a preços de mercado e vender internamente a preço bem menor. A cada 30 dias a Petrobrás perde 1 bilhão de dólares.

6 – São os que não respeitam o padrão de excelência em tecnologias inovadoras construídas pelos seus quadros técnicos, ignorando que a Petrobrás responde por 12% do PIB brasileiro, sendo responsável, apesar de tudo, por um programa de investimento maior do que o da União.

LULA E DILMA

7 – São os que levaram o valor das ações da Petrobras a um recorde de desvalorização. Em janeiro de 2003, o seu valor era de R$ 46,56. Hoje o seu teto vem sendo de R$ 16,00. Para atingir o valor real teria de ter uma correção de 223%. Os acionistas minoritários, donos de 48% do seu capital, tiveram suas finanças confiscadas e deterioradas.

8– São os que pela primeira vez obrigaram a Policia Federal a entrar na sede da Petrobrás e ficar de 9 da manhã às 3 da tarde revirando papeis. São fatos chocantes e indesmentíveis e têm como responsáveis os governos Lula e Dilma Rousseff.

Quem são os inimigos da Petrobrás? O ex-presidente da empresa, Sergio Gabrielli, aponta Dilma. Disse e repetiu que “a presidente Dilma precisa assumir suas responsabilidades”. Vem dona Dilma e diz que são os críticos. Fala serio, dona Dilma.

COLLOR

Pela segunda vez o Supremo Tribunal absolveu o ex-presidente Collor das acusações do Impeachment de 1992. O saudoso advogado Evaristo de Morais Filho, o Evaristinho, me disse na época e publiquei:

– Quantas vezes esse processo contra o Collor chegar ao Supremo ele será absolvido. A denúncia do procurador Aristides Junqueira não tem um só fato consistente. É pura bolha. É puramente política.

O lúcido jurista e ex-senador Amir Lando, relator do processo do Impeachment no Congresso, disse a um grupo de estudantes de Direito de Minas, que lhe perguntavam como ele definiria o Impeachment:

– Foi uma quartelada parlamentar.

“O tempo é o senhor da razão”. Só que anda devagar e chega tarde.

O general e a Petrobras

Sebastião Nery

RIO – Na primeira semana de abril de 1964, um magote de militares fardados e estrelados chegou ao edifício Ultramarino, no Rio, ao lado da Basílica da Candelária, esquina das avenidas Rio Branco com Getulio Vargas, então sede da Petrobras (hoje é na Avenida Chile). Era o general Olimpio Mourão Filho e sua trupe que vinham militarmente ocupar a Petrobras, em nome do “Comando da Revolução”.

Derrubado o presidente João Goulart no dia 31 de março, o marechal Osvino Ferreira Alves e sua diretoria tinham sido afastados da empresa por ordem das forças golpistas vitoriosas e o advogado Roberto Toledo ficara provisoriamente como administrador-geral. Era uma situação caótica. Prisões e cassações se multiplicavam nas diversas unidades da empresa em diferentes Estados. No Rio, na administração central, importantes servidores de nível gerencial eram afastados pelos dedos-duros de plantão.

Chegando de Juiz de Fora na madrugada de 1 de abril, o general Mourão imaginou que ia assumir o ministério da Guerra. Mas, lá chegando, já encontrou o general Costa e Silva sentado na cadeira, mãos para o alto: – Mourão, sou o mais velho. O chefe sou eu. Vá para a Petrobras.

MOURÃO

Mourão foi. Nesse cenário surrealista, o bravo Doutor Toledo recebe o pelotão do general Mourão. Arthur da Costa e Silva, ministro da Guerra (era essa designação à época) ordenara que o general Mourão deveria ser empossado novo presidente da Petrobras. Era “uma ordem revolucionária”. Experiente e conhecedor da legislação interna da empresa, o advogado Toledo comunica ao general que a posse não poderia se efetivar naquele instante. Seria necessária a convocação, por edital, da Assembleia Geral para que o processo de posse se tornasse legal.

O general Mourão Filho acatou o argumento e voltou com sua turma para esperar a publicação que lhe daria a Petrobras e a legitimidade no cargo. Não ganhou nem uma nem outra. Cada general mordia seu pedaço de poder.

Nomeado e empossado presidente da Republica o solerte, ambicioso e esperto general Humberto Castelo Branco, um de seus primeiros atos foi vetar o nome de Mourão para a Petrobras e escolher o respeitado marechal Ademar de Queiroz para a direção da estatal. No que acertou. Sua administração foi um marco positivo e consolidador da autonomia gerencial, imprimindo um forte sentido nacionalista. Enfrentou e derrotou a tese do ministro Roberto Campos, do Planejamento, que desejava dividir a Petrobrás em várias unidades autônomas.

TOLEDO

O advogado Roberto Toledo foi por décadas a memória viva da história do petróleo brasileiro. Aposentou-se próximo dos 80 anos. Foi assessor jurídico de todos os presidentes da Petrobras ao longo dos anos 50, 60, 70, 80 e 90. Uma longevidade alicerçada na competência jurídica e conhecimento técnico e histórico da estrutura organizacional da empresa. Um exemplo de servidor público e republicano.

O brilhante professor e economista Helio Duque, também ele patrimônio da Petrobras, três vezes deputado pelo MDB e PMDB do Paraná, relembra a historia e não perde a esperança no futuro da empresa.

GRAÇA

No Senado, a presidente da Petrobras, Graça Foster, passou por um constrangimento ao dizer que seu marido ‘não tem negócios” com a Petrobrás e ser desmentida pelo senador Mario Couto, do PSDB do Pará, que lhe mostrou uma “Folha de S. Paulo” de 2010, quando a empresa C. Foster, de Colin Vaughan Foster, tinha “20 dispensas de licitação para fornecer componentes eletrônicos”. E “desta vez ela silenciou” (Folha”).

Não precisava ter silenciado, se conhecesse as “Confissões” do incomparável Santo Agostinho. Bispo de Hipona (hoje Annaba, na Argélia), ele fugia a um cerco policial quando o barco em que estava como único passageiro foi interceptado. Perguntaram-lhe:

– O bispo Agostinho passou por aqui?

– Não.

Liberado, o barqueiro estava escandalizado:

– Senhor bispo, o senhor, que é um santo, mentiu.

– Não menti. Ele me perguntou se eu “havia passado”. Eu disse que não. “Estava passando”. É diferente. Não menti. Fiz uma “restrição mental”.

Dona Graça, como Santo Agostinho, seu marido “não tem” mesmo contratos com a Petrobras. “Teve”. É diferente. Na próxima, dona Graça, quando for falar à CPI, leia Santo Agostinho. Quem vai ficar constrangido e calado é o Mario Couto.

O PRIMO

Sabem por que o PT se lambuzou tanto com o doleiro Youssef? Pensaram que ele é primo da Dilma Roussef. O som é o mesmo.

sebastiaonery@ig.com.br

Refinaria Passeagrana

Sebastião Nery

RIO – Um amigo de Getulio Vargas, quando Presidente (eleito em 1950), criticava Ricardo Jafet, cunhado de Paulo Maluf:

– Presidente, nos primeiros encontros, no início da sua  campanha eleitoral, Jafet parecia o homem mais desinteressado do mundo. Não pedia nada em troca de sua ajuda. Dizia que era apenas um admirador e lutava como patriota pela volta do senhor ao poder. Depois, quando o senhor lhe entregou o Banco do Brasil, ele revelou seus verdadeiros intuitos.

– Eu sempre desconfio muito daqueles que nunca me pedem nada. Os que se sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.

O BARÃO 

Em entrevista ao jornal “Estado de S. Paulo”, em 22 de março ultimo, o barão belga Albert Frére, que arrancou mais de um bilhão de dólares da Petrobrás, assim se definiu cinicamente:

– “Sou um financeiro parasita que compra e vende sociedade. Sou um parasita das finanças do Estado. Sou um vampiro do Estado. Enriqueço graças ao Estado, seja o Estado belga, o francês” …

– Ou o Estado brasileiro. –

“Sim, ou o Estado brasileiro.”

DILMA

Primitiva na ação política, arrogante no exercício do poder, o falso brilhante Dilma Rousseff durante anos recebeu dos áulicos e de colunistas da imprensa chapa branca o diploma de gerente competente, a “gerentona”. Hoje, o valor de mercado da Refinaria de Pasadena, no Texas, que a Petrobrás comprou por 1,2 bilhão de dólares, é de 180 milhões de dólares.

E o estarrecedor: em 2005, a empresa belga Astra Oil, do Barão, comprou a “Pasadena Refining System Inc”pelo valor total de 42,5 milhões de dólares. Ao tentar tirar o corpo fora, agora na Presidência da República, a presidente Dilma quis se eximir de responsabilidade na estranhíssima e milionária negociata. Alguém a enganou. Não é Pasadena é Passe a Grana.

PETROBRAS 

A engenheira Graça Foster, atual presidente da Petrobrás, que vem tentando reimplantar um ciclo de moralização na sua administração, lembrou que o debate no Conselho de Administração é sempre intenso e a preparação de uma reunião toma dias e semanas de discussão.

Na época a Petrobrás era a 12ª maior empresa do mundo em valor de mercado, atualmente é a 120ª.  Responde por 12% do PIB (Produto Interno Bruto) nacional. É responsável por programa de investimentos maior do que o da União. Igualmente responsável por 13% do total arrecadado com impostos pelo governo federal e 17% do ICMS pago aos Estados. É um escarneo à bela historia da Petrobrás permitir que ela continue   frequentando a lista de escândalos policiais como o da Refinaria do Texas.

LULA 

Desde que Lula chegou ao governo, em 2003, a Petrobrás foi logo transformada em um deposito de escusos interesses e negócios suspeitos. Tomada de assalto por uma malta de falsos sindicalistas, lideres sindicais de araque, milhares e milhares, com salários privilegiados diante dos verdadeiros petroleiros, a Petrobrás virou uma cafua do PT,  a PTralha.

O PT imaginava que os escândalos não apareceriam jamais. De repente, em uma manhã qualquer, um diretor está preso acusado pela Policia Federal de roubar milhões, outro se esconde fugindo pela Europa, outros se abrigam em gabinetes do Congresso, negociam delação premiada. Quando o esgoto correr para o primeiro andar e aparecer a escumalha dos fantasmas, os verdadeiros empregados que dão a vida à empresa em terra e nos mares vão descobrir como são injustiçados e explorados.

PASSEAGRANA 

E o PT começa a jogar Lula contra Dilma, por “não cuidar bem do espolio”. O “Volta Lula” está em todas as colunas do “Exercito do Franklin”. O povo começa a ver tudo. Já está nas redes sociais furando a ferida. Muitos, com ironia, pedem que a Petrobrás  rebatize a refinaria nos Estados Unidos com o seu nome certo: “Refinaria Passeagrana”.

O Barão do PT

Sebastião Nery

RIO – Era uma vez um barão. Um barão belga. Albert Frère. O homem mais rico da Bélgica e um dos mais ricos do mundo. Era dono da refinaria de Pasadena,  no Texas, que comprou por 42 milhões de dólares como sucata e vendeu à Petrobrás por um bilhão e 300 milhões de dólares.

Um dos maiores negócios (ou negociatas) do século,no Brasil e no mundo.

Através da empresa Astra Transcor Energy , o Barão comprou essa refinaria em 2005 por 42 milhões de dólares e no ano seguinte, em 2006, vendeu a metade dela à Petrobras já por mais de 300 milhões de dólares. Foi um milagre evangélico. Multiplicou os peixes.

E virou o Barão do PT.

GDF SUEZ 

O Barão  Albert é dono também de 8% das ações da GDF Suez Global LNG, maior produtora privada de energia do planeta, da qual é vice-presidente mundial. Através da GDF Suez o Barão chegou ao Brasil.

A GDF Suez possui negócios com a Petrobras no Recôncavo Baiano, mas seu principal negócio no Brasil é a Tractebel Energia, que tem no pais um faturamento de quase 6 bilhões de reais anuais e é também do Barão.

A Tractebel    é dona das usinas de Estreito, Jirau, Machadinho, Itá e dezenas de outras hidrelétricas, termelétricas, eólicas. Todas no Brasil.

LULA E DILMA 

Essa Tractebel, que é da GDF Suez e também do Barão, foi uma grande doadora da campanha de reeleição de Lula, em 2006 : 300 mil reais. Também foi uma das patrocinadoras do filme “Lula, Filho do Brasil”.

Em 2010, para a eleição de Dilma, a Tractebel doou quase 900 mil reais. Eis aí o rabo da serpente. O dinheiro que ajudou a reeleger Lula e eleger Dilma veio, assim, mesmo que indiretamente, da Petrobrás, daquela

suspeitíssima bolada que a Petrobrás  pagou, inexplicavelmente, pela refinaria Pasadena. “Como é pequeno (e gordo) este mundo da corrupção”.

PETROBRÁS

Um espetáculo doloroso vem envolvendo a Petrobrás na sua criminosa mutilação. Nos últimos anos, a maior empresa brasileira, orgulho de gerações,  foi esquartejada, aparelhada pela incompetência, gerando um ciclo de “mal feitos” (corrupções)  inédito na sua história.

E não é de agora,mas dos últimos doze anos,quando foi transformada em palanque populista e apêndice da política econômica. Não fosse a imprensa buscar a operação dos desvios e negociatas e tudo continuaria.

Exemplo: quando Lula assumiu a presidência, em 1º de janeiro de 2003, uma ação da Petrobrás era cotada a R$ 46,56. Para voltar hoje a esse valor teria de ter uma correção de 223%. Os acionistas minoritários, donos de 48% do seu capital, tiveram suas finanças confiscadas pela incompetência do governo brasileiro. E mais: hoje, a cada 30 dias a Petrobrás  perde mais de US$ 1 bilhão com importação de derivados.

Só rezando : Ave Maria, cheia de Graça Foster..

UNE

Os 50 anos do ainda não suficientemente execrado golpe militar de 1964 também foram para a frente da UNE (União Nacional dos Estudantes), numa faixa denunciando o terrorismo dos histéricos que a incendiaram na manhã de 1 de abril de 1964.

Levantando a faixa, estavam lá os ex-presidentes Alfredo Marques Viana (Casa do Estudante do Brasil), José Frejat, João Pessoa de Albuquerque, José Batista de Oliveira Júnior, Milton Coelho da Graça, Arnaldo Mourthé e outros, representando gerações que honraram a UNE.

Na hora, surgiu uma preciosidade histórica: uma carta de 7 de agosto de 1942, do presidente dos Estados Unidos Franklin Roosevelt, para o então presidente da UNE,  Luiz Pinheiro Paes Leme, parabenizando os estudantes brasileiros pela luta contra o fascismo. Curiosidade : o Paes Leme era membro do então ilegal Partido Comunista do Brasil.

RENAN

À maneira do saudoso  Zózimo Barroso:

E o Renan, hein? Quanto mais o cabelo cresce, mais a biografia desce.

A Turma de Londrina

Sebastião Nery

RIO – Airton de Oliveira Goulart, jovem, bigodudo, bem-vestido, bem falante, chegou a Curitiba. Era desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e logo fez um amplo círculo de amizades. Não havia recepção no Palácio Iguaçu, ou aniversário de autoridade, que o paulista não estivesse lá. E brilhava. Em um mês já conversava sobre o Paraná, o poder, com a mais absoluta segurança e informação.

O desembargador Goulart ia se aposentar no Tribunal de Justiça de São Paulo e por isso estava em Curitiba procurando casa para morar, decidido a fugir da poluição paulista. Um dia um amigo advogado o achou jovem demais para desembargador:

– Você fez uma carreira muito rápida.

– Pois é. Minha família é importante. Pistolão, subi ligeiro.

Uma noite, estava o desembargador Goulart posto em sossego, no hotel, tocou o telefone:

– Desembargador, precisamos ouvi-lo na Universidade. Há muito estamos querendo que o senhor fale para nossos professores e alunos.

– Como não? Estarei lá com muito prazer.

Foi, deu uma aula debaixo de palmas. Desembargadores, juízes e professores ficaram encantados com as luzes do colega paulista. No dia seguinte, a imprensa de Curitiba publicou sua foto na tribuna, falando. Um dos jornais chegou a Araraquara, em São Paulo, e foi um sucesso na penitenciária, de onde o falso desembargador havia fugido há três meses, cumprindo pena por assalto à mão armada. Desapareceu.

ANDRÉ VARGAS

Não confundir Araraquara com Londrina. Mas a “Folha” informou: “O deputado André Vargas (PT-PR) e o doleiro Alberto Youssef, pivô do pedido de investigação contra o petista na Câmara, são réus no mesmo escândalo de corrupção no Paraná e respondem na Justiça desde 99.

O chamado caso Ama/Comurb é o maior escândalo de corrupção da história de Londrina, base política de Vargas. No final da década de 1990, pelo menos R$ 14 milhões, em valores da época, teriam sido desviados em licitações fraudulentas”.

Essa turma de Londrina era inseparável : o deputado José Janene, o chefão, foi condenado no Mensalão por pegar mais de 4 milhões (não está preso, porque morreu); Antonio Belinati, eleito prefeito, foi cassado e preso; Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobrás. está preso; Alberto Youssef, doleiro, também preso. Falta André Vargas, o valentão “revolucionário” e negocista do PT. Já teve que devolver dinheiro e será cassado pela Câmara.

Onde fica mesmo Araraquara?

LULA

A venerável “Folha de S. Paulo” publicou : “O ex-presidente Lula criticou ontem as tentativas da oposição de criar uma CPI para investigar os negócios da Petrobrás e disse que o PT “tem que ir para cima” para evitar que ela seja usada contra o governo”:

– “Essas pessoas (que defendem a CPI da Petrobrás) nunca quiseram fazer CPI. Nesse aspecto, o PT tem que ir para cima. Se o PT tivesse feito o debate político no momento certo possivelmente a história teria sido outra”.

JANIO

No dia seguinte, o venerando colunista Janio de Freitas, terceiro na hierarquia do Conselho Editorial da “Folha”, escreveu na mesma “Folha” :

– “Nem Lula propôs que o PT impeça a CPI, nem disse que os petistas devem “partir para cima” da oposição. Não só Fernando Henrique leu tais recomendações não feitas. É que no jornalismo, cada vez mais, e ainda pior em fase eleitoral, nada garante que o não dito (sic) vire dito. E vice-versa”.

JORNALISMO

Lula diz, a “Folha” rediz, Janio desdiz. Como fico eu, meio século leitor da “Folha” e dez anos colaborador?

Cancelo a assinatura da “Folha” ou cancelo a leitura do Janio?

A vida feita do barro

Sebastião Nery     

Chico Heráclito era um sábio do sertão. Mais poderoso coronel do Nordeste, viveu, mandou, desmandou e morreu com 89 anos (de 1885 a 1974) em Limoeiro, no sertão de Pernambuco. Tinha saborosas sabedorias:

1 – “O eleitor do Recife é muito a favor do contra”.

2 – “Deus não deu asa ao tatu porque o céu ia ficar cheio de buracos e os santos caíam todos”.

3  – “Não existe cabeça dura para pancada e dinheiro: depende da quantidade”.

4 – “Todo bêbado é rico, bonito e valente”.

5 – “Velho é como rede: se acaba pelo fundo”.

6 – “Governo não bota roçado, mas está sempre colhendo”.

VITALINO

Também de Pernambuco, do Alto do Moura e da Feira de Caruaru, veio outro sábio, analfabeto mas sábio, o Mestre Vitalino, gênio da raça, magrinho, sequinho, conversador, simpático, que morreu tão cedo, aos  53 anos (nasceu em 10 de julho de 1909 e morreu em 20 de janeiro de 1963).

Ligava um ao outro a sabedoria nascida da terra, do chão. Vitalino:

1. – “Era mais importante que eu aprendesse a usar minhas mãos que minha cabeça. Na minha terra as mãos produzem comida e a cabeça só produz confusão.”

2. – “Eu aprendi pela cadência, tirando do juízo, fazia o que via e o que nunca havia visto. Fazia pela cadência. Diziam que zebra era curta e com o pescoço alto; fazia um bicho rombudo, das pernas grossas. O povo dizia: – É um elefante! – Pois bem, ficava elefante.”

CARUARU

Conheci o Vitalino em Caruaru no começo da década de 60, na sua barraca de feira, conversando e bebendo, eu deputado pela Bahia levado lá pela encantadora família Queiroz (prefeito José Queiroz, João Lira Neto, Fernando Lira). E por meu irmão Bosco Tenório. Ganhei uma Banda de Pífanos que toca, canta e dança até hoje e a Beatriz esconde a sete chaves.

Sempre achei um desperdício não termos uma biografia completa do Vitalino, o gênio do barro, com fotos dele e de seu enorme acervo espalhado por ai. Agora o pernambucano Paulino Cabral de Mello está terminando um trabalho exaustivo, de varias décadas. Ele com a palavra:

1.- “Ainda foi possível entrevistar, pessoalmente, no Alto do Moura, em Caruaru, e depois no Recife, em Catende, Juazeiro do Norte, Brasília, Maceió, Fortaleza e no Rio de Janeiro, dezenas de artesãos, companheiros, jornalistas, parentes e amigos de Vitalino. São mais de 30 horas de gravações obtidas em 32 depoimentos transcritos e 290 páginas”.

2. – ”A morte de Vitalino, por exemplo, é um drama pungente e ao mesmo tempo desconcertante, ao mostrar tantos “Brasis” em suas circunstâncias, muito mais do que se poderia esperar de um homem pobre que morre no Nordeste. Deste modo, ouvindo seus contemporâneos, quase todos com mais de 50 anos, a maioria beirando os 70, pudemos melhor sentir esse dorido mundo Vitalino. Assim nasceu este livro”

O  LIVRO

3 “A abordagem de sua obra já teve alguns poucos nomes que nos ofereceram textos resumidos e imagens de valor, como René Ribeiro e Lélia Coelho Frota. Outros com sua própria arte exaltaram-no: Vital Santos no teatro (“O Auto das Sete Luas de Barro”)  ou o francês Pierre Verger com seu ensaio fotográfico de 1947.

4. – “Seis anos depois de pronto, em 1995, o Ministério da Cultura, através da benemérita “Fundação Assis Chateaubriand”, dos Diarios Associados, o editou como “Vitalino em Barro: o Homem”, 364 páginas, 148 fotos, 33 em cores, divulgação limitada, distribuído apenas em alguns museus e escolas de arte. Não chegou às livrarias nem foi comercializado. A família de Vitalino teve dificuldades para recebê-los. Os exemplares dos filhos não chegaram. Na prática aquele livro não existiu”.

O novo livro é inteiramente outro, a começar pelo titulo: – “Mestre Vitalino, a Vida Feita em Barro”. É uma bela e primorosa  edição da “Leo Christiano Editorial”, com toda a sua experiência de livros artísticos e históricos, como o clássico “Portinari”, de Antonio Bento.

Apresentado pelo governador Eduardo Campos, será lançado no Centro de Festas Populares de Caruru, depois no Centro de Tradições Nordestinas do Rio e no Centro de Tradições Nordestinas de São Paulo.

Bolsa-Empresário

Sebastião Nery

Em Viana, no Maranhão,  o padre era do PSD. A UDN nem podia entrar na  Igreja. Na campanha eleitoral, os céus e os santos todos eram mobilizados para a vitória pessedista.

José Sarney, deputado federal pela UDN, veio ao Rio tentar resolver o problema. O secretário do senador Ruy Carneiro era “bispo” da “Igreja Brasileira”, mandou um “padre” para Viana. O padre dois chegou lá, começou a disputar o céu. À falta dos outros, monopólios do PSD, criou dois santos: Nossa Senhora Menina e São Benedito da Barreirinha.

E as cerimônias da Igreja Brasileira eram anunciadas com tambor de macumba. Foi um sucesso. Nossa Senhora Menina, jovem e colorida,  começou a ganhar de Nossa Senhora mãe. E as procissões do mulato São Benedito batiam longe o fervor das procissões de São Benedito preto.

SARNEY

Apavorado, o PSD conseguiu que a Igreja Católica entrasse na justiça contra o “padre” da Igreja Brasileira. Não adiantou. Perdeu em Viana e no Tribunal em São Luis. E pela primeira vez a UDN venceu as eleições em Viana.

Anos depois, Sarney governador, os dois padres foram tirados de lá e chegou um católico meio PSD meio UDN. Um padre Arena. Mas até hoje o povo de Viana tem saudade de sua jovem e irisada Nossa Senhor Menina e seu mulato e simpático São Benedito da Barreirinha.

FRIBOI

Sarney comprava padres e santos. O PT compra empresas. Bilhões de dinheiro público. O jornalista  David Friedlander, na “Folha de São Paulo”, contou  dias atrás (12/01/2014):

– “O empresário Joesley Batista, do Frigorífico JBS, está pedindo R$ 2,8 bilhões aos fundos de pensão Previ (dos funcionários do Banco do Brasil), Petros (da Petrobrás) e Funcef (Caixa Econômica) para dobrar o tamanho da “Eldorado”, indústria de celulose controlada pela família. O projeto está orçado em R$ 7,5 bilhões. Para fechar a conta, além dos recursos das fundações, o empresário pretende conseguir financiamento de R$ 4,7 bilhões do BNDES e um fundo de desenvolvimento regional.”

EIKE

Nos últimos anos, grupos de privilegiados empresários brasileiros vêm sendo agraciados com dinheiro público na escala de bilhões de reais. Os governos Lula e Dilma cunharam a expressão “campeões nacionais” para a criação de verdadeira “Bolsa Empresário”, para os amigos do poder. A expressão é do brilhante economista e homem publico o professor Helio Duque, três vezes deputado federal pelo MDB e PMDB do Paraná.

O empresário Eike Batista era a face mais agressiva da estratégia dessas relações incestuosas. O Estado como escudo garantidor, pelo alavancamento de dinheiro público e privado, estimulava a criação de empresas, onde o “grupo X” era a versão de um “Midas tupiniquim”.

O atestado de “competência”, em 27 de abril de 2012, foi dado pela presidente Dilma: – “Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado.”

E Eike faliu, queimando bilhões na irresponsabilidade de Dilma.

 DILMA

A bíblia do capitalismo moderno é de Adam Smith, onde a “Riqueza das Nações” é texto básico. Nela fica explicito que o risco é inerente à atividade produtiva. No Brasil a equação está sendo invertida.

Capitalismo sem risco vem fazendo a alegria dos grandes grupos amigos dos governos petistas. O fato é reconhecido, de maneira surreal, até por ministros do governo Dilma. É o caso do ministro da Micro e Pequena Empresa, Afif Domingos: – “No Brasil só se dá prata a quem tem ouro.”

 BARROSINHO

Irrespondível a coluna do Reinaldo Azevedo na “Folha” sobre o ministro do Supremo (Ínfimo) Tribunal, Roberto Barroso, o Barrosinho :

– “ O idealismo se converteu em argentarismo”…

– “Fustigou o abominável espetáculo de hipocrisia em que todos apontam o dedo contra todos, mas mantêm seus cadáveres no armário”…

“Pego carona na metáfora. Barroso saiu do armário”…

“Ele é só um Delúbio com toga, glacê e fricotes”. “Retóricos”.

Dilma, a falida

Sebastião Nery  

Em um jantar em São Paulo, na campanha presidencial de  2002, no aniversário de um radialista amigo, o candidato José Serra, tenso, pegou pelo braço o deputado e fundador da Força Sindical, Luiz Medeiros:

– Medeiros, desta vez você vai ficar conosco?

– Não posso, Serra. Sou PL e meu partido deve apoiar o Lula. Pela primeira vez vou ficar com o Lula. Da próxima conte comigo.

– Não haverá a próxima, Medeiros. Será agora ou nunca. Estou com 60 anos,  minhas energias e chances são agora. Vi o Montoro acabar o governo gagá, aos 70 anos. (Montoro nasceu em 16 de julho de 1916, terminou o governo em 86 e morreu em 16 de julho de 99. Serra nasceu em 19 de março de 1942. Estava com 60, agora 72). Medeiros, vai ser tudo ou nada. Vou jogar tudo e passar por cima de quem ficar na minha frente.

Não adiantou. Serra perdeu.

SERRA

Agora, doze nos depois, o PSDB expeliu a candidatura de Serra e ele, caráter sem jaça, com os cotovelos inchados, joga tudo para derrotar Aécio e vingar-se. Fazendo conferencia para “consultores financeiros” (banqueirinhos de banqueiros), Serra mordeu as canelas de Aécio :

– “Eu não vejo que o quadro econômico seja tão calamitoso quanto se divulga. Não significa que estamos bem, mas o que não vejo é que seja tão calamitoso – disse Serra, ao começar a análise da conjuntura econômica.

Há perda de manobra na área fiscal, mas não há perspectiva de descontrole na área fiscal e muito menos de calote. Não há isso”.

Será que Serra está querendo substituir Mantega?

GERENTONA

O que vocês não sabiam é que Dilma, a “gerentona” da propaganda do PT, é uma empresaria falida. Ela mesma é quem confessou, em Minas :

– “A minha experiência é essa, de muitos empresários do país”.

A ex-ministra foi microempresária entre fevereiro de 1995 e julho de 1996. Em sociedade com a ex-cunhada Sirlei Araujo, estruturou empresa de importação de produtos e brinquedos do Panamá. A sócia-gerente era a economista Dilmona, A empresa foi registrada com o nome de “Pão & Circo” (que nome! muito estranho!), em Porto Alegre, em março de 1995 e encerrou  suas atividades em julho de 1996. Falida.

MARQUETEIROS

O servilismo rafeiro de alguns institutos de pesquisa e setores dos autoproclamados formadores de opinião asseguram que Dilma  será reeleita. Os marqueteiros estipendiados pelos milhões de reais não ficam atrás. O marqueteiro-mor João Santana já definiu os dois candidatos oposicionistas como integrantes de um “picadeiro de anões”,

Traduzindo em linguagem direta: Aécio Neves e Eduardo Campos seriam figuras liliputianas na vida política brasileira. Na área oficial, enquanto o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ameaça que o “bicho vai pegar”, a re-candidata confessou, em 4/3/2013:

– “Nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição.”

GIRASSOL

A oposição não pode tergiversar no enfrentamento desse descalabro de incompetência. Precisa falar em sintonia com o clamor popular que hoje vive situação de orfandade. Os idos de junho de 2013 comprovaram isso. Demonstrar que falta ao Brasil um projeto de país que redefina o futuro que precisa ser planejado com competência, remodelando a estrutura do Estado.

Nos últimos anos nenhuma obra de grande importância na infraestrutura foi concluída. Os portos e rodovias estão em situação de calamidade. Os hospitais e escolas públicas vivem penoso ciclo de desintegração. Na agricultura obtemos safras recordes, mas os caminhoneiros esperam dias para descarregar, sem armazenamento.

A transposição do São Francisco é um engodo, afetando a vida de milhões de nordestinos. A ferrovia Norte Sul, aproximando-se dos 30 anos, está longe da realidade.A manipulação da verdade,propaganda massacrante e marqueteiros são os grandes agentes do “planejamento nacional.”

A empresaria falida que se cuide. As elites políticas e empresariais brasileiras são como girassol, vivem cultivando o sol. E o que nasce é mais poderoso do que o que se recolhe no fim do dia.

Jornalistas e pesquisas compradas não ganham eleição.

Os black bandidos

Sebastião Nery

Morto Lampião, Ângelo Roque, o “Labareda”, cangaceiro, terceiro na hierarquia do bando, logo depois de Virgulino e Corisco, entregou-se às autoridades de Geremoabo, no sertão da Bahia. Foi a Júri. Tarcílo Vieira de Melo, o promotor, depois líder de Juscelino na Câmara Federal, acusou-o com agressividade. Oliveira Brito, Juiz, depois ministro do governo João Goulart, chamou-o de “desordeiro”.Labareda” levantou-se do banco de réu:

– Desordeiro, não. Os senhores me respeitem. Não sou um desordeiro, sou um cangaceiro. Não fui pegado no mato. Cheguei aqui de armas na mão, com minha cara limpa, meu corpo e minha vontade e me entreguei, confiando na palavra das leis.

Ninguém mais o agrediu.

LABAREDA

“Labareda”, pequenininho e valente, não disse mais palavra. Quando acabou tudo, condenado, ele se queixou ao meu amigo o  tenente e advogado João Nô, que o prendera nos sertões da Bahia:

– Tenente, perdi meu tempo no cangaço. Eu pensava que a pior coisa deste mundo era soldado de polícia. Passei a vida empiquetando (emboscando) soldado de polícia  Hoje, chego aqui preso, os soldados me tratam bem e  não disseram uma palavra contra mim. Mas aquele promotor falador e aquele juiz magrelo me disseram tudo quanto foi desaforo. Se eu soubesse, tinha passado meu cangaço empiquetando promotor e juiz.

LAMPIÃO

Cangaceiro era desordeiro, era criminoso, mas tinha caráter. Lutava com a cara de fora. Jogava a vida nas estradas.

Não viviam  escondidos atrás de máscaras, como esses black blocs nazifascistas, andróginos, sem ideologia e sem projeto, cuja histeria é sair quebrando tudo, janelas  e vitrines comerciais, sinais de trânsito e placas de rua, prédios públicos e privados, seculares monumentos nacionais, Palácios, sedes de Governo, Câmaras e Assembleias.

OAB E SEPE

Causa espanto, vergonha e asco ver entidades que têm deveres com a Nação, como a OAB, SEPE (Sindicato de Professores), jornalistas experientes, vereadores, deputados, partidos políticos, como babás do mal, acoitando, defendendo, protegendo, tentando justificar  esses covardes bandidinhos de capa preta.

Em alguns países vivi, em outros estive, onde fascismo e nazismo, brutais ditaduras, começaram. E começaram sempre assim: blocos de ataque escondendo-se atrás de roupas pretas, bonés e mascaras pretas,calças e camisas pretas ou marrons. E cabeças rolando nas avenidas ensanguentadas.

Levianamente desvairadas elites levam suas irresponsabilidades  e malditos interesses até um dia acordarem e não dá mais tempo. Seus filhos e netos levantarão muros e museus para chorarem o passado.

IMPRENSA

Escrevi essa coluna  ai em 22 de outubro de 2013. Em nenhum instante deixei-me enganar pelo vandalismo dos black blocs.

Surpreendia-me a estranha ingenuidade ou má fé de alguns colegas da imprensa, a serviço não sei de quem, mas evidentemente daqueles que tinham interesse em detonar as manifestações populares com as máscaras e  botas pretas. O nome deles era óbvio: capitães do mato do governo.

Agora estamos todos aqui desolados com o assassinato do Santiago.

HELOISA

Sempre brilhante e lúcida, a jornalista e escritora Heloisa Seixas pôs o dedo na ferida, em artigo no “Globo”:

“- Os black blocs, ou seja lá  que nome tenham, vinham dando sinais nos quais devíamos ter prestado mais atenção: havia  tintas de neonazistas no comportamento deles, inclusive na hostilidade à imprensa…

Poucos de nós, na imprensa, tivemos coragem de escrever contra eles com a força necessária… Melhor ficarmos quietos, em nome da democracia. Em nome do direito à livre manifestação – mesmo com bombas e pedras. E agora estamos assim, como meu amigo da Bandeirantes. Com esse nó na garganta, essa pergunta presa no peito: será que nosso silêncio constrangido nos faz cúmplices na morte de Santiago?”

Vai acabar sendo o Guga

Sebastião Nery

RIO – Antonio Carlos, governador da Bahia, entrou agitado no Hotel Lancaster, em Copacabana, Rio, de manhã, chegando de Brasília. Ligou para Salvador, chamou o professor Jorge Novis, da Escola de Medicina, e convidou-o para ser Ministro da Saúde. O famoso médico baiano não aceitou. Antonio Carlos insistiu, desistiu, desligou:

– Vai acabar sendo o Guga.

Ligou para o professor Clementino Fraga Filho, convidou, não aceitou, insistiu, discutiu, nada. Antonio Carlos desligou irritado:

– Ninguém quer nada. Vai acabar sendo o Guga.

Ligou para outro médico baiano. A conversa já começou a ser ríspida. O homem não queria, Antonio Carlos falava alto, quase aos gritos, acabou pedindo para falar com a filha dele. Ela devia convencer o pai a aceitar, era um serviço que ele devia prestar à Bahia. Não houve apelo, o terceiro não quis. Antonio Carlos desligou aos berros:

ACM

 – É sempre assim.Dizem que nós políticos não temos espírito público,  só indicamos pessoas ligadas pessoalmente a nós, por interesses pessoais ou de grupo. Convenci o General Figueiredo, depois de uma luta dura, a dar o Ministério da Saúde à Bahia. Convido os três mais importantes médicos do Estado, nenhum quer fazer força, dar contribuição nenhuma.

Senta-se à beira da cama, suspira:

– Vai acabar sendo o Guga.

No dia seguinte, em  Brasília, Antonio Carlos apresentou  o médico baiano Mário Augusto Castro Lima, futuro Ministro da Saúde. Na Escola de Medicina, onde foram colegas, Mário Augusto tinha o apelido de Guga.

Acabou sendo o Guga.

 MINISTERIO

A presidente Dilma anunciou no fim do ano que em fevereiro faria a reforma do Ministério. Começou. E está sendo uma frustração, um desastre. Esperava-se que, no quarto ano da administração ela ia aproveitar a oportunidade para compor um governo à altura das necessidades do pais.

E transformou tudo em um vagabundo mercadinho chinês, um compra-compra, um troca-troca para arranjar mais tempo de campanha na TV e apoio dos partidecos nanicos. Até o PSD do melífluo Kassab está batendo na mesa. E o PMDB, sempre invertebrado, de repente toma pudor, desacata a Presidente e joga pela janela seus ministeriozinhos de mentira

Com quem ela quer governar? Vai acabar sendo o Guga.

RISÉRIO

Ainda bem que sempre há quem esteja pensando o pais com talento e seriedade. Em longa e densa pagina e meia no “Estado de S. Paulo”, o historiador e antropólogo baiano Antonio Risério denuncia um crime devastador que se comete hoje: – “Em Busca do Urbanismo Perdido”

1 – “Nossos governantes, numa verdadeira marcha da insensatez, abrem mão da reforma urbana. Precisaríamos de prefeitos que não se comportassem como agentes da especulação imobiliária, com uma vontade coletiva de sair do buraco.As cidades brasileiras vivem dias especificamente difíceis, de uma ponta a outra do país. Estão maltratadas, sujas, agressivas.”

2 – “As promessas não se transformam em realidade. O Minha Casa, Minha Vida constrói hoje as favelas do futuro. Todos precisamos de um lugar onde Morar.Mas por que até hoje isso não acontece? Milhões de brasileiros, depois de 10 anos de governos socialdemocratas, continuam amontoados em alojamentos deprimentes. Em nenhum outro lugar a desigualdade social é tão clara e brutal quanto na moradia.”

3 – “O Brasil tende a ser o paraíso de autoengano. Depois de Antonio Palocci, a política econômica do governo meteu os pés pelas mãos.Estamos combinando crescimento medíocre e inflação controlada artificialmente. A prioridade deveria ser contra a favelização do País, por casas decentes e serviços públicos de qualidade, contra a violência e o narcotráfico, contra a podridão do sistema político e pelo direito de todos à cidade.”

4- “Lula e Dilma, com sua ênfase consumista, privilegiam o comércio de automóveis, dando uma contribuição imensa para encalacrar de vez nossas cidades. Além de não atender a maioria da população, o carro individual sai caro demais para o governo. Carro novo na rua obriga o governo a usar recursos para fazer ruas, pontes, viadutos. Gasto absurdo”.

Acabaram chamando o Guga.