A gramínea monóica

Sebastião Nery

Seu Rodrigues era chefe político de Penedo. Coronel dos de antigamente: bom sujeito, boa prosa, bom garfo. E tinha Tonico, menino levado que passava o dia jogando sinuca no bar da praça ou mergulhando nas águas turvas do São Francisco. Mas era seu orgulho.

Um dia, Tonico virou a cabeça e sumiu com uma trapezista do Circo Garcia. Seu Rodrigues quase morre de desgosto. Não saía, não jogava mais biriba com os amigos. Triste e amuado dentro de casa como um boi velho.

Três anos depois, seu Rodrigues recebeu a notícia de um jornal de Goiás: Tonico tinha morrido em um desastre na estrada. Entrou no quarto, passou um dia e uma noite chorando o resto de mágoa e deixou a saudade pra lá.

O CORONEL

O tempo passou, Tonico não era mais assunto de Penedo. O velho coronel de quando em vez ia buscar atrás da cômoda o retrato do menino ingrato, que ganhara o vão do mundo com a trapezista loura de pernas grossas e recebera seu castigo na curva da estrada.

De repente, chega do Rio um amigo:

– Vi o Tonico lá. Era ele mesmo. Lia um jornal daqui de Alagoas no banco de uma praça. Conversei com ele, não volta porque tem vergonha. Nem o endereço quis dar.

Seu Rodrigues dormiu duas noites de olho aberto, vendo a cara envergonhada de seu menino fujão. Arrumou a mala, pegou o ônibus, tocou para o Rio. Desceu na rodoviária, aquele mundão de gente. Estava tonto e perdido. Viu um guarda:

– Seu guarda, o senhor sabe onde mora Tonico Rodrigues , de Penedo, lá em Alagoas?

– Sei, sim. Mora na rua Senador Pompeu, na mesma pensão em que eu moro.

– Me leva lá que Tonico deve estar sem dinheiro para pagar a pensão. Já faz uns dias que ele sumiu de Penedo.

E seu Rodrigues achou Tonico que sumira ainda ontem.

BERCELINO

Meu colega de “Diario Carioca”, o saudoso Bercelino Maia, velho lutador do Partido Comunista, quando editor da “Gazeta de Alagoas”, que fazia oposição à ditadura de Getulio, recebeu um dia na redação a visita da polícia:

– A partir de hoje o jornal só circula sem comentário político nenhum. Nem editorial. Só notícia. Qualquer comentário, fechamos o jornal.

Bercelino, com sua cara de Clark Gable, cabelos negros ondulados, bigode fino e óculos de vidro, e seu indefectível cigarro nos dedos, sentou-se para escrever o editorial, uma ode ao milho:

– “Ode ao Milho – O milho, quem dirá o contrário?, é uma gramínea originária da América do Sul, cuja planta é caracterizada como monóica”…

E milhou o editorial todo. O censor ficou abestalhado, desesperado, mas não podia fazer nada.

A IMPRENSA

Ruy Barbosa disse que “a imprensa é a vista da Nação”. Disse pouco. É mais. É a vista e a alma. Canta suas alegrias, chora suas dores e sangra suas desgraças. Ajuda seu Rodrigues de Penedo a encontrar seu Tonico fujão e permite ao valente e sábio Bercelino enfrentar a estúpida censura da ditadura com sua “gramínea monóica”.

Em 60 anos diários de jornalismo em jornais, revistas, rádios, televisões, sempre vi o fascínio do jornal semanal. Não é o diário solene do café da manhã mas também não é a revista fria e distante, de mês em mês.

O semanário é a guerrilha gráfica. Metade sala de aula metade campo de batalha. É peleja, combate permanente.

É um velho vicio. No Seminário da Bahia, aos 15 anos, fundei “O SACI”: clandestino, datilografado e desenhado. Furor.Os padres descobriram e proibiram na terceira edição

Na Universidade, em Minas, “A ONDA”. Impresso, desenhado, livre e libertário. Segundo o mestre Milton Campos, “um vagalhão”. Cada edição uma suspensão. Resistimos um ano. Mas ganhamos exames de catedráticos.

Em Salvador, “JORNAL DA SEMANA” – “Conta Sábado o Que os Outros Esconderam Durante a Semana”. Resistiu de 1960 a 1964. Duas prisões e um mandato de deputado.

Na ditadura, em São Paulo, “DIA 1”, por um grupo de baianos lá escondidos. Não chegou ao terceiro numero.

Ainda na ditadura, já no Rio, sob uma censura cruel, o “POLITIKA”, semanal, durou quatro anos. Prisões variadas.

O “EXTRA”

Esta é uma crônica de inveja para calorosamente saudar o Fernando Araujo e seus companheiros, que há 15 anos põem nas bancas, toda semana, o bravo “EXTRA”.

Uma batalha semanal. Mas sobretudo uma magnífica vitoria semanal. Dá trabalho, às vezes quase desanimo. Mas poucas coisas podem fazer um jornalista tão feliz quanto passar nas bancas e ver lá, sob o sol, seu jornal.

A banca é o palco do jornal. Cante, Fernando. Você merece os 15 anos do “EXTRA”. Daqui, uma champanhe.

zum, zum, zum, está faltando um

Sebastião Nery

Contei esta historia aqui em 25 de setembro do ano passado. Tarde de sábado do começo de 2003 no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo.

Como fazíamos quase todas as tardes de sextas e sábados, um grupo de jornalistas almoçávamos a um canto,conversando sobre política e o pais.

De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Gedel Vieira Lima, Henrique Alves, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Deviam voltar logo.

LULA

Só um voltou e nos contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar é preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

DIRCEU

O primeiro a ser chamado foi o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB. Combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência. Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB.

Dirceu perguntou como iriam conseguir maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos, disse Lula a Dirceu.Fica mais barato.

Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e Olívio Dutra das Cidades. O PMDB seria substituído pela compra dos “pequenos partidos” : PTB, PL, PP, etc. E assim nasceu o Mensalão.

PATRÃO

O advogado do ex-deputado Roberto Jefferson, o brilhante jurista Luiz Francisco Correa Barboza, disse ao “Globo”:

-“Não só Lula sabia do Mensalão como ordenou toda essa lambança. Não é possível acusar os empregados e deixar o patrão de fora”.

No dia 12 de agosto de 2005, em um pronunciamento pela TV a todo o povo brasileiro, Lula pediu “desculpas pelo escândalo”.

Lula é um “cappo”. Os companheiros do partido e do governo na Papuda e ele, só ele, de fora. Logo ele que é o grande réu, “o réu”. Dirceu, Genoino, Delúbio, Valério, a malta toda, como disse o Procurador Geral da República, era uma “organização criminosa”, uma “quadrilha” chefiada pelo Dirceu. (Mas sob o comando do Chefão, Lula).

SUPREMO

Desde 2003, cada ano relembro essa historia. Lula começou dizendo que “não sabia de nada”. Depois, passou para : “Fui traído pelas costas”. E, finalmente, a tese oficial dele e do PT : – “O Mensalão foi uma farsa”.

E Lula arranjou ajudantes na desfaçatez para agredir o Supremo Tribunal. Delubio:- “O Mensalão é uma piada de salão”. Um gaúcho baixotinho, que veio não se sabe de onde e virou presidente da Câmara, Marco Maia, cuspiu no Supremo: “O Mensalão é uma falácia”.

Ele não sabe o que é falácia. Mas cadeia ele sabe. Quando for visitar na Papuda sua turma, Dirceu, Genoino, Delubio, Valério, ele vai aprender.

Quem tinha de estar na Van da frente era Lula, o Chefão. Como diz a marchinha do Paulo Soledade, Zum, Zum, Zum, na Papuda está faltando um.

Um baiano imortal

Sebastião Nery

Em maio de 1965, corridos do golpe militar de 1964, um grupo de políticos, jornalistas, líderes sindicais e estudantes baianos escondeu-se em São Paulo no apartamento pequenino e generoso do jovem repórter da “Folha de S. Paulo” Adílson Augusto, um santo de 20 anos, ali na Major Sertório, bem em cima do João Sebastião Bar, na boca da boca.

Não era bem um apartamento. Era um quarto de pensão com sala e banheiro, no sótão de velho casarão de três andares, as escadas gemendo e um boliche (depois “La Licorne”) fazendo barulho a noite inteira.

Era “A Mansarda”. Houve noites em que dormimos 12 pessoas, empilhadas pelos cantos. Uma vez, o Adilson chegou de madrugada e não podia entrar. Não havia onde pôr seu colchonete. Como teria feito São Francisco, dormiu sentado na escada para não acordar os “hóspedes”.

“A MANSARDA”

Éramos Mário Lima, deputado federal cassado e ex-presidente do Sindicato do Petróleo em Salvador; Hélio Duque, jornalista, professor, depois deputado federal do Paraná (PMDB); Domingos Leonelli, deputado federal da Bahia (PMDB), hoje secretario do Governo da Bahia ; Luís Gonzaga, presidente do MDB de Londrina; Carlos Capinan, o magnífico poeta e  compositor; Lamego, publicitário; eu, outros.

Quase todos já havíamos perdido o ano de 1964 nos quartéis de Salvador. Cada um, clandestino, lutava para livrar-se de mais um IPM e voltar à superfície. Enquanto a justiça e a liberdade não chegavam, usávamos nomes falsos, fazíamos biscates e comíamos coletivamente nos “sunabões” paulistas: um prato para três. E o tempo passando e as absolvições demorando e o medo do flagrante dando sustos diários.

O DELEGADO

Uma noite, era aniversário de Mário Lima, chegando de Fernando de Noronha. Fomos todos comemorar no “Pilão”, saudoso botequim no subsolo de uma galeria entre a 7 de Abril e a Itapetininga. Somadas, nossas “penas” passavam de 100 anos. E ainda havia os amigos: Antonio Torres romancista, Nelito Carvalho jornalista, Ubiratã Khun Pereira, Sr. Khun.

Chegamos discretos, pedimos batidas. Ao violão, em lugar da crooner de sempre, a loura e meiga Marilu, um senhor de voz poderosa, tenor de banheiro. Aplaudimos. Ele veio para nossa mesa, cantou tangos e boleros a noite inteira, recitou poemas, pagou a conta. Manhã cedo, fomos todos embora. No dia seguinte, vimos sua foto na primeira página da “Folha”. Era o delegado do DOPS.Se soubesse,teria feito um raspa baiano.

TORRES

A consagradora eleição do romancista Antonio Torres para a Academia Brasileira de Letras (34 votos entre 39) é uma festa baiana na alma de todos nós. Alguns o conhecemos desde seu primeiro começo. Em 1958, o “Jornal da Bahia” nascia, já lá estávamos Glauber Rocha, João Ubaldo, Muniz Sodré, eu, quando apareceu um magricela de 20 anos, discreto, sorridente, simpático e, logo logo saberíamos, ótimo caráter,

Vinha do Junco, tórrido sertão baiano, então distrito de Inhambupe, hoje Satiro Dias. Repórter de excelente texto, logo foi para São Paulo, onde em 65 o reencontramos na Agencia de Propaganda “Piratininga”, laborando de dia e à noite escrevendo. Quando percebia que alguns estávamos duros para o  almoço, levavanos para a “Churrascaria do Papai” ou o “Jandaia”, ali perto da “Folha”, e  escondido pagava a conta para não nos constranger. Na desgraça é que se conhecem as pessoas. E nem desgraça era. Só fome.

A OBRA

Em 1972 Torres estreou já com sucesso no primoroso romance “Um Cão Uivando para a Lua”. Deixou no seu lugar na agencia o Carlos Capinam e foi  para Portugal. De lá trouxe “Os Homens dos Pés Redondos” (1973). A partir daí, romances em cachoeira : “Essa Terra” (1976), sua obra prima, “Carta ao Bispo” (1979),  “Adeus Velho” (1981), “Balada da Infância Perdida” (1986), “Um Taxi para Viena d´Áustria” (1991), “O Cachorro e o Lobo” (1997),  “Meu Querido Canibal” (2000), “O Nobre Sequestrador” (2003). E outros, de contos e crônicas.

Lá de cima de sua colina, Senhor do Bonfim está batendo palmas.