Delfim Neto, traduzido, denuncia que o capitalismo brasileiro está sem controle

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Charge do Solda (cartunistasolda.com.br)

Pedro do Coutto

Numa entrevista de página inteira às repórteres Ana Estela de Souza Pinto e Érica Fraga, Folha de São Paulo desta segunda-feira, o ex-ministro Delfim Netto afirmou que o Brasil deixou o poder econômico controlar a política, acrescentando que o domínio do Congresso pelo setor privado anulou a força que poderia controlar o capitalismo do país.  Sua entrevista merece ser traduzida.

Enganam-se os que pensam que o processo de tradução restringe-se à passagem de um idioma para outro. Nada disso. Quantas vezes ouvimos pessoas dizerem uma coisa, mas que no fundo significa outra. Este caráter perceptivo da vida humana sem dúvida representa uma tradução. A tradução encontra-se também nas expressões faciais, nos olhares, até nas sílabas. Quanta coisa é interpretada dessa forma? Dessa maneira, interpretar pode ser sinônimo de traduzir. De uma língua para outra, o tradutor tem que encontrar a palavra que corresponda ao peso certo da expressão original.

PESO DA CORRUPÇÃO – No caso da entrevista à Folha de São Paulo, Delfim Netto, no fundo, referiu-se ao peso da corrupção que imobilizou a capacidade positiva e construtiva do sistema político. Tanto assim que, no diálogo com Ana Estela e ´Erica Fraga, sustentou que a principal revelação da Lava-Jato está no fato de o setor privado ter conseguido anular a única força que controla o capitalismo, que é o Congresso Nacional.

Reforçando a minha convicção de que é necessário traduzir corretamente suas palavras, vejamos o que aparece na frase seguinte da entrevista. Delfim diz que as denúncias do empresário Joesley Batista contra o presidente Michel Temer “tem proporções catastróficas e tornaram impossível prever quando o Brasil sairá da crise em que se encontra”.

Na opinião de Delfim, entretanto, Temer é a solução menos pior para o momento. “Não acredito”, disse, “que uma eleição indireta produza um equilíbrio maior do que o atual, incluindo todos os problemas que o poder hoje é capaz de produzir”.

Delfim Neto, hoje também colunista semanal da Folha, foi ministro da Fazenda do governo Costa e Silva, da Agricultura no governo Médici e do Planejamento no governo João Figueiredo. No governo Ernesto Geisel foi embaixador em Paris. Trata-se de profundo conhecedor dos sistemas militares de poder que se alongaram por mais de 20 anos no Brasil.

Delfim Neto conhece as estradas da economia e aquelas que transportam os interesses do Palácio do Planalto ao Congresso Nacional. Fica, portanto, assinalada sua visão do Planalto e da planície.

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ADVOGADO DISCORDA DE TEMER

Por falar em visão, sem dúvida interessante a entrevista do advogado do presidente Temer, Antonio Cláudio Mariz de Olivera, a Fausto Macedo e Eduardo Kattah, O Estado de São Paulo, edição de domingo. O advogado contesta a estratégia política de quem o contratou, tanto assim que condena a pressa pretendida pelo Planalto em matéria de apreciação da denúncia do procurador Rodrigo Janot pela Câmara dos Deputados.

A pressa – assinalou – não pode ser em detrimento do conteúdo da defesa. Eu disse isso ao presidente. A visão do Planalto é uma e a minha visão é outra.

Até o advogado discorda do impulso inicial de Michel Temer. Coisas da vida.

Oswaldo Aranha, brilho eterno na estrada da História, na visão de Augusto Nunes

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Aranha foi até capa da revista “Time”

Pedro do Coutto

Magnífico, brilhante, emocionado e emocionante o texto do jornalista Augusto Nunes sobre Oswaldo Aranha, personagem  marcante da História brasileira e também da História do mundo, pois foi ele o primeiro presidente da ONU, em 1947, único a ser reeleito no organismo internacional até os dias de hoje. Em seu artigo, Augusto Nunes destacou o livro que acaba de ser lançado, uma fotobiografia de Aranha, cujo autor é o diplomata Pedro Correa do Lago.

Augusto Nunes traça um perfil essencial que tanto unia quanto separava Oswaldo Aranha e Getúlio Vargas, fenômeno assinalado em vários momentos da trajetória que percorreram. A começar pela Revolução de 30. Governador do Rio Grande do Sul, Vargas hesitava em deflagrar o movimento que o conduziria a 15 anos de poder, oito dos quais como ditador.

EMOÇÃO PURA – Acho que Aranha era a emoção pura que faltava a Vargas, que, por seu turno, era a frieza que não motivava o comportamento emotivo do organizador da Conferência Pan-Americana do Rio de Janeiro em fevereiro de 42, no Palácio Tiradentes, quando Aranha em discurso arrebatado lançou a tese do alinhamento do governo brasileiro com os EUA e a Inglaterra.

Na América do Sul, o Brasil foi o único país a declarar guerra ao Eixo Nazifacista formado pela Alemanha de Hitler, pela Itália de Mussolini e também peloJapão, que em dezembro de 41 desencadeara a guerra no Oriente contra os EUA.

Falei em temperamento emotivo de Aranha e aqueles que o conheceram chamavam atenção para um aspecto essencial e definitivo: emocionava-se no trato com as pessoas e efusivamente seus olhos nunca estavam longe das lágrimas e de seu ímpeto conciliador e fraterno.

AMIGO DE ROOSEVELT – Vargas nomeou-o embaixador nos Estados Unidos, quando se tornou amigo do presidente Roosevelt e como ele assumia o papel de defensor da liberdade e dos direitos humanos.

Foi um elo decisivo na aliança Brasil/Estados Unidos. Pouco antes da conferência de 42, Vargas nomeou-o Ministro da Relações Exteriores.

Aproximava-se o fim da guerra e também a data prevista para as eleições brasileiras de 45. A figura de Aranha crescia excepcionalmente. Getúlio Vargas desejava alcançar um futuro mandato.  Aranha, pelo prestígio de possuía, tornou-se seu rival. No final de 1944, Aranha formalizava uma indicação para o Itamarati que necessitava da assinatura de Vargas.

Vargas não assinou, Aranha demitiu-se do posto. Era uma atitude de independência que marcou uma geração de políticos, como Augusto Nunes lembrou bem.

PASSADO E PRESENTE – Hoje, digo eu, o panorama mudou. Basta citar que o presidente Michel Temer recebeu com satisfação o despacho do Ministro Edson Fachin enviando Rocha Loures para a prisão domiciliar vinculado a uma tornozeleira eletrônica. Augusto Nunes acertou em cheio ao fazer a comparação entre o passado e o presente do poder no Brasil, para concluir que o nível de hoje encontra-se abaixo de zero.

Oswaldo Aranha tornou-se fundador da UDN e na campanha da redemocratização de 45 apoiou o brigadeiro Eduardo Gomes, comparecendo ao famoso comício dos lenços brancos no Largo da Carioca. O brigadeiro perdeu a eleição. Vargas apoiou o general Dutra.

DE NOVO, MINISTRO – O afastamento permaneceu por nove anos. Em setembro de 53 houve o reencontro com Vargas, então presidente pelo mandato conquistado nas urnas de 50. Oswaldo Aranha foi nomeado ministro da Fazenda, para uma curta permanência, porque em agosto de 54 o governo terminava com a tragédia e com a posse do vice Café Filho.

Aranha poderia ter mudado o curso do processo de 1964 se na eleição de 1960 tivesse sido candidato a vice-presidente na chapa do General Lott. Naquele tempo o presidente era eleito independentemente do vice, que disputavam uma outra eleição. Aranha podia ser derrotado por Milton Campos. Em qualquer hipótese, João Goulart não assumiria o governo na renúncia de Jânio Quadros. O homem e o seu destino.

Mas acontece que oito meses antes da eleição, em 27 de janeiro de 1960, após ser homenageado num jantar no Hotel Glória, Aranha faleceu aos 66 anos. E até hoje  o brilho de sua personalidade continua iluminando as páginas da história.    

Dívida pública bruta do Brasil, na realidade, já chega a 4,6 trilhões de reais

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Charge do Cicero (ciceroart.blogspot.com)

Pedro do Coutto

A informação foi divulgada na sexta-feira pelo Banco Central e publicada na reportagem de Fabrício de Castro e Eduardo Rodrigues, O Estado de São Paulo de sábado. Há poucos dias escrevi um artigo neste site dizendo que a dívida pública era de 3,2 trilhões de reais. Explico a diferença: a dívida federal direta é de fato de 3,2 trilhões, mas adicionados os endividamentos dos estados, municípios e da Previdência Privada, acrescenta a matéria, eleva-se a 4,6 trilhões.

Trata-se do maior encargo que recai sobre o governo federal. Basta dizer que a dívida bruta é girada à base da SELIC anual de 10,25%, A soma de tal encargo ultrapassa os 400 bilhões por ano, para chegar-se a essa conclusão basta calcular a incidência de 10,25% sobre o total de 4,6 trilhões de reais.

JUROS EXPLOSIVOS – A produção dos juros, assim, atinge uma quantia fabulosa de quase 500 bilhões de reais por ano. Várias vezes mais do que o déficit da Previdência Social Pública, a qual, na informação do BC atingiu 170 bilhões de reais nos doze meses que separam maio de 2016 de maio de 2017. Entretanto não houve nenhuma declaração do Ministro Henrique Meirelles sobre a dimensão do problema. Pelo contrário, ele concentra sua preocupação maior no déficit da Previdência Social, gerida pelo INSS.

Aliás, com base na matéria de O Estado de São Paulo, deve-se fazer a pergunta sobre qual a diferença apontada pelo Banco Central entre a Previdência Social Privada e a Previdência Social Pública, já que o próprio governo separa os dois setores ao focalizar a dívida bruta da ordem de 4,6 trilhões de reais.

Dá a impressão de que a Previdência Privada refere-se aos fundos de pensão de empresas estatais, como a Previ, do Banco do Brasil, a Petros da Petrobrás, a Funcef da Caixa Econômica e o Postalis da Empresa de Correios. Sim, porque não faria sentido que planos de Previdência Particular como os do Bradesco e Itaú, por exemplo, fossem deficitários. Ao contrário. São Bastante sólidos e têm captado recursos sempre crescentes por parte de famílias que temem sofrer prejuízos em consequência da perda de direitos com a reforma da Previdência Pública.

E AÍ, MEIRELLES? – Qual a solução do problema para reduzir a dívida interna? Eis aí uma pergunta que deve ser feita ao MInistro Henrique Meirelles.

Para conter o déficit do INSS, O Estado de São Paulo publica que o governo cogita suspender o pagamento do abono anual aos aposentados e pensionistas que recebem até dois salários mínimos.  A medida produzirá reflexos negativos, uma vez que 40% dos aposentados e pensionistas do INSS encontram-se nessa faixa salarial. Punir os mais pobres não é solução.

Temer apenas tenta barrar a denúncia, não importam os fatos que a compõem

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Charge do Clayton (O Povo/CE)

04Pedro do Coutto

Ao comentar a estratégia do governo no caso da denúncia do Procurador Rodrigo janot, o jornalista Valdo Cruz afirmou, no programa Studio I, na tarde desta sexta-feira, que a estratégia do Palácio do Planalto é barrar, pelo voto, a denúncia de corrupção passiva contra o presidente Michel Temer. Se o governo empenha-se em barrar a sequência do processo, é porque não baseia seu comportamento na hipótese de refutar os fatos sobre os quais a acusação se projeta. Para Michel Temer e seus aliados no governo e na Câmara dos Deputados, contestar o conteúdo das denúncias não é relevante.

Não é relevante também, para quem ocupa o poder, a gravação feita pelo empresário Joesley Batista. Para o Planalto, pode ser irrelevante, mas para a opinião pública brasileira o episódio reveste-se de uma importância fundamental.

FATOS CONCRETOS – Aliás, o governo não vem dando importância a fatos significativos. Sua meta é continuar no poder à custa das manobras capazes de seduzir votos dos deputados que terão a seu cargo apreciar e decidir sobre a continuidade da queixa-crime colocada no cenário político do país pelo Procurador Geral Rodrigo Janot.

O governo, de fato, analisando-se bem suas colocações, dá mostras de certo distanciamento das questões nacionais.          Tanto assim que , entrevistado pela Globonews no início da noite de quinta-feira, o ministro Henrique Meirelles anunciou que se a previsão das contas públicas não se confirmar este ano, a solução será aumentar impostos.

Meirelles não levou em consideração o aspecto legal do tema. Aumentar impostos tem que partir de uma iniciativa do presidente da República, não da iniciativa do Ministro da Fazenda. Meirelles agiu como se fosse o chefe do Governo.

Entretanto sua previsão foi praticamente confirmada com base no resultado das contas governamentais do mês de maio. Segundo reportagem de Idiana Tomazelli e Eduardo Rodrigues, em O Estado de São Paulo de sexta-feira, o déficit foi de 29,3 bilhões de reais. Este resultado gerou desconfiança junto aos analistas econômicos, sobre a viabilidade da previsão de um déficit de 138 bilhões para todo o exercício.

MAIS IMPOSTOS – A desconfiança foi admitida por Ana Paula Vescovi, Secretária do Tesouro Nacional, ao revelar que há alternativas em estudos, como a elevação dos tributos que incidem sobre os combustíveis.

Vale a pena assinalar que o déficit registrado em maio refere-se ao resultado primário das contas públicas. Antes, portanto, da parcela relativa ao pagamento de juros pela rolagem da dívida interna do Brasil.

Essa dívida interna está em 3 trilhões de reais. Os juros da taxa Selic são de 10,25% ao ano. Portanto, essa conta vai longe. Muito longe.

Meirelles omite-se e não relaciona aumento do PIB ao crescimento populacional

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Meirelles anuncia cresimento fictício do PIB

Pedro do Coutto                            

O ministro Henrique Meirelles – reportagem de Chico Prado, edição de quinta-feira, O Globo – afirmou que a economia do Brasil deve crescer este ano na realidade um pouco abaixo de 0,5%. Não é crescimento. É retração, porque a avaliação do nível econômico exige um confronto com o índice demográfico, e Henrique Meirelles sabe muito bem disto,

Por exemplo: vamos dizer que o crescimento do Produto Increscimento terno Bruto de 2017 seja de 0,5%. Mas a população brasileira cresce à velocidade de 1% a cada 12 meses. A taxa de natalidade está em torno de 1,7%. A de mortalidade é praticamente de 0,7%, ou seja, anualmente, de cada mil pessoas morrem 7 no Brasil. O crescimento populacional, portanto, é de 1%, o dobro do aumento do PIB projetado para o mesmo período.

NOVA RETRAÇÃO – A comparação quer dizer que o PIB brasileiro per capita vai diminuir. Assim sendo, não haverá na verdade avanço econômico. Pelo contrário. Ocorrerá perda concreta. O PIB per capita é um detalhe importante, porém o índice mais significativo ainda é o crescimento da renda per capita, que de forma alguma está ocorrendo no país.

Nada mais concentrador de renda do que a corrupção. A esse propósito, deve se assinalar que processo de corrupção institucionalizada teve consolidação no governo Lula, prosseguiu na administração Dilma Rousseff e não diminuiu no curto espaço de tempo em que Michel Temer ocupa a presidência da República.

A contradição de Lula e do PT é que seu projeto de poder partiu de uma mensagem reformista, iludiu o povo, e se transformou em conservador. Michel Temer é um conservador por natureza. Entretanto o poder ameaça escapar-lhe das mãos.

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Raquel Dodge tem um currículo expressivo

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RAQUEL DODGE, NA VISÃO DE MIRIAM LEITÃO

Em artigo assinado na terceira página de O Globo desta quinta feira, a jornalista Mirian Leitão destaca que a carreira da procuradora Raquel Dodge, escolhida por Michel Temer para suceder Rodrigo Janot a partir de 17 de setembro, é marcada pela luta que ao longo de sua vida travou e trava contra a corrupção. Mirian Leitão, no seu evangelho, apresenta fatos concretos do combate que a procuradora desenvolveu através do tempo contra a improbidade administrativa.

Ressalta a denúncia que formalizou contra o governador de Brasília, José Roberto Arruda, cujo desfecho foi o afastamento do chefe do Executivo de Brasília.

Mirian Leitão apresentou outros fatos, um deles a atuação de Raquel Dodge contra o trabalho escravo que resiste no país mais de um século depois da abolição.

Essa apresentação acrescenta bastante para elucidar que o comportamento da futura Procuradora Geral não será de omissão, muito menos de conivência.

Aliás, nem poderia ser de outra forma. O processo contra Michel Temer foi apresentado por Rodrigo Janot. Temer talvez tenha esquecido que Janot fica na PGR até setembro e está deixando traçado um caminho que não permite retrocessos.

Em defesa surrealista, Michel Temer tenta escapar do fantasma Rocha Loures

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Charge do Lezio (Diário da Região)

Pedro do Coutto

O presidente Michel Temer recorreu ao surrealismo, que na arte consagrou figuras como Luís Buñuel e Salvador Dali, para apresentar sua defesa em relação ao documento enviado pelo Procurador Geral Rodrigo Janot ao Supremo Tribunal Federal. Michel Temer absurdamente classificou a denúncia do Procurador Geral como uma obra de ficção. Pautando-se na ficção, Temer em sua teia tentou escapar do fantasma chamado Rodrigo Rocha Loures. Não teve nem poderia ter êxito.

As manchetes principais de O Globo, da Folha de São Paulo e de O Estado de São Paulo desta quarta-feira contém a forte reação contrária as expressões adotadas pelo chefe do Executivo. No Globo a reportagem foi de Letícia Fernandes e Eduardo Barreto. Na FSP de Gustavo Uribe e Marina Dias. No Estadão, a matéria leva a assinatura de Carla Araujo e Tânia Monteiro.

TEMER SÓ ACUSA – O presidente da República, na verdade não rebateu as acusações, tampouco, exigiu a apresentação de provas, como lhe cabia fazer. Não tocou no tema provas, claramente, porque elas existem de forma volumosa e irrefutável. Tanto assim que Michel Temer, analisando-se bem o conteúdo de seu pronunciamento não refutou a sustentação de Rodrigo Janot. Não. Acusou Janot de favorecimento voltado para o ex-procurador Marcelo Miller que trocou o Ministério Público pela tarefa de advogado que atuou em causa particular.

Marcelo Miller é um episódio à parte do emaranhado que conduziu Joesley Batista ao Palácio Jaburu e teve sequência na entrega de mala repleta de dinheiro por Ricardo Saud, executivo da JBF, a Rodrigo Rocha Loures, na sequência cinematográfica registrada pela Polícia Federal. Rocha Loures transformou-se numa espécie de fantasma que atormenta o pensamento e o comportamento concreto de Michel Temer. Tanto assim que o presidente da República sequer cita Rocha Loures, o que poderia acontecer na medida em que dissesse que Loures não agiu em seu nome na noite paulista.

NO LABIRINTO – O silêncio de Michel Temer reflete bem o labirinto pelo qual está caminhando. De forma não convincente, porque apontar um ato negativo de Rodrigo Janot não significa – nem poderia significar – que o comportamento do presidente da República tenha sido baseado na liturgia do cargo e nos princípios da ética e da legalidade. Uma coisa nada tem a ver com outra.

Michel Temer, para se absolver terá de enfrentar a realidade dos fatos e justificar-se a si mesmo. Como na obra conjunta de Buñuel e Dali, no filme L’age D’or, no qual os personagens principais não conseguem encontrar-se a si mesmos.

O tempo e os fatos correm contra o surrealismo presidencial. As acusações colocadas contra ele não são produto de uma obra de ficção. Pelo contrário. São a expressão dos acontecimentos marcados pelas imagens e pelas gravações. Michel Temer não conseguirá destruí-las. Elas fazem parte de seu processo político e sua passagem pelo poder.

Denúncia de Janot é arrasadora para Michel Temer e Rocha Loures

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Charge do Paixão (Gazeta do Povo)

Pedro do Coutto

Sem dúvida alguma a denúncia apresentada por Rodrigo Janot contra Michel Temer é um documento arrasador para o presidente da República. A repercussão foi enorme nos jornais desta terça-feira, manchete principal de O Globo, da Folha de São Paulo, de O Estado de São Paulo e do Valor. No Globo a reportagem é de André de Souza e Eduardo Bressiani. Uma outra matéria, também no Globo, esta de Cristiane Jungblut e Letícia Fernandes, destaca o silêncio do Palácio do Planalto diante da denúncia, pois os houve reação na terça-feira.

O aspecto mais sensível da iniciativa do procurador-geral da República é que, para se defender, Michel Temer terá que acusar Rocha Loures, que foi filmado recebendo a mala de 500 mil reais. Temer, diante do abismo, só poderá dizer que Rocha Loures usou seu nome para obter a propina da JBS. Isso porque Loures entregou a mala, com 465 mil, à Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Dias depois tomou a iniciativa de depositar os 35 mil reais restantes numa conta do governo na Caixa Econômica Federal.

UM DILEMA – Michel Temer, para armar sua defesa, defronta-se com o dilema que singularmente oscila entre voltar-se para desacreditar Rocha Loures, ou então assumir que o ex-assessor agiu em seu nome.

A situação de Michel Temer complica-se de maneira profunda, sobretudo porque, de acordo com o que publicaram a FSP e o Estadão, o ministro Edson Fachin ainda vai decidir qual a tramitação que atribuirá ao processo.

Pode ser que o encaminhe diretamente à Câmara Federal, mas é possível que abra prazo, no Supremo, para que Temer apresente as razões voltadas para sua defesa. Se a opção de Fachin for esta, o presidente da República terá que formular os termos de sua defesa ao ministro do STF, que em seguida encaminhará o documento a Câmara Federal. Como a denúncia de Rodrigo Janot será dividida praticamente em capítulos, para cada capítulo será adotado o mesmo ritual.

AO CONTRÁRIO – O fatiamento da acusação funciona ao contrário do que deseja o Palácio do Planalto que se empenha para uma apreciação em bloco das acusações de Rodrigo Janot, primeiro pela Comissão de Justiça, em seguida pelo plenário da Câmara Federal. Dividida em blocos a denúncia, cada um deles dará margem ao mesmo procedimento, expondo o presidente da República a uma série de constrangimentos. Isso se cada capítulo for rejeitado pela Câmara dos Deputados, que pode negar a sequência da denúncia evitando assim que se transforme em julgamento do presidente Temer pelo plenário do Supremo Tribunal Federal.

A Constituição do país estabelece o julgamento do presidente da República pelo STF, no caso da prática de crimes comuns. Se fosse crime de responsabilidade, o julgamento caberia ao Senado Federal. Na hipótese de impeachment o destino do chefe do Executivo estaria nas mãos do Congresso Nacional. Foi o que aconteceu com a ex-presidente Dilma Rousseff.

JULGAMENTO NO STF – Entretanto, o impeachment, no caso de corrupção, não apaga a perspectiva de julgamento do presidente pelo plenário do STF. Seja como for, o desgaste político e moral de Michel Temer atingiu uma escala que a meu ver impede sua permanência à frente do governo, ainda que a Câmara não dê prosseguimento à denúncia de Rodrigo Janot.

Uma coisa é negar a licença para o curso de um processo criminal. Outra coisa é apagar os danos irreparáveis da investida da Procuradoria. Na realidade, o presidente Michel Temer agiu para se tornar o acusador de si próprio. Rodrigo Janot apenas deu forma e conteúdo à escolha feita por quem estava impedido de fazê-la.

Um claro enigma: depois de Temer, será Lula ou Bolsonaro?

Resultado de imagem para lula e bolsonaro chargesPedro do Coutto

O título deste artigo está inspirado no belo poema de Carlos Drummond de Andrade e os números que levam a esta imagem são produzidos por pesquisa do Datafolha, objeto de reportagem de Thais Bilenky e José Marques, sobre tendências de voto para uma sucessão presidencial, que, a meu ver, tanto pode ocorrer ainda em 2017 ou 2018. A hipótese de 2017, segue o raciocínio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, em artigo publicado na Folha de São Paulo desta segunda-feira, dirigiu um apelo ao presidente da República para num gesto lógico, convoque a sucessão presidencial para este ano. A reportagem de Thais e José Marques foi publicada na mesma edição da FSP.

O Datafolha colocou em questão vários cenários referentes às eleições presidenciais. Em todos eles Lula lidera, ora com 30%, ora com 29% das intenções de voto. Este me parece ser seu contingente eleitoral e se mantém estável, apesar da rejeição de 46 pontos que o atinge caso decole para a jornada da sucessão.

30 PONTOS – Optando pelos dois cenários mais lógicos projetados pelo Datafolha, verifica-se, primeiro: Lula 30 pontos, Bolsonaro 16, Marina Silva 15, Alckmin 8. Ciro Gomes aparece com 5. No segundo cenário, Lula mantém 30%, seguido por Marina Silva e Jair Bolsonaro empatados com 15 pontos, surgindo João Dória com 10%. Ciro Gomes permanece na faixa entre 5 a 6%. Luciana Genro aparece com apenas 2 pontos. Sua candidatura, pelo PSOL, fica estacionada sejam quais forem as alternativas.

O levantamento do Datafolha apresenta uma constatação interessante: enquanto Geraldo Alckmin reúne 8%, João Dória, também do PSDB, chega a 10 pontos. Curiosa perspectiva. O prefeito da cidade de São Paulo situa-se dois andares acima daquele no qual aterrissa o governador do estado.

Mas eu falei num claro enigma que a pesquisa ilumina, ao situar Lula da Silva e Jair Bolsonaro numa espécie de confronto entre o ex-presidente da República e o deputado federal representante da extrema direita. Não que Lula interprete a esquerda, melhor dizendo, uma posição de centro-esquerda, pois na verdade, depois de alçar voo com a mensagem reformista, transformou-se num líder conservador. Principalmente porque nada supera a corrupção em matéria de ideia concentradora de renda.

SEM FANTASIA – O líder do PT, podemos dizer assim, afastou-se da fantasia com que se apresentou sete vezes ao eleitorado brasileiro, em duas delas bancando Dilma Rousseff. Um recorde difícil de bater.

O claro enigma, síntese do panorama descortinado pelo Datafolha, encontra-se na possibilidade de Lula vir a ser condenado pelo juiz Sérgio Moro. Neste caso, os votos que acumula iriam para que candidatura?

Economistas querem mais transparência do IBGE quanto à inflação e consumo

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Charge do Cicero (cicero.art.br)

Pedro do Coutto

Um grupo de vários economistas – reportagem de Érica Fraga e Mariana Carneiro, Folha de São Paulo deste domingo – acentua que as últimas pesquisas divulgadas pelo IBGE mostram falhas e se transformam em preocupação. Essas pesquisas focalizaram o índice inflacionário, muito baixo, o crescimento do comércio em Santa Catarina, muito alto, e também quanto ao analfabetismo no país, que teria subido de 8,5 para 12,5%, entre os maiores de 14 anos. O analfabetismo foi registrado pela PINAD de 2015.

Os economistas Cimar Azeredo, Fernando de Holanda Barbosa, Marcos Lisboa e Cláudio Crespo analisaram as pesquisas e pedem mais transparência, de forma direta ou indireta.

HÁ CONTROVÉRSIAS – A transparência é essencial, uma vez que não é o caso apenas de metodologia, mas também da colocação de perguntas capazes de induzir a respostas desejadas pelos pesquisadores. Mas esta é outra questão.

O fato, no que se refere ao forte crescimento do comércio em Santa Catarina, suscita dúvida. Por que Santa Catarina? A taxa inflacionária recuou, encontrando-se numa projeção reduzida de 4% para os últimos 12 meses. No entanto, os salários, que são a verdadeira base do consumo, não foram corrigidos acima desse limite, o desemprego continua na escala de13,8% que corresponde à existência de 14 milhões de desempregados, pois a mão de obra ativa brasileira encontra-se no total de 104 milhões de homens e mulheres, correspondendo praticamente à metade do total de habitantes.

A GRANDE DÚVIDA – Qual fenômeno que poderia ter acontecido em Santa Catarina capaz de conduzir a um resultado positivo no que se refere ao mercado consumidor. Além disso, Santa Catarina representa um peso reduzido ao se pensar numa média algébrica abrangendo os demais 26 estados.

Aliás, por falar em média algébrica, que é a atribuição de pesos diferentes às parcelas do produto global, creio ser válido considerar que o reflexo econômico social de qualquer inflação não se faz sentir por igual em todas as camadas da população. É preciso levar em conta , de acordo com o próprio IBGE, que 1/3 dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil ganha um salário mínimo. E que 50% da mão de obra percebe até 3 salários mínimos mensais.

CORRELAÇÃO – Assim, à medida em que se consideram os efeitos inflacionários, é lógico concluir-se que quanto mais baixa for a remuneração salarial, maior será o reflexo do índice do custo de vida. Alimentação e transporte, além da moradia, absorvem parcelas percentuais mais elevadas para aqueles cuja remuneração mensal é menor. E a remuneração mensal é menor para a metade das classes trabalhadoras.

Portanto, a contenção inflacionária (seja em decorrência de uma política monetária colocada em prática, seja em consequência de uma recessão) não significa avanço social daqueles que formam a base da pirâmide.

À medida em que a renda sobe, o reflexo inflacionário torna-se menor, já que as despesas obrigatórias têm um peso mais baixo para aqueles que trabalham com rendimentos mais altos. No Brasil não são muitos os que têm remuneração mais alta, estimada na escala de 10 salários mínimos. Estes representam apenas entre 7 a 8% da população.

ALTA ELITE – Se elevarmos o patamar para 20 salários mínimos, vamos encontrar somente 0,8% da mão de obra ativa brasileira.

Se tudo é relativo, e só Deus é absoluto, como afirmou Einstein, temos que identificar em quais graus se traduz o efeito inflacionário sobre todas as faixas de rendimento.

Assim, chegamos à conclusão de que uma escala inflacionária baixa só produz efeitos evolutivos em matéria de renda para os que são melhor remunerados, portanto temos que procurar efeito de uma verdade setorial numa verdade geral. Como  é o caso da renda per capita, que é o resultado da divisão do Produto Interno Bruto pelo total da população.

Renda per capita é uma coisa. Redistribuição de renda é outra. E nada mais concentrador de renda do que a corrupção.

DataFolha e FHC deixam apenas por um fio Michel Temer no governo

 

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Charge do Frank (Charge Online)

Pedro do Coutto

Pesquisa do Datafolha, reportagem de Thais Bilenky, Folha de São Paulo, e a entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, matéria de Adriana Ferraz, O Estado de São Paulo, nas edições deste sábado da Folha e do Estadão, sem dúvida alguma contribuem fortemente para deixar por um fio o elo político que ainda mantém Michel Temer no Palácio do Planalto.

Somem-se aos dois conteúdos o resultado da perícia feita pela Polícia Federal na fita gravada por Joesley Batista e a decisão do ministro Edson Fachin de determinar ao Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, que tome a iniciativa de formalizar a denúncia contra Temer, por corrupção e obstrução da Justiça, para se chegar a conclusão da extrema fragilidade de um governo que perdeu a si mesmo e, com seu isolamento na opinião pública, tornou-se um fator muito forte de contrariedade por parte da população.

RENÚNCIA – Tanto assim que o Datafolha aponta que nada menos que 76% dos brasileiros desejam que o atual presidente renuncie. Ao lado desse resultado desgastante, ainda por cima 69% consideram sua administração entre ruim e péssima. Tal resultado só é ultrapassado pela conclusão a que o Datafolha Chegou, há 28 anos, quanto ao conceito final sobre o ex-presidente José Sarney, época da hiperinflação que se abateu sobre o Brasil. O ministro da Fazenda era Mailson da Nóbrega.

Fernando Henrique Cardoso afirma que, ao apresentar acusação formal contra MIchel Temer, Rodrigo Janot tornar-se-á personagem de uma situação inédita em toda a República brasileira. Estará formado, acentuou, um panorama gravíssimo, cuja solução reside na antecipação das eleições presidenciais de 2018.

AGRAVAMENTO – Se antes da viagem à Rússia e a Noruega, Michel Temer já se deparava com um quadro profundo de desgaste, a partir de agora enfrentará uma situação ainda mais grave. É como, para citar uma expressão usada por Tennessee Williams, o clima é do fundo de um saco sem fundo. Michel Temer desabou. E com ele seu governo.

Perdeu as condições de permanecer no Palácio do Planalto. Acredito que a melhor solução é a proposta por FHC. E não se diga que há o problema de tempo para que as eleições se realizem. Como já escrevi recentemente, há o exemplo de 1945, quando, a 29 de outubro, o ditador Getúlio Vargas era deposto do poder. As eleições para presidente e Assembléia Nacional Constituinte se realizaram normalmente no dia 02 de dezembro. O General Eurico Dutra foi eleito com 52% dos votos.

Não havia voto eletrônico e nem internet. Era o tempo em que os eleitores e eleitoras colocavam num envelope as cédulas impressas com o nome dos candidatos. Isso aconteceu exatamente há 72 anos.

Pezão, uma calamidade que se aproxima do desfecho final no Rio de Janeiro

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto

Os servidores do Estado do Rio de janeiro podem fornecer a prova mais contundente sobre o governo calamitoso de Luiz Fernando Pezão. O governo estadual, por exemplo, ainda não conseguiu pagar o 13º salário de 2016. Nós estamos em 2017 e a administração adotou um parcelamento salarial para pagar o funcionalismo público. Como é possível uma coisa dessas? Na realidade, este e outros fatos decretam a falência política de um governo que efetivamente começou tendo Pezão como vice de Sérgio Cabral.

A reportagem de Antonio Werneck, Erenice Botari e Nelson Lima Neto, O Globo desta sexta-feira, expõe bem o quadro de descalabro que envolve a administração, aliás a desadministração, que norteia os passos do governo estadual. Ao ponto do deputado Jorge Picciani, presidente da Assembléia Legislativa, ter colocado em pauta ou a intervenção federal ou o impeachment, do atual desgovernador.

JOGANDO A TOALHA – O próprio Pezão – destaca a reportagem – admitiu que poderá não concluir seu mandato. Em tal hipótese encontra-se o motivo de plena satisfação por parte do funcionalismo público, incluindo os aposentados e pensionistas. Não bastasse o descalabro de Pezão não cumprir suas obrigações constitucionais, a repórter Juliana Castro, edição de O Globo de quinta-feira, revelou que a Polícia Federal obteve uma correspondência do operador Luiz Carlos Bezerra com Luiz Fernando Pezão.

Luiz Carlos Bezerra era um dos operadores financeiros do ex-governador Sérgio Cabral. Para a Polícia Federal tal correspondência aproxima o então vice-governador do esquema que levou o ex-governador à prisão, incluindo uma pena de 14 anos estabelecida pelo juiz Sérgio Moro. É difícil acreditar que Pezão não soubesse o que se passava nas sombras do Palácio Guanabara. Mas não é esta a questão essencial.

A questão essencial está na calamidade a que o Rio de Janeiro foi condenado pelas ações e ao mesmo tempo omissões de Fernando Pezão. Falei a pouco no descumprimento de disposições constitucionais. Reforçando este ângulo, lembro o voto magistral do ministro Luiz Roberto Barroso no julgamento da validade da colaboração premiada de Joesley Batista da JBS.

LEALDADE – O Estado tem que ser leal. Com esta frase o ministro Barroso selou o destino da votação. Transferido esse exemplo genérico para o estado do Rio de Janeiro, veriifica-se que Luiz Fernando Pezão descumpriu o princípio e não só acrescentou parcelas à ruina do Rio de Janeiro, como também não agiu com a lealdade essencial, base filosófica do exercício do poder.

Basta citar como exemplo o odioso e absurdo parcelamento dos salários dos servidores: 300 reais em determinado dia, 700 em outro, enfim um sinuoso calendário fatídico para a vida de aposentados, pensionistas e funcionários em geral. E também, sobretudo, para o conceito público do próprio personagem que deveria encarnar o papel insubstituível de governador de estado.

Ao admitir que poderá não terminar seu infeliz mandato, Luiz Fernando Pezão praticamente lançou a toalha da derrota e da vergonha que um homem público deve sentir pela sua própria atuação a frente de um sistema social que deveria estar voltado para garantia dos direitos individuais e coletivos.

QUE SAIA LOGO -Os funcionários da ativa, aposentados e pensionistas, diante da reportagem de O Globo desta sexta-feira, estão unidos por um só pensamento e uma só vontade: que a saída do governador Pezão se realize o mais breve possível. Ele não cumpriu o contrato humano que deve ser a base da administração pública.

Agiu exatamente em sentido contrário. Ficará na história como o pior, ou um dos piores governadores que o estado do Rio de Janeiro elegeu. A única dúvida dos personagens Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão oscila em torno de definir qual dos dois causou maiores prejuízos à população.

É uma escolha difícil. Até porque Pezão pertenceu ao elenco que atuava no Palácio da Rua Pinheiro Machado desde 2006. Uma longa e calamitosa jornada. Sem dúvida.

Validade da delação da JBS é mais uma derrota para Michel Temer

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Charge do Jota A (Portal O Dia/PI)

Pedro do Coutto

Os jornais desta quinta-feira, O Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, anteciparam a decisão final do STF de manter a validade das delações do grupo JBS, encabeçadas por Joesley Batista, contra o presidente Michel Temer. No Globo a reportagem é de Carolina Brígido e André de Souza. O ministro Edson Fachin e o ministro Alexandre de Moraes votaram pela manutenção da validade das revelações, o que sinalizava para aprovação final desta tendência pelo plenário da Corte Suprema. Escrevo este artigo antes do final da sessão, mas vale acentuar que o ministro Alexandre Moraes votou pela manutenção e também pela permanência de Edson Fachin como relator do processo.

Com esse voto, Alexandre Moraes, indiretamente, assinalou sua independência como magistrado, isso porque seu voto foi contrário à tese da defesa do presidente da República. Alexandre Moraes foi nomeado por Michel Temer para o STF.

MENOS ESPAÇO – Na Folha de São Paulo a reportagem é de Letícia Casado e Reynaldo Turollo Júnior. No Estado de São Paulo assinam a matéria Breno Pires, Rafael Moura e Beatriz Buila. O fato é que a decisão projetada retira ainda mais espaço para atuação política de Michel Temer. Com isso vão se acumulando dificuldades. Uma delas – matéria de Eduardo Bressiani, O Globo – ressalta novo depoimento de Joesley Batista, na parte em que se refere ao fato de Michel Temer ter-lhe indicado o advogado José Yunes pata representar a empresa num conflito judicial. Um conflito em torno do qual existia a perspectiva de um montante de 50 milhões de reais.

A presidência da República contesta o fato, porém o caso envolvia a perspectiva de um financiamento do BNDES, não concretizado, relativo a um projeto para aquisição de uma usina termoelétrica da Petrobrás. Joesley Batista, no depoimento, inclui a participação de Rocha Loures nas articulações que terminaram não dando certo. Não deram certo no plano econômico financeiro. Mas deram errado no plano de um comprometimento político administrativo.

CENÁRIO NEGATIVO – Este passou a ser o cenário negativo com o qual o presidente Michel Temer terá de se defrontar a partir desta sexta-feira que marca seu retorno ao país depois da viagem à Russia e à Noruega. Não será tarefa fácil, porque as provas de seu relacionamento com Joesley Batista vão sendo empilhadas na consciência da opinião pública e também nas decisões da Suprema Corte.

Reflexos no Congresso Nacional já começaram a se fazer sentir. As reformas trabalhista e previdenciária, principalmente esta, estão sendo objeto de adiamentos.

Adiar as reformas é um fato que diz respeito ao projeto econômico – e político – do ministro Henrique Meirelles. O que parece inadiável é o desfecho da crise que abala o poder no Brasil.

Polícia Federal acusa Temer de corrupção, e a estrada do poder chega ao fim

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Charge do Ivan Cabral (ivancabral.com.br)

Pedro do Coutto

Com base na delação da JBS e nas afirmações do doleiro Lúcio Funaro – reportagem de André de Souza, O Globo desta quarta-feira – a Polícia Federal acusou o presidente Michel Temer da prática de corrupção. Lúcio Funaro revelou o episódio em que 20 milhões de reais foram retirados da Caixa Econômica Federal e distribuídos para campanhas eleitorais de acordo com a seleção estabelecida pelo próprio Temer. Acrescenta a Polícia Federal que o presidente da República também sabia do pagamento de propina feito pela Odebrecht para obter contratos na Petrobrás. Lúcio Funaro atuava como operador do PMDB e revelou que repasses foram feitos para o ministro Moreira Franco e para os ex-ministros Gedel Vieira Lima e Henrique Alves.

A quarta-feira, em matéria de imprensa, foi muito ruim para Michel Temer.  Além da reportagem de André de Souza, Carolina Brígido e Eduardo Bressiani, a mesma edição de O Globo publica declarações de Joesley Batista dizendo que Temer pressionou a ex-presidente do BNDES, Maria Silvia Bastos, para que atendesse pedido de crédito da empresa da qual é o principal controlador.

QUEIXA-CRIME – Na mesma edição do jornal está publicado que o juiz Marcus Vinicius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal de Brasília, rejeitou liminarmente a queixa-crime do presidente Michel Temer contra Joesley Batista, que, na entrevista à Época que está nas bancas acusou o Presidente da República de chefiar a maior quadrilha criminosa.

A soma desses acontecimentos leva à conclusão de que a estrada do poder chegou ao fim para o atual governo. Só falta mesmo o presidente deixar o Palácio do Planalto, para que se vire uma página, mais uma, da história do Brasil. É fato inédito que a Polícia Federal do país acuse um presidente da República de corrupção. Trata-se, no fundo, do governo atacando o próprio governo.

AÇÃO RECUSADA – Fato inédito é também o juiz de uma Vara Federal rejeitar liminarmente uma ação proposta pelo Chefe do Executivo contra um empresário que o considerou um criminoso. O juiz poderia ter registrado a ação e pedido explicações ao acusador. Afinal de contas, se a acusação era falsa, estaria caracterizado um crime de calúnia. Mas o juiz rejeitou de plano os argumentos do presidente Michel Temer, porque não viu na entrevista à Época a prática de transgressão alguma por Joesley Batista. Logo, o juiz Marcus Vinicius Reis Bastos tacitamente revelou concordar com os termos da entrevista.

Justificando sua decisão, disse que Joesley Batista estava, na verdade, reiterando fatos contidos no acordo de colaboração premiada homologado pelo Supremo Tribunal Federal. O magistrado não viu no lance qualquer aleivosia. Deixou a impressão que a seu juízo concorda com o conteúdo da matéria.

POSIÇÃO FRÁGIL – Foram, assim, fatos que no seu conjunto fragilizam incrivelmente a posição do presidente da República, sobretudo porque o relatório da Polícia Federal sustenta diretamente que Michel Temer era o beneficiário final da propina, especialmente no caso da mala de dinheiro entregue por Ricardo Saud a Rodrigo Rocha Loures numa noite paulista.

Para a Polícia Federal – é incrível! –, Michel Temer praticou corrupção passiva de acordo com os artigos 29 e 317 do Código Penal, usando Rocha Loures como intermediário.

Este capítulo extremamente crítico do processo político, que atinge duramente Michel Temer, não tem precedentes na memória da República brasileira. E provavelmente não será repetido, pelo menos nos próximos 100 anos. É o triste fim de um governo que perdeu a si mesmo.

Na visão do presidente do BC, se o governo cair, a equipe econômica continua

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Equipe econômica está blindada, segundo Ilan

Pedro do Coutto

Numa entrevista de página inteira a Fabrício de Castro, Fernando Nakagawa e Irany Tereza, em O Estado de São Paulo desta segunda-feira, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, afirmou que, apesar da incerteza ter aumentado, o que me interessa são as reformas e o ajuste fiscal. Com tal declaração, o presidente do BACEN praticamente separou o destino político do presidente Michel Temer do objetivo contido nas reformas trabalhista e previdenciária, distinguindo também o desfecho do ajuste fiscal proposto pela equipe econômica.

O presidente do Banco Central deve ter expressado também o posicionamento do ministro Henrique Meirelles, já que não faria sentido destacar um pensamento diverso do pensamento do titular da Fazenda. No texto, assinalou que “a incerteza nas últimas semanas aumentou. Mas podemos ter as reformas e o ajuste avançando. E é só isso que me interessa, sob o ponto de vista do BC.”

SEPARAÇÃO – As declarações de Goldfajn, presume-se, devem ter desagradado o presidente Michel Temer na manhã de sua viagem à Rússia. Pois dão a entender que o projeto econômico de seu governo nada tem a ver com a permanência ou não do presidente no Palácio do Planalto. Com a entrevista o presidente do BC, sem dúvida, dirigiu uma mensagem ao mercado financeiro, acentuando que o apoio às reformas independe do Palácio do Planalto. Depende, isso sim, da ação da Fazenda na Esplanada de Brasília. Separou o Planalto da visão geral da planície.

Goldfajn afirmou: “Trabalhamos no BC sempre com as questões econômicas e técnica. Desde o primeiro dia da crise, me perguntaram o que vocês (no plural) vão fazer? Vamos fazer a questão técnica. Tenho avaliado a consequência dos últimos eventos e as reformas e ajustes. São diferenças importantes. Podemos ter as reformas e os ajustes avançando, e é só isso que me interessa.”

MENOS INCERTEZA – O presidente do BC reconhece que apesar de a incerteza ter aumentado nas últimas semanas, é possível que venha a diminuir. A reforma trabalhista está avançando, vamos ter que observar como anda a reforma da Previdência, disse.

Como se constata, Ilan Goldfajn considera que o essencial na área econômica pode não ser o essencial na área política. Suas declarações são claras nesse sentido. Pode ter fortalecido a corrente de Henrique Meirelles, na qual navega ele próprio, mas enfraqueceu ainda mais o governo Temer.

Em síntese: a economia está bem, não importando que o projeto político esteja mal. Quis dizer: se o governo cair, a equipe econômica continua. Seu destino ultrapassa o destino do Palácio do Planalto.

Se Joesley Batista é um “bandido”, por que então Temer o recebeu em palácio?

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Charge do Benett (Notícias UOL)

Pedro do Coutto

Na resposta que apresentou – reportagem de Eduardo Barretto e Eduardo Bressiani, O Globo deste domingo – Michel Temer afirma que o controlador do grupo JBS é o bandido de maior sucesso na história brasileira, figura notória da prática de lances ilegais, aliado dos ex-presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff. Alegou também que os negócios do submundo foram realizados nos governos passados. Mas cabe a pergunta: se Joesley Batista é um bandido e estelionatário, quais os motivos que levaram o presidente da República a recebê-lo no Palácio Jaburu, com ele mantendo uma conversa que se prolongou por 40 minutos?

O fato predominante no episódio que surgiu do novo depoimento de Joesley Batista à Polícia Federal foi o encontro que Michel Temer não nega e que provocou nova avalanche de impactos no quadro político do país.

Esperamos para esta segunda-feira a abertura do processo judicial que o presidente da República prometeu iniciar contra Joesley e o rumo que daí vai surgir no entrechoque violento de versões e opiniões a que a opinião pública assiste com interesse e também com revolta e decepção.

DESCEU OS DEGRAUS – Revolta e decepção por ver um presidente da República descer dos degraus do Planalto para duelar na planície com um empresário beneficiado por uma série de créditos e favores imensos que recebeu a partir de 2005, como o próprio Temer diz, através de créditos do BNDES, entre outras vantagens.

Sabedor de avanços ilegais do dinheiro público, o que se podia esperar do presidente Michel Temer era uma reação oficial contra o empresário que criara uma fonte luminosa de corrupção no país. Ao ponto de se tornar proprietário de frigoríficos, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos e outros países.

Porém, ao contrário, o atual governo só firmou posição contrária em relação ao Joesley Batista quando por alvejado por ele em depoimento à Polícia Federal, objeto da entrevista publicada com destaque pela revista Época. Dessa forma a reação presidencial se fez sentir como resultado das pressões e reflexos da opinião pública.

FALA DE FHC – Michel Temer viaja nesta segunda-feira para a Rússia e a Noruega, mas sua ausência do Brasil não funcionará como uma espécie de tranquilizante. A crise, antevista pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, permanecerá e aguardará o retorno do presidente, previsto para o final da semana. Ao contrário, o clima continuará marcado por uma temperatura alta, no início do inverno em nosso país.

Possivelmente informado da nova etapa aberta por Joesley Batista, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso desembarcou da viagem que os tucanos desejavam fazer na escala, mais uma, de participação no governo. Afinal de contas, o PSDB ocupa quatro ministérios na Esplanada atingida pela explosão desencadeada pela JBS. A ideia original era a de adiar a saída, esse adiamento durou apenas uma semana, pois agora a realidade passou a ser outra.

QUESTÃO ESSENCIAL – Desembarcar ou não desembarcar é a questão essencial do PSDB. Antecipar as eleições de 2018 tornou-se, como FHC deseja, uma solução de curto prazo. Essa antecipação pode não incluir os mandatos parlamentares e dos atuais governadores. Ficaria restrita a presidência e vice-presidência da República.

A tempestade atinge apenas o governo que não se encontrou desde a reeleição de Dilma Rousseff e de MIchel Temer. Michel Temer assumiu, mas não conseguiu sair-se bem das armadilhas que o poder deixa no caminho de quem o ocupa.

Confronto entre Temer e Joesley atinge seu ponto máximo

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Ilustração reproduzida do Blog do Esmael

Pedro do Coutto

O confronto e o conflito entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista atingiram o ponto de tensão máxima neste final de semana, com a entrevista do principal dono da JBS a Diego Escosteguy, para a revista Época que se encontra nas bancas. O empresário acusou frontalmente o presidente da República de formar a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Michel Temer- ressaltou- é o chefe.

A matéria foi destacada também em reportagem de Jailton de Carvalho na edição de O Globo de sábado. O presidente MIchel Temer respondeu no final da tarde também deste sábado através de nota oficial divulgada integralmente pela Globonews e enviada a todas as demais emissoras e jornais do país.

VAI PROCESSAR – Nessa nota oficial o presidente Michel Temer anuncia que processará criminalmente Joesley Batista na segunda-feira. O texto do Palácio do Planalto dirige também críticas à Procuradoria Geral da República e à Justiça pelas vantagens que destinou ao personagem em troca de sua delação premiada. O fato é que a crise política atingiu com isso seu ponto máximo de tensão.

A partir de agora não haverá mais possibilidade de recuo ou de adiamento do desfecho. Na entrevista à Época, Joesley Batista diz que gravou a conversa que teve com MIchel Temer para se resguardar de eventuais pressões que  poderiam se suceder no que se refere a desembolsos financeiros, especialmente para o ex-deputado Eduardo Cunha manter-se em silêncio na prisão em que se encontra.

REFÉM DOS PRESOS – Joesley sustenta que foi transformado em refém de dois presidiários. Eduardo Cunha e o doleiro Lúcio Funaro. Não diz diretamente de quem era refém, mas pela direção do relato só pode ser refém do presidente Michel Temer. Isso porque tal ameaça levou-o a visitar o presidente da República no Palácio Jaburu, ocasião crítica na qual efetuou a gravação que se transformou em pedra de toque da crise que atinge o governo.

O processo penal anunciado por Temer contra Joesley dará margem a um desdobramento da situação. Porque se Joesley confirmar mais uma vez o que disse à Polícia Federal na sexta-feira e a Justiça aceitar as provas que se dispõem a exibir, para o presidente Michel Temer tornar-se-á no ponto final de seu mandato.

Se a Justiça condenar Joesley Batista, nem por isso o residente da República sairá bem do episódio.

SEM ABSOLVIÇÃO – Michel Temer deixou-se, de uma forma ou outra, ser envolvido pela onda de denúncias contra ele. Joesley pode ser condenado, mas isso não significará a absolvição de um governo que se perdeu no rumo da história.

Finalmente, se Joesley não sofrer nenhuma pena o próximo passo político será a instalação urgente de um novo governo no país.

Um governo capaz de resistir à tempestade e que represente o povo brasileiro.

FHC retira a última coluna que sustentava Michel Temer no governo

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Charge do Angeli (Folha)

Pedro do Coutto

Na entrevista a Silvia Amorim, O Globo desta sexta-feira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a maior figura do PSDB, retirou o que se pode classificar de última coluna ou base de sustentação do presidente Michel Temer do Palácio do Planalto. Fernando Henrique Cardoso afirmou de forma direta que o presidente da República perdeu a legitimidade para permanecer no governo. O ex-presidente divulgou um texto no qual destaca os pontos principais de sua visão institucional. Ele defende que Temer, num gesto de grandeza concorde com a antecipação para já das eleições diretas marcadas para 2018.

“Se tudo continuar como está – ressaltou – com a desconstrução contínua da autoridade e seu empenho de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como o PSDB possa permanecer no governo”.

ESVAZIAMENTO – Além de Sílvia Amorim em O Globo, as declarações de FHC foram também objeto de matéria assinada por Raymundo Costa no Valor. Na quinta-feira, Folha de São Paulo, reportagem de Talita Fernandes e Bruno Boghossian, o presidente em exercício do PSDB, Tasso Jereissati, afirmara que Michel Temer tem de provar sua inocência e que acreditar na proposta de acordo de apoio do PMDB a um candidato da legenda que preside interinamente, no lugar de Aécio Neves significa um verdadeiro delírio, ou, como disse o poeta, o sonho de uma noite de verão.

Deixando o sonho e retornando-se à realidade exposta por Fernando Henrique, pode-se afirmar que o argumento da falta de tempo para convocar eleições gerais é algo secundário, partindo de uma ilusão. O exemplo de 1945 coloca por terra o tema falta de tempo.

EXEMPLO DE VARGAS – A 29 de outubro de 1945, o presidente Getúlio Vargas, então ditador desde novembro de 37, foi deposto por um movimento político militar. Como não havia Congresso Nacional funcionado, assumiu a presidência da República o presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, hoje nome de rua no Leblon. As eleições presidenciais e para a constituinte de 46 foram realizadas normalmente a 2 de dezembro do ano hoje distante na memória política.

Foi eleito o general Eurico Dutra, com o apoio de Vargas, juntamente com a representação de 2 senadores por estado e os deputados federais. A Constituição de 46 que durou até 64, foi promulgada no mês de setembro. A nova Carta Constitucional da época foi que estabeleceu três senadores por estado. O terceiro senador foi eleito em 1947. Os governadores também.

HÁ TEMPO – Portanto, não é por falta de tempo que a sucessão presidencial antecipada não passará da teoria à prática. Em 1945, as cédulas de votação eram individuais, a contagem dos votos era manual, não existia internet e os computadores eram apenas um projeto nos países mais adiantados. Basta dizer que o primeiro computador a entrar em funcionamento foi inventado em 1944 pelo inglês Alan Touring que, com ele, decifrou o código nazista que antecipou o final da segunda guerra na Europa.

Hoje existe tudo  isso e não se pode sequer comparar o panorama tecnológico de 45 com a realidade dos dias de hoje.

Por falar em realidade a tese levantada por Fernando Henrique Cardoso é a mais realista possível e conduz à saída de um túnel obscurecido pela corrupção e pelas tentativas de obstruir as investigações da Lava-Jato e aquelas que sucederam o petrolão e aterrissaram nos campos da JBS. Depois de FHC falar, o silêncio do Planalto é a melhor confirmação dos fatos.

Jorge Bastos Moreno, um suave tradutor da realidade

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Moreno escrevia em O Globo há mais de 30 anos

Pedro do Coutto

A diferença de 20 anos entre a minha geração e a dele não me deu o prazer de conhecê-lo pessoalmente, mas acompanhei sua trajetória brilhante no Globo. Pelas manifestações intensas que marcaram sua morte, constato que se tratava de excepcional figura humana, um suave tradutor da realidade, alguém que jogava luz entre a sombra e o fato. Colecionou amigos em grande número, o que destacava seu caráter agregador e assinalava sua compreensão entre as diferenças humanas.

Com ele desaparece um estilo raro no jornalismo brasileiro: alguém capaz de penetrar nas curvas do segredo sem contundir aqueles que o guardavam. Um jornalista que soube honrar sua profissão, a qual, no fundo, é uma ponte entre o que existe e o que se sabe. Atravessam essa ponte diariamente milhões de pessoas à procura da exatidão de uma ideia clara entre as múltiplas versões que podem existir entre um lado e outro da política, da economia da sociedade.

ANSIEDADE – O jornalismo, efetivamente, é isso. A busca incessante e renovadora marcada pela ansiedade própria de todos os profissionais de imprensa. Um jornalista nunca está tranqüilo, porque ele sempre tem o impulso dentro de si de identificar uma situação e em seguida traduzi-la para a opinião pública, para todos nós que caminhamos no tempo e buscamos uma resposta sempre clara de uma pergunta reveladora.

A beleza da comunicação vive nesta busca que se renova a todos os momentos. Redatores, repórteres, fotógrafos, cinegrafistas habitam esse universo fascinante que é marcado pela descoberta e por sua divulgação. Às vezes pessoas não entendem bem a nossa tarefa de tradução e revelação. Mas para estes dou sempre o exemplo do risco que também envolve a atividade profissional. Basta recorrer aos arquivos de fatos perigosos e marcantes da existência para se ter certeza do que estou afirmando aqui.

HIROSHIMA – Se alguém verifica, estarrecido, a história da bomba de Hiroshima, por exemplo, vai se deparar com os documentos fotográficos. E talvez não pense no risco que fotógrafos correram naquele agosto de 1945. Se alguém procurar fotografias da invasão da Normandia, em julho de 44, vai verificar que o risco heróico dos soldados americanos e ingleses que desembarcaram era o mesmo que os portadores das hoje velhas máquinas fotográficas corriam. Não é diferente a jornada também heróica da Força Expedicionária Brasileira nas montanhas da Itália Fascista.

Reportagens produziram em sua época longos capítulos da história universal. Hoje essa história está nos livros, depois de estar nas teclas de velhas máquinas de escrever e eternizadas nas lentes dos repórteres que trabalhavam na visão. São episódios como os de Monte Castelo, Pearl Harbor, Stalingrado, que serão visitados para sempre na memória universal.

PERSONAGEM – Jorge Bastos Moreno foi personagem marcante no jornalismo que se renova, não só a cada dia mas a cada momento da vida.

A história se escreve, assim, através das marcas indeléveis que a imprensa e a televisão produzem, da mesma forma que as imagens e os fatos registrados pelo jornalista que há poucos dias desembarcou da viagem. Viagem, lembro agora era a imagem que o grande pensador Alceu de Amoroso Lima – no final da vida, mais cristão do que católico – usava para falar daqueles que deixaram de viver na terra. Amoroso Lima referiu-se assim quando da morte de Nelson Rodrigues. Frisou que, apesar de suas divergências ele era mais um companheiro de viagem que desembarcava.

Jorge Bastos Moreno desembarcou, é pena. Mas sua passagem possui momentos importantes da história que ele assistiu e traduziu com leveza e humor. Mas sem minimizar o valor das descobertas a que chegou. Por tudo isso será sempre lembrado como um grande jornalista que foi. Ele viverá nos arquivos de O Globo com o destaque que fez por merecer.

Grupo do PT agrediu Miriam Leitão para escapar a si próprio

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A ABI se omitiu sobre o caso de Miriam Leitão

Pedro do Coutto

A agressão cometida por um grupo de filiados do PT à jornalista Miriam Leitão, num voo de Brasília para o Rio, não só foi uma manifestação brutal à liberdade, como também psicologicamente representou uma tentativa vã de escapar a si próprio, uma vez que a corrupção disparou nos governos Lula e Dilma Rousseff, desembocando no governo Michel Temer. O PT deveria, isto sim, manifestar-se contra aqueles que mancharam a carta de princípios do próprio partido, que de sua mensagem original de reformista, transformou-se em conservador. E mais do que isso: patrocinou por ação e omissão a onda de assaltos ao patrimônio público. A Petrobrás é o exemplo mais emblemático.

A jornalista Miriam Leitão narrou o episódio em sua coluna de O Globo de terça-feira e nesta quarta-feira o jornal em que trabalha publicou destacada reportagem sobre o assunto. No que foi acompanhado pela Folha de São Paulo e pelo O Estado de São Paulo. No Estado de São Paulo a matéria é assinada por Elisa Clavery.

SILÊNCIO DA ABI – Estranho e sobretudo revoltante foi o silêncio da ABI, destoando das posições assumidas pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, pela Associação Nacional de Editoras de Revistas e pela Associação Nacional de Jornais e pelo Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro.

O repúdio foi geral, maciço, apagando a omissão da ABI. Mas não apagou o repúdio de toda a opinião pública. A situação do voo foi tão intensa que o comandante da aeronave propôs a Miriam Leitão que trocasse de lugar para um espaço que a libertaria dos fanáticos impulsionados por uma confissão de culpa. Miriam Leitão rejeitou e preferiu enfrentar o absurdo mantendo-se onde se encontrava, rodeada por aqueles que querem impor a sua realidade, tentando desconhecer a realidade dos fatos.

FASCISMO – O episódio representa também o espírito fascista que habita grande parte das hostes petistas. Como, aliás, focalizou O Globo em editorial nesta quarta-feira. Os petistas fiéis ao programa do partido deveriam repudiar os que romperam com a dignidade pública, apropriando-se de negócios sinuosos que mancharam a sua bandeira de luta. Para o PT, o episódio do avião demonstra que o partido está perdido no espaço político. E na procura de reencontrar-se consigo mesmo, extrapola e acusa aqueles que não são responsáveis pela debacle da legenda e, na verdade, apenas relataram o que aconteceu no Brasil a partir de 2003.

Enquanto permanecer longe de seus princípios, longe da bandeira que levou à sua constituição, os petistas precisam urgentemente ingressar num processo de autocrítica. Miriam Leitão não foi responsável pelo desabamento partidário. Não foi responsável também pela passeata de 1 milhão de pessoas em São Paulo e 600 mil no Rio exigindo a saída de Dilma Rousseff.

EMBLEMA DA REFORMA – Foram as ruas brasileiras e não os jornalistas e apresentadores de televisão que explodiram o emblema da reforma que, depois das derrotas de 89, 94 e 98, foi usado para fins nada coincidentes com a motivação original de um Partido que se intitulava dos Trabalhadores.

No final das contas, o PT acabou nas mãos da Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez e da JBS. A JBS permaneceu aliada a MIchel Temer até o episódio de Joesley Batista com sua gravação desmoralizante.

INTOLERÂNCIA – A atitude agressiva para com Miriam Leitão foi mais uma página também da intolerância dos que tentam fugir ao julgamento inapelável da consciência.

Miriam Leitão está bem com sua consciência de jornalista. Ela foi personagem principal de um fato que representa a preservação da liberdade de pensamento como uma das grandes colunas que sustentam a mente humana.

Os agressores do final de semana juntam-se aos eternos inconformados com uma coisa chamada liberdade.

Na visão do PSDB, a corrupção do governo é assunto sem relevância

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Charge do Jota A (O Dia/PI)

Pedro do Coutto

Acho que o título do artigo sintetiza a decisão que o PSDB tomou na noite desta segunda-feira, de não deixar o governo Michel Temer e, portanto, manter os titulares da legenda que ocupam quatro Ministérios atualmente. O Partido – reportagem de Maria Lima, O Globo – alegou compromisso com as reformas que se encontram em tramitação no Congresso – no caso, as Reformas Trabalhista e Previdenciária. Mas a verdade é outra. O PSDB permanece na base que sustenta o equilíbrio de Temer no Planalto porque fez um compromisso com o PMDB: votar pela absolvição do senador Aécio Neves para depois assegurar o apoio do PMDB ao candidato que o PSDB vier a escolher para a sucessão presidencial de 2018.

Na primeira fila da cogitação relativa a 2018, encontra-se o governador Geraldo Alckmin, que aliás foi peça decisiva no sentido de que os tucanos não rompessem com a administração do país. Quer dizer, não rompessem nos dias atuais,  porque o futuro é incerto e a dinâmica da política pode levar o partido a mudar de rumo a qualquer instante.

SÓ PROMESSA – Apoio ao candidato do PSDB em 2018 representa apenas uma promessa que se vai com o vento e com a realidade que se impuser no país no próximo ano. Mas promessa é sempre algo animador, não importando quaisquer empecilhos.

Entretanto, episódios novos estão para surgir, sem dúvida alguma. A Rede de Marina Silva recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a decisão do TSE. O recurso é importante, sobretudo porque abriu uma divergência no STF, colocando em lados opostos Gilmar Mendes e Luiz Fux.

O ministro Fux, matéria de Juliana Arreguy e Cristiane Jungblut, em O Globo, afirmou que o TSE usou um artifício para absolver a chapa Dilma-Michel Temer. E acrescentou que, se a ação chegar ao Plenário do STF, seu voto será pela cassação do mandato do presidente da República. Para ele, a exclusão das delações da Odebrecht, de João Santana e Mônica Moura foi um erro.

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REFORMA FORTALECE A PREVIDÊNCIA PRIVADA

Em entrevista ao Valor desta terça-feira, o presidente da entidade que congrega os Fundos Privados de Previdência Complementar anunciou um grande avanço na captação de recursos, ao longo do debate que se trava no Congresso Nacional em torno da reforma previdenciária com recursos estatais. É o caso da Previdência privada de modo geral, uma vez que o projeto que o presidente Michel Temer elaborou muda as condições básicas para aposentadoria.

Defensor da reforma, o presidente da Bradesco Vida, Jorge Pohlman Nasser, destaca que a reforma abriu uma janela de oportunidades para o setor privado.

A questão é muito simples: temendo perda dos valores da aposentadoria, grande parte dos servidores das estatais e do serviço público tem partido para buscar opção na previdência privada.