Dilma busca ressurgir e anuncia revisão de erros cometidos

Pedro do Coutto

Em reportagem publicada na Folha de São Paulo, 22 de julho, Valdo Cruz revela que, através de sua assessoria política, a presidente Dilma Rousseff está assumindo o compromisso de rever erros que admite ter cometido no primeiro mandato. A iniciativa demonstra que a partir de agora, véspera do início da campanha eleitoral, ela busca ressurgir na caminhada para um segundo mandato assim reconquistando tempo perdido. Despertou tarde, mas, como diz o aditado, antes tarde do que nunca.

Foi evidentemente tocada pelas recentes pesquisas do Datafolha que iluminaram o aumento da rejeição a seu governo, o que, como é inevitável, acarretou a descida de sua liderança de 38 para 36 pontos no espaço de quinze dias. Mais importante do que o pequeno recuo, aí sim, é o registro  do que pode ser uma tendência. O Datafolha assinalou 36% das intenções de voto, contra 20% de Aécio Neves e apenas 8 pontos para Eduardo Campos. Mas existem muitos outros candidatos, a começar pelo pastor Everaldo  que alcança 3 degraus.

Somados todos os percentuais, de acordo com o Datafolha, verifica-se um empate. Ou seja, a soma dos adversários coincide com os 36 pontos alcançados pela chefe do Executivo. Tais números acentuam, mais que uma tendência possível, a hipótese provável do segundo turno. Assim, a decisão nas urnas seria transferida de 5 de outubro para 26 do mesmo mês, conforme prevê a lei.

ERROS  

A matéria do jornalista Valdo Cruz é bastante forte ao refletir vários ângulos do processo de fixar um panorama verdadeiro. A começar pelo fato de a assessoria de Rousseff alinhar o que Dilma reconhece como seus principais erros na trajetória de seu desempenho político, a partir dos planos econômico e social.

No campo político, do qual se ganha e se pErde votos na urna, ela admite a falta de diálogo com os partidos aliados e com as correntes do empresariado que mais se aproximam de sua candidatura. Os outro seis aspectos concentram-se no corte das tarifas de energia, desoneração sobre as folhas de pagamento, tarifas de ônibus, preço dos combustíveis procedentes do petróleo, empenho em assegurar superávit primário (a contabilidade antes de considerar o custo com a rolagem da dívida interna), além da limitação dos ganhos das empresas de transporte rodoviário e ferroviário.

Essas medidas, todas elas, voltadas para conter a inflação em patamar positivamente absorvível pela sociedade, mas, vê-se agora, não produziram os resultados almejados. Sim. Porque se tivessem logrado atingir os resultados esperados, ela, Dilma, não os incluiria num quadro de revisão.

NOVO ESTILO

A essa lista de reformas, a meu ver, ela deve acrescentar a mudança de seu estilo que, se não a levou a um isolamento, pelo menos bloqueou  sua progressão no processo de ampliar as intenções de voto para si.

Os números confirmam essa imagem. No primeiro turno, ela tem 36, Aécio 20, Eduardo Campos 8 pontos. Caso haja segundo turno, o Datafolha aponta 44 para ela, 40 para Aécio. Portanto ela sobe 8 degraus, Aécio   duplica a percentagem do primeiro embate, sobe portanto para 40. A aproximação ocorre. Porém tem que se levar em conta os sufrágios brancos e nulos que podem conduzir a uma distância maior dela em relação ao senador mineiro.

Porque se a pesquisa registrar, digamos, o que é provável, 15% de nulos e brancos, as percentagens terão que ser infladas, é claro, na mesma escala. Sobe mais, assim, quem está na frente. Mas estas são interpretações dos números. Havendo segundo turno, os debates e os conteúdos das colocações do tema é que vão decidir se Dilma Rousseff continua no  plano alto do planalto ou se vai ser sucedida por Aécio neves. O pastor Everaldo, vejam só, pode ser decisivo para definir se haverá ou não segundo turno.

Eduardo Campos, a meu ver, vai esperar o terceiro turno. Mas este só nas eleições de 2018.

Reação contrária pode levar CBF a rever indicação de Dunga

Pedro do Coutto

A forte reação contrária dos meios de comunicação e da opinião pública ao retorno do técnico Dunga ao comando da Seleção Brasileira pode levar provavelmente a direção da CBF a rever a indicação. À primeira vista a impressão que se tem é de que a iniciativa de José Maria Marim foi precipitada e não avaliou os reflexos negativos acentuados pelas matérias editadas pelos jornais (manchete de O Globo) e rejeição de 85% registrada em pesquisa realizada pelo Fantástico, noite de domingo.

A Confederação Brasileiraa de Futebol informou, pela Internet, que anunciaria a escolha hoje, terça-feira. Escrevo este artigo na véspera, portanto na segunda-feira. Admito até a hipótese de ocorrer um adiamento na divulgação.

As reações destacam tanto Dunga quanto Gilmar Rinaldi, na imprensa. São fortes  e se estendem a condição de empresário de jogadores atribuída a Rinaldi. Como coordenador do selecionado, nesta situação, ele se tornaria juiz e parte a um só tempo. E é um princípio universal de Direito que ninguém pode simultaneamente ocupar as duas posições. Aliás quanto a Rinaldi, aproveito este espaço para retificar o erro que cometi na sexta-feira quando confundi o goleiro reserva do escrete de 98 com Gilmar Neves, goleiro titular bicampeão de 58 e 62.

DESCONTROLE

Feito o conserto com atraso de alguns dias, voltando ao tema cujo foco central a mim parece a inoportunidade da decisão pró Dunga, estilo agressivo semelhante ao de Felipão, ainda sob o trauma dos sete a um para a Alemanha. Canais de televisão reeditaram  inclusive momentos de intensa exaltação do técnico na Copa de 2010 quando da desclassificação do Brasil nas quartas de final. Na condução de seu trabalho exasperou-se demais, deixando evidente seu descontrole.

O mesmo que envolveu o comportamento de Felipe Scolari, agora, quando numa entrevista a jornalistas afirmou que estava agindo como bem lhe aprouvera culminando a resposta com insultos absolutamente desnecessários e que demonstravam o descontrole que o atingia.

A direção da CBF evidentemente não esperava o resultado da pesquisa do Fantástico destacada pela Rede Globo como um fator de impacto junto à opinião pública. Pois se contasse levaria em conta que a rejeição do nome somado aos sete a um e aos três a zero  para Holanda, ultrapassa, em mal-estar, aos dez gols sofridos pela Seleção na despedida da Copa deste ano. E verdade que outras competições se aproximam. Mas não se tornam fator capaz de se sobrepor à soma da decepção com a precipitação. A esperança, agora, é uma oportuna revisão.

Antes tarde do que nunca.

Datafolha leva Dilma a rever bases estaduais, a partir de São Paulo

Pedro do Coutto

A primeira rodada da série de pesquisas a serem realizadas pelo Datafolha em articulação com a Rede Globo, objeto de reportagem de Ricardo Mendonça publicada na Folha de São Paulo, vem acentuar a necessidade de a presidente Dilma Rousseff rever suas alianças estaduais a partir de São Paulo, maior colégio eleitoral do país, representando vinte por cento dos votos. Em primeiro lugar ficou nítida uma tendência para a realização de segundo turno entre ela e Aécio Neves, portanto uma diferença de 44 a 40 pontos, o que acentua um estreitamento que acrescenta emoção à campanha.

Estreitamento porque, no primeiro turno, o Datafolha destaca 36% para a atual presidente contra 20 pontos atribuídos ao senador Aécio Neves e apenas 8 para Eduardo Campos. Uma diferença de 16 degraus da primeira para a segunda colocação. Essa diferença, na simulação de tendências, cai para somente 4 pontos. Logo, enquanto ela avança oito escalas, passando de 36 para 44, Aécio Nevers salta de 20 para 40%. Exatamente o dobro. Substituído Aécio por Eduardo Campos, Dilma registra 45 sobre 38. Como o ex-governador de Pernambuco está muito mais fraco que Aécio (perde de 20 a 8), proporcionalmente sobe mais do que ele.

OPOSIÇÃO UNIDA

O que significa tal processo? Um impulso bastante sensível de as oposições se unirem na hipótese de uma segunda convocação às urnas. Este, portanto, é um fato que deve constituir em preocupação para a presidente no quadro geral. Da mesma forma que reduzir o nível do desemprego no plano social, pois o Datafolha destacou, de forma indireta, ser esta, como é natural, a maior preocupação dos eleitores.

Além desses aspectos, existe um outro, envolvendo a necessidade de uma revisão das bases estaduais, a partir de São Paulo. Porque em São Paulo, enquanto Geraldo Alckmim alcança 54% das intenções de voto e começou a transferir prestígio para Aécio Neves, Alexandre Padilha, candidato do PT, registra somente 4 pontos e apresenta uma rejeição de 26 contra si. No meio, Paulo Skaf (PMDB) assinala 16 pontos a favor de sua candidatura.

Assim, Alexandre Padilha revelou-se basicamente inviável, devendo partir dele inclusive a iniciativa de retirar-se da disputa para facilitar a recomposição de Dilma no estado. Sua presença nas urnas impede o crescimento da candidatura presidencial exatamente onde se torna mais importante.

TRIÂNGULO DAS BERMUDAS

É preciso levar em conta que São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, somados, significam praticamente a metade do eleitorado brasileiro. Assim, a dificuldade paulista torna-se ameaça à campanha de qualquer candidatura.

Portanto, as articulações regionais são extremamente importantes, sobretudo em função da proximidade entre Dilma Rousseff e Aécio Neves, os candidatos que ocupam as posições mais fortes. Vejam só os leitores como são as coisas: embora possa vencer no primeiro turno, a presidente da República vê reduzir-se a margem de sua vantagem se houver seguindo turno. Um dado que precisa ser considerado para o conteúdo, o rumo e o ritmo de sua campanha. Sobretudo porque as engrenagens do poder estão em suas mãos, não nas mãos de Aécio Neves.

 

Dilma afasta ideia de intervir (ou interferir) na CBF

Pedro do Coutto
Reportagem de Andrea Sadi e Valdo Cruz, edição de 17, da Folha de São Paulo revelou que a presidente Dilma Rousseff teria desvinculado o site do ex-ministro Franklin Martins do universo de sua campanha eleitoral por ter rejeitado a ideia de intervir diretamente ou indiretamente num processo de reformulação da CBF para reabilitar o futebol brasileiro dos desastres sofridos na Copa do Mundo contra a Alemanha e Holanda.
De fato, uma reestruturação se impõe, mas não por iniciativa do governo. A tarefa deve caber a Confederação porque constituiria um equívoco enorme misturar ações políticas com aquelas que devem caber singularmente ao mundo do futebol.
A presença exposta do poder executivo na matéria só traria ônus ao Planalto, caso a intervenção não funcionasse, e nada acrescentaria na hipótese de sucesso. Pois foi através da CBF e da arte e técnica dos jogadores que, de 58 para 2002, conquistamos o penta campeonato, além de participado de sete finais decisivas. Conquistamos o bicampeonato em 62 e, nem por isso, o presidente João Goulart tornou-se mais popular por causa disso. Levantamos o tri no governo Médici e a vitória não refletiu em nada de positivo para o sistema político militar. O tetra foi alcançado com Itamar Franco no Planalto. Nada mudou. O penta surgiu com Fernando Henrique. Exatamente no ano em que Lula venceu pela primeira vez nas urnas presidenciais.
Creio que esses exemplos, por si, são suficientes para assinalar enfaticamente uma desvinculação absoluta. Mas não é só. Acima de tudo há o risco de qualquer escolha não agradar o mundo e o pensamento esportivo, como as dúvidas reveladas pela pesquisa inicial do Datafolha demonstraram. Há um leque de preferências quanto aos nomes cogitados e uma pressa da própria CBF em pelo menos equacionar a questão, levando em conta as próximas competições em pauta, entre as quais, principalmente, o título de campeão mundial olímpico de 2016. Várias alternativas foram colocadas por José Maria Marin, entre elas a investidura provisória do ex-goleiro Gilmar, titular das seleções que levantaram o bicampeonato 58-62, na Suécia e no Chile.
SEGUNDO TURNO
Todos esses argumentos, de um lado, levaram ao posicionamento menos agressivo por parte da presidente da República. De outro, por qual motivo Dilma Rousseff deveria, no caso CBF, seguir a orientação de choque colocada por Franklin Martins? Em tal hipótese, ela não lideraria o esforço para recuperar a imagem do futebol brasileiro. Pelo contrário: seguiria um roteiro traçado por uma das assessorias. Mas é ela quem disputa a reeleição nas urnas de outubro. Tanto as do primeiro como de um possível segundo turno.
Sabe-se que Eduardo Campos está concorrendo em 2014 pensando em reeditar sua participação em 2018, daqui a quatro anos. Mas seus votos e mais os 4 pontos atribuídos ao pastor Everaldo podem fazer com que na última semana de outubro, depois dos números registrados no dia 5, Dilma tenha que retornar ao espaço eleitoral tendo Aécio neves como adversário. Isso inclusive dependerá também das disputas no primeiro turno, verificadas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul. E, ia esquecendo, também na Bahia.

Vexame de 2014 superou tristeza de 1950

Pedro do Coutto

A frase título, de meu cunhado e grande amigo Eduardo Martins Pedro, constrói uma síntese comparativa perfeita entre o resultado de ontem, que a distância de 64 anos não apagou, e os vergonhosos sete a um de agora, maior vexame do futebol brasileiro, eternamente incorporado à memória nacional. Nunca, acho eu, nos libertaremos da tragédia de 2014,  venham a nós só fatores de vitórias que vierem através do tempo. A tristeza que envolveu o Brasil em 50 pode ter sido maior do que a que nos atingiu neste julho do século 21, mas o sentimento de vergonha superou o deixado pela derrota no meio do século vinte.

Há motivos para isso, alguns destacados por minha mulher, relativas à abrangência da comunicação. A final de 1950 foi exatamente no dia 16 de julho. A televisão chegou ao país, primeiro em São Paulo, em agosto. Em setembro, o jornalista Assis Chateubriand inaugurou a TV-Tupi no Rio. O Maracanã estava superlotado, com duzentas mil pessoas nas arquibancadas, na geral que existia na época, nas cadeiras do estádio Mário Filho. Assim, a decisão foi acompanhada através das emissoras de rádio. Claro, a comunicação de 50 não pode ser comparada à proporcionada, agora, pelas emissoras de televisão.

Praticamente toda a população tornou-se testemunha de nossa fragorosa derrota. Assistindo à sucessão de gols como se fossem imagens editadas em replay. Ocorreram quatro gols alemães em apenas seis minutos. O primeiro tempo acabou com cinco a zero contra nós. Não conseguimos, portanto, nem torcer pela nossa Seleção. O afundamento foi geral.

Nossa defesa simplesmente não existiu. Quanto tocávamos, raras vezes vale frisar, não retornávamos para as ações defensivas, exatamente ao contrário do que fazia a Alemanha. Havia sempre, pelo menos seis adversários na linha em que a bola se encontrava. Não tínhamos velocidade alguma. Foram para dentro da meta de Júlio César desferidos cara a cara pelos alemães. Não poderíamos ter sido piores. Entretanto, dias depois repetimos nosso vergonhoso desempenho contra a Holanda. Aos inéditos sete a um adicionamos frios três a zero. Fomos péssimos.

INACREDITÁVEL

Quase inacreditável termos perdido por 7 a 1 no Mineirão, jogando em uma de nossas sedes com a torcida quase toda a favor. Não há exemplo, em Copas do Mundo, de tragédia semelhante. Na realidade, perdemos as duas partidas de encerramento levando dez gols e marcando apenas um. No futebol moderno, inclusive as goleadas tornam-se mais difíceis sobretudo em função de as equipes moverem-se mais rapidamente e terem incorporado, não nós, uma preocupação defensiva tão intensa como a ofensiva. Os times avançam compactamente e recuam de forma igualmente compacta.

Falar sobre a clamorosa derrota, nesta altura dos acontecimentos, é falar sobre o óbvio ululante de Nelson Rodrigues. Mas é importante acentuar o sentimento de vergonha que está nos alcançando, do qual não conseguiremos nos livrar com facilidade. Sobretudo porque o vexame a que todos nós fomos expostos chega até a superar a tristeza de 1950. No passado, houve uma derrota por dois a um. Agora, fomos marcados pelo emblema dos sete a um. Não será fácil esquecer.

 

Datafolha: sucesso na organização, desastre no gramado

Pedro do Coutto

Oportuna pesquisa realizada pelo Datafolha, cujo resultado foi publicado ontem em manchete principal da Folha de São Paulo, apontou o pleno êxito  alcançado pelo Brasil em matéria de organização da Copa do Mundo, aprovada por nada menos que 83% dos estrangeiros que aqui estiveram acompanhando os jogos. Foi ótima a iniciativa de pesquisar a opinião dos que vieram como turistas e, nessa condição exigentes em matéria até de detalhes.

Nosso país revelou-se capaz de realizar de forma eficiente e prática  o evento que reúne em torno de si número enorme de pessoas, de várias origens e níveis de renda e cultura. A maciça aprovação obtida foi inquestionável e nos colocou no mapa das principais nações no que se refere à capacidade de organizar eventos de forma a satisfazer a quase todos. O índice alcançado pelo Brasil, creio, tornou-se um recorde mundial de aceitação. Um milagre, uma surpresa.

Mas se isso se verificou no plano administrativo, com os aviões chegando e decolando no horário, e uma hospitalidade, o inverso ocorria nos gramados. Se o Datafolha efetuar uma pesquisa para medir a reação popular ao desempenho do nosso futebol, tenho a certeza que a taxa de reprovação passará fácil da escala de 90%. O futebol praticado em campo tornou-se largamente decepcionante e medir o grau de decepção pode se tornar o ponto de partida para uma reformulação profunda nos métodos de ação, incluindo a adoção de novo sistema operacional que leve em conta a essência do esporte que parte da base repousando no conjunto.

MOVIMENTAÇÃO
Como foi acentuado pelo desempenho da Alemanha, equipes movimentando-se sem cessar, sempre com a presença mínima de quatro jogadores cada seleção onde se encontrava a bola. Havia assim sempre espaço ocupado envolvendo as disputas que se multiplicavam gramado a dentro. Era difícil jogar, sobretudo encontrar o caminho do gol, objetivo final e supremo do futebol. Tanto assim que por apenas um gol se vence, portanto por um gol também se perde. Exatamente o que aconteceu com Alemanha um a zero na segunda parte da prorrogação. Os dois times estavam atleticamente preparados para o exaustivo confronto: em vez de 90, 120 minutos disputados palmo a palmo.
O Datafolha prestará um serviço importante ao esporte brasileiro de modo geral e à CBF em particular, se divulgar o grau de rejeição quanto ao nosso desempenho, colocando em exposição as principais deficiências e contradições verificadas pela opinião pública. Em primeiro lugar, acredito o processo de endeusamento do técnico Felipão e do analista Carlos Alberto Parreira, que, à primeira vista, colocaram-se acima, não só da linha da bola, mas da linha em que deveria situar-se a própria Seleção Brasileira.
Ocorreu exatamente o contrário: nunca um selecionado sofreu derrota igual: cinco a zero só no primeiro tempo, sete a um no final, quatro gols seguidos no espaço de apenas 6 minutos. Não fomos capazes de organizar ações defensivas dentro de campo e não numa partida só. Depois de sete a um, repetimos o modo desastroso de atuar e não vimos também a cor da bola contra a Holanda: três a zero perdemos com praticamente a mesma facilidade. Nosso adversário era outro. Mas nós éramos o mesmo time apático, sem vibração. Precisamos mudar de estilo e sistema. Senão não nos libertaremos do passado recente. Temos que ressurgir das cinzas. A partir de que ponto?

Desastre da seleção foi tanto técnico quanto tático

Pedro do Coutto

Se alguém, apesar das evidências, tivesse alguma dúvida se o desastre da Seleção Brasileira na Copa do Mundo foi mais técnico do que tático, ou se foi mais tático do que técnico, ao assistir a final entre Alemanha e Argentina verificaria que foi duplo e total, nada sobrou  em matéria de preservar qualquer parte do episódio capaz de acrescentar algo à memória esportiva do futebol brasileiro.

Tudo afundou no desenrolar das partidas contra a Alemanha e Holanda. Sofremos dez gols nas duas partidas, a impressão que a transmissão pela Rede Globo proporcionava esra que se tratava de uma repetição de imagens – não uma sequência de lances. A vulnerabilidade da equipe era total. O time não corria em campo, não recuava quando era atacado. Jogou sem a menor compactação.

Compactas foram as equipes da Alemanha e da Argentina. Tanto assim que foram poucas as oportunidades de gol. Alemães e argentinos avançavam e recuavam sem parar, suas presenças constantes nos ataques, sem prejuízo das ações defensivas. As seleções estavam sempre compactadas na linha da bola, estivesse esta no território alemão, permanecesse no universo argentino. Isso somente tornou-se possível em face da movimentação permanente dos jogadores em ambos os espaços. Para isso tiveram que correr sem parar. Exatamente o que o escrete brasileiro não fez. Movimentou-se pouco, correu menos ainda.

GOLS CARA A CARA

Daí o fato de, só no primeiro tempo, terem sofrido cinco gols cujos chutes de arremate foram desfechados praticamente cara a cara diante do goleiro Júlio Cesar. Cinco a zero, já por si definia o desfecho da partida. Impossível qualquer reação. Os alemães provavelmente se espantaram com tanta facilidade. E adormeceram a partida. Mesmo assim ainda fizeram mais dois gols chegando a espantoso sete a zero.

Somente nesta ocasião, saímos do zero. Mas o que significava um tento no marcador, se nosso desempenho estava abaixo de zero em matéria de arte, técnica e tática.

E não conseguimos nos afastar desse plano incompatível com a tradição do futebol brasileiro. Tanto não conseguimos retornar à tona que o selecionado repetiu contra a Holanda o péssimo desempenho frente à Alemanha. Três a zero com outra série de chutes desfechados contra o goleiro sem o menor bloqueio que caracteriza as disputas acirradas.

Foi uma tragédia, como escrevi dia 11, tragédia completa para o futebol do país. Motivo de orgulho  através do tempo, foi relegado ao desprezo pela omissão completa que regeu nossa atuação, dupla atuação: contra a Alemanha, contra a Holanda. Dificilmente poderemos a curto  prazo reagir ao desmoronamento que sofremos. Felipão já saiu. Esperemos o novo treinador – é o que nos resta de esperança.

Tragédia de 2014 é cem vezes maior que o desastre de 1950

 

Pedro do Coutto
Assisti a final de 50 nas arquibancadas do Maracanã, Estádio Mario Filho, e a semifinal deste ano pela tela da Rede Globo, e posso afirmar, com base nos fatos e nas épocas, que a tragédia de 2014, que ficará para sempre marcada de forma indelével na história do futebol, é cem vezes (para não dizer mil vezes) maior. Se já era difícil traduzir a vitória do Uruguai, uma afirmação da tática sobre a técnica e sobre a arte, os 7 a 1 impostos pela Alemanha à Seleção Brasileira não pode encontrar a menor explicação lógica.
Nunca se presenciou nos estádios do mundo o que aconteceu no Mineirão. Nosso escrete foi tomado por uma paralisia total completamente absurda. Basta dizer (outro recorde que ficará para sempre) que os alemães fizeram quatro gols seguidos no espaço de tempo de somente seis minutos. Era buscar a bola no fundo das redes, colocá-la no centro do gramado, dar a saída, perder o seu domínio e ver o placar acrescentar mais um tento alemão.
Com a torcida perplexa, surpresas passaram a ficar também os alemães com tanta facilidade. Um afrouxamento geral envolveu o time brasileiro. A própria torcida, maior testemunho da perplexidade, é claro, deixou de torcer. A vibração foi sufocada pela anestesia, pelo entorpecimento, por uma estranha sensação do irreal. Impossível torcer: o primeiro tempo – fato inédito em semifinais de Copa do Mundo – acabou com a contagem de cinco a zero no placar. Impossível torcer. Só se pode torcer quando existe alguma possibilidade de mudar o rumo e a face do confronto. Nada mudou. A Alemanha marcou mais dois gols. Só então saímos do zero. Em nossa história esportiva, sem dúvida, foi a maior derrota da Seleção Brasileira.
SEM EXPLICAÇÃO
Não podemos encontrar explicação. Pois se nem Filipão, tampouco Parreira, conseguiram apresentar algum argumento convincente, não seríamos nós a achá-lo, uma agulha perdida num palheiro, em meio a contradições indecifráveis. Não vínhamos atuando bem na Copa, os resultados demonstravam, mas não tivemos a humildade para aceitar essa face da realidade e prosseguimos investidos da certeza da vitória. Provavelmente aqui reside o maior equívoco de 2014. Nos julgávamos com as mãos erguendo, acariciando, expondo a Taça, como se fôssemos seus donos.
Em 50, perdemos para a tática uruguaia liderada brilhantemente por Obdulio Varela, por um cruzamento de Ghiggia nos pés de Schiafino, que empatou a partida, e no chute do próprio extrema-direita que selou o destino do confronto separando a vitória do Uruguai de nossa derrota. Sessenta e quatro anos se passaram, mas desta vez tantos foram nossos erros, tantos gols  sofremos, que multiplicarmos o que o palco do Mineirão testemunhou pelas nossas vacilações, erros, incapacidades paralisantes, atingiremos um montante absurdo de situações negativas, de dúvidas hamletianas inadmissíveis em matéria de competições esportivas.
Na verdade, o drama maior é não nos revelarmos preparados para o combate difícil. Sonhávamos com a vitória e somente com ela. Não nos preparamos para uma dificuldade maior, além do normal. Quando ela nos surpreendeu, para um desastre nosso também nos paralisou na proporção de sete para um. A derrota de terça-feira nos atingiu e feriu para sempre. De forma tão profunda que 64 anos depois, sepultou a de 1950. Os dois a um de 16 de julho parecem nada perto dos sete a um de agora. Um desastre completo.

Na disputa eleitoral , as vantagens de quem ocupa o poder

Pedro do Coutto

Em artigo muito bom, publicado na Folha de São Paulo, edição de 5 de junho, Eliane Cantanhêde critica as entrevistas da presidente Dilma Rousseff programadas pelo Planalto junto a algumas emissoras, nas quais a chefe do executivo fala confortavelmente a respeito de assuntos relacionados com a Copa do Mundo e a Seleção Brasileira. Em seguida faz uma lista de perguntas que deveriam ser formuladas e respondidas pela candidata que busca a reeleição nas urnas de outubro.

Eliane Cantanhêde está certa: falta exatamente esse ponto na campanha eleitoral. Mas como ela apresenta a lista das indagações, esta parte do texto pode democraticamente funcionar como roteiro para que Dilma Rousseff vá ao encontro e focalize o conteúdo das respostas que possa fornecer.

Não seria nada demais. Apenas um lance destacando o caráter democrático da disputa pelo voto. Não vejo, pessoalmente, nenhum motivo lógico convincente para que a presidente evite um diálogo mais amplo a respeito da atuação de seu governo na economia e na administração do país. Inclusive os temas serão inevitavelmente colocados nos debates a serem promovidos pelas redes de televisão, pelos grandes jornais, e também através da internet. Não adianta, portanto, o Planalto, com sua estratégia de marketing, tentar ocultar essa face do confronto político na busca dos votos.

SÃO MUITAS VANTAGENS

O confronto surgirá naturalmente. Impossível evitá-lo, faz parte do processo político, da luta pela conquista do poder. Dilma Rousseff, aliás, já participou de cotejo semelhante nas eleições de 2010, há quatro anos passados. Não há motivo, portanto, para não expor seus pensamentos, seus novos projetos, seus resultados, sua plataforma. As vantagens de que dispõem os ocupantes do poder já por si muito grandes. Coisas da legislação brasileira.

Por exemplo: o presidente, o governador, o prefeito que se candidatam à reeleição não precisam deixar o cargo seis meses antes do pleito, o prazo legal para desincompatibilização. Podem nos postos permanecer atuando com o maior desembaraço, incluindo obviamente o uso, mesmo que nos limites da lei, a utilização da caneta mágica. Mas se um ministro desejar, por hipótese, candidatar-se a governador ou senador, tem que deixar a pasta até abril, seis meses antes do voto.

São dois pesos e duas medidas que expõem a legislação brasileira às críticas mais simples. Uma contradição total. Pois se para, vejamos outro exemplo, um diretor de empresa estatal for disputar uma cadeira de deputado tem que se afastar até 180 dias antes do voto, por qual motivo o presidente da República, o governador e o prefeito são exceções à regra? Esta já é, por si, uma vantagem enorme de quem ocupa o poder, desnecessariamente serão outras que venham a se adicionar a esta.

ENTREVISTAS PROGRAMADAS

Não há assim sentido na realização de entrevistas programadas, sobretudo porque elas não são convincentes. Nada acrescentam. Pelo contrário. Os espectadores sentem os cenários armados previamente, a falta de liberdade tolhendo os entrevistadores. Ao invés de somar, reduzem. Porque o problema principal da comunicação política está na liberdade das indagações e o grau de convencimento das respostas. Fora daí, os reflexos serão sempre negativos. Eliane Cantanhêde colocou claramente a questão essencial, na estrada dos votos no rumo das urnas.

 

Datafolha: candidatos ainda não emocionaram eleitorado

Pedro do Coutto

A pesquisa do Datafolha revela claramente que os candidatos às eleições presidenciais deste ano ainda não conseguiram passar emoção aos eleitores, pois em seus pronunciamentos e aparições não forneceram resposta às indagações que a sociedade brasileira guarda em torno de si, mas deseja sejam elas respondidas. A começar pela questão dos preços e dos salários, fundamental para a vida de todos.

Não passaram emoção. Tanto assim que no intervalo de trinta dias, de maio ao início de junho, a presidente Dilma recuou 3 pontos, caindo de 37 para 34%. Aécio Neves desceu de 20 para 19. Eduardo Campos, a maior queda percentual, retrocedeu de 11 para apenas 7%. Enquanto isso, o pastor Everaldo subiu do segundo para o terceiro andar. Registrou 3% das intenções de voto.

O número dos que, hoje, se dispõem a votar em branco ou anular o voto, no mesmo período, cresceu de 12 para 14%. Os que ainda não sabem o que vão fazer aumentou de 7 para 11 pontos. Afastando-se do cálculo estas duas frações, encontramos um total de 25%. Assim, em matéria de votos válidos, a maioria absoluta dependeria de 37,5% mais um. Dilma Rousseff registrando 34 permanece liderando, mas agora sem essa maioria absoluta. Pelo levantamento, dessa forma, haveria um segundo turno entre ela e Aécio Neves. E feita a simulação, a atual presidente seria reeleita pela margem de 46 a 38%.

BARBOSA VAI INFLUIR

Mas o Datafolha, como assinalei há pouco, revelou principalmente a ausência de entusiasmo na campanha que se desenvolve ainda a passos lentos. É isso mesmo. Tanto assim que a parcela de 36% do eleitorado votará em quem for indicado pelo ex-presidente Lula. E – uma surpresa – 26% votaria em quem fosse indicado pelo ministro Joaquim Barbosa. São, no conjunto, portanto, 62%, quase dois terços, que, não tendo firmado opinião própria, seguiriam os rumos traçados pelas personalidades que interpretam como maias importantes e influentes.

A posição alcançada por Joaquim Barbosa é surpreendente, próxima à de Lula. Mas Luís Inácio foi eleito em 2002, reeleito em 2006, e ainda conseguiu fazer sua sucessora nas urnas de 2010. Uma figura nacional politicamente consolidada. Vejam os leitores, pela comparação, o destaque que Joaquim Barbosa alcançou por sua atuação no Supremo a partir do episódio do mensalão, processo penal 470, instituído em 2005. Ele foi o relator do caso e, pelo critério de rodízio, assumiu a presidência do STF. Agora aposenta-se prematuramente. Os números confirmam o prestígio que atingiu. Sem dúvida.

Um outro ponto da pesquisa que merece destaque: 74% almejam por uma mudança. Embora indefinida qual seja, exatamente, reflete a atmosfera de insatisfação que está predominando no país, não neste ou naquele setor, mas em todas as escalas. A insatisfação, penso eu, decorre da falta de resposta dos governos aos sentimentos que a população espera. Pelo menos um sinal concreto de esperança. Pois, no fundo, política é esperança, como definiu o presidente JK.

Faz sucesso na internet o desmentido a Lula, feito em Nova York pelo maior usineiro do mundo

Celso Serra

Está circulando na internet com grande destaque um texto sobre a crise do setor sucroalcooleiro, que foi abandonado pelos governos do PT. Não há identificação de autoria do artigo, que começou a ser lido como mensagem de e-mail e agora conquistou o Facebook e outras redes sociais.

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MAIOR USINEIRO DO MUNDO DESMENTE LULA NA TV

O empresário paulista Rubens Ometto, considerado o maior produtor de açúcar e álcool do mundo, que foi a Nova York para receber o título de “Homem do Ano”, da Câmara Americana do Comércio, desmentiu enfaticamente todos “feitos” relativos ao  setor sucroalcooleiro, atribuídos pelo ex-presidente Lula ao seu governo, durante o programa do PT na TV, exibido neste quinta-feira à noite.

O setor sucroalcooleiro vive a maior crise de sua história, iniciada no governo Lula. Só nas últimas cinco safras, 44 usinas fecharam, 25 em São Paulo, e há 33 usinas em recuperação judicial . O endividamento é altíssimo: em 20% das usinas, 30% da receita estão comprometidos com serviço da dívida (juros e amortizações). Mais de 80 mil pessoas foram demitidas.

Ometto – que se aliou a Lula, acreditando em seus compromissos com o setor, no início do seu governo – não poupou críticas em Nova York às decisões (ou à falta delas) que levaram o setor a enfrentar a mais séria crise de sua história.

As críticas de Ometto foram feitas diante de uma plateia de empresários brasileiros e norte-americanos, que pareciam surpreendidos pelo tom áspero das críticas, em razão das ótimas relações que ele já teve com Lula e próceres do PT.  Ele está tão desapontado com os rumos do setor sucroalcooleiro que resolveu diversificar e, pela primeira na história de suas empresas, resolveu direcionar todos os seus investimentos para áreas que nada têm a ver com açúcar ou álcool. Em maio, por exemplo, pagou R$ 3,4 bilhões pela Comgás, maior distribuidora de gás natural do país. É o maior aquisição de sua vida.

Ao contrário do que Lula afirmou, ele e Ometto já tiveram uma lua de mel. Agora, têm visões muito antagônicas sobre o sucesso do Etanol brasileiro, um dos vários programas que ficaram pelas estradas.

Educação: 10% do PIB, mas isso a partir de 2024

Pedro do Coutto

O Congresso aprovou finalmente o Plano Nacional de Educação estabelecendo que os recursos destinados ao setor essencial para o desenvolvimento, fixados em 10% do PIB, equivalendo a cerca de 470 bilhões nos valores atuais, somente devem atingir essa escala a partir de 2024. Reportagem de Flávia Foreque e Mariana Haubert, Folha de São Paulo, edição do dia 4, focaliza claramente o tema. Pois à primeira vista, sem a condicionante, poderia parecer que o avanço seria imediato e não gradual. As jornalistas esclarecem, com base nos últimos dados disponíveis, relativos a 2012, que a Educação absorvia 6,4% do PIB.

O investimento total pode parecer grande, mas nem tanto assim, pois para o montante de 10%, pela lei aprovada à espera de sanção pela presidente Dilma Rousseff, contribuem, junto com a União, os recursos estaduais e municipais. Clarificados esses pontos, deve-se destacar que o problema não é só o do volume de recursos, o que inclui os custos de pessoal e material, é também da qualidade dos empreendimentos setoriais. Sua abrangência pelo país, uma vez que a concentração dos recursos financeiros, se for demasiada, fornecerá números para a média geral, o que não significa exatamente o atendimento aos pontos mais carentes.

Sem dúvida o aumento da percentagem sobre o PIB, que varia anualmente, representa um avanço. Mas tão amplo é o universo educacional, das creches às universidades, que a evolução real vai depender da qualidade e da produtividade. Uma área fundamental, por exemplo, é da formação de mão de obra especializada, da qual o Brasil carece muito. Trata-se de um programa de educação para o trabalho, de grande efeito na economia e na sociedade. Faltam trabalhadores de nível médio qualificados para uma série de tarefas e encargos fundamentais.

CENTROS DE ENSINO PRÁTICO

Trata-se de um setor difícil, pois no caso instalações industriais têm que ser aproveitadas como centros de ensino prático. Há necessidade do contato direto entre o aluno e o equipamento operativo, não sendo possível construir-se fábricas somente voltadas para o ensino. Seria como instalar-se fábricas sem produção. Muito mais econômico e, através de convênios, aproveitar-se o parque industrial existente voltado para o aprendizado prático. Tanto a indústria quanto os alunos de tais cursos técnicos ganhariam com isso. A educação no país ainda mais.

Falei em creches. São essenciais pela alimentação e sociabilização que promovem. Estatísticas acentuam que a reprovação de alunos no ensino básico cai a metade quando as crianças antes de nele ingressar foram atendidas em creches. Além disso, as creches permitem às mães trabalhar contribuindo para o sustento das famílias, uma vez que, durante a jornada têm com quem e onde deixar seus filhos em segurança e com alimentação.

Enfim, o universo educacional possui uma abrangência enorme. Não está somente nas salas de aula, nos laboratórios de pesquisa por mais avançados que sejam. A educação situa-se igualmente no campo dos hábitos sociais, no saneamento, no cuidado com o meio ambiente, com maior volume de informações a respeito dos cuidados com a saúde. Para todo esse universo, 10% do Produto Interno Bruto na realidade não é muito, considerando-se as participações federais, estaduais e municipais. Constitui, porém, um avanço. Que ele prossiga na busca de outros patamares que levam ao progresso.

Partidos não percebem a insatisfação generalizada no país


Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Flávia Barbosa, O Globo do dia 4, com base em pesquisa realizada pelo Instituto norteamericano Pew Research Center, revelou que o grau de insatisfação está alcançando nada menos que 72% da população brasileira espalhando-se de maneira generalizada. Apenas 26% encontram motivos para estarem satisfeitos. O panorama, a pesquisa faz a comparação, mudou nos últimos três anos. O que está havendo?

O governo, principalmente, e os partidos políticos deveriam dar atenção ao fenômeno, sem dúvida dos mais negativos para o processo de desenvolvimento econômico e social. Atinge a produtividade, uma vez que constitui algo altamente negativo as pessoas sairem de casa e irem trabalhar sentindo o gosto amargo da falta de esperança, da falta de perspectiva. O problema não é só o da falta de comunicação, mas da ausência de fatos realmente positivos capazes de motivar e reanimar a sociedade.

Não existe um movimento contínuo que passe uma energia positiva à sociedade brasileira. Pelo contrário: a atmosfera é de pessimismo. Na mesma edição, O Globo publicou outra matéria, resultado de outra pesquisa, destacando que o aumento dos preços é a preocupação dominante. Claro, influi muito. Especialmente pelo fato de as elevações de preço não causarem reajustes salariais. O resultado só pode ser a queda do consumo. Não há outro caminho, não pode haver outro reflexo.

Num ano eleitoral, a movimentação das agremiações partidárias deveria voltar-se para este ponto essencial do problema. Mas infelizmente não agem assim. Omitem-se, disputam cargos na administração como se o sucesso em tais empreitadas fosse capaz de levar à solução real dos problemas brasileiros. Como representantes do povo teriam a obrigação (mínima) de se preocuparem com ele, que vai às urnas elegê-los. Recebem em contrapartida promessas. Que se vão com o vento que transporte as decepções de um leito para outro. A repórter Flávia Barbosa colocou o panorama nacional à disposição tanto do governo quanto da oposição e também de todos os políticos brasileiros.

MARINA EXIGENTE

Por falar em política no contexto da sucessão presidencial, a Folha de São Paulo, igualmente na edição de quarta-feira, publicou reportagem de Daniela Lima e Marina Dias revelando que a ex-senadora Marina Silva ameaçou boicotar a campanha de Eduardo Campos em São Paulo se o titular da chapa formar qualquer acordo com o governador Geraldo Alckmim, do PSDB, que disputa a reeleição nas urnas de outubro. Se o veto, aliás anunciado pela primeira vez há algumas semanas, prevalecer a chapa do PSB liderada pelo ex-governador de Pernambuco simplesmente desaba, pois a opinião pública sentirá diretamente que a candidata a vice tornar-se-á mais importante que o próprio candidato a presidente. O quadro paulista é confuso, mas de enorme importância, uma vez que representa o maior colégio de votos do país, correspondendo a pouco mais de 20% do eleitorado brasileiro.

A insatisfação, portanto, é ainda mais ampla do que se supõe. Atinge a própria oposição.

 

 

Consumo não resiste à alta dos juros

Pedro do Coutto

A excelente reportagem de Lino Rodrigues e Ronaldo D’Ercole, manchete principal da edição de O Globo de 3 de junho, veio iluminar a realidade que as estatísticas oficiais não destacam. Setores importantes da indústria, atingidos pela queda do consumo, partiram para a solução de dar férias coletivas aos empregados, inclusive para diminuir, como é natural, os custos de produção. Mas o que significa a retração na compra de automóveis e de eletrodomésticos, setores extremamente cobiçados? A explicação lógica não está na Copa do Mundo ou nos feriados que se sucederam nos últimos meses.

Está, isso sim, na subida dos preços dos produtos e dos juros nas operações de financiamento. Os salários, de fato, analisando-se sinceramente o processo social, não acompanham nem uma escalada nem outra. Basta comparar o aumento real dos preços com os avanços salariais, inclusive quando estes acontecem. Há uma série de categorias, a começar pela dos funcionários públicos, que há muito tempo não veem a cor de reposições compatíveis com a realidade. Não se trata de média geral, pois, em si, não reflete o peso dos preços, entre eles os dos supermercados, na vida real.

ENCADEAMENTO DOS FATOS

Torna-se necessário, para estudar objetivamente o encadeamento dos fatos e fatores, setorizar-se as pesquisas de forma mais abrangente. Porque a média coloca por igual nos cálculos os de renda mais alta e os de renda mais baixa. Na média, por exemplo, a água está batendo no peito. Mas para muitos segmentos, ela já os faz submergir, encobrindo a realidade efetiva do poder de compra. A inflação não é igual para todos, nem para todas as classes. Para as de menor renda o peso dos preços nos supermercados é muito maior do que a incidência deles nos grupos de renda maior.

Isso de um lado. De outro as ofertas de crédito a longo prazo iludem muito. Sustentadas pela propaganda maciça, como é natural, logicamente vão contribuindo para elevar os diversos valores das prestações. De repente os devedores chegam a seu ponto máximo de endividamento. Não adianta atrasar e refinanciar as dívidas de um mês para outro. Pois neste caso, incidem taxas adicionais em torno de 9% a cada trinta dias.

JÁ ESTÁ ACONTECENDO

É o que certamente está acontecendo, como a reportagem de O Globo destacou, com a área dos eletrodomésticos e de venda de celulares em seus vários padrões. Exercem grande atração nos consumidores em potencial, que terminam assumindo cada vez mais créditos acumulando prestações. Num momento surge a impossibilidade de pagá-las.

Aí entram em cena os acordos de reposição, cada vez mais frequentes. A propaganda não entra em recesso, mantém o mesmo ritmo, o mesmo volume, anúncios cada vez mais inventivos, o mesmo espaço nos meios de comunicação. A criatividade é elástica, o poder de consumo nem tanto. As férias coletivas dadas pelas montadoras de automóveis e fábricas de aparelhos eletroeletrônicos são consequência de um processo que agora se depara com a falta de dinheiro no bolso dos que devem. Os preços, na verdade, sobem mais do que os salários e também mais rapidamente. Seus reajustes são mensais, às vezes semanais. As reposições nos salários sucedem a oscilação dos preços. Um fator a mais para explicar a queda verificada no consumo.

A reportagem de O Globo levou a essa reflexão não destacada nas estatísticas.

 

  Um estatuto para os terceirizados das estatais

Pedro do Coutto
Em reportagem publicada na edição de 2 de junho de O Globo, Alexandre Rodrigues revelou que a Petrobrás possui em seus quadros 360 mil servidores terceirizados, correspondendo a 80% de todos os empregados. A Petrobrás, embora seja a maior empresa brasileira, não constitui uma exceção. Há terceirizados no Banco do Brasil, na Caixa Econômica, entre outras unidades do Estado. O governo federal, segundo cálculos feitos há algum tempo, possuía em torno de 2 milhões de   empregados nessa situação, regidos pela legislação trabalhista. Se formos incluir as terceirizações nas administrações estaduais vamos encontrar um número total bem maior. Entre as estatais da União deve-se incluir a Empresa de Correios e Telégrafos.
Os serviços de limpeza estão cheios de terceirizados. Constitui um processo bastante normal que, inclusive, proporciona substituição rápida de trabalhadores, livrando as próprias empresas da lentidão dos concursos. Não que os concursos não sejam importantes e absolutamente necessários, mas há concursos e concursos. Concurso para empregados nos serviços de manutenção e limpeza, por exemplo, é algo que choca com a realidade.
Mas não é só essa a questão. Há terceirizados com mais de quinze a vinte anos de trabalho, que à luz da legislação trabalhista, se não devem ser admitidos efetivamente, nem por isso devem perder o direito adquirido com anos a fio de trabalho. Se, através desse tempo, permaneceram nos postos que ocupam e nas tarefas que executam, como dispensá-los? Os custos seriam imensos e terminariam se tornando em prejuízo financeiro e mesmo econômico para as empregadoras.
DEFICIENTES

Além desse aspecto geral, tem que se levar em conta que é através da terceirização que são contratados milhares de portadores de deficiências, que não encontrariam outro meio de terem acesso ao mercado de trabalho.
Os setores de informática aproveitam maciçamente pessoas nessa situação, que chegam ao emprego com esforço, mas apresentam desempenho excelente, tornando-se até essenciais aos respectivos setores. Basta vê-los chegar ou sair dos locais de trabalho para que tenha uma ideia mais abrangente do problema e do panorama geral do mercado de emprego no país. Por todos os ângulos que envolvem a questão dos terceirizados, é que se torna necessária a aprovação de uma lei que implante um estatuto referente à terceirização, no sentido tanto de limitar essa forma de acesso aos quadros das empresas estatais, quanto a de garantir direitos trabalhistas que terminam com a aposentadoria a que todos almejam e a qual vão chegar um dia.
As empresas estatais possuem condições diferentes das que regem o Funcionalismo Público. Basta considerar que os servidores estatutários têm direito à aposentadoria integral, enquanto os regidos pela CLT são contidos no teto máximo do INSS, que não ultrapassa 3,2 mil reais por mês. Esta uma diferença substancial. Razão pela qual surgiram os fundos de previdência complementar, que têm como contribuintes os próprio empregados e empregadores, à base de um adicional em torno de 7%  sobre os salários de ambas as partes.
Por todos esses motivos e condições, que não são muito do pleno conhecimento público, e  também diante da impossibilidade de se demitir 2 milhões de pessoas, é que se torna essencial aprovar-se um estatuto que clarifique a matéria e implante normas objetivas e rígidas na sua sustentação. Inclusive as receitas sociais para o INSS e o FGTS desabariam na hipótese da diminuição dos terceirizados. E ninguém pode desejar tais consequências de um desemprego.

Juros devoram renda familiar brasileira

Pedro do Coutto

Reportagem excelente de Clarice Spitz, Henrique Gomez Batista e Gabriela Valente, O Globo de 30 de maio, revelou que só nos primeiros quatro meses do ano os brasileiros pagaram 87,9 bilhões de reais de juros, correspondendo à parcela de sua renda salarial. Multiplicado pelo menos por 3, o resultado de janeiro a abril chegará à casa, em números aproximados, de 260 bilhões. Os juros cobrados pelos bancos e financeiras do país são, sem dúvida, os mais altos do mundo.

Para uma inflação anual em torno de 6%, de acordo com o Banco Central, a taxa cobrada sobre os saldos devedores dos cheques especiais e cartões de crédito subiram do ano passado para agora de 137% para 161, em média. Em bancos de primeira linha, basta conferir pelos extratos, os juros são de 9% mês, o que faz com que atinjam, considerado o cálculo dos montantes o absurdo de 194% ao ano. Mais de trinta vezes o índice inflacionário oficial.

Mas abandonando o himalaia financeiro e focalizando patamares mais baixos vamos verificar que os juros bancários aplicados ao crédito pessoal oscilam entre 4 a 5% ao mês. Como se vê estão perto do índice inflacionário para o ano todo. A propaganda, claro, incentiva o consumo, os prazos oferecidos completando uma espiral socialmente perigosa. Principalmente porque o giro em várias fontes de crédito não pode ser permanente. Não há como reinventar-se a roda.

NO LIMITE

A circulação do dinheiro popular, que depende do nível de emprego, tem que chegar ao limite. O limite da inadimplência ou dos atrasos nos pagamentos pode ser compensados, para os credores, pelo ingresso permanente no mercado de novos consumidores, volume que tem sua base no próprio crescimento da população. Mas não basta. O impasse que envolve o desenvolvimento social permanece movimentando outros personagens.

Fala-se na Selic, taxa básica de juros fixada pelo Comitê de Política Monetária. Foi agora mantida em 11% ao ano, portanto 5 pontos acima da inflação oficial. Mas esse processo não se reflete na sociedade. Em primeiro lugar porque os bancos são credores, e não devedores, das Notas do Tesouro Nacional emitidas para cobrir o deficit das contas internas. Por falar nisso, a dívida interna brasileira passa da escala de 2 trilhões de reais, aproximando-se do teto do orçamento da União. Em segundo lugar, porque os que aplicam em contas da poupança (6% a/a) não têm acesso ao mercado das Notas do Tesouro Nacional ou Títulos do Banco Central, aplicações restritas a instituições financeiras, aos fundos de pensão, sujeitas ainda a licenças prévias do Banco Central.

Com os juros do mundo da lua, assim, a renda no país continua a se concentrar. O bolo cresceu, as fatias nem um pouco, ao contrário do que um dia no passado previu o ex-ministro Delfim Neto.

 

Joaquim Barbosa passa à História como marco da Justiça do país

Pedro do Coutto

A repercussão na imprensa e em todos os meios de comunicação em geral da saída do ministro Joaquim Barbosa do Supremo Tribunal evidencia perfeitamente a importância que adquiriu no desempenho da Corte nos anos em que nela permaneceu, especialmente ao relatar o processo do mensalão, ação penal que envolveu – e atingiu – altas figuras da política e da administração. Na sequência do julgamento, coube-lhe ocupar a presidência do STF.

Nas duas posições, assegurou em vida, aos 59 anos, seu ingresso na História do Brasil, transformando-se, pode-se dizer sem exagero, em um marco na vida do Poder Judiciário. Num país em que, na ampla maioria dos casos, as leis não se aplicam aos ladrões de casaca, sobretudo em função da eternização dos processos, ele alterou rumos e climas, provando à população brasileira a verdadeira missão de uma realidade chamada justiça.

Não poderá ser candidato a posto algum nas urnas deste ano, até porque escolheu o prazo limite de 30 de junho para se aposentar. Não por coincidência, é também o prazo máximo para que os partidos efetuem suas convenções. Como magistrado, o prazo de desincompatibilização é mais curto pela lei eleitoral: apenas três meses. Por isso, exatamente por isso, optou por aposentar-se no final do mês que se inicia.

A reportagem de Carolina Brígido, Washington Luiz e Maria Lima, O Globo de 30 de maio, deu ênfase às ameaças que tem recebido pela internet como a causa principal da decisão pela renúncia. Renúncia, sim, pois ele teria ainda onze anos para permanecer na Corte Suprema. Renúncia que antecipou até seu mandato na presidência, cujo prazo terminaria em dezembro deste ano.

FORMAÇÃO DE QUADRILHA

Acredito que tais ameaças tenham pesado, apesar da onda de apoio a favor de sua atuação. Mas adiciono a influência de algum desencanto com várias decisões do próprio Supremo. A absolvição do crime de formação de quadrilha, alterando sentença transitada em julgado pelo STF uma delas.

É verdade que havia campo para recurso, através de embargos de infringência, uma vez que os réus tinham obtido 4 votos, no total de 11, isentando-se desse crime adicional a outros pelos quais haviam sido condenados. O fato o desgostou. Perdeu por 6 a 5 votos. Os dois mais novos ministros nomeados pela presidente Dilma Rousseff votaram a favor da revisão e com isso a posição de Joaquim Barbosa foi derrotada.

LAVA JATO

Mais recentemente o ministro Teori Zavascki libertou 11 presos da operação Lava-Jato da Polícia Federal num final de tarde, contrariando as razões do juiz Sérgio Moro, do Paraná. Na manhã seguinte, recuou com base – disse – nas informações complementares de Moro e determinou o retorno à prisão dos libertados, exceto quanto ao ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa.

Joaquim Barbosa, a partir das ameaças e das contradições, decidiu reagir aposentando-se. Foi ruim para o Judiciário e a Justiça do país, mas ele tinha o direito de se afastar da Corte. O Supremo Tribunal Federal perde com isso, o Brasil mais ainda.

Nunca a saída de um ministro do STF alcançou tanta repercussão nos jornais, nas emissoras de rádio e TV. Esta, no fundo da questão, a prova de que a sociedade sofreu uma derrota e foi tomada por enorme decepção. Mas o que fazer? Seguir em frente.

 

    

Dilma comete erro estratégico em São Paulo

Pedro do Coutto

Em jantar com líderes do PMDB, entre os quais o vice Michel Temer, a presidente Dilma Rousseff afirmou – reportagem de Ranier Bragon, Folha de São Paulo de 29 – contar simultaneamente com o apoio de dois candidatos ao governo paulista: Alexandre Padilha, do PT, e Paulo Skaf, pelo PMDB. Acentuou ser meta sua a de levar as eleições paulistas para o segundo turno, para derrotar o governador Geraldo Alckmim que disputa a reeleição, como ela, nas urnas de outubro.

Suas declarações inevitavelmente abalaram a posição do ex-ministro da Saúde, na medida em que demonstrou pouco interesse pelo seu sucesso. Deixou claro que, em sua visão, tanto faz Padilha quanto o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, desde que ambos acrescentem à sua campanha presidencial. Na realidade, de fato, com a divisão colocada, enfraqueceu a ambos. Padilha por pertencer aos quadros de seu partido. Paulo Skaf por se tratar de um nome do PMDB, partido que oferecia o jantar.

Mas a contradição da presidente da República ainda não termina no campo da polidez. Vai além. Ela esqueceu, ou não foi informada por sua assessoria, da articulação que se desenvolve nos bastidores entre Eduardo Campos e Geraldo Alckmin, como a própria Folha publicara na véspera. Tal articulação refletiria contrariamente à posição de Aécio Neves no maior colégio de votos do país. Sinal de que Alckmin não se encontra empenhado na campanha do senador mineiro.

NEUTRALIDADE RELATIVA

Assim, com as afirmações que fez sobre Alckmin, inclusive destacando seu esforço em derrotá-lo, poderá levá-lo a ter que abandonar o plano de neutralidade relativa em São Paulo, passando a ser obrigado pelas circunstâncias a se definir pela legenda de seu próprio partido, o PSDB, o que não vem fazendo. Dilma Rousseff pode ter contribuiío para chamar atenção sobre a importância do pleito paulista, principalmente pelo reflexo que os votos estaduais terão inevitavelmente no plano nacional. Isso de um lado.

De outro, surgiu para tentar manter a candidatura Alexandre Padilha, que certamente não está nos planos do próprio Partido dos Trabalhadores, consequência de seu nome ter aparecido em meio ao noticiário focalizando a assinatura de convênio com o Laboratório Labogen, o qual, pelas matérias publicadas, seria vinculado ao doleiro Alberto Youssef. Enfim, acredito que, no jantar, ao lado de Michel Temer, que certamente será mais uma vez o vice na sua chapa, Dilma Rousseff não tenha avaliado bem, sob o ângulo da estratégia política, o peso e o efeito potencial contidos em suas palavras.

Palavras o vento leva, é um ditado antigo. É verdade. Mas não na época de eleições, quando o poder sintetizado na caneta mágica exerce enorme fascínio para os articuladores políticos, os eleitores com capacidade de análise, e o rumo do que deixa escapar no rumo das urnas. Foi um gol contra. Um erro estratégico dos maiores. Vai refletir, por certo, nas eleições em São Paulo.

 

PT erra em recorrer ao Supremo em favor dos mensaleiros

Pedro do Coutto

A Folha de São Paulo, edição de terça-feira, noticiou que o Partido dos Trabalhadores recorreu ao Supremo Tribunal Federal contra a decisão do ministro Joaquim Barbosa que negou ao ex-deputado José Dirceu e outros condenados no processo do mensalão a possibilidade de trabalharem fora da prisão durante o dia, enquanto não tiverem cumprido um sexto das penas a que foram condenados.

O atual presidente do STF assim interpretou a Lei de Execuções Penais. No mesmo dia, mas no Globo, as repórteres Fernanda Krakovics, Isabel Braga e Carolina Brígido publicaram matéria focalizando a iniciativa do mesmo PT para que o deputado André Vargas, sem partido, seja declarado inelegível por infidelidade partidária.

Vamos por etapas. Quanto ao recurso ao Supremo contra o despacho de Joaquim Barbosa, sob o aspecto jurídico o PT não é parte da questão, o que permite à Corte concluir pela improcedência do recurso. Inclusive, porque os condenados judicialmente perdem direito à inscrição partidária. O Partido dos Trabalhadores estaria assim utilizando um recurso improcedente em sua origem. No caso, que é de ação privada, e não de ação pública, somente podem fazer uso do recurso, através de seus advogados, os atingidos diretamente pela medida. Isso de um lado.

De outro, sob o ângulo político, o Partido dos Trabalhadores de certa forma encampa a atuação de José Dirceu e de outros ex-filiados à agremiação. Esquece, como já escrevi, que Dirceu, antes de ser condenado, foi demitido da chefia da Casa Civil pelo próprio presidente Lula. A demissão ocorreu logo no início da tempestade desencadeada pelo então deputado Roberto Jefferson, através de entrevista que se tornou manchete principal de uma edição da Folha de São Paulo.

QUE OS PRESOS RECORRAM…

O PT deveria transferir a iniciativa de recorrer aos diretamente interessados em obter o direito de trabalhar fora da prisão, nela permanecendo durante as noites. Prisão, seja qual for, por mais regalias que alguns prisioneiros possuam, não é brincadeira. Pois se as pessoas se angustiam num congestionamento de trânsito nas ruas do Rio, o que acontece seguidamente, imagine a ansiedade que envolve os que sabem que não podem sair de onde se encontram.

Outro aspecto de todo o encadeamento do processo político assinala uma contradição do PT: enquanto se apresenta como parte para defender mensaleiros, de um lado, de outro quer a perda do mandato de André Vargas e declará-lo inelegível por infidelidade partidária. O PT teme que ele apareça na campanha no Paraná. Inelegível, André Vargas já é. Desligou-se da legenda petista e permanece sem partido. A lei eleitoral exige um ano de filiação partidária. Ele não tem. Portanto não pode concorrer às eleições de outubro deste ano. Assim, a declaração de inelegibilidade é desnecessária. Aceita a tese, ela só valeria para 2016, eleições municipais. Caso não seja registrado por outro partido. Ou então tenha o mandato cassado agora.

Dois assuntos importantes: 1) Alckmim dialoga com Campos; 2) crise com Aécio e Marina

Pedro do Coutto

Em reportagem na edição de 28 de maio da Folha de São Paulo, Marina Dias revela as conversas que vêm ocorrendo entre o governador Geraldo Alckmim e Eduardo Campos sobre a possibilidade de o PSB apoiar a reeleição do atual chefe do Executivo paulista, abrindo assim espaço para, no maior colégio de votos do país, divulgar melhor sua campanha à presidência da República. A perspectiva de tal acordo concretizar-se abrirá duas dissidências.

Uma no PSDB com o senador Aécio Neves, outra na legenda de Marina Silva, que inclusive já havia se pronunciado publicamente contra qualquer acordo da coligação da qual faz parte com os tucanos em São Paulo. Eduardo Campos, ao retornar ao tema, provavelmente provocará nova reação contrária por parte de Marina Silva que poderá até fazê-la deixar de ser candidata à vice presidência, desmontando a chapa voltada para as urnas de outubro.

Quanto a cisão no PSDB, ela será inevitável. Simplesmente porque uma aproximação da principal corrente partidária com Eduardo Campos será insuportável para Aécio Neves. Destruirá sua candidatura antes mesmo de iniciada a campanha oficial, o que, pela lei acontece a partir de primeiro de julho. A ruptura entre Aécio Neves e Alckmin, um sonho para Dilma Rousseff, já vem se desenhando há algum tempo, na medida em que o governador de São Paulo, pelo menos até agora, não vem demonstrando entusiasmo em relação a Aécio neves.

Vem fazendo falta à movimentação nacional do PSDB. O motivo parece ser o temor de que uma subida de Aécio no Estado termine forçando uma participação mais efetiva do ex-presidente Lula na área paulista, cujo reflexo poderia atingir a candidatura de Alckmin à reeleição. Não que Lula não apoie Dilma, mas pelo menos não dirija ataques veementes à sua administração. Alckmin conquistaria essa alternativa não se empenhando com vigor por Aécio. A aproximação com Eduardo Campos, na realidade, abriria o caminho para o distanciamento que lhe convém no ano eleitoral. Isso de um lado.

De outro, Eduardo Campos, além de poder tentar atingir parte do eleitorado paulista, obteria, como me referi anteriormente, um pretexto para livrar-se de Marina Silva, cujas posições vêm sendo interpretadas pelo PSB como prejudiciais à aliança firmada. Como foi o caso da entrevista (publicada pela Folha de São Paulo) prevendo a derrota de Aécio Neves se for ao segundo turno contra Dilma Rousseff, e a defesa da candidatura de João Paulo Lobianco, ambientalista, ao governo de São Paulo. Com isso tudo, torna-se provável o afastamento entre Campos e Marina. Da mesma forma que a ruptura envolvendo Alckmin e Aécio Neves. São dois lances bastante sensíveis no panorama da sucessão presidencial.