E se Neymar não puder jogar na Copa?

Pedro do Coutto  

Na edição de quarta-feira 23 de abril, a Folha de São Paulo publicou reportagem de Marcel Rizzo – muito boa – revelando viagem que o treinador Felipe Scolari, o coordenador Carlos Alberto Parreira e o auxiliar Flávio Murtosa realizaram a vários países para realizar contatos com sete titulares da Seleção Brasileira que apresentam problemas de vários tipos no exterior. Número alto, correspondendo a mais da metade da equipe. Estamos, lembra Marcel Rizzo, a 50 dias do início da Copa do Mundo. Está em cima da hora, sobretudo porque a lista dos convocados tem de ser anunciada à FIFA até 13 de maio.
Não sei porque as páginas esportivas até agora não procuraram Felipão para tentar ouvi-lo sobre a hipótese de Neymar não se livrar dos reflexos da contusão que o atingiu e não puder entrar em campo. Afinal de contas, o Barcelona revelou que prevê sua volta ao time daqui a quatro semanas. Uma já se passou, faltam três, portanto. Mas a parada de um mês é muito longa. E existe a hipótese de a plena recuperação exigir mais tempo. Qual a alternativa, já que sua ausência obrigaria a mudanças táticas sensíveis. Neymar é um gênio na arte do futebol sobretudo do meio campo para a frente. Vem tocando a bola de trás e, como todos sabem, é brilhante nos arremates.
INSUBSTITUÍVEL?
Sua falta criaria um problema dos maiores. Claro que não é insubstituível. Nem Pelé, o maior de todos os tempos, foi. Lembrando 62, ele sofreu distensão muscular na primeira partida contra a Tchecoslováquia. Naquele tempo não havia substituição no meio das partidas. Contra a Espanha entrou Amarildo, então no Botafogo, em seu lugar. A partir daí uma sequência de vitórias. Fomos campeões do mundo. Ninguém é insubstituível.
A propósito, me surge da memória um belo artigo do jornalista Achiles Chirol, no antigo Correia da Manhã, que como ele se foi na névoa do tempo, acentuando que se a Seleção dependesse de um só homem para vencer, por mais genial que fosse, não seria o futebol brasileiro. Garrincha foi excepcional para a consagração. Ocorre agora, no entanto, que a maioria da equipe de Felipão joga em clubes fora do Brasil. Dos sete titulares apontados pela Folha de São Paulo, apenas Fred, do Fluminense, joga aqui. E tal realidade é bastante prejudicial à formação da equipe. E se Felipão, a vinte dias de convocá-los, tem dúvidas, quanto mais os torcedores, cuja presença nos estádios é fundamental.
É o momento de Felipão falar e, acima de tudo, se concentrar mais na Seleção e na escolha da equipe incluindo alternativas táticas e técnicas. A mais importante neste momento: como armará o time se Neymar não puder estar presente. Uma incógnita. E o futebol não vive de mistérios. Ao contrário. Exige transparência.

IBOPE: insatisfação ainda não muda quadro eleitoral

Pedro do Coutto

A pesquisa do IBOPE, objeto de matéria de Cristiane Jungblut, O Globo de sexta-feira 18, assinala a existência de acentuada insatisfação mais com a política em geral do que com o quadro eleitoral. Tanto assim que, em relação ao levantamento anterior, Dilma  Rousseff desceu três pontos, descendo de 40 para 37% das intenções de voto, mas Aécio Neves e Eduardo campos não subiram, o primeiro registrando 14, o segundo apenas 6%.
A insatisfação está registrada no elevado índice dos que hoje votariam em branco ou anulariam o voto: 24%. E também quanto a forma de governar da atual presidente: 47 aprovam mas 48% desaprovam. A reação contrária está aí. Mas é geral. Tanto assim que, com 37%, Dilma venceria no primeiro turno. Isso porque com 24% de nulos e brancos, para efeito de maioria absoluta, 76 passa ser igual a 100. Trinta e sete é quase a metade. Devendo-se considerar também que uma parcela de 9% disse não ter ainda se definido. Esses 9 pontos não vão para uma candidatura só.
Além do mais existem inúmeros candidatos. O pastor Everaldo registrou 2 pontos, o senador Randolfo Rodrigues – aliás, bom parlamentar – assinalou 1 ponto. Mas esta é outra questão. O essencial é que existem motivos de sobra para a insatisfação descoberta. Os aposentados e  pensionistas do INSS têm motivos para estarem satisfeitos? No Rio e São Paulo, por exemplo, duas grandes capitais, são bons os transportes coletivos? O saneamento, de modo geral, a segurança pública?
Vejam os leitores o que aconteceu em Salvador. Uma greve da Polícia Militar deu margem a saques em supermercados e arrombamentos de lojas comerciais. Foi um desastre social. No Rio de Janeiro, a Arquidiocese cancelou as celebrações da Semana Santa por falta de segurança. Em frente à Catedral Metropolitana estavam concentrados os que foram tirados da invasão do terreno da empresa OI, no Engenho Novo.
Enfim, motivações não faltam para essa insatisfação que o IBOPE revelou. E que falar do real custo de vida? Da eterna compressão salarial? A questão, portanto, é de amplitude enorme. O que está acontecendo, porém, é que Dilma recuou três degraus, mas Aécio e Campos não avançaram. Pode ser que venham a ocupar o espaço da insatisfação e de mais e de mais uma nova esperança. Porém, até agora, não deram sinal que conduza concretamente a tal perspectiva. Por enquanto, o desejo de mudança abrange todos os candidatos. A vantagem de Dilma Rousseff permanece. O resto são hipóteses. Hipóteses não são fatos.

Assaltos se repetem com o sol por testemunha

Pedro do Coutto

Os feriados e finais de semanas com sol pleno vêm sendo marcados não só pela procura de lazer por parte de centenas de milhares de pessoas nas orlas do mar da zona sul do Rio, mas também pelos assaltos em série que se repetem já de forma insuportavelmente rotineira, e também por arrastões praticados por bandos organizados. A quarta-feira que passou foi outra vez palco de violência como a reportagem de Célia Costa e Renata Leite, O Globo  do dia seguinte assinalou. Como inclusive assinalou a empresária Viviane Oliveira a respeito do episódio mais recente, a Polícia tem que ocupar um espaço para agir de forma preventiva.

Os prejuízos, claro, são enormes para a cidade e para todos. À proporção em que se repetem tais ações criminosas aumenta a insegurança coletiva. Ir à praia expor-se ao sol e ao sal tornou-se uma ação de riso. Cada vez maior, diga-se de passagem, pois a ousadia dos bandidos cresce a cada semana, Ipanema, Leblon, Copacabana, Arpoador, constituíram-se em cenário dos confrontos. Há algo estranho em tudo isso. A repressão deve ser substituída pela prevenção. Pois repressão significa agir em consequência de algo que já ocorreu infelizmente. A prevenção deve mostrar sua força de persuasão para impedir os acontecimentos deploráveis que, no fundo, de uma forma ou de outra, de uma Maira ou de outra, afetam a sociedade.

A violência gerada pelas ações criminosas irresponsáveis influi na consciência e no comportamento coletivo. As pessoas já evitam sair com objetos de pequeno valor expostos por temerem chamar atenção e assim tornarem-se Aldo dos assaltos. Basta esta colocação para se transmitir a atmosfera existente no Rio.

Uma verdadeira calamidade. Com os  assaltantes liberados, impunes após breves passagens nas delegacias, os atos se repetem. O sol é testemunha, a população, de modo geral, a vítima do descalabro. Afinal de contas, como foi possível a situação de desordem chegar a esse ponto? Não é apenas um caso de omissão. Pior. De proliferação. Isso porque os bandos que praticam arrastões vêm se tornando cada vez mais numerosos e assim mais difíceis de combater. As situações críticas acumularam-se através do tempo. Anulá-las, agora, exige um esforço muito maior do que aquele que deveria ter sido despedido e não foi. Turistas passaram a ser agredidos, como comprovam os depoimentos revelados pela reportagem de O Globo.

POLICIAMENTO

O policiamento foi reforçado, mas nem por isso conteve a ação dos criminosos que foram em frente ultrapassando as barreiras que surgiram. E, ainda que pareça incrível, a repressão policial não recebeu o apoio que merecia. O que está acontecendo? Roubos e arrastões que merecem repulsa unânime, estão motivando conivências, não apenas pelo silêncio, o que por si já seria desanimador, mas também por atitudes aparentes que deixam transparecer uma concordância absurda, por mais estranho que pareça. Mas tal aspecto extremamente negativo encontra-se assinalado na matéria que dimensiona nitidamente a sensação reinante da insegurança que se expande. Expande é a palavra certa para mostrar o quanto é urgente uma ação policial coordenada e racional. Pois, no fundo, a apropria vida humana encontra-se sob risco. Torna-se imperioso que o exemplo de quarta-feira torne-se um marco efetivo para um novo estilo de atuação por parte da Segurança Pública.

Intenções de voto ampliam margem em favor de Dilma

Pedro do Coutto

A nova pesquisa do Ibope a respeito das intenções de voto para a sucessão presidencial de 2014, objeto de reportagem de Leonardo Guandeline, O Globo de 19/11, ampliou a margem a favor de Dilma Rousseff, não só porque ela registrou avanço em relação ao levantamento anterior, mas também pelo fato de seus adversários não terem  reduzido sua vantagem, mantendo portanto estagnado o panorama da disputa, sob a ótica de hoje. Foram considerados pelo Ibope quatro cenários alternativos: ela contra Aécio Neves e Eduardo Campos. Contra Marina Silva e Aécio. Contra Serra e Campos. Finalmente na hipótese de enfrentar José Serra e Marina Silva. Em todas as situações são bem altos os índices dos que, no momento, se dispõem a anular o voto ou votar em branco. Mas como os sufrágios nulos e brancos são afastados para efeito do cálculo da maioria absoluta, a atual presidente alcançaria essa maioria logo no primeiro turno, acentua a pesquisa.

O quadro está frio. Tanto assim que é elevada também a percentagem dos que não souberam (ou desejaram) responder à consulta. De qualquer forma permanecem as indefinições na área oposicionista: Aécio ou Serra no PSB; Marina ou Eduardo campos no PSB. Interessante confrontar  as intenções de voto entre eles. O ex-governador paulista reuniu 19 pontos, superando Aécio que ficou com 14. No PSB, Marina Silva atingiu 16 pontos contra 7 de Campos. Mas ocorre, no Partido Socialista Brasileiro, que a ex-ministra do Meio Ambiente recuou  de21 para 16 pontos, enquanto Campos caiu de 10 para 7%. A campanha, é verdade, ainda não começou. Mas até agora a disputa não despertou entusiasmo. Estivesse, tal característica iria se refletir na dança dos números. A impressão que passa é que a sociedade está interpretando a sucessão de 2014 como algo que já houvesse acontecido. Parece ter se estabelecido um consenso como se a reeleição fosse algo inevitável ou então como um fato consumado. As oposições ainda não encontraram sua linguagem. Nem mesmo o conteúdo sobre o qual pretendem desenvolver seus temas e sua atuação.

CENÁRIO POR CENÁRIO

Vejamos cenário por cenário. Dilma subiu de 41 para 43 pontos; Aécio ficou com 14; Eduardo campos desceu de 10 para 7%. NO segundo cenário, Rousseff avançou de 39 para 42; Marina desceu de 21 para 16; Aécio Neves permaneceu em 13. No terceiro cenário, Dilma cresce de 40 para 41 pontos; Serra aumenta de 18 para 19; Eduardo Campos cai de 10 para 7%. No quarto cenário alternativo, Dilma sobe de 39 para 40%; Serra avança de 16 para 17 e Marina Silva passa projeções simuladas no cão de segundo turno: Dilma derrotaria Aécio por 47 a 18; venceria Marina por 44 a 24 pontos; bateria Eduardo campos a 12%.


Os resultados acentuam razoável vantagem de Serra sobre Aécio e diferença muito grande (mais que o dobro) das intenções de votar em Marina Silva do que ir às urnas com o governador de Pernambuco. Em síntese: enquanto os partidos de oposição não definem seus rumos e os nomes com os quais vão disputar as eleições, a atual presidente da república vai seguindo seu rumo mantendo ampla liderança. A pesquisa foi feita pouco antes das prisões do mensalão. Vamos ver como será depois delas. Pessoalmente não creio que possam causar mudança de peso no quadro.

Mensalão: candidatos em silêncio esperam pesquisas

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Pedro do Coutto


Os candidatos às eleições de 2014, não só quanto à sucessão presidencial, mas também incluindo disputas estaduais, permanecem em silêncio diante da decisão do Supremo em relação ao mensalão, especialmente quanto as prisões decretadas para diversos condenados. Estão aguardando a divulgação de pesquisas do Datafolha e do Ibope para que possam sentir efetivamente quais são as reações populares em face dos acontecimentos.


Atualmente nada se faz no campo político sem que haja um levantamento de opinião pública norteando o caminho a seguir. Até agora, portanto, as reações verificadas, especialmente na área do PT, são fracas, não permitindo uma visão mais nítida das tendências. Não estou me referindo ao julgamento em si, mas às prisões determinadas e à forma com que estão sendo cumpridas. O caso da prisão do deputado José Genoino, por exemplo, que vem apresentando problemas de saúde.

 

Não há clima, é claro, para que  candidato algum assuma posição contrária ao desfecho ocorrido até agora. Porém as situações de saúde sempre motivam um sentimento de pena porque todos nós nos sensibilizamos diante do sofrimento humano, sejam quais forem as condições.


No caso específico de Genoino creio que cabem medidas de resguardo, inclusive pelo fato de que a situação de risco que o está envolvendo pode, junto à opinião pública, de alguma forma estender-se aos demais cujas prisões forem decretadas. A atmosfera de sofrimento de uma pessoa pode ser capaz de causar um reflexo nas demais prisões dos condenados, embora a penas diferentes, mas em consequência do mesmo processo.

Não se pode alegar cerce4amento do direito de defesa a uma questão que  se arrastou – e parcialmente ainda se arrasta – por mais de oito anos na Corte Suprema do país. Tampouco tem cabimento réus alegarem ser perseguidos políticos. Perseguidos por quem? Por qual governo ou quais governos? De 2005 para cá, só houve dois presidentes da República: Lula e Dilma Rousseff. Tal constatação bloqueia as manifestações de um pequeno grupo do PT.

SILÊNCIO ESTRATÉGICO


Mas isso não significa que o julgamento do STF represente uma vitória da oposição. Daí o silêncio estratégico adotado como norma de conduta de todos os candidatos. A respeito do tema silêncio, o jornalista Ricardo Noblat escreveu um artigo muito bom na edição de O Globo de segunda-feira. O texto de Noblat possui várias colocações, além do silêncio, uma delas a que focaliza um provável mal estar de parte de José Dirceu ante o distanciamento em relação a ele adotado pela presidente Dilma Rousseff.

Havendo silêncio no plano federal, nada mais lógico do que ocorra nas áreas estaduais. Porque em muitos casos as alianças entre os candidatos nacionais e os regionais vão naturalmente depender de uma sintonia entre os posicionamentos. Isso é próprio da política. Todos, sem dúvida, são a favor de mais emprego, melhores salários, mais recursos para educação e saúde. Pacífico. Nesses pontos não vão surgir divergências. Mas as convergências têm limites. Evidentemente se todas as opiniões coincidissem, a política, que é a luta pelo poder, não existiria. E a própria vida humana seria um tédio.

As divergências, portanto, são fundamentais. Mas não podem conduzir o pensamento humano às raias do absurdo. Os reflexos das prisões do mensalão certamente estão sendo avaliados nas pesquisas que devem estar sendo realizadas. Os candidatos assim vão esperar um pouco.

Como se formam os cadastros telefônicos e pessoais

 Pedro do Coutto
 
Em artigo publicado no New York Times, traduzido na edição do dia 8 na Folha de São Paulo, o jornalista Charlie Savage, com base em informações que colheu junto a funcionários do governo, disse que a CIA, Central de Inteligência, para 10 milhões de dólares por ano à operadora ATT para obter informações sobre chamadas telefônicas internacionais, trocadas e recebidas por norteamericanos. E também por residentes no país, de várias nacionalidades. A matéria confirma o que se pensava, mas é sempre importante sublinhar os fatos, expondo-os à luz da realidade expressa. Não creio que o problema se restrinja só aos EUA e tampouco os temas sejam só os políticos e os ligados à segurança nacional. Valem para tudo.
No Brasil, bancos de informações cadastrais se constroem de maneira semelhante. Não através das empresas de telefonia, mas por intermédio do preenchimento de fichas de cadastro. Ao que os sintomas indicam, as fichas cadastrais em muitos casos são objeto de negociação entre os que são responsáveis pelo seu arquivo e empresas de telemarketing. Quem não recebeu nunca um telefonema ou e-mail oferecendo serviços e produtos embora não os tenha procurado e se interessado por adquiri-los?
De ficha em ficha, formam-se bancos de dados numerosos que se multiplicam através do tempo e fazem crescer as ofertas. Algumas à base de propaganda enganosa, como a que se propõe fazer crer que as pessoas foram sorteadas. Puro engodo. Sorteadas para quê? Para o direito de comprarem bens e serviços quando não houve sorteio algum?
Ofertas de cartões de crédito proliferam. As de crédito também. Só que os juros mensais de 6%, embora seja esta a inflação brasileira ao longo de um ano. Impressionante a desfaçatez. Uma farsa.
FICHA CADASTRAL
Assim, quando se está preenchendo um ficha cadastral num supermercado, às vezes se está fornecendo informações para montagem e revenda de dados pessoais, incluindo CPF. Daí às mesas dos Hackers a distância não é longa. Grande parte do sigilo bancário é vulnerada a partir daí. Não desejo dizer com isso que não se possa preencher fichas de cadastro, mas somente chamar atenção para um aspecto que, infelizmente, já se incorporou à verdade do cotidiano.
São diversos os caminhos adotados pelo telemarketing, mas sua origem é uma só. Não é possível que, de outra forma, possa se chegar à privacidade das pessoas físicas, para as quais não existe o mesmo sistema de resguardo de que se utilizam as empresas. Mesmo assim, o meio empresarial é atingido por diversas outras maneiras. Até mesmo com base no cadastro pessoal de seus dirigentes e acionistas. Os prejuízos podem ser muito grandes.

O artigo de Charlie Savage significa uma chave a mais para descerrar a porta e iluminar como se desenvolvem nos Estados Unidos, e no mundo, ações simples de invasão de privacidade. Pois está evidente que a verificação das chamadas não vai restringir a identificação dos que trocam telefonemas. Pelo contrário. Vão proceder dessa forma, mas também dependendo do rumo das conversas gravadas partir para analisar seus conteúdos. Não serão todas as conversações, mas aquelas que, por um motivo ou outro, tornam-se interessantes e possam fornecer informações importantes em todos os setores da vida humana. Ninguém está livre. Sobretudo os que se envolvem em atividades ilegais como aconteceu agora em São Paulo.

Corrupção impede o desenvolvimento social do país

Pedro do Coutto

É um fato. Ressaltado indiretamente na edição da Folha de São Paulo de quinta-feira, em duas reportagens sobre temas diferentes, mas que na sua essência convergem para o mesmo plano gerando o mesmo efeito. Com base em dados do IBGE, Pedro Soares focalizou a existência de 6 mil e 300 favelas no país, reunindo 3,2 milhões de moradias e, portanto,em torno de 12 milhões de habitantes. Destacou a favelização na cidade do Rio de Janeiro, representando hoje a parcela de 22% da população. Na capital paulista, a percentagem de moradores em favelas é de 11% do total de habitantes. De todas, a maior favela do país é a Rocinha atingindo praticamente 70 mil moradores.
O levantamento do IBGE, no entanto, ao que parece, não inclui os moradores em cortiços e porões. Se incluísse o déficit social seria ainda maior. Aliás a dívida social reunindo os governos federal, estaduais e municipais, sem dúvida, é maior do que a dívida interna brasileira, atualmente na escala de 2 trilhões de reais. O orçamento da União para este ano é de 2,2 trilhões. Por aí se observa a raiz dos problemas existentes. A falta de saneamento abrange o processo de favelização.
A segunda reportagem a que me refiro, na mesma edição da FSP, está assinada por Cláudia Rolli e Vivian Nunes. Focaliza um esquema de corrupção – mais um de uma série que parece interminável – desvendado pela Polícia Federal juntamente com a Secretaria da Receita do Ministério da Fazenda. Tal esquema espalhou-se em 19 estados e abrangia cerca de 300 empresas. De acordo com as investigações, uma quadrilha inseria dados falsos no sistema tributário para reduzir ou até zerar dívidas que essas empresas tinham para com a Secretaria da Receita. A operação policial recebeu o nome de Protocolo Fantasma.
UM CASO ATRÁS DO OUTRO

Impressionante. Há poucos dias veio à tona a corrupção praticada na Secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Agora, em seguida, curto intervalo entre um caso e outro, explode o Protocolo Fantasma, que pode ter causado uma sonegação de 1 bilhão de reais. A corrupção na área do ISS paulista pode ter atingido 500 milhões. Qual será a soma dos recursos públicos devorados por corruptos e corruptores. Algo imenso, sem dúvida. Multiplique-se as tramas ao longo do tempo e, numa década chegaremos a aproximadamente 1 trilhão de reais. Sim. Porque os assaltos aos cofres públicos produzem efeitos nem cadeia.


Os que sonegam o ISS, por exemplo, acabam sonegando portanto o Imposto de Renda. Da mesma forma, os que sonegam o ICMS e o IPI. O primeiro é um tributo municipal, como também é o caso do IPTU. O segundo é estadual. O terceiro, IPI é federal. Mas da mesma maneira que todos os caminhos levam à Roma, todas as tr4apaças culminam obrigatoriamente no Imposto de Renda. O que o país, como um todo, perde com a sequência de escândalos bloqueia a existência de recursos públicos para obras e investimentos essenciais, como é o caso de uma política capaz de desfavelizar os centros urbanos e melhorar os índices de qualidade de vida de 323 cidades, as quais, de acordo com a Folha de São Paulo, são as que possuem favelas em suas áreas.

Afinal, quais serão os adversários de Dilma nas urnas de 2014?

Pedro do Coutto

Reportagem de Ranier Bragon e Marina Dias, Folha de São Paulo, revela que Aécio Neves mostra-se favorável a que o PSDB antecipe para já o lançamento da candidatura ao Planalto, alterando portanto seu posicionamento anterior quando acertou com José Serra que a escolha definitiva do nome só ocorresse em março de 2014. Mas Serra está percorrendo o país para se colocar entre as opções (duas) para a sucessão presidencial. Dúvidas no ar, sobretudo porque o ex-governador paulista está na frente do senador mineiro nas pesquisas do datafolha e do Ibope. Entretanto ambos perderiam por larga margem para Dilma Rousseff. Isso no lado tucano.

No lado do PSB, o enigma será entre Eduardo campos e Marina Silva, outra fonte de dúvida, também em função dos resultados das pesquisas que apontam Marina com o dobro das intenções de voto registradas para o governador de Pernambuco. Segunda dúvida, que somada à primeira, induz à pergunta que está no título: afinal, quais os candidatos que vão enfrentar Dilma Rousseff nas urnas de 2014? As oscilações sinalizam para a falta de unidade entre as correntes de oposição e este tornar-se um fator que acrescenta no sentido da reeleição da atual presidente.

Estarão faltando temas para os adversários do Planalto ou interpretação para suas colocações no palco sucessório? Esta perspectiva a mim parece mais realista, já que Dilma, como é natural, encontra-se em plena campanha. Tem a seu favor, sem fazer força, as indecisões entre os que lhe são contrários. Isso de um lado. De outro, a caneta e as inaugurações de obras e realizações de eventos.

A dúvida, no momento, é mais acentuada entre os tucanos, na medida em que Aécio é favorável à antecipação da escolha, mas deseja o apoio de Serra através da integração deste à sua campanha. Logo, no momento, em termos de convenção partidária, hoje, o senador está mais forte do que o ex-governador. Fica nítido. Porém nítido fica, também, o temor de Aécio relativo a um crescimento de Serra no Datafolha e no Ibope que supere novamente os índices que vai registrar daqui em diante.

Este é mais um complicador para ambos, já que Serra está muito mais forte que Aécio em São Paulo, enquanto     Aécio está muito mais forte que Serra em Minas Gerais. Os dois maiores colégios eleitorais do país. Se os dois não se acertarem em torno de um só, dividido, o PSDB partirá para mais uma derrota. Da mesma forma que o PSB se lançar a candidatura de Eduardo Campos preferindo-o a Marina Silva.

ENTUSIASMO

Pois uma coisa é essencial em matéria de voto: o entusiasmo no decorrer da campanha, em entusiasmo autêntico capaz de irradiá-lo junto aos eleitores. Não o entusiasmo fraco, resultado do cumprimento de uma obrigação partidária. Seb tal disposição não se verificar nos setores da oposição, não haverá nenhuma novidade nas urnas. Pois se as oposições reunidas atingiram 44% dos votos no segundo turno de 2010, ficando 12 pontos atrás de Dilma, sem a mesma unidade a tendência é a de que seu índice seja menor no próximo ano.

Assim, o primeiro passo a ser dado tanto pelo PSDB quanto pelo PSB é estabelecerem o consenso e decidirem logo quais serão, de fato, seus candidatos. É inclusive a única forma de conduzir o desfecho final para o segundo turno. Caso contrário, Dilma Rousseff vence no primeiro.

Não existe obra (ou biografia) proibida que, depois, não tenha sido exibida livremente

Pedro do Coutto


O título deste artigo contém uma síntese a liberdade de criação e expressão contra o falso direito de proibição, seja ela praticada em nome da moral, ou a partir da posição de grupos e pessoas, com base em diversas questões. A começar do teatro grego, cujas tragédias, escritas há pelo menos mil anos antes de Cristo, continuam sendo exibidas até hoje livremente. Nada mais trágico, por exemplo, do que Édipo, cujo reflexo alcançou e envolveu ensaios magníficos de Sigmund Freud acerca da alma humana.

Dando-se um salto enorme no tempo A Prostituta Respeitosa, de Sartre, no Brasil, décadas de 40 e 50, enfrentou obstáculos por parte da censura. Ontem, menores de 18 anos não podiam assisti-la. Hoje, a peça é exibida com censura absolutamente livre. Me lembro que Maria Dela Costa e Sandro Poloni enfrentaram dificuldade em montar a obra de Sartre, no Rio de janeiro, já na década de 60.
 

Os censores, sempre na contramão da história, como os fatos comprovam, criavam obstáculos a tudo que se referia a sexo. Estranha compulsão. Mas os tempos passam. Escrevo este artigo motivado por reportagem na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada,  a qual revela que não a censura, mas a Justiça, nos últimos dez anos decidiu proibir a circulação de 25 livros sobre diversos temas e pessoas. Incrível.

Os que se julgam atingidos, sem razões aceitáveis, obtiveram aceitação judicial. Não lutam ou lutaram pelo direito de resposta, previsto na Constituição, tampouco contestam os fatos que os incomodam. Nada disso. Simplesmente não querem discutir os assuntos. Querem negar o direito à liberdade dos autores, os quais, no fundo, arriscam-se mais do que eles. Pois é fácil distinguir a tentativa de uma chantagem do impulso natural de pesquisar, informar, analisar, expor a realidade, ou parte dela, de seres humanos que se tornaram figuras públicas.
 

FALSIDADES

Muitas vezes obras literárias destroem falsidades e falsificações. O caso, por exemplo, do Eu Acuso, Emile Zola, denunciando a terrível injustiça do governo francês para com Dreyfuss, personagem eterna e símbolo da mistificação e da injustiça. Isso na literatura. No teatro e o cinema os casos são extremamente múltiplos. Criou-se, em nosso país, um cavalo de batalha, como se costumava dizer, para a exibição de Les Amant, de Louis Malle. Hoje, acesso livre do público de todas as idades. No máximo, o selo de desaconselhável para menores de 11 anos.
 

Na música, as intervenções passadistas são bem menos numerosas, quase não existem. Por isso, inclusive, causa espanto e indicação o comportamento de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil que se voltaram contra a possibilidade – a possibilidade – de escreverem sobre eles biografias não autorizadas. Maior manifestação de temor não existe. Porque será? Eles, como tantos outros, possuem o direito constitucional de resposta e também de processarem os autores se cometerem qualquer violação legal. Sempre viveram com base no justo enaltecimento (público) de suas atuações e presença na arte. De repente de combatentes contra a opressão transformam-se em opressores. 

Mas da mesma forma que o livro sobre Roberto Carlos, que circula por aí, não vão conseguir inverter o processo natural da história da arte e da política. Dirijo a todos que são favoráveis à negação da liberdade que apontem um só caso em que, através do tempo,  a censura e a proibição conseguiram se manter. Esse é o destino dos passadistas. Nada mais, nada menos.

A sedução do poder viaja a jato no mundo mágico de governantes

http://www.esmaelmorais.com.br/wp-content/uploads/2013/07/charge6.jpgPedro do Coutto

Reportagem de Flávia Pierry, O Globo de terça-feira, revelou que o governo de Brasília aprovou edital para contratar um serviço de táxi aéreo, à base de pequeno avião a jato mas sempre com direito à salas VIP e a tratamento de bordo também de qualidade especial. O governador Agnelo Queiroz justifica a iniciativa pela necessidade da obrigação de ter de viajar pelo país, dadas as dimensões nacionais, de modo rápido e seguro. Não se sabe que obrigações serão essas já que Agnelo Queiroz é governador do Distrito Federal.

Imagine se os demais vinte e seis governadores alegarem as mesmas razões para seguir o exemplo e adquirirem ou contratarem aviões para se locomover de um estado para outro, ou de uma localidade para outra. No caso do governo de Brasília, os voos podem até ser internacionais, com o mínimo de escalas possível.
PODER E SEDUÇÃO

Tudo por conta do mundo mágico do poder e da sedução de que se reveste. Este lado é tão forte, no plano psicológico quanto a despesa que acarreta no plano financeiro. È um deslumbramento, péssimo exemplo ético para a população que escolhe seus governantes para administrar e não para que se deslumbrem no universo da autoafirmação – falsa autoafirmação na verdade. Porque o governador de Brasília não pode se transportar por via rodoviária dentro da cidade ou através de voos comerciais como fazem todos? Não há razão explícita além de um exemplo de fascinação, como na valsa famosa. Isso de um lado.

De outro não se explica à luz da lógica quais os motivos que incluem viagens internacionais na agenda do governador. Eles podem ocorrer, mas de maneira pouco frequente, que podem ser atendidos pelo uso das linhas comerciais regulares que levam rapidamente de um ponto a outro do planeta.


A população não paga impostos, cada vez mais pesados, para isso. Se o governador precisar viajar, basta requisitar as passagens e diárias. Se deseja convidar outras pessoas não incluídas em sua equipe, use seus recursos próprios para tal. Não recursos públicos. São gastos assim que, multiplicados, levam à perda sensível de parte das receitas, diminuindo a capacidade do poder público de investir mais em saúde e educação e também realizar os investimentos reprodutivos de que o país exige e a população espera. Espera e, habitualmente, de quatro em quatro anos, ouve a repetição das promessas. Os eleitores vão às urnas  em busca de esperança. A que se volta para a realização dos compromissos de campanha. Não para que os que pediram seus votos, ontem, amanhã os utilizem para uso pessoal do poder, transformando-o de instrumento de ação social e econômica coletiva numa ponte  pessoal para o luxo e a ostentação.

É preciso colocar uma barreira concreta e efetiva entre os dois polos da questão. O poder não existe para satisfação individual e deslumbrada dos que o ocupam. Sua finalidade é outra, muito diferente: melhorar os níveis de vida da população e melhorar as estruturas da sociedade. Mas os exemplos nada dignificantes se repetem. Acumulam prejuízos enormes, incluindo a queda da credibilidade do poder público. Isso é extremamente negativo para os políticos, para a política, para o próprio país.

PT está unido, PSDB e PSB precisam se unir para 2014

Pedro do Coutto
 
Os acontecimentos políticos da semana passada revelaram que as oposições ainda não chegaram a um consenso para escolha de seus candidatos à presidência da república em 2014, ao contrário do PT que, aliás como não podia deixar de se, encontra-se unido em torno da presidente Dilma Rousseff. No PSDB, o debate público travado nas recentes edições da Folha de São Paulo, colocando José Serra e Aécio Neves em confronto comprovam a divisão, e, na verdade, até mais: a dificuldade de o derrotado na convenção da legenda incorporar-se com entusiasmo  à campanha do outro.
Essa dificuldade parece maior no lado de José Serra, que reviveu a psicologia da Madame Bovary, de Flaubert, para criticar o próprio partido e sua necessidade, acentuou, de ser aceito pelo PT. Aécio respondeu. Porém o que os pronunciamentos de ambos destacam, no fundo, é o fato de um não aceitar o outro como candidato legítimo do partido.
No lado PSB, é sensível a divisão da sigla entre as correntes de Eduardo campos e Marina Silva. A ex-senadora, se não for a escolhida, dificilmente se integrará na campanha do atual governador de Pernambuco. Que, aliás, para disputar a Presidência da República, terá que renunciar de cargo até 5 de abril do ano que vem. São contradições da legislação eleitoral brasileira. Quem está na Presidência não necessita se afastar para disputar a reeleição. Os governadores e prefeitos, na tentativa de se reelegerem, também não. Mas se um governador, caso de Campos, lançar-se para o Planalto, tem que deixar o posto no prazo adotado para desincompatibilização, seis meses antes do pleito. Casuísmo maior é impossível. Mas é o que se encontra em vigor.
No Rio de Janeiro, por exemplo, o governador Sérgio Cabral deverá se afastar para não tornar seu filho Marco Antonio inelegível para deputado federal. Exatamente o que se verificou em 2002 quando Anthony Garotinho deixou o Palácio Guanabara para habilitar a candidatura de sua mulher, Rosinha Mateus, que terminou vencendo o pleito no primeiro turno. Mas estas são outras questões. O tema central é a unidade partidária. Não quer dizer que toda e qualquer unidade conduza à vitória.
LULA E PADILHA
Em São Paulo, por exemplo, estado-chave para todos os efeitos, reunindo os políticos e econômicos, embora unido, o PT com a candidatura do ministro Alexandre Padilha enfrentará nas urnas uma luta acirrada contra o governador Geraldo Alckmin que busca a reeleição. Inclusive em São Paulo não prevalece a aliança PT-PMDB, já que o candidato do PMDB é o empresário Paulo Skaf, presidente da Federação Estadual da Indústria. Na esfera paulista, uma questão a ser resolvida é a distribuição do tempo de cada partido no horário de propaganda política na televisão e no rádio.
O ex-presidente Lula fez questão de votar ao lado de Alexandre Padilha nas eleições internas do Partido dos Trabalhadores, no domingo, assim acentuando seu empenho pessoal na campanha. E destacou a importância de São Paulo no contexto eleitoral do país. Até que ponto conseguirá acrescentar votos ao atual ministro da Saúde é a pergunta.
Reportagem de Diógenes Campanha, na Folha, focalizando o circuito percorrido por Lula e Padilha até as urnas assinala bem o empenho do ex-presidente da República. De outro lado, claro que por medida de precaução, os condenados no processo do mensalão, como José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha, decidiram não disputar a reeleição para os cargos que ocupavam na direção do partido.
Está na hora do Datafolha e do IBOPE realizarem nova rodada de pesquisas, incluindo as relativas aos governos estaduais.

 

Sucessão presidencial não depende dos embates estaduais

Charge do Dia 
Pedro do Coutto

Sem voto vinculado, experiência que durou pouco no país, as eleições presidenciais não dependem das disputas pelos governos estaduais nas urnas de 2014. São mais importantes. Os candidatos ao Planalto têm que se afirmar por si e não estarem condicionados a alianças políticas nos estados. Escrevo este artigo a propósito de reportagem de Ranier Bragon e Márcio Falcão, publicada na Folha de São Paulo de quarta-feira, focalizando os esforços de Dilma Rousseff, Aécio Neves e Eduardo Campos de fixarem bases de votos na região nordestina, aliás principal reduto do PT, reflexo do programa Bolsa Família. Claro. Os inscritos na distribuição de cestas alimentares, sem discutir o mérito da questão, temem perdê-las e, por isso, como as pesquisas do Ibope e Datafolha revelaram, votam intensamente em Dilma Rousseff, como aconteceu em 2010 e sucedeu também em relação a Lula no pleito de 2006, quando foi reeleito.

As questões nacionais influem muito mais que as estaduais em se tratando de escolher um presidente da república. O voto não sendo vinculado, como afirmei há pouco, inclusive permite aos eleitores votar num candidato a presidente de uma legenda e, no estado, marcar na cédula o nome de outro de partido diverso. O problema assim não parte da instalação de palanques estaduais em sintonia com os palanques federais. Inclusive, na medida em que candidatos a presidente da república condicionam parte de seus destinos às bases estaduais, passam aos votantes um sinal de fraqueza.

LIÇÕES DE JK

O candidato quando está forte – me disse um dia, em 1960 o presidente Juscelino – rompe a marcha para as urnas se4m depender de apoios. Depender de apoios é negativo, acrescentou. Passa uma imagem negativa ao eleitorado. JK se referia à posição do general Teixeira Lott na campanha em que perdeu para Jânio Quadros. Eu, então no Correio da Manhã, fiz a pergunta sobre a posição de neutralidade assumida por Juscelino diante da disputa. O candidato, qualquer que seja a situação, respondeu ele, tem que se afirmar por si. Quando está firme, não precisa pedir, os apoios vêm em sua direção. Verdade absoluta, acentuo eu, agora, nada mais verdadeiro. Os rios correm para o mar. Isso vale tanto na política quanto na própria vida humana.

 

Os candidatos precisam, principalmente, estar atentos às suas posições em São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Porque os três estados pesam 41% dos votos de todo o país. E seguirem seu caminho independentemente da situação de seus aliados. Em São Paulo, por exemplo, o ministro Alexandre Padilha, candidato do PT contra Geraldo Alckmin e Paulo Skaff, este pelo PMDB, eis um exemplo. O atual governador é o favorito, não apenas por se encontrar à frente nos levantamentos de opinião pública, mas também porque Padilha, de um lado, Skaff de outro, representam uma divisão da base aliada que Dilma Rousseff possui no estado. Em São Paulo, portanto, a atual presidente da república não pode, isso sim,hostilizar o governador, pois uma parcela dos eleitores de Alckmin poderá das um voto para o Palácio Bandeirantes, outro para o Planalto.

 

Em Minas Gerais, já o PT apresenta-se mais forte que em SP com a candidatura Fernando Pimentel e com o PMDB na oposição a Aécio Neves. No Rio de Janeiro, a situação é mais confusa. Mas nem por isso deve preocupar Dilma. Ela, eleitoralmente, é muito mais importante do que Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão que ameaçam abrir dissidência no PMDB. O voto para presidente é uma coisa. Para os governos estaduais outra. Rousseff está forte nas pesquisas: ela acrescenta mais aos outros do que os outros a ela. O voto vinculado perde-se na memória das urnas de 82.

Pelo Ibope, candidatura Eduardo Campos não se mantém

 Pedro do Coutto
 
A pesquisa do IBOPE sobre a sucessão presidencial de 2014, objeto de reportagem de Gustavo Uribe, O Globo de sexta-feira, em matéria de intenções de hoje, confirma totalmente as tendências assinaladas pelo levantamento do Datafolha apontando vitória da atual presidente contra qualquer um dos adversários no segundo turno por margem muito ampla de votos. A diferença diminui apenas contra Marina Silva, quando Dilma alcança 42 a 29%. Bateria Aécio Neves por 47 a 9 pontos. Eduardo campos por 45 a 18. José Serra por 44% a 23. Sem Marina, Dilma vence no primeiro turno. 

O que o IBOPE revela é que, no PSB, Marina Silva está muito mais forte do que Eduardo Campos. E no PSDB, José Serra situa-se à frente do senador mineiro. O ex-governador de São Paulo alcança 18 contra 14 de Aécio. Marina Silva atinge 21 contra apenas 10 pontos de Eduardo campos. Mais do que o dobro do governador de Pernambuco. Este cotejo deixa Eduardo Campos muito mal no levantamento. Com esses números, dificilmente Campos poderá sair candidato pelo PSB. Terá que liberar o partido para escolher Marina Silva. 

Mesmo porque s for ele o escolhido, pois ocupa a presidência nacional da legenda, percebe-se, pela atmosfera de hoje, que Marina Silva lhe retirará o apoio e o deixará falando sozinho para a corrente minoritária da agremiação. Assim, a dependência de Eduardo Campos a Marina Silva, que já era grande antes, passou a ser total depois do IBOPE. Não há, em termos políticos, como pensar o contrário. Em política não se pode brigar com os fatos, tampouco esperar movimentos que forcem a realidade natural das situações. A lógica se impõe. 

No caso do PSDB raciocínio semelhante pode se aplicar em relação a José Serra: ele está na frente de Aécio – 18 contra 14 pontos. Seu nome como candidato mais uma vez ao Planalto sai revigorado na disputa interna com Aécio Neves. Porém a diferença entre ambos é muito menor que a diferença de marina em relação a Eduardo campos. Entretanto, da mesma forma que, sem Marina, Campos nem sequer decola, tal é seu grau de dependência, no lado tucano sem o apoio de Serra, Aécio não avança. E sem a adesão do senador mineiro, o ex-governador paulista nãopode evoluir na estrada das urnas. O panorama geral, como se constata, é amplamente favorável à reeleição de Dilma Rousseff. Ela não só lidera as pesquisas do IBOPE e datafolha, como ainda tem a seu favor as divisões entre seus adversários. 

O Globo de sexta-feira, reportagem de Juliana Castro e Paulo Celso Pereira, publica as divisões entre PT e PMDB em torno das sucessões estaduais, onde se localizam 68% do eleitorado do país. São dez unidades da Federação, incluindo os seis maiores colégios de votos: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Paraná. Mas isso não significa que tais divisões reflitam diretamente nas intenções de voto para a  presidência da República. Pois se refletissem, os resultados da pesquisa do IBOPE seriam muito diversos daqueles que foram agora assinalados. 

Assim, os choques das correntes estaduais parecem formar a base de uma pirâmide levando ao topo federal. Mas não afetam as tendências dos votos para o plano alto do Planalto.

Marina e Serra vão enfrentar Eduardo Campos e Aécio

Pedro do Coutto

No dia 22 de outubro, aqui, no site da Tribuna da Imprensa, publiquei artigo sobre possíveis divisões internas no PSB, entre as correntes de Marina Silva e Eduardo Campos, e no PSDB colocando em confronto Aécio Neves e José Serra. Em ambos os casos em torno da obtenção das legendas para disputarem a sucessão presidencial de 2014 contra Dilma Rousseff. Os duelos estavam nas respectivas atmosferas partidárias, entre sombras. Agora não. Vieram à plena luz do dia. Basta ler a Folha de São Paulo de quinta-feira, página 8.
A divisão no PSDB está focalizada em reportagem de Marina Dias e Felipe Amorim. A no PSB é assinalada em matéria que saiu7 sem assinatura. Nesta, Marina Silva afirma ter toda a disposição de ser presidente, apesar de não ser este – ressaltou – um objetivo de vida. Tenho como objetivo de vida lutar por um Brasil melhor e, se para isso, necessário for, ser presidente da República. Relativamente à formalização da chapa do Partido Socialista Brasileiro, só será feita em 2014. No dia de hoje, afirmação mais clara quanto à vontade de ser candidata do PSB impossível. Sobretudo porque, mais recentemente ainda, a ex-senadora sustentou de forma frontal que seu ingresso no partido funcionou para afastar Eduardo Campos de uma atuação política de estilo arcaico.

Torna-se fácil traduzir as palavras e a disposição agora nada oculta de Marina Silva. Como Eduardo Campos reagirá aos dois posicionamentos? Ainda não se sabe. E se o governador de Pernambuco custar muito a responder, deixa a impressão que foi levado à defensiva dentro da própria legenda da qual é presidente e nessas condições avalizou a entrada de Marina Silva. Na recente pesquisa do Datafolha, Marina alcançou 29% das intenções de voto. Eduardo campos 15 pontos, praticamente a metade. Sua posição na liderança partidária ficou abalada.
OS TUCANOS

Na esfera tucana, os repórteres Marina Dias e Felipe Amorim revelam que José Serra apareceu em maratona organizada por Aécio Neves junto a prefeitos paulistas e afirmou: o futuro não está definido. O que está definido é que vou estar na batalha. A qual futuro ele se referiu? Só pode ser o processo de escolha do candidato pela convenção nacional. Aécio neves, inclusive, foi surpreendido com a presença de seu adversário, sobretudo porque somente na véspera Serra avisou de seu comparecimento ao encontro. Isso, claro, no sentido de imobilizar qualquer reação negativa por parte do senador mineiro. Eugênio Juliani, organizador do encontro, acentuou que o convite havia sido feito há alguns meses, mas Serra não respondera se estaria ou não presente.

 

Pelo que se deduz, tratando-se de São Paulo, principal base política do PSDB, onde a agremiação disputa com boa possibilidade a reeleição de Geraldo Alckmin, José Serra saiu da sombra e resolveu travar uma luta aberta com Aécio neves pela indicação nacional. Onde Aécio for, Serra vai também, afirmaram representantes serristas. A incógnita deste comportamento refere-se a Minas Gerais, onde os tucanos disputam o governo com Pimenta da Veiga, escolhido por Aécio, área em que Serra tem pouca expressão. E Minas é o segundo colégio eleitoral do país. Seja como for, a disputa encontra-se aberta no PSDB. Aliás, no PAB também. O Datafolha apontou Serra com 25, Aécio com 21% das intenções de voto.

Ofensiva do PMDB contra Aécio começa por Minas Gerais

Pedro do Coutto
 

Três estados são fundamentais para qualquer sucessão presidencial no Brasil: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro que, juntos, representam 41% do eleitorado. Principalmente São Paulo e Minas porque, até hoje, nenhum presidente foi eleito sem que vencesse em uma dessas duas unidades da Federação. É natural assim que as batalhas pelos votos de 2014 comecem nesses dois estados, onde se verificam enfrentamentos entre os tucanos, de um lado, e os candidatos da aliança PT-PMDB de outro. O Rio de Janeiro não se inclui como mais um cenário dos duelos porque, aqui, Dilma conta com diversos palanques: os de Lindbergh Farias, Luiz Fernando Pezão, candidato do governador Sergio Cabral, e possivelmente o de Anthony Garotinho, na disputa pelo Palácio Guanabara.
Ao contrário de São Paulo, onde o clima ainda está morno, em Minas Gerais a batalha começou com um movimento anti-Aécio, liderado pelo deputado estadual do PMDB, Sávio Souza Cruz. Inclusive matéria de Paulo Peixoto e Felipe Bachtoldt, publicada  na edição de 22 da Folha de São Paulo, focaliza o tema. Sávio de Souza apresentou dados que pesquisou e que abastecem as baterias da oposição estadual. Referem-se ao endividamento mineiro que – sustenta – atinge o montante de 100 bilhões de reais, além de um crescimento negativo do PIB da ordem de 0,3% no primeiro semestre. No mesmo espaço de tempo o Produto Interno Bruto do país cresceu no percentual positivo de 1,5%. Em relação aos primeiros seis meses de 2012, MG avançou somente 0,8%. São Paulo 1,8%, o Brasil 2,6 pontos.
O fraco desempenho da economia mineira atinge a imagem de Aécio Neves quer passar à opinião pública do país – assinala Sávio Souza Cruz. O líder da oposição mineira cita como um dos maiores equívocos registrados no legado Aécio para o governador Antonio Anastasia o processo de privatização do Mineirão, Estádio Magalhães Pinto. Quando governador, Aécio obteve financiamento de 400 milhões de reais junto ao BNDES para reforma do Mineirão e os recurso foram repassados para empresa Minas Arena Gestão de Instalações Esportivas, parceria público privada reunindo as empresas Construcap, Egesa e Hap. A mineira Arena – acentua Sávio – será responsável pela operação do estádio pelo período de 27 anos, através de um contrato de parceria. Mas quem vai pagar o empréstimo obtido no BNDES é o governo mineiro. Dessa forma, a PPP transfere os custos ao poder público e os lucros às empresas particulares.
CRÍTICAS
“Condenamos as Parcerias Público Privadas feitas em Minas porque parecem significar que  o povo é que, indiretamente, vai terminar pagando a conta. Pois o contrato com as três empreiteiras inclui, para elas, um compromisso de lucro garantido: trata-se de um sistema capitalista sem risco, mas com lucro assegurado. Na etapa final do contrato, o Cruzeiro  associou-se à Minas Arena. De que forma? Qual a explicação? Quais as condições?” – indaga Souza Cruz.

Acrescenta que as críticas que faz às PPS de Minas não representam uma condenação generalizada do mecanismo. Não. Restringem-se ao universo de Minas Gerais. Simplesmente porque as privatizações de rodovias, por exemplo, levaram ao pagamento dos mais altos pedágios cobrados no país. E no final da ópera qualquer má gestão transferirá o pagamento das obrigações previstas nos contratos para os cofres estaduais.


Como se constata, a ofensiva da coligação PT-PMDB começou por Minas. Lá, inclusive, vão se defrontar Fernando Pimentel, que apoia Dilma Rousseff e Pimenta da Veiga, que apoia Aécio. Quem vai apoiar Eduardo Campos ou Marina Silva?

Lula e o encantamento do PT pela sedução do poder

Pedro do Coutto
 

Numa entrevista ao jornal El Pais, objeto de reportagem Fernanda Krakovics, edição de segunda-feira 21 de O Globo, o ex-presidente Lula reconheceu frontalmente que o crescimento do PT fez surgirem defeitos e corrupções em seus quadros partidários. Foi importante a autocrítica, certamente feita em tom de desabafo, mas que, no fundo, acrescenta mais uma página reveladora do processo de sedução que o poder exerce sobre número cada vez maior de pessoas. Há mudanças claras de comportamento que decorrem até da simples proximidade com aqueles que movimentam as engrenagens do sistema de decisão.
 

Os comportamentos mudam. Pessoas, até sem qualidade alguma maior, passam a se julgar importantes, e, ao serem cumprimentadas reagem friamente. Vêm no distanciamento que fabricam uma forma de auto afirmação. Se isso acontece nas situações mais comuns, que dirá nas incomuns? O deslumbramento incorpora um desejo de riqueza que leva à ostentação, uma forma de narcisismo incluindo uma ridícula vontade de se apresentarem como mais importantes que outros que não tiveram o mesmo acesso aos roteiros do poder e a intimidade dos poderosos. Esquecem os amigos de ontem, fogem do passado, e voltam seus pensamentos e suas atitudes em busca de ganhos nem sempre lícitos. O ex-presidente Lula tem razão quando reconhece a existência de corrupção nos quadros de sua legenda. 

Exigir que ele desse alguns nomes, por exemplo, seria querer demais. Mas não é difícil identificar. Basta comparar os bens de certos líderes possuem com os ganhos pelo trabalho que desempenham. A incompatibilidade entre um patamar e outro é suficiente para traduzir o inexplicável em termos lógicos. Evidencia-se um processo de ostentação. Hoje, estou convencido que os desonestos não ostentam porque roubaram, mas sim roubam para ostentar. Os desonestos tem dentro de si o impulso da auto confissão pelo trajeto de contrastes em suas vidas. O que era antes e o que passou a ser depois. Após o acesso ao poder, diga-se em síntese.

Foi o que sucedeu com os principais personagens do mensalão, em relação aos quais, punidos pela Justiça, Lula culpa a imprensa, ao acentuar na entrevista a El País que ela julgou os réus antes do pronunciamento do Supremo Tribunal Federal. Neste ponto equivoca-se. Pois foi ele, usando a caneta, quem demitiu o principal acusado do cargo de ministro chefe de sua Casa Civil. E substituiu Duda Mendonça de sua equipe de marketing.

ESVAZIAMENTO DO PDT

O crescimento do PT, aliás, decorre do esvaziamento do PDT. Quando, em 92, Leonel Brizola apoiou Fernando Collor, o PDT perdeu as ruas para o PT. Tanto assim que, depois de alcançar 15% dos votos nas eleições de 89, ficando um ponto atrás de Lula, na sucessão de 94 sua votação caiu para apenas 3%. Perdeu assim 80% de seu eleitorado. Esta parcela foi para o PT. Mas este é outro assunto. A sedução do poder, que visa à riqueza, exige de um presidente da República, de  um governador, de um prefeito, uma noção reforçada de equilíbrio e sensibilidade. Entre as qualidades, a de saber ouvir. Principalmente as opiniões contrárias porque os bajuladores (falsos aliados) vão sempre concordar com tudo.
 

Os falsos aliados, os falsos amigos, ambos exigem um cuidado especial por parte dos governantes. Qualquer passo em falso, qualquer descuido, qualquer omissão, pode levar ao desastre. Como o mensalão, por exemplo, em relação ao qual, na reportagem de Fernanda Krakovics, o ex-presidente mostra-se benevolente. Foi, isso sim, traído pelos que organizaram as fontes de recursos e as formas equivocadas e desonestas de sua distribuição. Porém – há sempre um porém na história – não contava com o surgimento de um personagem shakeperiano como Roberto Jeferson que, para denunciar José Dirceu, a quem odiava, denunciou a si mesmo. Os imprevistos aparecem sempre em torno dos crimes e dos criminosos. Assim não fosse, todos os que praticaram crimes ficariam eternamente, para citar Fellini, numa doce vida de vinhos finos, de sombras e impunidade. E não assim. Ainda bem.

Dilma cresce com esforço de Aécio e Campos para que haja segundo turno

 Pedro do Coutto 

 
Reportagem de Marina Dias, Folha de São Paulo de quinta-feira 17, revela que, nos bastidores, tanto Aécio Neves quanto Eduardo Campos, vêm estimulando pequenos partidos, como o PSC, PPS, PSOL e PRTB, para que lancem candidatos à sucessão de 2004 e com isso, contribuírem para que haja segundo turno nas eleições do próximo ano. Se estão agindo nesse sentido é porque não confiam no fato de as votações de ambos, somadas, sejam suficientes para evitar os 50% mais um de Dilma Rousseff. A atual presidente, assim, cresce mais com esse comportamento dos pré-candidatos do PSDB e do PSB. Depois de ler a matéria da FSP, vai naturalmente sentir-se mais forte. 

Vejam só: Aécio e Campos incentivam que o PSC dispute o pleito com a candidatura do pastor Everaldo Pereira; o PPS com a ex-vereadora da cidade de São Paulo, Soninha Francine; o PSOL com o senador, aliás um bom parlamentar, Randolfo Rodrigues; finalmente o PRTB com Levy Fidelis. PSC, PPS e PSOL, cada um, tem 1 minuto e 25 segundos no horário político na televisão e no rádio. O PRTB, cuja existência eu desconhecia, possui 1 minuto. 

QUAIS SÃOS OS CANDIDATOS 

Mas o problema não é de tempo. E sim de uma atitude essencialmente defensiva dos principais nomes da oposição. E tem mais duas questões: quem será de fato, no final da ópera, o candidato do PSB? Campos ou Marina Silva? Quem será o candidato do PSDB? Aécio ou José Serra? A recente pesquisa do Datafolha apontou 29 pontos para Marina contra 39 de Dilma e, no cenário alternativo apenas 15% para o governador de Pernambuco. Relativamente ao nome do PSDB, assinalou 25% para José Serra contra 21 pontos para Aécio Neves. Como se observa, em primeiro lugar, antes de mais nada, o Partido Socialista Brasileiro precisa decidir se vai às urnas com Eduardo Campos mesmo, ou se prefere Marina Silva. São enigmas duplos que os próximos levantamentos de opinião pública devem esclarecer. 

Porque, afinal de contas, ninguém pode disputar uma eleição sem perspectiva, pelo menos alguma, de vitória. Sem tal perspectiva, o que a legenda poderá dizer ao eleitorado? Nada. Pois se seus integrantes consideram incertas suas posições, como vão transmitir o entusiasmo indispensável aos eleitores? Isso de um lado. De outro, ao se empenharem pela hipótese de um segundo turno é porque, claro, deixam transparecer que acreditam que, no primeiro, Dilma Rousseff chegará na frente. Um raciocínio leva diretamente ao outro. Agora, os quatro nomes cogitados para acrescentar às candidaturas praticamente lançadas não vão poder somar os sufrágios necessários para evitar a maioria absoluta da atual presidente da República no primeiro confronto. São nomes pouco conhecidos e, ainda por cima, dispõem de espaços  muito pequenos na TV e no rádio. Não vão funcionar ao ponto de somar apoios que transfiram a decisão do primeiro para o último domingo de outubro de 2014. 

Pela leitura de hoje, somente Marina Silva seria capaz de levar a disputa do primeiro para o segundo turno. Porém seu nome, da mesma forma que o de José Serra entre os tucanos, abrirá cisões estaduais reduzindo o potencial de votos. Não se deve esquecer que Marina Silva, logo após ingressar no PSB, atirou em Ronaldo caiado afastando o DEM de qualquer aproximação com Eduardo Campos. Talvez, inclusive, a atitude faça parte de um plano político para substituí-lo como candidata ao Planalto. Em política, aliás       como tudo na vida, não existe ação sem reação, nem movimentos voltados para não alcançar efeitos concretos. Como digo sempre, não basta ver os fatos, é essencial sobretudo ver nos fatos. Traduzi-los, identificando-se as atmosferas que os envolvem.