JK definia a política como esperança: é o que está faltando ao Brasil

Pedro do Coutto

O ex-presidente Juscelino Kubitshek me disse numa entrevista publicada no Correio da Manhã em 1963, a respeito da sucessão marcada para 1965, mas que foi banida do mapa democrático pela ditadura militar que começou em 64, que, sob a ótica do eleitor, a política principalmente representava esperança, palavra abrangente em sua essência. Juscelino havia sido eleito em 1955 com 33% dos votos, seguido por Juarez Távora (27), Ademar de Barros (20) e Plínio Salgado (10). Outros dez por cento votaram nulo ou em branco.

A entrevista e os resultados de quase sessenta anos atrás me vieram à lembrança ao ler a matéria que a Folha de São Paulo publicou na edição de domingo, destacando que em relação às urnas de outubro deste ano o índice de desinteresse (hoje) nunca foi tão alto: 16%  pretendem anular ou votar branco, enquanto a parcela de 8% não sabe ainda como vai agir. Há, portanto, uma insatisfação com a política, a qual, na realidade, substitui a esperança pela desesperança.

Isso é péssimo para o país, mas os políticos e os administradores são os verdadeiros culpados. Corrupção em alta escala, promessas descumpridas, obras que começam em não acabam, eternizando os problemas que se destinavam a resolver. Os eleitores encontram-se exaustos de tantas decepções. Generalizam-se através de todos os partidos. Que, por sua vez, perderam a confiança dos eleitores.

DESESPERANÇA

De fato sentem que o Brasil seria outro fossem outros os comportamentos das elites governantes. Basta citar a influência exercida pelo doleiro Alberto Yousseff. Uma vergonha para o país, criando uma decepção coletiva. Com raras exceções, não há o desejo de construir, de acrescentar e melhorar as condições de vida. Prevalecem os interesses setoriais, para dizer o mínimo. Política devia continuar sendo motivo de esperança.

Deixou de ser, pelo menos até agora, em termos das eleições deste ano. Tanto é assim que Ricardo Mendonça, em reportagem sobre o Datafolha, focalizou um aspecto importante, termômetro da distância e do desinteresse: não fosse obrigatório o voto, 57% dos eleitores não compareceriam às urnas. Compareceriam 42%. Um por cento  disseram não saber como agiriam. Colocada a pergunta se o voto deve continuar obrigatório, 61% disseram que não.

Um ângulo interessante que vale a pena destacar. Se o voto passasse a ser facultativo, 43% dos 37% que pretendem votar em Dilma não sairiam de casa a 5 de outubro. Mas entre os 20% que se manifestaram em favor de Aécio Neves, a fração de 58% não iria votar. Portanto, fosse facultativo o direito de votar, o prejuízo maior recairia sobre o senador mineiro. Sabem por quê?  Porque a abstenção atingiria mais intensamente as classes de renda mais alta, como também assinala o Datafolha. Restrinjo a comparação a Dilma e Aécio pelo fato de achar, como já escrevi,que se houver segundo turno a disputa será entra a atual presidente e o candidato do PSDB. Eduardo Campos, para mim, não ultrapassará Aécio, que precisa dele para tornar possível o segundo turno. É a sua esperança.

Dilma tem que partir em busca do tempo perdido

Pedro do Coutto

Dando na verdade sequência a meu artigo sobre a pesquisa do Datafolha e agora também com base na reportagem de Adriana Mendes e Demétrio Weber, O Globo, edição de sábado, acentuo que, para a reeleição, Dilma Rousseff tem que deixar a defensiva e partir em busca do tempo perdido. Adriana Mendes e Demétrio ouviram diversos cientistas políticos e chegaram à conclusão de que, nas urnas de outubro, haverá segundo turno entre a atual chefe do Executivo e Aécio neves. Concordo, como escrevi na véspera.
E recorro ao título do grande romance de Marcel Proust, considerado um dos maiores da literatura universal, para sintetizar o desafio que Dilma terá de enfrentar no desencadeamento da campanha eleitoral. Mas antes, só de passagem, desejo assinalar que há cerca de alguns anos, uma pesquisa realizada em vários países apontou Ulisses, de James Joyce, e em Busca do Tempo Perdido, de Proust, as maiores obras literárias produzidas até hoje, Joyce em primeiro, Proust em segundo. Carlos Heitor Cony votou em Proust.
Voltando à política brasileira, claro, como disseram os cientistas políticos, que a exposição dos candidatos na televisão é decisiva. Mas não apenas ela. Pois, neste caso, a vitória de Dilma Rousseff já estaria assegurada. Ela possui mais tempo nos horários de propaganda eleitoral e, como presidente da República, muito mais oportunidades de aparecer. Além da caneta mágica do poder. Mas tal raciocínio seria simplista.
A vantagem que os jornalistas levam sobre os professores de Comunicação é o conhecimento prático e concreto da informação. Portanto, da ocupação do tempo disponível. Se Dilma houvesse ocupado esse tempo apresentando fatos concretos a seu favor, ou favoráveis (concretamente) à sua administração, os números do Datafolha publicados na edição de 9 de maio, seriam outros. Sem dúvida. Portanto o reflexo na escalada pela conquista das intenções de voto seria outro.
FORMA E CONTEÚDO
Não vale só a forma. O conteúdo é mais importante. O conteúdo envolvendo a presidente da República tem sido negativo. A presença de falsos amigos, de falsos aliados, à volta das esferas de decisão, especialmente na Petrobrás, tem sido uma catástrofe. A influência do doleiro Alberto Yousseff, um desastre. As demissões determinadas por Dilma comprovam. E ressaltam o tempo perdido com os atos praticados pelos que abusaram de sua confiança. O ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, teve sua prisão decretada pela Justiça Federal. Fundos de Previdência Complementar de estatais aplicaram recursos na compra de debêntures da Universidade Gama Filho.
Apesar de todos esses fatos, Dilma mantém a liderança e surge vitoriosa nas simulações do Datafolha para o segundo turno. Mas para confirmar a previsão (algo difícil em política) tem que deixar a defensiva e sair do corner em que se encontra conduzida a tal situação por um bando de desonestos que, à sua revelia, encontraram um panorama fácil de atuação perniciosa, atingindo negativamente o governo e sobretudo o país, a população e, consequentemente, os eleitores. O roubo deixa, em sua teia, rombos tremendos. É algo sinistro e repugnante.
Concluo como comecei: Dilma Rousseff tem que partir em busca do tempo perdido, pois quanto mais negócios suspeitos houver, maior quantidade de votos perderá. Acho, com base nas projeções do Datafolha, que será reeleita. Porém, não fossem os ladrões, venceria mais facilmente. O futuro, entretanto, depende do desempenho dela e de Aécio. Os cientistas políticos esquecem sempre a dinâmica dos acontecimentos em suas interpretações. Teoria é uma coisa. Prática é outra.

Datafolha define quadro: luta é pelo segundo lugar

Pedro do Coutto

Analisando-se  lógica e friamente a pesquisa do Datafolha sobre as urnas de outubro, objeto de excelente reportagem de Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo de 9 de maio, verifica-se que a efetiva luta eleitoral é travada pela conquista do segundo lugar, já que os números passaram a conduzir à perspectiva de que haverá segundo turno. O Datafolha iluminou e definiu o panorama político.

Em matéria de pesquisa, aliás como na própria vida, não basta ver os fatos, mas principalmente ver nos fatos. Comparando-se os índices desta semana com os de abril, observa-se que Dilma desceu de 38 para 37, mantendo entretanto uma ampla diferença sobre os dois principais rivais. Aécio Neves avançou de 16 para 20 pontos, salto expressivo, tendência para cima. Eduardo Campos evoluiu pouco: passou de 10 para 11% das intenções de voto. É grande a distância de Aécio sobre Campos. Razão pela qual, provavelmente, a vice na chapa do ex-governador de Pernambuco, que soube dos números antes deles serem publicados, partiu para o ataque contra o senador mineiro.

POR REGIÕES

Quando sustento que a luta é pela segunda colocação no primeiro turno é porque não só o Datafolha, mas também os levantamentos do IBOPE e do MDA apontam uma posição consolidada de Dilma Rousseff no primeiro lugar. Não há discussão quanto a isso. A dúvida predominante divide-se em duas escalas: primeiro se haverá segundo turno. As perspectivas estão indicando que sim, se o pastor Everaldo, do PSC, alcançar 3 pontos e todos os demais candidatos somarem mais 4 degraus. Aspecto importante a ser confirmado ou não daqui a cinco meses.

Mas não somente isso. No Sudeste, onde se encontra a parcela de 50% dos votantes (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), o Datafolha assinala 30 pontos para Dilma contra 27 para Aécio. Na região, Eduardo Campos registra apenas 7 pontos. No NordEste, Dilma dispara com 52, superando Campos (que tem 16) e Neves (apenas 12%). Portanto, à luz dos índices, a lógica indica que o segundo lugar vai ser decidido no Sudeste. E nesta região, a vantagem de Aécio sobre Eduardo Campos é de 20 degraus. Toda análise que faço, vale sempre lembrar, é feita sobre os números de hoje. Como no futebol, ninguém pode prever o futuro. Mesmo quando ele está próximo. Porque se por um gol se vence, claro, por um gol se perde.

Há meses, início do ano, ninguém computava, por exemplo, 3% para o pastor Everaldo. Hoje se considera. E não é só Everaldo. Há Eduardo Jorge, Denise Abreu, Randolfo Rodrigues, Eymael, Levy Fidélis, Mauro Issi. Todos estes podem ter menos de 1 ponto dos sufrágios. Mas nenhum terá zero votos. A presença deles na lista de candidatos é pequena, como se constata. Mas pode produzir o efeito mais importante: conduzir a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves – a meu ver – para o segundo turno. A vida é assim. Eleição tem dessas surpresas.

O Datafolha faz duas possíveis simulações: hoje Dilma venceria Aécio por 47 a 36. E derrotaria Eduardo Campos por 49 a 32%. Fica claro, dessa forma, que Campos chegando em terceiro transfere mais votos para Aécio do que Aécio, no caso oposto, passaria para o ex-governador de Pernambuco. Seja qual for o quadro final, a posição de Dilma parece firme na conquista da reeleição. A disputa, entretanto, vai exigir que ela saia da defensiva em que se encontra.

Saia da Petrobrás e vá para a estrada. Deixe o planalto e ressurja na planície. Quanto aos índices de rejeição – faltava focalizar, quase esqueço – aproximam-se: 35 para Dilma, 33 para Eduardo Campos, 31 para Aécio Neves. O segundo lugar, repito traçará o rumo na alvorada das urnas para a Alvorada do poder.

Marina atinge Aécio e, com isso, ajuda Dilma

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo, edição de 8 de maio, inclusive manchete principal do jornal, a ex-senadora Marina Silva atacou diretamente a candidatura Aécio Neves, sustentando que se ele for ao segundo turno será uma derrota certa para o PSDB e, portanto, pata as oposições. Logo, Marina Silva previu que em tal opção Dilma será reeleita.Tanto assim que sustentou em sequência que Eduardo Campos, em cuja chapa ela figura como candidata a vice, é o único capaz de vencer a atual presidente da República nas urnas de outubro.

Mas também criticou (indiretamente) o próprio Campos, ao sustentar que não possuem cabimento as comparações entre o senador por Minas Gerais e o ex-governador de Pernambuco.Ora, quem colocou tais semelhanças no quadro político foi o próprio candidato de quem ela é a vice. A entrevista, é claro, vai forçar um rompimento entre Aécio e Campos, uma vez que Marina Silva partiu taticamente para abalar a vantagem do primeiro sobre o segundo nas pesquisas eleitorais do Datafolha, Ibope e, por último do Instituto MDA, que realizou o levantamento por encomenda da Confederação Nacional dos Transportes, que tem como presidente o senador Clésio de Andrade (PMDB-MG).

CONTRADIÇÃO

A equação proposta por Marina Silva é contraditória. Pois parte, em primeiro lugar, de que haverá segundo turno contra Dilma Rousseff. Assim atribui previamente que a atual presidente será a mais votada a 5 de outubro. Portanto desloca, de fato, que a luta assim será entre Aécio e Eduardo Campos. Mas na medida em que divide as oposições, a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula inadvertida e indiretamente contribui para fortalecer a atual chefe do Executivo.

Por quê? Simplesmente porque todos os levantamentos realizados até agora (escrevo este artigo antes da pesquisa do Datafolha) apontam ampla vantagem para Dilma no primeiro posto e para Aécio na segunda colocação. Vamos recordar os números.

Para o Datafolha,  a escala foi de 38 para Rousseff, 16 para Neves, apenas 10 para Campos. Diferenças percentuais, como se vê, muito grandes. Para o IBOPE, 37 para Dilma, 14 Aécio, somente 6 para Eduardo ampos. Vamos incluir o MDA, para não dizer que não falei de flores: Dilma 37, Aécio praticamente 22, Campos 11 por cento. Relembrados os números, vamos ver o efeito da confirmação da candidatura Dilma na reunião do PT, com a presença de Lula, e também o reflexo das declarações de Marina Silva contra Aécio Neves, publicadas pela Folha de São Paulo no Datafolha que está vindo por aí. A expectativa é grande. Há fatos novos no cenário além da indispensável e inevitável CPI da Petrobrás.

E no alvorecer de ontem, sexta-feira, sai na manchete da Folha de São Paulo a esperada pesquisa: Dilma 37, Aécio 20, 11 pontos para Eduardo Campos. Comento amanhã.

Renan omite que Dilma foi quem condenou Pasadena

Pedro do Coutto

As reportagens excelentes de Maria Lima, Isabel Braga e Júnia Gama, no Globo, e de Gabriela Guerreiro na Folha de São Paulo, edições de 7 de maio, destacaram a repugnante manobra urdida pelo senador Renan Calheiros para adiar, não a instalação, mas os trabalhos da CPI da Petrobras, tanto os da Comissão criada pelo Senado, quanto os da Comissão Mista, congregando, como o nome indica, senadores e deputados. Jogada pérfida, passadista, anacrônica, colidente sobretudo com a realidade dos fatos.

Na ânsia de agradar setores do governo,o presidente do Congresso contribuiu para abrir uma dissidência no seu próprio partido, o PMDB, além de se chocar com setores do próprio PT. Renan, em seu lance obscuro, principalmente omite que, de fato, foi a presidente Dilma Rousseff quem se tornou a principal acusadora do episódio da refinaria de Pasadena, quando disse textualmente que, se tivesse lido na íntegra o texto do contrato, não o teria assinado. Além disso, demitiu da direção financeira da BR Distribuidora o próprio Nestor Ceveró, que conduziu a compra da refinaria. Portanto, se não atribuísse culpa a Ceveró, não o teria demitido quando a bomba explodiu. O outro ex-diretor Paulo Roberto Costa já se encontrava fora da Petrobras.

JOGO DUPLO

Dentro dessa sequência lógica, Renan Calheiros não está se mostrando politicamente um aliado de Dilma. Pelo contrário. Está fazendo o jogo daqueles que, desejando ocultar o verdadeiro encadeamento do que ocorreu, desejam aproveitar-se da fantasia de companheiros quando são, efetivamente, inimigos da presidente. No plano político, uma espécie extremamente perigosa é a dos falsos correligionários, dos falsos amigos. Pela frente aparentam uma imagem. Pelas costas faturam para si a proximidade com o poder e os poderosos. Aconteceu com Getúlio Vargas por ter confiado demasiadamente em Gregório Fortunato, chefe de sua guarda pessoal.

A vida não está cheia de Gregórios Fortunatos, mas o poder político está repleto de falsos aliados, falsos amigos, de aproveitadores, que simulam um comportamento solidário, quando na realidade participam de um jogo duplo, à base da encenação. Atitudes falsas e contraditórias, no caso Petrobras, levando a presidente da República a uma suprema contradição. Pois de um lado ela acusa a transação, apontando-a como prejudicial à Petrobrás, e portanto ao País. E de outro utiliza Calheiros para protelar a investigação do que ela própria condenou. Francamente, está na hora da presidente se pronunciar definindo concretamente sua posição quanto aos trabalhos da CPI, tanto fazendo seja ela do Senado ou do Congresso incluindo a Câmara dos Deputados.

Dilma Rousseff, na realidade, precisa assumir o comando de sua própria articulação política. Que não se esgota nos acordos partidários, mas se estende a toda sua administração. Sobretudo porque, hoje, os temas administrativos e da economia sobrepõem-se às articulações primárias entre as legendas. A atuação do governo, livrando-se dos falsos amigos, é muito mais importante do que o trânsito pelos canais sombrios dos políticos superados no tempo e no espaço.

PSDB deveria pedir ao TSE o direito de resposta

Pedro do Coutto
Reportagem de Júnia Gama, O Globo de 6  de maio, revela que a direção do PSDB, partido do candidato Aécio Neves, decidiu encaminhar representação ao Tribunal Superior Eleitoral pedindo que a presidente Dilma Rousseff seja multada por campanha política antecipada, contida no pronunciamento que fez em rede nacional de televisão pela passagem de primeiro de maio. Um erro, absurdo completo, uma atitude que levará ao nada. É evidente que o TSE não vai multar a presidente da República. Perda de tempo.
O que o PSDB deveria fazer, isso sim, é solicitar ao mesmo TSE o direito de resposta no mesmo espaço de tempo e na mesma rede de TV ocupada pela candidata à reeleição. Aí, sim, estaria agindo de forma lógica capaz de conduzir a Justiça Eleitoral ao plano de coerência. Existe amparo legal para proceder assim. Basta examinar o artigo 58 da lei 9.504/97, lei eleitoral, mantido pela lei 12.034/2009, a mais recente sobre a matéria. Embora as duas leis se refiram ao período específico da campanha, pode-se recorrer  à analogia das situações. O poder do Planalto com direito a tudo. A oposição a quase nada, como se comprova da atitude sinuosa, para dizer o mínimo, assumida pelo senador Renan Calheiros visando a adiar a instalação de fato da CPI da Petrobrás. Calheiros se autodesqualificou inteiramente para presidir o Congresso Nacional.
PSB SE OMITIU
Ótimo tema para o PSDB, já que o PSB de Eduardo Campos não se manifestou, omitindo-se. Ao invés disso, o comando tucano, segundo Júnia Gama, optou por responsabilizar, além de Dilma Rousseff, o marqueteiro João Santana (vejam só), o secretário de Comunicação, Tomas Trauman, e o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante.
Francamente, incluir um marqueteiro entre os que infringiram a legislação eleitoral é um ato estúpido. O marqueteiro, profissionalmente, produz o que lhe é mandado fazer.Seu limite está neste ponto. A responsabilidade efetiva e única pertence a presidente da República e às emissoras de televisão. Estas compensariam a divulgação proporcionada com o espaço que abririam ao senador Aécio Neves. Mas talvez esta colocação objetiva seja exigir de mais da direção do partido. E também do comando do Partido Socialista Brasileiro.
O PSD então, numa atitude inédita no quadro político, cogita até de mudar seu estatuto para ir ao encontro do agronegócio. É demais em matéria de incompetência e desorganização. Claro. Inclusive porque Eduardo Campos e Marina Silva se inscreveram na legenda conhecendo pelo menos superficialmente as diretrizes ideológicas da sigla. Que, no passado, teve entre seus integrantes alguém como o jornalista Barbosa Lima Sobrinho. Fugir à realidade não adianta nada de positivo. Pelo contrário.
Recorrer ao direito de resposta seria o melhor caminho. Sem propor multa para Dilma. Pois além de tudo, seu discurso no primeiro de maio, na realidade, abriu a perspectiva de os oposicionistas se utilizarem da mesma rede de TV, no mesmo espaço, no mesmo horário. Afinal de contas, pensar com lógica não custa nada.

Roberto Marinho e Lincoln Gordon esqueceram Costa e Silva

Pedro do Coutto

Num texto brilhante publicado na Folha de São Paulo de 5 de maio, o jornalista Ricardo Melo publica telegrama enviado em 1965 ao Departamento de Estado de seu país pelo embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, sobre o panorama político em nosso país, a partir de conversas que manteve com o jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo. A televisão surgia exatamente naquele ano, resultado de uma associação com o grupo Time-Life, rompida por iniciativa de Marinho cerca de dois anos depois. mas esta é outra questão.

O fato é que, lendo-se o que Gordon enviou a Washington, verifica-se que tal documento partia de pensamentos desinformados a respeito da ditadura político-militar brasileira. Lincoln Gordon, que teve participação de importância no golpe que depôs João Goulart, não revelou, segundo seu telegrama, estar por dentro da situação no Brasil. Roberto Marinho, apesar de seu poder e acesso às fontes de informação, também não. Pois caso contrário, não teria passado ao embaixador a opinião de que o rumo conduzia à reeleição do general Castelo Branco pelo voto indireto.

O que aconteceu, isto sim, foi a prorrogação de seu mandato, que, ao invés de terminar em janeiro de 66, foi estendido para janeiro de 67. Com tal fato, não houve a eleição presidencial de 65. Candidato declarado, o governador Carlos Lacerda sentiu que não era o nome desejado pelo poder militar.

OUTRO PROJETO

A ditadura tinha outro projeto. Aí resolveu romper com Castelo Branco de forma total e contundente. Roberto Marinho e Gordon esqueceram esse episódio fundamental. Ambos também omitiram o apoio total de O Globo à candidatura Negrão de Lima, oposição a Lacerda, ao governo da Guanabara. Negrão foi vitorioso, maioria absoluta dos votos.

Enfurecido, Lacerda passou a tramar contra a posse do eleito. Mais uma vez, Lacerda investia contra a posse legítima do eleito. Assim foi em 55, contra Juscelino, assim aconteceu em 61 contra João Goulart, vice de Jânio Quadros, que renunciou, assim ocorreu em 50 contra Getúlio Vargas. Lacerda, inclusive, escreveu um artigo na Tribuna da Imprensa, antes da sucessão do presidente Eurico Gaspar Dutra, dizendo que Vargas não podia ser candidato. Se candidato, não devia ser eleito. Se eleito (textual), não devia ser empossado. Se empossado, não deveria chegar ao final do mandato.

Rompendo com o governo Castelo, Lacerda abriu uma crise militar dentro do quadro crítico geral. Abalou Castelo e este, para se manter, passou a depender do general Costa e Silva, ministro do Exército. A corrente de Costa e Silva aceitou manter Castelo, mas ao preço da eleição indireta do ministro, pelo voto indireto do Congresso, em novembro de 66.

Nenhuma tendência, nenhum sintoma, nenhuma interpretação feita por Roberto Marinho e Lincoln Gordon voltou-se, em algum momento, para a hipótese de uma divisão já flagrante no sistema da ditadura militar. Gordon conduziu a Casa Branca a um universo de absoluta desinformação. Ambos esqueceram Costa e Silva e não analisaram a cisão aberta nas Forças Armadas, a partir da contradição de Carlos LacErda, de fato o grande ator trágico da política brasileira. Para comprovar o que afirmo, basta consultar a memória dos fatos. Uma sugestão que faço a Ricardo Melo.

Como o PT confirmou Dilma, agora não pode haver recuo


Pedro do Coutto

O encontro nacional que o PT realizou sexta-feira em São Paulo, com a presença do ex-presidente Lula, para reafirmar a candidatura à reeleição de Dilma Rousseff, sobretudo pela repercussão assinalada pelo Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, os três principais jornais do país, tornou irreversível a presença da atual chefe do Exército nas urnas de outubro deste ano. Em artigo anterior, eu já havia focalizado a direção que o tema ia tomar, no momento reforçado pelo gestor e pelo pronunciamento de Luís Inácio da Silva. 

Aliás, os fatos políticos da semana passada foram bastante expressivos. Além da ênfase da Lula no apoio, a reportagem de Cleide Carvalho, O Globo 25de abril, derrubou de modo definitivo a candidatura do ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha ao governo paulista. Não bastasse o texto, uma foto provavelmente divulgada pela internet obriga o Partido dos Trabalhadores a escolher um nome que o substitua. Principalmente porque o desenrolar dos acontecimentos no primeiro colégio eleitoral do país (pesa 23 por cento) inevitavelmente reflete-se no rumo das eleições para o Planalto.

AÉCIO E CAMPOS

Outro fato que possivelmente influirá na pesquisa que o Datafolha divulgará esta semana, foi à aproximação entre os candidatos Aécio Neves e Eduardo Campos. Ambos, claro, empenham-se para que haja segundo turno no pleito para presidente e um deles enfrente Dilma Rousseff, que, se não vencer no primeiro, tem presença assegurada no segundo.

É lógico, porém, estando na frente de Campos, as fotos publicadas nos jornais só podem favorecer Aécio e a conseqUência do erro tático foi logo traduzida na reação contrária de Marina Silva. Ela é vice do ex-governador de Pernambuco, e não base de apoio do senador por Minas Gerais, segundo maior reduto de votos do Brasil. Aécio Neves e Eduardo Campos cometeram um equívoco. Os políticos importantes também erram. Pois abalando o ex-governador de Pernambuco, Neves torna mais difícil uma segunda convocação do eleitorado.

PADILHA FORA

Mas e a questão de São Paulo? O PT precisa recorrer a outro nome para entrar em campo no lugar de Padilha. Quem poderá ser? Os ministros Aloísio Mercadante, da Casa Civil, e Marta Suplicy, tornaram-se inelegíveis, uma vez que não deixaram os cargos até 5 de abril, seis meses antes, como determina a legislação eleitoral. Paulo Skaf, presidente da Confederação Nacional da Indústria, é candidato pelo PMDB. Que fazer? Um dilema complicado.

A solução, sustenta meu amigo Sérgio Wilson, do quadro técnico de Furnas, é tentar convencer Lula a disputar o governo paulista. Não será tarefa fácil, claro, mas só a colocação da perspectiva forçará um recuo de Geraldo Alckmim no apoio a Aécio Neves, embora ambos sejam do PSDB. Por quê? Simplesmente porque Alckmin sabe que Lula só poderá aceitar se a vitória de Dilma correr algum risco. São Paulo, Minas e Rio de Janeiro representam a metade de todo eleitorado nacional. Se Aécio não constituir uma ameaça, a área paulista não se tornará tão importante para o PT. Principalmente na medida em que, indiretamente, por inação, o governador não se empenhar na campanha de seu correligionário. Minas é Minas; São Paulo é São Paulo.

Getúlio, interpretação soberba de Tony Ramos

Pedro do Coutto

O filme de João Jardim é ótimo e apresenta, além da sequência dos últimos dias do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou a 24 de agosto de 1954, uma interpretação fantástica, soberba mesma, do ator Tony Ramos vivendo o personagem título, no trágico desfecho do drama policial e político desenrolado com a morte do major da Aeronáutica no atentado da Rua Tonelero, onde morava o jornalista Carlos Lacerda.

Foi numa noite de 5 (cinco) de agosto, em que o major Rubem Vaz acompanhava Lacerda que havia participado de uma palestra contra o governo Vargas no alto da Tijuca. No atentado, praticado pela guarda do Palácio do Catete, ficou ferido o guarda municipal Sálvio Romero, que acertou um tiro no automóvel, um táxi, que transportava os sicários, assim chamados na época. Esse táxi, vejam só, fazia ponto na rua Silveira Martins, ao lado do Palácio do Catete. Lacerda foi baleado no pé. O autor que ordenou o atentado, Gregório Fortunato, era chefe da guarda pessoal de Vargas. Mas estes fatos os leitores vão identificar no filme. Os personagens também. 

Quando afirmo que a atuação de Tony Ramos é excepcional o faço em função da extrema complexidade do personagem que teve a sorte de interpretar. Personalidade dificílima, portanto obrigando o ator a mergulhar nos sintomas que conseguiu perceber. Impenetrável. Ambíguo, extremamente político e de sensibilidade pouco exposta. Para acentuar essa realidade, hoje histórica, recorro às duas citações, a meu ver chaves, na tentativa e no esforço de traduzi-lo. Carlos Heitor Cony e o senador Afonso Arinos de Melo Franco. O jornalista Carlos Heitor Cony, com o brilho que caracteriza seus textos, separou Getúlio de Vargas.

GETÚLIO SEPARADO DE VARGAS

Getúlio, o homem extrema e profundamente político, transitando e se equilibrando nas mudanças das situações. Vargas, o estadista. O criador do IBGE, do primeiro censo demográfico do país, em 1940, o homem que implantou a Cia. Siderúrgica Nacional, autor da CLT, em 1943, instalando as leis trabalhistas, as férias, o direito à previdência social, o que não existia, o homem que limitou as jornadas de trabalho, criou, em 53, e inaugurou a Petrobras no início de 54. O homem que, ao lado Governador Juscelino Kubitschek, dias antes de morrer, inaugurou à siderúrgica Belgo Mineira. O político que, no poder, enfrentou em 32 a revolução constitucionalista de São Paulo, a intentona comunista de 35, o atentado integralista a (braço de nazismo no Brasil) em maio de 38, no qual esteve a um passo da morte.

Foi também no seu período de ditador, De 37 a 45, que, de 37 a 42, o chefe de polícia foi temível Filinto Muller. Filinto não chegou a 45. Vargas o demitiu em 42, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, a Itália e Japão. Mas não desejo afastar da figura de Vargas. Exatamente vinte após sua morte, numa entrevista à Tribuna da Imprensa, Afonso Arinos traçou uma revisão histórica, assinalando arrepender-se do discurso que fizera em 54, no Congresso, contra o então presidente. Ele não teve nada, como o filme mostra, com o atentado a Lacerda. Na ocasião, na única vez que citou o nome do jornalista, afirmou: “o tiro contra Lacerda foi vibrado nas costas do governo. Só morto sairei do Catete”. Cumpriu a promessa. E o tempo levou Afonso Arinos a fazer, acrescentando a Cony, outra definição essencial sobre Vargas: ele foi um gigante solitário; um enigma até para si mesmo.

Tony Ramos compreendeu o abismo psicológico de um homem da dimensão de Vargas, no desfecho: “Saio da vida para entrar na História”. Não deixem de ver o filme.

Dilma reage ao “Volta, Lula”; prazo é curto para mudança

Pedro do Coutto
 
Ao afirmar que se encontra plenamente consciente da lealdade do ex-presidente Lula a ela, no jantar que ofereceu no Alvorada aos editores das paginas esportivas, a presidente Dilma Rousseff decidiu reagir pública e diretamente ao movimento articulado em certos bastidores contra sua candidatura a reeleição, como também para cobrar o compromisso assumido recentemente em favor de seu nome. Assim desestimulou seu antecessor e grande eleitor a dar ouvidos a políticos motivados a afastá-la do posto. A melhor matéria sobre o assunto, sem duvidas, foi de Natuza Nery e Aguirre Talento, manchete principal da Folha  de São Paulo, edição de 30 de abril. Importante também o texto de Marceu Vieira, publicado no Globo.

Com isso, Dilma Rousseff procurou conter e isolar seus adversários dentro do PT e do PR, algo politicamente muito desejado pelo PMDB, que sente crescer sua importância eleitoral na base aliada, principalmente para ocupar o espaço dos descontentes. Política é assim. Mas o tempo está correndo, o que é fundamental. Exatamente por tal motivo é que a corrente dilmista convocou a manifestação de sexta-feira, no sentido de implantar um clima de pré-convocação.

E por falarem em convenção, verifica-se lendo-se o artigo 8 da lei 9.504/97, Lei Eleitoral, que o prazo para as convenções partidárias destinadas à escolha dos candidatos (e das candidatas) está fixado para o período entre 10 a 30 de junho. Pode ser antecipado se o estatuto dos partidos preverem data anterior. Quer dizer : o processo pode ser antecipado. Nunca adiado. 

Não há tempo, portanto, para uma mudança tão radical quanto a de Lula entrar em campo no lugar de Dilma Rousseff. Sobretudo porque, pela reportagem da Natuza Nery e Aguirre Talento, o estatuto do PT assinala que a convenção se efetue a 29 de junho, dentro do prazo legal. Não importa a queda da atual presidente da Republica nas pesquisas. A legenda e a chamada base aliada têm que ir com ela. Não há outro jeito. Exceto para o Instituto MDA, que realizou levantamento para a Confederação Nacional dos Transporte, Dilma desceu, mas Aécio Neves e Eduardo Campos não subiram.

OS NÚMEROS

Vamos comparar os números mais recentes. O Datafolha apontou 38 pontos para Rousseff, 16 para Aécio, 10 por cento para Eduardo Campos. O Ibope achou 37 para Dilma, 14 para Aécio, apenas 6 pontos para Eduardo Campos. Agora o MDA: Dilma os mesmo 37, Aécio salta para 21 pontos e o ex-governador de Pernambuco, Campos apareceu com 11 por cento das intenções de votos. 

Como se verifica é grande, absolutamente fora do normal, resultado de um desencanto e de uma insatisfação, o índice dos que (hoje) pretendem anular o voto ou votar em branco. O panorama pode mudar, claro. Mas ainda não mudou. Por enquanto o impulso  de mudança reside numa escala do próprio PT. E no PR. Mas caso a candidatura de Dilma Rousseff se mantenha, o que esses petista poderão fazer ? Votar em quem ?  

O doleiro Youssef, vivendo um personagem de Nélson Rodrigues

Pedro do Coutto

Em suas crônicas em O Globo, e na sua obra no plano da arte, Nélson Rodrigues, de quem fui amigo, criou e imortalizou a figura do homem fatal, um personagem-chave no caminho de seus enredos. No futebol, fatal era o que fazia gols decisivos para as vitórias; no palco, aquele que desencadeava os rumos dramáticos. De qualquer forma, representava aqueles cuja presença dimensionava os rumores dos acontecimentos. Me lembro do personagem ao ler a excelente reportagem de Jailton de Carvalho, O Globo de ontem, 29 de abril.

E fico pensando como é possível alguém desenvolver e envolver em torno de si, no sistema de poder e à margem da lei, capaz de desviar e lavar uma gigantesca montanha de dólares. Calcula-se ter movimentado, ao longo dos últimos anos, algo em torno de 10 bilhões. Não é fácil. Unir negociadores em torno de tão longo estado, no país e no exterior, não é tarefa par qualquer personagem comum. Assim, suponho, existe uma força estranha emoldurando sua personalidade.

Uma mistura de sigilo é ostentação, fatores incombináveis, conduzindo seus passos, suas palavras, suas ações. Os telefonemas que trocou gravados pela Policia Federal, refletem essa sua face oculta. Psicologicamente das mais complexas. Não se contentava apenas com o luxo e riqueza. Não. Comprou ate um avião e terminou conduzindo deputado André Vagas ao abismo da ética e da moral.

No fundo, Alberto Yousseff tratava as pessoas como se elas fossem escravos do seu poder. Não tinha a menor consideração pelos seus parceiros. Aparentava, somente, pois se os considerasse socialmente não travaria com eles os diálogos que manteve e que foram amplamente publicados nos jornais, nas emissoras de televisão e nas rádios. Ele estava sempre vários degraus acima e seus sócios nas empreitadas degraus abaixo. Dependiam dele. E ele, como o homem fatal de Nélson Rodrigues, os manipulava à vontade. No fundo, junto com o dinheiro, lhes fornecia um estranho desprezo interior.

Na verdade, em sua visão pessoal, os desprezava e deles se aproveitava. Era ele, no âmago da questão, suponho,  quem tinha menos a perder se as coisa não dessem certo. Fascinado por si mesmo, sobretudo em face de sua ascensão econômica na vida, julgava-se muito mais capaz do que aqueles que dele dependiam para transformar reais em dólares, sucatas em laboratórios e contratos com a administração pública.

Planejou tudo, assumindo transformou num enorme arquivo humano. Das ambições, das fascinações, das fraquezas de uma parte da elite. Revelou os incríveis impulsos e tentações dos que buscam enriquecer de qualquer jeito. E enveredam pela estrada da corrupção. Nesse trajeto sinistro o homem fatal uniu, em raros lances, tanto os corruptos quanto os corruptores.

Lula esquece que foi ele quem demitiu Dirceu

Pedro do Coutto

Numa entrevista à rede de televisão de Portugal (melhor e mais ampla matéria a respeito) foi publicada na edição de 28, da Folha de São Paulo, o ex-presidente Lula afirmou que, numa escala de 80%, a decisão do Supremo Tribunal federal foi de inspiração política no caso do julgamento do mensalão. As declarações de Luís Inácio à RTP, contidas na reportagem da Folha são contraditórias.
Em primeiro lugar, o ex-presidente esquece que foi ele, então no Planalto, quem demitiu o ministro José Dirceu da chefia da Casa Civil, logo que o escândalo veio à tona, em consequência das denúncias do ex-deputado Roberto Jeferson. Se ele, Lula, não tivesse certeza quanto ao envolvimento daquele que chamava de capitão do time, recorrendo à linguagem do futebol para destacar a importância do primeiro ministro de fato de seu governo, não deveria tê-lo afastado antes mesmo dos trabalhos da CPI começarem a se desenrolar. O ato, da demissão, antecedeu até mesmo as conclusões a que chegou a Comissão Parlamentar de Inquérito, principalmente antes da acareação entre os dois principais personagens. Isso de um lado.
De outro, na mesma entrevista à RTP, Lula afirmou que “não vou ficar discutindo uma decisão da Suprema Corte”. Mas como? Foi ele próprio quem disse que o resultado do julgamento do STF foi 80% político, assinalando indireta, porém claramente, que o peso do conteúdo jurídico ficou somente com os 20% restantes. O ex-presidente, assim deixou transparecer, que não se encontrava  num momento emocional compatível com sua importância no quadro político e sobretudo nesta fase de pré-campanha pela sucessão presidencial. Com isso, abalou o movimento volta Lula, dentro do PT, e contribuiu de forma direta para reconsolidar a candidatura da presidente Dilma Rousseff.
SEM EQUILÍBRIO
Lula, apesar do erro, continua a ser o grande eleitor do país, como as pesquisas do Datafolha e IBOPE revelam, porém mais para alguns outros do que para si próprio. Curiosa esta colocação, real na verdade. Me referi a alguns outros candidatos exatamente para excluir dessa lista imaginária o nome de Alexandre Padilha para o de São Paulo, principal colégio de votos do país, sobretudo depois das matérias publicadas pela Veja, pela Folha de São Paulo, pelo O Globo, pelo O Estado de São Paulo, a respeito da presença do Labogen na área administrativa do Ministério da Saúde.
Mas esta é outra questão. O essencial é que nas declarações à rede de televisão de Portugal, transcritas na reportagem da  Folha de São Paulo, Lula não demonstrou o equilíbrio que se espera de um ex-presidente da República, sobretudo se levarmos em conta o potencial de votos que inegavelmente possui e certamente vai direcionar às urnas de outubro.

Se reeleita, Dilma não dependerá mais de Lula

Pedro do Coutto
A revista Veja que circulou sábado, e que portanto se encontra nas bancas, publicou reportagem muito boa de Daniel Pereira e Adriano Ceolin focalizando as divergências entre a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, contradição que estaria – aliás está – dividindo as bancadas do PT no Congresso entre o voto para Dilma nas urnas e o “volta Lula” para a campanha nas ruas do país. A matéria está muito elaborada, inclusive quanto ao desfecho do separatismo.
Não haverá. É impossível substituir uma presidente que disputa a reeleição, a menos que ela renunciasse, por uma decisão da convenção partidária. Inclusive, como Daniel Pereira e Adriano Ceolin destacaram, tal manobra atingiria direta e negativamente o próprio ex-presidente da República. Divergências entre sucessor e sucedido sempre haverá. Não existem duas pessoas iguais sobretudo capazes de concordar com tudo. Estratégia política é outro assunto.
Dilma Rousseff e Luiz Inácio da Silva, em matéria de outubro deste ano, quando o eleitorado vai votar, não possuem linha de recuo. E tem mais: qualquer divisão interna no PT, diretamente amplia a importância do PMDB na campanha eleitoral. Assim, dividindo-se, o PT só tem a perder. Não só no plano federal, mas na disputa em vários estados, a começar por São Paulo e Paraná, dois focos iluminados pela imprensa na teia sinistra articulada pelo doleiro Alberto Youssef, na qual se emaranharam tantas pessoas, da política e da administração estatal.
PERDENDO ESPAÇO
A candidata do PT é Dilma. O que os lulistas de hoje temem é a perspectiva de perderem ainda mais espaço dentro do partido. Pois se for reeleita, como as pesquisas do IBOPE e Datafolha até agora estão apontando, ela deixa de precisar do apoio público de Lula. Ganha vôo próprio. Até porque depois de dois mandatos no Planalto, ela não tem mais futuro político.
Ao contrário de Lula, que já revelou sua intenção de disputar novamente a presidência da República nas urnas de 2018. Nesse quadro lógico, a liberdade, como no hino, abre as asas sobre ela. Dilma tem descido nos levantamentos de opinião, de acordo com o Datafolha e o IBOPE. Mas Aécio Neves e Eduardo Campos não sobem. Sobe a insatisfação generalizada, atingindo os políticos por igual. E o fenômeno, apesar de crítico, não abala a democracia, nem muda a direção concreta dos votos.
Não faltam motivos para essa  insatisfação. Basta lembrar que nos últimos anos três chefes da Casa Civil foram demitidos por fatos graves: José Dirceu, Antônio Palocci, Erenice Guerra. O que dizer da Petrobrás? O cenário entristece e desanima qualquer um.

PT terá que substituir Padilha em São Paulo

Pedro do Coutto

Seja qual for o desenvolvimento ou o desfecho do problema político envolvendo o ex-ministro Alexandre Padilha, episódio revelado pela revista Veja e pelos jornais O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo durante a semana que se encera, a candidatura do ex-titular da Saúde ao governo de São Paulo tornou-se insustentável. Principalmente em face de sua própria resposta que geraram matérias de Marina Dias e Filipe Coutinho, todos estes textos publicados na Folha de São Paulo de sábado, 26 de abril.
A resposta de Alexandre Padilha não alcançou o mesmo tom das acusações, inclusive usou ele uma expressão contida nos Dez Mandamentos (usaram seu nome em vão) inadequada para o contexto no qual foi colocada. Mas sem entrar no mérito da questão,  o fato ocorrido causou um desgaste eleitoral – mais um – para o PT, refletindo-se diretamente na candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição. Porquê isso?
Simplesmente porque São Paulo concentra 22% do eleitorado brasileiro. Um provável recuo nessa base reflete intensamente no quadro geral. Muito sensível, portanto. Sobretudo tem que se levar em conta que o segundo colégio eleitoral em matéria de votos é Minas Gerais e o terceiro o Rio de Janeiro. Os três – São Paulo, Minas e Rio – representam  pouco mais de 50% dos votantes. Minas Gerais constitui, sem dúvida, um obstáculo para Dilma e no Rio de Janeiro a confusão é geral.
Não apenas em função do grande número de candidatos, mas porque, no final das contas, hoje, não se sabe quem vota em quem. Ora o governador Fernando Pezão é quem apoia a presidente da República, ora é o senador Lindbergh Farias, ora é o senador Marcelo Crivella. O ex-governador Sérgio Cabral está com Dilma. Porém o presidente do PMDB fluminense, ex-deputado Jorge Piciani, anunciou aos jornais que comanda a abertura de uma dissidência em favor do senador Aécio neves. A confusão é geral.ONFUS
CONFUSÃO GENERALIZADA
Agravando o panorama do Rio de Janeiro, são candidatos ao governo, além de Pezão, que aparece pouco nas pesquisas, Anthony Garotinho, Marcelo Crivela, Lindbergh Farias, os principais nomes entre outros. Para o Senado, ainda não se sabe se Francisco Dornelles disputará a recondução contra Sérgio Cabral. Como se vê a confusão é generalizada. Mas esta é outra questão, em relação à qual Dilma não pode interferir. Mas pode (e deve) interferir em São Paulo, ponto estratégico vital para sua campanha.
Todos estes são problemas, além do desgaste no Paraná, outra unidade expressiva em matéria de votos por causa das ações vergonhosas desencadeadas pelo deputado André Vargas e pelo doleiro Alberto Youssef. O desastre político, administrativo, eleitoral, causado pela dupla não tem fronteiras. Vai do Brasil a Pasadena, no Texas, Estados Unidos, onde aconteceram surpreendentes pagamentos. Enormes, acrescente-se.

Renan acentuou divisão na base do governo

Pedro do Coutto

Decidindo recorrer ao plenário do Supremo – recurso impossível já que a própria ministra Rosa Weber já tomou a iniciativa, o que o senador Renan Calheiros na realidade desejou fazer foi acentuar a existência de uma divisão na base aliada do governo no Congresso Nacional. E como o próprio PT resolveu não recorrer e aceitar a CPI da Petrobrás, Renan tentou, de fato, destacar a importância do PMDB, seu partido, junto a presidente Dilma Rousseff. Não pode ser outra a interpretação, pois se o PT, principal partido do governo admitiu finalmente a Comisso Parlamentar de Inquérito, por qual motivo o PMDB deveria agir em sentido contrário?

A manobra não vai surtir efeito, pois a divisão na base aliada é muito mais profunda do que parece. Há inclusive uma corrente do PT revelando insatisfação com os reflexos políticos do rumo da administração.
Agora mesmo, como O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo publicaram em suas edições de sexta-feira, a teia sinistra de corrupção com a participação do doleiro Yousseff estendeu-se até São Paulo, principal colégio eleitoral do país, podendo abalar a candidatura do ex-ministro Alexandre Padilha, lançado por Lula e Dilma ao governo paulista, A crise assim se aprofundou à base talvez da coincidência calcada no fato de um ex-auxiliar de Padilha na pasta da Saúde, da qual era titular, ter passado, depois de ser demitido, a integrar a equipe de Alberto Yousseff e outros sócios do fantasioso Labogen, laboratório que teve seu contrato rescindido depois de duvidosa assinatura. Mas esta é outra questão.
CPI DA PETROBRAS
O essencial desloca-se, neste momento, para o cumprimento da liminar de Rosa Weber e instalar a CPI do Senado, ou então a CPI do Congresso, incluindo representantes da Câmara também. Seja qual for o entendimento final, cabe à presidência do Congresso assumir tal providência. Ocupada neste instante pelo senador Jorge Viana, já que Renan Calheiros encontra-se em Roma para o ritual das solenidades que envolvem a canonização do padre José de Anchieta pelo Papa Francisco. Jorge Viana torna-se assim o responsável pela entrada em campo da CPI, agora coberta com a adesão do PT. Que decidiu também pela renúncia do deputado André Vargas.
Afinal de contas, as ações de André Vargas e Yousseff deixaram no seu rastro uma perplexidade geral no eleitorado e uma desarticulação enorme no sistema de poder do país, além de lançar uma atmosfera de pessimismo sobre o governo. A presidente Dilma Rousseff tem que agir rapidamente. Ela necessita sair da defensiva. É negativo para sua candidatura.

Rosa Weber impede recurso suspensivo no caso da CPI

 

Pedro do Coutto

Em sua edição de quarta-feira, reportagem de Carolina Brígido, O Globo publicou a decisão da ministra Rosa Weber, concedendo liminar à ação oposicionista a do Congresso para que a CPI recentemente constituída se restringisse aos fatos ocorridos na Petrobrás e não, como aparentemente desejava a maioria governista, fosse extensiva a outros acontecimentos ligados à corrupção envolvendo correntes políticas hoje na oposição.
A decisão da ministra do STF, acolhendo a liminar e remetendo seu despacho ao plenário da Suprema Corte, reveste-se de uma consequência fundamental quanto a decisão. A iniciativa bloqueia qualquer recurso governista ao tribunal pleno, o que poderia levar a um eventual efeito suspensivo, ou a uma tentativa nesse sentido. Remetendo sua decisão monocrática ao próprio Supremo, o recurso tornou-se impossível simplesmente por falta de motivo concreto. Não há, assim, nem motivo, nem pretexto.
As oposições, a partir de agora, podem cobrar da presidência do Senado (pedido original) ou do Congresso, caso seja ela formada por deputados e senadores, a instalação das investigações com as respectivas convocações. Não existe obstáculo, a menos que o ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, convoque imediatamente o leno da corte e, por maioria, decida derrubar a liminar. Mas isso não é provável.
“CONVIDADOS”
Aliás, a CPI muda pouco o panorama, já que acusados no episódio Passadena, como ex-diretores, já se prontificaram a comparecer à Câmara na condição de convidados. Os convites, vale destacar este aspecto, foram aprovados com alguns votos do próprio PT, o que leva a acreditar que o capítulo Petrobrás causou divisão na chamada base aliada do Planalto.
Não se encontraria ela, portanto, com a solidez esperada pelo Executivo. E no caso de Passadena, envolvendo Paulo Roberto Costa, Nestor Cerverá, Sérgio Gabrielli, tanto faz deporem numa CPI como convocados, ou numa Comissão Técnica na qualidade de convidados. As informações não se alteram por causa disso. E não se pode restringir as indagações à existência das duas cláusulas contratuais com a empresa do barão belga. Devem abranger também seu conteúdo, uma vez que a ruptura de uma sociedade na escala de um bilhão de dólares não pode ser estabelecida à base de motivos fúteis ou simples. Não é possível que assim seja. Este aspecto, essencial, tem que ser examinado também. Pois denúncias não faltam. Faltam explicações convincentes.
A maioria governamentista, agora, não possui meios para evitá-las. Sobretudo porque, politicamente, as tentativas de bloqueio da CPI encontram-se, no fundo, causando mais desgaste ao governo do que coloca-la em funcionamento. Porque sem ela aumenta a pressão e a cobrança pública aumenta.

E se Neymar não puder jogar na Copa?

Pedro do Coutto  

Na edição de quarta-feira 23 de abril, a Folha de São Paulo publicou reportagem de Marcel Rizzo – muito boa – revelando viagem que o treinador Felipe Scolari, o coordenador Carlos Alberto Parreira e o auxiliar Flávio Murtosa realizaram a vários países para realizar contatos com sete titulares da Seleção Brasileira que apresentam problemas de vários tipos no exterior. Número alto, correspondendo a mais da metade da equipe. Estamos, lembra Marcel Rizzo, a 50 dias do início da Copa do Mundo. Está em cima da hora, sobretudo porque a lista dos convocados tem de ser anunciada à FIFA até 13 de maio.
Não sei porque as páginas esportivas até agora não procuraram Felipão para tentar ouvi-lo sobre a hipótese de Neymar não se livrar dos reflexos da contusão que o atingiu e não puder entrar em campo. Afinal de contas, o Barcelona revelou que prevê sua volta ao time daqui a quatro semanas. Uma já se passou, faltam três, portanto. Mas a parada de um mês é muito longa. E existe a hipótese de a plena recuperação exigir mais tempo. Qual a alternativa, já que sua ausência obrigaria a mudanças táticas sensíveis. Neymar é um gênio na arte do futebol sobretudo do meio campo para a frente. Vem tocando a bola de trás e, como todos sabem, é brilhante nos arremates.
INSUBSTITUÍVEL?
Sua falta criaria um problema dos maiores. Claro que não é insubstituível. Nem Pelé, o maior de todos os tempos, foi. Lembrando 62, ele sofreu distensão muscular na primeira partida contra a Tchecoslováquia. Naquele tempo não havia substituição no meio das partidas. Contra a Espanha entrou Amarildo, então no Botafogo, em seu lugar. A partir daí uma sequência de vitórias. Fomos campeões do mundo. Ninguém é insubstituível.
A propósito, me surge da memória um belo artigo do jornalista Achiles Chirol, no antigo Correia da Manhã, que como ele se foi na névoa do tempo, acentuando que se a Seleção dependesse de um só homem para vencer, por mais genial que fosse, não seria o futebol brasileiro. Garrincha foi excepcional para a consagração. Ocorre agora, no entanto, que a maioria da equipe de Felipão joga em clubes fora do Brasil. Dos sete titulares apontados pela Folha de São Paulo, apenas Fred, do Fluminense, joga aqui. E tal realidade é bastante prejudicial à formação da equipe. E se Felipão, a vinte dias de convocá-los, tem dúvidas, quanto mais os torcedores, cuja presença nos estádios é fundamental.
É o momento de Felipão falar e, acima de tudo, se concentrar mais na Seleção e na escolha da equipe incluindo alternativas táticas e técnicas. A mais importante neste momento: como armará o time se Neymar não puder estar presente. Uma incógnita. E o futebol não vive de mistérios. Ao contrário. Exige transparência.

IBOPE: insatisfação ainda não muda quadro eleitoral

Pedro do Coutto

A pesquisa do IBOPE, objeto de matéria de Cristiane Jungblut, O Globo de sexta-feira 18, assinala a existência de acentuada insatisfação mais com a política em geral do que com o quadro eleitoral. Tanto assim que, em relação ao levantamento anterior, Dilma  Rousseff desceu três pontos, descendo de 40 para 37% das intenções de voto, mas Aécio Neves e Eduardo campos não subiram, o primeiro registrando 14, o segundo apenas 6%.
A insatisfação está registrada no elevado índice dos que hoje votariam em branco ou anulariam o voto: 24%. E também quanto a forma de governar da atual presidente: 47 aprovam mas 48% desaprovam. A reação contrária está aí. Mas é geral. Tanto assim que, com 37%, Dilma venceria no primeiro turno. Isso porque com 24% de nulos e brancos, para efeito de maioria absoluta, 76 passa ser igual a 100. Trinta e sete é quase a metade. Devendo-se considerar também que uma parcela de 9% disse não ter ainda se definido. Esses 9 pontos não vão para uma candidatura só.
Além do mais existem inúmeros candidatos. O pastor Everaldo registrou 2 pontos, o senador Randolfo Rodrigues – aliás, bom parlamentar – assinalou 1 ponto. Mas esta é outra questão. O essencial é que existem motivos de sobra para a insatisfação descoberta. Os aposentados e  pensionistas do INSS têm motivos para estarem satisfeitos? No Rio e São Paulo, por exemplo, duas grandes capitais, são bons os transportes coletivos? O saneamento, de modo geral, a segurança pública?
Vejam os leitores o que aconteceu em Salvador. Uma greve da Polícia Militar deu margem a saques em supermercados e arrombamentos de lojas comerciais. Foi um desastre social. No Rio de Janeiro, a Arquidiocese cancelou as celebrações da Semana Santa por falta de segurança. Em frente à Catedral Metropolitana estavam concentrados os que foram tirados da invasão do terreno da empresa OI, no Engenho Novo.
Enfim, motivações não faltam para essa insatisfação que o IBOPE revelou. E que falar do real custo de vida? Da eterna compressão salarial? A questão, portanto, é de amplitude enorme. O que está acontecendo, porém, é que Dilma recuou três degraus, mas Aécio e Campos não avançaram. Pode ser que venham a ocupar o espaço da insatisfação e de mais e de mais uma nova esperança. Porém, até agora, não deram sinal que conduza concretamente a tal perspectiva. Por enquanto, o desejo de mudança abrange todos os candidatos. A vantagem de Dilma Rousseff permanece. O resto são hipóteses. Hipóteses não são fatos.

Assaltos se repetem com o sol por testemunha

Pedro do Coutto

Os feriados e finais de semanas com sol pleno vêm sendo marcados não só pela procura de lazer por parte de centenas de milhares de pessoas nas orlas do mar da zona sul do Rio, mas também pelos assaltos em série que se repetem já de forma insuportavelmente rotineira, e também por arrastões praticados por bandos organizados. A quarta-feira que passou foi outra vez palco de violência como a reportagem de Célia Costa e Renata Leite, O Globo  do dia seguinte assinalou. Como inclusive assinalou a empresária Viviane Oliveira a respeito do episódio mais recente, a Polícia tem que ocupar um espaço para agir de forma preventiva.

Os prejuízos, claro, são enormes para a cidade e para todos. À proporção em que se repetem tais ações criminosas aumenta a insegurança coletiva. Ir à praia expor-se ao sol e ao sal tornou-se uma ação de riso. Cada vez maior, diga-se de passagem, pois a ousadia dos bandidos cresce a cada semana, Ipanema, Leblon, Copacabana, Arpoador, constituíram-se em cenário dos confrontos. Há algo estranho em tudo isso. A repressão deve ser substituída pela prevenção. Pois repressão significa agir em consequência de algo que já ocorreu infelizmente. A prevenção deve mostrar sua força de persuasão para impedir os acontecimentos deploráveis que, no fundo, de uma forma ou de outra, de uma Maira ou de outra, afetam a sociedade.

A violência gerada pelas ações criminosas irresponsáveis influi na consciência e no comportamento coletivo. As pessoas já evitam sair com objetos de pequeno valor expostos por temerem chamar atenção e assim tornarem-se Aldo dos assaltos. Basta esta colocação para se transmitir a atmosfera existente no Rio.

Uma verdadeira calamidade. Com os  assaltantes liberados, impunes após breves passagens nas delegacias, os atos se repetem. O sol é testemunha, a população, de modo geral, a vítima do descalabro. Afinal de contas, como foi possível a situação de desordem chegar a esse ponto? Não é apenas um caso de omissão. Pior. De proliferação. Isso porque os bandos que praticam arrastões vêm se tornando cada vez mais numerosos e assim mais difíceis de combater. As situações críticas acumularam-se através do tempo. Anulá-las, agora, exige um esforço muito maior do que aquele que deveria ter sido despedido e não foi. Turistas passaram a ser agredidos, como comprovam os depoimentos revelados pela reportagem de O Globo.

POLICIAMENTO

O policiamento foi reforçado, mas nem por isso conteve a ação dos criminosos que foram em frente ultrapassando as barreiras que surgiram. E, ainda que pareça incrível, a repressão policial não recebeu o apoio que merecia. O que está acontecendo? Roubos e arrastões que merecem repulsa unânime, estão motivando conivências, não apenas pelo silêncio, o que por si já seria desanimador, mas também por atitudes aparentes que deixam transparecer uma concordância absurda, por mais estranho que pareça. Mas tal aspecto extremamente negativo encontra-se assinalado na matéria que dimensiona nitidamente a sensação reinante da insegurança que se expande. Expande é a palavra certa para mostrar o quanto é urgente uma ação policial coordenada e racional. Pois, no fundo, a apropria vida humana encontra-se sob risco. Torna-se imperioso que o exemplo de quarta-feira torne-se um marco efetivo para um novo estilo de atuação por parte da Segurança Pública.

Intenções de voto ampliam margem em favor de Dilma

Pedro do Coutto

A nova pesquisa do Ibope a respeito das intenções de voto para a sucessão presidencial de 2014, objeto de reportagem de Leonardo Guandeline, O Globo de 19/11, ampliou a margem a favor de Dilma Rousseff, não só porque ela registrou avanço em relação ao levantamento anterior, mas também pelo fato de seus adversários não terem  reduzido sua vantagem, mantendo portanto estagnado o panorama da disputa, sob a ótica de hoje. Foram considerados pelo Ibope quatro cenários alternativos: ela contra Aécio Neves e Eduardo Campos. Contra Marina Silva e Aécio. Contra Serra e Campos. Finalmente na hipótese de enfrentar José Serra e Marina Silva. Em todas as situações são bem altos os índices dos que, no momento, se dispõem a anular o voto ou votar em branco. Mas como os sufrágios nulos e brancos são afastados para efeito do cálculo da maioria absoluta, a atual presidente alcançaria essa maioria logo no primeiro turno, acentua a pesquisa.

O quadro está frio. Tanto assim que é elevada também a percentagem dos que não souberam (ou desejaram) responder à consulta. De qualquer forma permanecem as indefinições na área oposicionista: Aécio ou Serra no PSB; Marina ou Eduardo campos no PSB. Interessante confrontar  as intenções de voto entre eles. O ex-governador paulista reuniu 19 pontos, superando Aécio que ficou com 14. No PSB, Marina Silva atingiu 16 pontos contra 7 de Campos. Mas ocorre, no Partido Socialista Brasileiro, que a ex-ministra do Meio Ambiente recuou  de21 para 16 pontos, enquanto Campos caiu de 10 para 7%. A campanha, é verdade, ainda não começou. Mas até agora a disputa não despertou entusiasmo. Estivesse, tal característica iria se refletir na dança dos números. A impressão que passa é que a sociedade está interpretando a sucessão de 2014 como algo que já houvesse acontecido. Parece ter se estabelecido um consenso como se a reeleição fosse algo inevitável ou então como um fato consumado. As oposições ainda não encontraram sua linguagem. Nem mesmo o conteúdo sobre o qual pretendem desenvolver seus temas e sua atuação.

CENÁRIO POR CENÁRIO

Vejamos cenário por cenário. Dilma subiu de 41 para 43 pontos; Aécio ficou com 14; Eduardo campos desceu de 10 para 7%. NO segundo cenário, Rousseff avançou de 39 para 42; Marina desceu de 21 para 16; Aécio Neves permaneceu em 13. No terceiro cenário, Dilma cresce de 40 para 41 pontos; Serra aumenta de 18 para 19; Eduardo Campos cai de 10 para 7%. No quarto cenário alternativo, Dilma sobe de 39 para 40%; Serra avança de 16 para 17 e Marina Silva passa projeções simuladas no cão de segundo turno: Dilma derrotaria Aécio por 47 a 18; venceria Marina por 44 a 24 pontos; bateria Eduardo campos a 12%.


Os resultados acentuam razoável vantagem de Serra sobre Aécio e diferença muito grande (mais que o dobro) das intenções de votar em Marina Silva do que ir às urnas com o governador de Pernambuco. Em síntese: enquanto os partidos de oposição não definem seus rumos e os nomes com os quais vão disputar as eleições, a atual presidente da república vai seguindo seu rumo mantendo ampla liderança. A pesquisa foi feita pouco antes das prisões do mensalão. Vamos ver como será depois delas. Pessoalmente não creio que possam causar mudança de peso no quadro.