Erundina diz que sistema político está exaurido

Marina Silva
Folha

A deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP) diz que não existe ‘coerência política’ nas alianças regionais que seu partido tem fechado para fortalecer a pré-candidatura do governador Eduardo Campos à Presidência.

Na semana passada, o PSDB de Pernambuco aderiu ao governo de Campos. Erundina critica a natureza das decisões e afirma que elas não passaram pela Executiva Nacional do PSB. Apesar das ressalvas, ela diz que Campos ‘tem o desejo de fazer as coisas de maneira diferente’.

Em que medida a entrada do PSDB no governo de Eduardo Campos altera o acordo entre PSB e Rede?

Cada caso é fruto do sistema político exaurido, esgotado em responder às demandas da sociedade. Mantemos regras, normas e sistemas partidários e eleitorais defasados, sem identidade, e isso explica esse caos que existe nas políticas de alianças locais. A certeza que tenho é que não há coerência política a ponto de se conseguir dar unidade a alianças que podem ser reproduzidas no resto do país.

PSDB e PSB acordaram possíveis alianças em Pernambuco, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Sul e São Paulo. Qual é o limite para esses acordos acontecerem?

Isso já está dado. O processo já andou tanto, as conversas já se deram com tanta frequência e não passaram pelas direções partidárias. Marina Silva insiste em encaminhar as coisas de outra forma, mas é uma tentativa muito recente. A junção entre PSB e Rede é salutar, é a construção coletiva de um processo novo e vamos acumular para, se não for nessa eleição, introduzir algo novo num futuro que espero ser próximo.

O presidente estadual do PSB-SP, Márcio França, articula há meses um acordo para ser vice na chapa de Geraldo Alckmin. Mas interlocutores dizem que Marina e Campos conversaram e que essa possibilidade agora ‘tende a zero’.

A partir da aliança PSB-Rede esse quadro se encontra mais complicado.

É mais importante o PSB ter um candidato próprio ou se aliar ao PSDB de Alckmin?

Defendo candidatura própria junto com a Rede para construir uma nova força política e quebrar a polarização PT-PSDB, que é artificial, já que os dois partidos têm muita identidade do ponto de vista de alianças e propostas políticas. Precisamos introduzir novos elementos para renovar a política brasileira. Essa história de palanque duplo, palanque triplo, é um absurdo, é contribuir para esse quadro político caótico.

Pena de morte à brasileira

Murilo Rocha

O sistema prisional brasileiro já adota há muito tempo a pena de morte. Todos os anos dezenas de detentos são executados em penitenciárias administradas pela União ou pelos governos estaduais. O retrato mais recente e evidente dessa barbárie é o complexo prisional de Pedrinhas, no Maranhão. Só em 2013, 60 presidiários foram mortos na unidade em rebeliões ou brigas entre facções criminosas.

As mortes violentas e a falta de poder dos governos para controlar esses locais – e torná-los centros de ressocialização – não são novidade no Brasil, mas, quase sempre, são ignoradas. Dessa vez, porém, foi impossível esconder essa realidade cruel ocorrida sob a tutela do poder público.

As cenas filmadas e divulgadas de presos decapitados e esfaqueados dentro do presídio de Pedrinhas são chocantes. Evidenciam um local destituído de qualquer humanidade, um amontoado de pessoas em condições miseráveis vivendo em um mundo paralelo, com leis próprias.

O pedido do Comissariado de Direitos Humanos da ONU para uma investigação “imediata e imparcial” soa como mera formalidade. Os presídios brasileiros transformaram-se em espécies de território do crime organizado, onde a polícia e qualquer outro braço do Estado não têm força (ou vontade) para intervir.

REINO DO CRIME

Como será possível investigar as mortes dentro da penitenciária, se não consegue-se evitar os crimes ordenados por detentos, mas realizados nas ruas – vide ônibus incendiados, postos policiais metralhados e assassinatos encomendados.

A crise no Maranhão é uma repetição de fatos já ocorridos em outros Estados do país, como em São Paulo, onde por determinação de presidiários policiais foram executados. São Paulo também foi palco do “Massacre do Carandiru”, quando, em uma ação policial para conter uma rebelião, 111 presos foram mortos.

OMISSÃO

A questão prisional é tratada com omissão pelo poder público porque também encontra respaldo em uma certa conivência da sociedade com o tratamento dado aos encarcerados. Acuada pela violência crescente, boa parte da população reage de forma simplista ao problema e não se incomoda tanto com essa crise interminável do sistema carcerário. Afinal de contas, “ali não tem santo”.

Diante dessa lógica de aceitar a existência de um mundo cruel, sem leis nem dignidade dentro das penitenciárias brasileiras seria melhor introduzir de forma oficial a pena de morte.

É desumano ser conivente com essa matança, com práticas bárbaras, como se fosse um problema distante ou sem solução. Os cerca de R$ 1 milhão a serem gastos pela governadora Roseana Sarney com lagosta, camarão, sorvete e salmão para abastecer sua residência oficial não resolveriam a mazela do complexo de Pedrinhas, mas teriam um emprego mais digno. (transcrito de O Tempo)

Dados da Justiça Eleitoral ajudam a quebrar mitos da política nacional

Lucas de Abreu Maia e Rodrigo Burgarelli
O Estado de S.Paulo

Quando olhados em conjunto, os registros de filiação partidária no Brasil parecem quebrar alguns velhos mitos sobre o funcionamento da política brasileira. Talvez o principal deles seja o da “política de gabinete”, termo usado para descrever conchavos políticos feitos por chefes partidários que, em tese, teriam o poder de determinar o resultado de uma eleição ou a montagem de um governo, por exemplo.

É claro que as articulações na cúpula do poder contam bastante para definir candidaturas e apoio político nas eleições estaduais e nacionais, assim como nos maiores municípios. Mas os dados mostram que, nas pequenas cidades, que é onde está o grosso dos cargos eletivos brasileiros, a mobilização popular antes do pleito para engrossar as filiações tem peso considerável no sucesso eleitoral dos partidos.

Essa mesma lógica derruba a ideia comum de que a atividade política no Brasil se concentra nas cidades grandes, onde vive população de maior renda e maior escolaridade. Os registros do TSE mostram justamente o contrário: a média de filiados por eleitor em um município com menos de 5 mil habitantes é quase três vezes maior do que a de uma grande cidade com mais de 200 mil pessoas.

ELEIÇÕES MUNICIPAIS

A importância desse fenômeno é óbvia: mais filiações significam maiores chances de eleger prefeitos, ou seja, mais apoio nas eleições para o Congresso nos anos seguintes. Isso, por sua vez, influencia no tempo de TV das próximas eleições e, eventualmente, pode culminar em maiores chances de se ganhar uma corrida presidencial.

Por último, há o mito de que brasileiro não quer saber de política. Na verdade, a taxa de filiação partidária no Brasil – ou seja, de pessoas que realmente gastaram seu tempo indo até o diretório de um partido, preenchendo a ficha de filiação e se registrando na Justiça Eleitoral – é maior do que todos os países europeus, com exceção da Áustria e do Chipre.

A média brasileira, como aponta o professor da Unicamp Bruno Speck, é de um filiado a cada dez eleitores, o dobro da registrada na Espanha e o triplo da alemã, por exemplo. Participação e engajamento político significam muito mais do que apenas filiação, mas esses números podem apontar que o senso comum sobre a relação do brasileiro com a política talvez seja um pouco diferente da realidade.

Ministros devem sair do governo até abril para disputar eleições


André Richter
Agência Brasil

Brasília – Os ministros do governo federal que pretendem concorrer a um cargo eletivo nas eleições de outubro devem deixar o cargo até o dia 5 de abril, seis meses antes do primeiro turno. A regra está prevista na Lei de Inelegibilidades (Lei Complementar nº 64/1990), norma que estabelece os prazos para que agentes públicos saiam do governo para não ficarem inelegíveis.

De acordo com a lei, além de ministros de Estado, magistrados, presidentes, diretores e superintendentes de empresas públicas e chefes de órgãos que fazem assessoramento direto também devem pedir exoneração na mesma data. Candidatos a reeleição para os cargos de governador e presidente da República não precisam sair do cargo.

Para cumprir a lei eleitoral, a presidenta Dilma Rousseff já anunciou que a reforma ministerial do governo vai começar na segunda metade de janeiro. A substituição de ministros estará concluída até o carnaval, em março, segundo a presidenta. Vários ministros da equipe de Dilma que pretendem se candidatar nas eleições de outubro devem deixar o governo e ser substituídos.

As demais regras eleitorais para a administração pública começam a valer a partir de hoje (1º). O governo fica proibido de distribuir bens, valores e benefícios, exceto em casos de calamidade pública e de programas sociais previstos em lei. A partir do dia 4 de abril, será proibido aumentar salários de servidores públicos, bem como repor perdas causadas pela inflação.

NOMEAÇÕES VETADAS

No caso de concursos públicos, os candidatos não podem ser nomeados  três meses antes das eleições até a posse dos eleitos. De acordo com o Artigo 73 da Lei das Eleições, agentes públicos, servidores efetivos ou comissionados, não podem nomear, contratar ou transferir servidores durante o período.

Em maio, começam a valer os prazos para os eleitores: o dia 7 é o último para pedir transferência do título de eleitor para outra cidade, para alterar o endereço no cadastro eleitoral e para portadores de deficiência pedirem acesso a seções especiais de votação.

As convenções partidárias para escolha dos candidatos e definição das coligações estarão autorizadas de 10 a 30 de junho. Os partidos terão de definir seus representantes para concorrer aos cargos de presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador, senador e respectivos suplentes e deputados federal, estadual e distrital.

A propaganda eleitoral nas ruas e na internet será liberada no 6 de julho e a campanha no rádio e na televisão começará no dia 19 de agosto.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGA reportagem, para ficar completa, precisaria registrar que os magistrados têm prazo até 5 de abril para se filiarem a partidos e disputarem a eleição. É justamente é o caso do ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo, que tem “cara de candidato, pinta de candidato e roupa de candidato” (como diziam os geniais compositores Luiz Reis e Haroldo Barbosa), está em plena campanha, mas ainda não diz que é candidato. (C.N.)

A Sagração das Hemácias

Jacques Gruman

Meus primeiros heróis vieram dos gibis. Além dos tsunâmicos personagens do Disney, não desgrudava do Mandrake e do Fantasma. Pouco me importava com o que considerava pequenos detalhes: o criado Lothar e os pigmeus da tribo Bandar, por exemplo. Eram coadjuvantes sem peso nas histórias centrais. Também não reparava, imagina !, na estrutura familiar, muito esquisita, do Pato Donald, e na origem supersticiosa da fortuna do tio Patinhas. Era um mundo sem tons cinza. Mocinhos impecavelmente galantes, honestos, generosos, valentes, despojados. Vilões siderúrgicos: viviam para dominar, tiranizar, agredir, roubar, conspirar. Em ambos os casos, por obra e graça do Espírito Santo, por punições ou privilégios genéticos. O que poderia um Menino entender de nuances psicológicas ou identidades de classe ? Melhor viver num universo onírico, de Fla-Flus plasmados em quadrinhos, do que encarar as sopas de abóbora.

E então vieram os anos 70. Não sobrou pedra sobre pedra. O chileno Ariel Dorfman escreveu o clássico Para ler o Pato Donald. Com ele, aprendemos que “o papel da literatura infantil na sociedade capitalista, desenvolvida ou não, é contribuir para que a criança interprete as contradições da realidade – como o autoritarismo, a pobreza e a desigualdade – como naturais.” Conta-se, a esse propósito, uma história deliciosa, que jamais descobri se verdadeira. Os responsáveis pelas edições Disney na Itália resolveram transgredir a norma naturalizadora.

Criaram uma história em que os irmãos Metralha, sempre à caça da moeda número 1 do tio Patinhas (suposta fonte da riqueza do pato sovina), têm uma ideia luminosa. Percebem que aquele talismã era uma cortina de fumaça. A verdadeira origem da fortuna do Patinhas eram seus bancos, fábricas, fazendas. Em suma: os meios de produção e distribuição, a extração de mais-valia. Dos neurônios à ação. Os Metralha se organizam e, aos poucos, se apoderam do patrimônio físico do Patinhas, que, ato contínuo, empobrece. A moedinha xamânica não passava de patacoada ! Resultado da ousadia: a edição foi rapidamente recolhida das bancas.

QUEM ERA LOTHAR?

O olhar crítico não parou por aí. Quem era Lothar ? Um príncipe africano, que renunciara à nobreza de seus ancestrais, à sua cultura, a seus valores mais caros, para servir ao homem branco. Um homem branco que, à semelhança do tio Patinhas, é rico, mas não há pistas para a origem e a manutenção da riqueza. É rico … porque é. Sua vida amorosa é deserotizada, como costuma acontecer com os heróis dos quadrinhos. Todos chegados a uma paixão platônica. O colonialismo é tão explícito quanto no domínio do Fantasma sobre a tribo Bandar. Os pigmeus têm uma adoração incondicional pelo Espírito que Anda, que acreditam imortal.

O Fantasma usa essa crença para manter a dominação sobre aqueles africanos e, através dela, estende a submissão aos demais povos locais. Interessante notar como o Fantasma, entre outros, foi “convocado” pelo exército americano, durante a Segunda Guerra Mundial, para combater a invasão japonesa na região do Pacífico. Em gibis dos anos 40, os orientais eram retratados como idiotas de óculos, presas fáceis das zarabatanas dos pigmeus e da astúcia invencível do Fantasma. A guerra ideológica, montada em ignorância, escancarava um mal-disfarçado racismo. Pelas barbas do profeta ! Que heróis, hem ? 

UM PESO GALO

Fora das bancas de jornais, o Menino admirou um peso galo. Estranhou muito o nome. Peso galo significaria um boxeador com crina ? Esporas ? Cantava de madrugada ? Quando via Eder Jofre nos ringues, no entanto, o que importava eram as sucessivas vitórias. Engraçado, não se compadecia dos derrotados, muitas vezes desmaiados depois de surras impiedosas. Tempos depois, veio Muhammad Ali. Um dançarino que esmurrava. Uma elegância que contrastava com a potência de golpes que machucavam e mutilavam. No auge da fama, recusou-se a servir na guerra do Vietnã e foi condenado à prisão.

“Que razão tenho para atirar contra uns caras que não me chamam de crioulo (nigger) e não estupraram ninguém da minha família ?”, perguntou. Sabia o que estava dizendo. O racismo norte-americano nadava de braçada. Menos de 20 anos antes, durante a Segunda Guerra Mundial, o preconceito contra soldados negros era feroz no exército ianque. Ficava a pergunta: como é que uma luta, cuja finalidade é “apagar” o adversário, desligar suas funções cerebrais, pode ser considerada um esporte?

VERSÃO DO COLISEU

Saímos do ringue e entramos no octógono. Aos socos do box, se juntaram os pontapés, joelhadas, caneladas e cotoveladas do MMA. Nesta versão moderna e globalizada do Coliseu romano, não sei o que é mais abjeto: a carnificina selvagem que acontece na arena, os urros descontrolados do público pedindo sangue ou a transmissão ufanista de locutores hipnotizados por cifrões. Mesmo com imagens que remetem à nossa ancestralidade animal, mercadores da dor e do sofrimento insistem em incluir o MMA na categoria de esporte. O culto às celebridades instantâneas, como Anderson Silva, cria nas comunidades pobres a ilusão de que a pancadaria é atalho para a fama e a riqueza. Os brutamontes, cercados de seguranças e marqueteiros, visitam as periferias divulgando seu “trabalho” e abrindo academias. Treinam a molecada na arte de quebrar a cara do outro, alegando que, desta forma, “afastam os menores do crime e do abandono”. Como se não existissem alternativas para canalizar a agressividade que cada um de nós carrega desde o berço.

Os praticantes sofrem de males neurológicos causados por pancadas frequentes na cabeça. Tremores e Mal de Parkinson são comuns em boxeadores. Ossos submetidos a golpes sucessivos e regulares ficam fragilizados, o que pode ter contribuído para as fraturas de Anderson Silva. Foram mostrados de todos os ângulos e velocidades, na vulgar espetacularização da violência a que estamos nos habituando. Como bem observou Ricardo Melo na Folha de São Paulo, num país onde as rinhas de galo são proibidas, é um absurdo que o MMA seja uma prática legal. Fosse vivo, o doutor Sobral Pinto entraria com uma ação por descumprimento da lei de proteção aos animais …

PATRIOTAGEM

Todas essas empulhações sanguinárias são narradas com a patriotagem de praxe. Como se a certidão de nascimento dignificasse a brutalidade profissionalizada. O ufanismo é uma praga nacional. Agora mesmo, a presidente Dilma bateu boca com o presidente da Fifa, garantindo que o Brasil fará “a Copa das Copas”. Como se não bastasse e de olho gordo nas eleições deste ano, acrescentou que “todos os que vierem ao Brasil serão bem recebidos, porque somos alegres e acolhedores”.

Qualquer brasileiro bem informado sabe que essa parolagem não passa de bravata. Sem entrar na tolice de “Copa das Copas” (o que será isso ?), como é que, em pleno século XXI, alguém ainda cai na lorota do povo cordial? Será que essa cordialidade explica o enorme aparato de segurança que está sendo montado para tranquilizar os que virão e, claro, serão “bem recebidos”? As ameaças devem vir de criminosos infiltrados do exterior … Somos “alegres e acolhedores”? Quem são este “somos”? Isso vale para os prisioneiros do complexo de Pedrinhas, no Maranhão, que decapitaram três rivais e filmaram o horror? Valerá para os policiais que sequestraram e mataram o pedreiro Amarildo, no Rio? E para os policiais que reprimiram com extrema violência os manifestantes nas jornadas de junho do ano passado? Fico por aqui e vou correndo tomar um Sonrisal.

A lógica que provocou a crise e o império mundial das corporações

01
Leonardo Boff

Os bons votos de um ano feliz são rituais. Não passam de simples votos, pois não conseguem mudar o curso de um mundo no qual os superpoderosos  seguem sua estratégia de dominação global. Sobre isso é que precisamos pensar e até rezar, pois as consequências podem ser nefastas.

Muitos esperavam que o legado da crise de 2008 fosse um grande debate sobre que tipo de sociedade queremos construir. Erraram feio. A discussão não se deu. Ao contrário, a lógica que provocou a crise foi retomada com mais furor. Os super-ricos e superpoderosos decidiram que querem viver segundo o princípio darwinista do mais forte, e que se danem os mais fracos.

Via de regra, a lógica capitalista é feroz: uma empresa engole a outra. Quando se chega a um ponto em que restam apenas algumas grandes, elas mudam a lógica: em vez de guerrearem, fazem entre si uma aliança de lobos e comportam-se mutuamente como  cordeiros. Assim articuladas, detêm mais poder e acumulam mais para si e seus acionistas, desconsiderando totalmente o bem da sociedade.

A influência política e econômica que exercem sobre os governos, a maioria muito mais fraca que elas, é extremamente constrangedora, interferindo no preço das commodities e na redução dos investimentos sociais, como saúde, educação, transporte e segurança.

DOMINAÇÃO DO MUNDO

Há excelentes estudos sobre a dominação do mundo por parte das grandes corporações multilaterais. Mas fazia falta  um estudo de síntese, que foi feito pelo Instituto Suíço de Pesquisa Tecnológica (ETH), em Zurique, em 2011.

Dentre 30 milhões de corporações existentes, o instituto selecionou 43 mil para estudar melhor a lógica de seu funcionamento. O esquema simplificado se articula assim: há um pequeno núcleo financeiro central que possui dois lados – de um,  são as corporações que compõem o núcleo e, do outro, aquelas que são controladas por ele. Tal articulação cria uma rede de controle corporativo global. Esse pequeno núcleo constitui uma superentidade. Dele emanam os controles em rede, o que facilita a redução dos custos, a proteção dos riscos, o aumento da confiança e, o que é principal, a definição das linhas da economia global que devem ser fortalecidas e onde.

Esse pequeno núcleo, fundamentalmente de grandes bancos, detém a maior parte das participações nas outras corporações. O topo controla 80% de toda a rede de corporações. Aí estão Deutsche Bank, J. P. Morgan Chase, UBS, Santander, Golden Sachs, BNP Paribas, entre outros tantos. No fim, menos de 1% das empresas controlam 40% de toda a rede.

INDIGNAÇÃO

Esse fato nos permite entender agora a indignação dos que acusam que 1% das empresas faz o que quer com os recursos suados de 99% da população. Eles não trabalham e nada produzem. Apenas fazem mais dinheiro com dinheiro lançado no mercado da especulação.

Foi essa absurda voracidade de acumular ilimitadamente que gestou a crise de 2008. Essa lógica aprofunda cada vez mais a desigualdade e torna mais difícil a saída da crise. Quanto de desumanidade aguenta o estômago dos povos? Pois tudo tem seu limite. Mas agora nos é dado ver as entranhas do monstro.

Como diz Dowbor: “A verdade é que temos ignorado o elefante que está no centro da sala”. Ele está quebrando tudo e pisoteando pessoas. Mas até quando? O senso ético mundial nos assegura que uma sociedade não pode subsistir por muito tempo assentada sobre a superexploração, a mentira e a antivida.

Site que arrecada fundos para Genoino não tem transparência

Guilherme Almeida

Site criado por filha de Genoino esconde o valor recolhido. Ardiloso, o site esconde do cidadão que não fizer a doação o montante arrecadado. Somente quem doar e enviar um e-mail receberá uma senha de acesso ao valor total recolhido. Veja aqui: http://www.apoiogenoino.com/.

(Resumindo: o mensaleiro adestrou até seus descendentes a não serem transparentes, para depois usar as sobras como verba de campanha.)

Armadilha lulista

André Singer
Folha de SP

Uma leitura atenta das respostas que o economista Luiz Gonzaga Belluzzo forneceu a Eleonora de Lucena na entrevista publicada no domingo passado pela Folha, permite perceber, sobretudo na versão integral (disponível na internet), de maneira cristalina o impasse brasileiro contemporâneo. Se feitas as devidas pontes entre o quadro econômico ali analisado e a situação política, tem-se um retrato agudo do momento atual.

O professor da Unicamp mostra que o governo Dilma foi atingido em cheio pela segunda etapa da crise capitalista. Enquanto Lula viu-se beneficiado pelas “benesses do ciclo de commodities”, a presidente pegou uma longa fase de depressão da economia mundial.

Para sustentar o dinamismo do Brasil em um contexto de desaceleração global seria necessário ter uma indústria forte. Mas, para tanto, o país precisava ter desvalorizado bastante o real, como já vinha alertando há alguns anos o ex-ministro Bresser-Pereira.

A presidente teve a coragem de enveredar na direção necessária, realizando significativa redução da taxa de juros contra o desejo do mercado financeiro. Ao diminuir o ganho rentista, reduz-se a atratividade do Brasil como plataforma de valorização do capital especulativo internacional e, dessa forma, ajuda-se a controlar o sobrepreço da moeda.

Ato contínuo, a equipe econômica e o Banco Central, orientados por Dilma, provocaram uma mididesvalorização do real, além de reforçar as medidas voltadas para restringir a liberdade de entrada e saída dos especuladores. Em outras palavras, mesmo que, como aponta Bresser-Pereira, não tenham sido na proporção devida, foram dados passos ousados para romper as amarras que impediam o Brasil de retomar o crescimento.

De repente, no final de 2012, começa a haver uma reversão. O BC anuncia que voltará a aumentar os juros. O que houve? O governo sentiu que não tinha força para prosseguir no caminho iniciado. Ao contrário de investir, os empresários se afastaram de Dilma, por considerá-la intervencionista. O eleitorado lulista, por sua vez, “é o pessoal mais desinformado sobre as razões dos problemas, que foi submetido a um processo de obscurecimento durante séculos”, diz Belluzzo.

Resultado: em lugar de 2013 ser o ano da retomada que Dilma deve ter planejado, foi caracterizado pela reversão sistemática do que fora plantado no período precedente. A armadilha está em que, como o lulismo não é mobilizador, não pode politizar as questões de fundo, autoimpedindo-se de construir uma base social suficiente para sustentar a ruptura necessária. De onde, então, virá a energia capaz de quebrar as 11 varas da camisa que, segundo Belluzzo, paralisa a nação?

(artigo enviado por Mário Assis)

A tristeza da seca no sertão

A escultora, pintora, produtora musical, cantora e compositora paraibana Roberta Albuquerque Miranda, em parceria com Tereza Tinoco, afirma na letra de “História do Sertão” que o sertanejo basta pegar na viola, para lembrar o secular problema que a seca acarreta em sua vida. A música faz parte do CD Alma Sertaneja gravado por Roberta Miranda, em 2004, pela Maynard Music.
HISTÓRIA DO SERTÃO
Tereza Tinoco e Roberta Miranda

Sertanejo quando pega na viola
E relembra sua história
Logo chora o coração
Os seus olhos ficam feito um mar de água
E no peito dói a mágoa
Por não ver florir o chão
Onde a lua se desmancha ao ser tocada
E se sente a lua amada
Se embriaga de paixão
Sertanejo tua alma cor de prata
Não engana e sim retrata
A dura história do sertão
Ah! Se eu pudesse o teu chão tocar
E com meu pranto este chão regar
Quem sabe brotaria
O teu pão de cada dia
Teu sonho
Meu sonho
O cerrado brotaria

         (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Presidente do PT pede à militância que faça doações para Genoino

MARINA DIAS
DE SÃO PAULO

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, publicou uma nota oficial no site do partido nesta sexta-feira (10) conclamando a militância petista a contribuir com doações para ajudar José Genoino a pagar a multa de R$ 667,5 mil estipulada pelo (STF) Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão.

Falcão afirma que a sentença é “indevida e desproporcional”, mas que precisa ser cumprida. “Como o PT, em virtude da lei, não pode utilizar recursos próprios e nem do Fundo Partidário, propomos esta corrente de solidariedade que deve, igualmente, estender-se aos companheiros José Dirceu, Delúbio Soares e João Paulo Cunha”, diz o texto.

De acordo com petistas, Dirceu, Delúbio e João Paulo também colocarão no ar sites como o de Genoino, para recolher contribuições em dinheiro.

O PT não pode usar recursos do Fundo Partidário com esse objetivo, mas deve organizar alguns eventos, como jantares, para fazer a arrecadação. A pedido do presidente nacional, o setorial jurídico do partido fará o acompanhamento para garantir a legalidade de todo o processo.

APOIO A GENOINO

Familiares e amigos do ex-presidente do PT José Genoino publicaram um site central na noite de quinta-feira (9), para receber doações que ajudarão a pagar a multa estipulada para o petista.

“Cumprir a pena e pagar a multa não significa reconhecer a culpa”, disse à Folha Miruna Genoino, filha do petista. Intitulado “Parceiros da família Genoino”, o site recupera a história de militância de Genoino e destaca que o petista “sempre esteve ao lado do povo, da democracia e das lutas sociais”.

Guerra civil na República Centro-Africana faz mais de um milhão de pessoas abandonarem suas casas

Da Agência Lusa

Genebra – O conflito na República Centro-Africana já provocou cerca de 1 milhão de deslocados, metade dos quais na capital Bangui, estimou a Organização das Nações Unidas (ONU), que alerta para a “dramática” situação humanitária no país.

Segundo o porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), Babar Baloch, “o número de pessoas deslocadas dentro do país já ultrapassou 935 mil”, como resultado do conflito que matou mais de mil pessoas apenas no mês passado. “Cerca de 60% dos deslocados são crianças”, disse o porta-voz do Acnur.

Baloch ressaltou que o clima de insegurança vindo dos ataques contra civis e os saques na República Centro-Africana tornam cada vez mais difícil o trabalho de ajuda humanitária, especialmente os de necessidades urgentes. Em Bangui, os combates entre o grupo Séléka, com origem na minoria muçulmana e as milícias de autodefesa cristãs denominadas Anti-balaka provocaram mais de 500 mortos desde o dia 5 de dezembro.

GOLPE DE ESTADO

Com 4,5 milhões de habitantes, a República Centro-Africana, um país pobre mas rico em recursos, mergulhou no caos desde o golpe de Estado de março passado organizado pela coligação rebelde Séléka que afastou do poder o presidente François Bozizé.

A onda de violência na capital começou quando as milícias Anti-balaka, partidárias de Bozizé, lançaram uma ofensiva com artilharia pesada. O exército respondeu aos ataques com o apoio ao grupo Séléka, derrubando Bozizé e declarando o líder do movimento, Michel Djotodia, como o novo presidente do país.

Um total de 1.600 soldados franceses e cerca de 4 mil soldados de paz africanos tentam restabelecer a ordem e restaurar a segurança na antiga colônia francesa. Desde março passado, 75 mil cidadãos da República Centro-Africana fugiram para a República Democrática do Congo, República do Congo, Chade e Camarões, onde se estima que o número de refugiados seja de 240 mil.

Supremo nunca aprovou intervenção federal, mesmo diante de graves violações de direitos

http://www.conversaafiada.com.br/wp-content/uploads/2012/11/charge-bessinha_criterios-do-stf.jpg
André Richter
Agência Brasil

Apesar da morte de 62 detentos no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, em São Luís, capital do Maranhão, e dos atos de violência praticados na cidade, ordenados por líderes de facções criminosas que atuam dentro do presídio, o possível pedido de intervenção federal do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, poderá ser rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte nunca aprovou uma intervenção em um estado, mesmo em outras situações idênticas de violência.

Os procuradores federais no Maranhão pediram a Janot que entre com o pedido de intervenção federal no STF. Durante reunião do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, na quinta-feira (9) em Brasília, o subprocurador-geral da República, Aurélio Veiga Rios, manifestou apoio ao pedido. Rios justificou o apoio em face dos atos de violência ocorridos no estado. “O que estamos vendo é uma situação de absoluto descalabro do ponto de vista da dignidade humana”, disse.

Conforme entendimento firmado durante o julgamento de vários pedidos, o Supremo definiu que a intervenção é uma medida extrema, e que deve haver prova da continuidade da crise institucional para ser decretada. Diante do plano emergencial anunciado pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pela governadora do Maranhão, Roseana Sarney, a maioria dos ministros do Supremo pode entender que a intervenção não se justifica devido às medidas tomadas.

HÁ CINCO ANOS…

Em 2008, o ex-procurador-geral da República Antônio Fernando Souza protocolou no STF um pedido de intervenção federal em Rondônia, devido à crise de segurança no Presídio Urso Branco, em Porto Velho. Há cinco anos, a ação tramita no STF e ainda não foi julgada.

Na ação, Antônio Fernando relatou que, em oito anos, houve mais de 100 mortes e dezenas de lesões corporais ocorridas em motins, rebeliões de detentos e torturas praticadas por agentes penitenciários. Na época, o presídio abrigava mais de 1.500 internos, porém, tinha capacidade para 420. Diante da gravidade dos fatos, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), cobrou medidas efetivas para acabar com os atos de violação dos direitos humanos. Em maio de 2011, o governo assinou um pacto de melhorias no sistema prisional do estado.

Outros pedidos de intervenção por falta de pagamento de precatórios e reintegração de posse foram rejeitados pelo STF. Em 2010, após a prisão do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, o então procurador-geral da República Roberto Gurgel não conseguiu aprovação do Supremo para intervenção. Na época, a Polícia Federal desencadeou a Operação Caixa da Pandora, investigação que apurou a existência de um esquema de compra de apoio parlamentar na Câmara Legislativa do Distrito Federal, que ficou conhecido como mensalão do DEM.

No Maranhão, todos eram cegos, surdos e mudos

Celso Serra
No presídio situado nas terras do Ducado dos Sarney morreu um, dois, dez, vinte, trinta.  Morreram assassinados e os corpos, mutilados, foram retirados do presídio. Mas, como em um espetáculo de mágica, ninguém viu.  Todos os agentes públicos eram cegos.
Ninguém também ouviu coisa alguma.  Todos os agentes públicos eram cegos e surdos. Como também eram mudos, ninguém falou nada.
Sendo cegos, surdos e mudos, ninguém sabia de nada.  Nem os funcionários do presídio nem a alta cúpula da administração do Maranhão.
No dicionário da língua portuguesa “maranhão” significa “mentira bem engendrada”.

No caso, o silêncio absoluto sobre as mortes violentas assumiu os ares de uma mentira bem engendrada.  Mas os fatos macabros, em elevado número, acabaram vindo à tona.  O clã dos Sarney, embora tenha realizado esforço descomunal, não conseguiu mantê-los ocultos, apenas retardou a divulgação e o domínio público.

No Maranhão, só depois das 60 mortes no ano que findou e do relatório do Conselho Nacional de Justiça, foi possível o país tomar ciência da tragédia de dor e sangue que vinha ocorrendo sob as barbas e total inércia da cúpula da administração estadual.

NÃO TEM JEITO
Toda a nação tem a impressão que no Maranhão é assim mesmo, não tem jeito. O Maranhão é recordista absoluto (olímpico) da pior renda per capita do país. Chega em segundo no pior IDH estadual.  Saneamento básico, ninguém do povo sabe o que é.

Porém, todos sabem que se nada mudou em cinquenta anos de domínio do clã Sarney,  nada irá mudar… Faz bem para a saúde deixar tudo para lá…

O governo federal e o estadual estão muito ocupados com o momento político, afinal, este é um ano de eleições e, acima de tudo, o poder deve ser mantido.  Por esta razão, não tiveram tempo para agir ou ficar, nem um pouquinho, chocados com cenas de cabeças rolando entre corpos dilacerados.  Afinal, as carnes retalhadas eram de pouca importância, meros presidiários.

O governo Roseana Sarney insistiu e continua a insistir em acusar até mesmo relatório oficial do Conselho Nacional de Justiça de difundir “inverdades”. O governo da presidenta Dilma para, ouve, nada faz.

Aparentemente, não toma partido. Mas, ao assim proceder, passa a impressão de que tomou partido de dois poderosos aliados políticos: o  o clã Sarney e o PMDB.
E essa impressão poderá estar maculando o currículo da velha guerrilheira que, segundo é de conhecimento público, na juventude, pegou em armas para combater a injustiça.  O tempo mudou Dilma?

Na alvorada de 2014

Vittorio Medioli

Por se tratar de um começo de ano tem sempre quem se exercite com a bola de cristal. O que acontecerá? Respeito os astros, às vezes me aconselho com alguém que interpreta o firmamento, mas também acredito que nada está previamente determinado. Existe uma atração fatal num sentido determinado, mas o livre-arbítrio e o merecimento têm capacidade de vencer qualquer tendência adversa. Assim como é aconselhável iniciar a viagem com a maré a favor, ninguém poderá parar quem tem habilidade para enfrentar a maré contrária.

Já que esse é um ano de eleição presidencial, se pode sentir o palpitar nesses dias da vontade de mudança, especialmente de uma classe mais exigente, crítica, desesperançada, agora muito mais numerosa e unida pelas redes sociais de comunicação.

Mesmo com escassa capacidade de introspecção se enxergam evidências de estragos numa sociedade afastada de princípios morais mais sólidos, anestesiada circunstancialmente pela incipiente facilidade de consumo.

Na história não se encontram casos de lassidão moral associados a prosperidade, as exceções duraram pequenos lapsos e se encerraram desastradamente. Crise ética no comando se alastra desgraçadamente por todo lado.

Enquanto dura a festa parece que não haverá fim. Entretanto, a democracia sem princípios éticos é como um veículo sem freio, destinado a capotar na anarquia. Essa é uma equação ensinada nos séculos de história.

INDOLÊNCIA

Sinais alarmantes se multiplicam. Governantes mais preocupados com o poder que com a nação, apenas isso seria suficiente para desagregar qualquer projeto de nação. Mas a indolência, a falta de disposição, a ignorância e o interesse mesquinho acabam consagrando no poder quem dele almeja para se locupletar.

“No inferno – segundo Dante – os lugares piores estão reservados àqueles que, em época de crise moral, ficaram neutros”. Quer dizer que, contrariando os códigos legais, pior será no inferno para os neutros que para os próprios locupletados. A sabedoria de Dante dá um calafrio nos insossos e admoesta os políticos silenciosos.

Os partidos “históricos” perderam abruptamente o rumo da ideologia, misturam-se com mais de 40 siglas com norte nos bolsos, no poder, na vaidade que assombra a devastada área publico/política tupiniquim.

Quem se salva? Difícil de se dizer. Depois que Demóstenes Torres foi pilhado, não se consegue acreditar em mais ninguém. Até as Cassandras modernas sofrem de bipolaridade.
NA PAPUDA

Quem mais se definia ético há apenas 12 anos atrás, hoje está preso na Papuda. A ética perfuma apenas discursos de palanque, para inglês ver, para juventude sonhar e para o povão votar.

Cabe refletir: se a mais definida força partidária, autoproclamada como ética e incorruptível, está na Papuda, onde estão os honestos? Em alguns Estados os adversários se foram honestos esqueceram-se de se mostrar honestos. E, ainda, pagam o castigo que Dante previa para os “neutros” nos momentos de grave crise moral.

A disputa que se dava mostrando virtudes, hoje se trava empurrando nos adversários “dossiês” que verdadeiros, meio verdadeiros ou até integralmente fajutos dão a cota ínfima da luta política.

Há uma sensação que nos últimos anos quem detinha o poder banqueteou fartamente, delapidou o patrimônio nacional, mas os adversários “silenciosos” passaram os dias lambendo as migalhas que caíam da mesa?

Pouco interessa se isso é verdadeiro! A verdade, com polícia e tribunais “políticos”, nunca chega a público, como cupim fica roendo as colunas do sistema. O que mais conta de imediato é a “sensação” distribuída ao público, é essa que influencia o eleitor comum numa “democracia”.

MORALIDADE

Obviamente não haveria dúvida em arguir que o exercício da moralidade férrea estaria hoje gozando de preferência inconteste entre eleitores. Na sua falta, Dilma conseguiu fazer esquecer a afinidade com os inquilinos da Papuda. Situa-se no meio da geleia geral, e já que a exposição midiática de um presidente é vinte vezes aquela de um concorrente, a “notoriedade” passa a ser “virtude”, pouca importam os sinais de um governo desastrado e oportunista, focado no desfrute do poder.

Apostar agora as fichas num candidato é como atirar no escuro.

Os astros estão contra Dilma, terá muita dificuldade, dependerá mais dos adversários persistirem no erro, já que as possibilidades dela manobrar numa economia esgarçada são mínimas.

De qualquer forma o povo brasileiro pode se preparar para enfrentar as dívidas fundadas na falta de princípios éticos de governantes coniventes com a imoralidade.

Caso Snowden: É legítimo roubar segredos vergonhosos do governo e publicá-los

John Glaser
Antiwar 

Um novo livro, recém-lançado, revela pela primeira vez a identidade de um grupo de ativistas norte-americanos que assaltaram escritórios do FBI, roubaram documentos sensíveis e vazaram os documentos para jornalistas. A maioria dos norte-americanos já nem se lembram desse assalto, porque o fato foi logo encoberto pela importância das revelações vazadas, que incluíam o ataque contra dissidentes internos operado por um programa inconstitucional em que o FBI trabalhava, o COINTELPRO.

“Os assaltantes jamais foram apanhados”, escreve Mark Mazetti no New York Times, “e os documentos roubados que eles anonimamente enviaram por correio a jornalistas viriam a ser a primeira gota de uma avalanche de revelações sobre espionagem interna em grande escala e operações ilegais, pelo FBI, contra grupos norte-americanos dissidentes.

Betty Medsger, do Washington Post, foi uma das jornalistas que receberam documentos enviados pelos ativistas. Escreveu sobre “o documento que talvez fosse o mais terrível dos que foram roubados: um memorando de 1970, que dava uma primeira pista da obsessão de Hoover contra qualquer tipo de dissidência” – lembra Mazetti no NYT.

“O memorando exigia que os agentes aprofundassem as entrevistas com ativistas pacifistas e membros de grupos de estudantes dissidentes.” “Essa ação fará aumentar a paranoia endêmica naqueles círculos e ajudará a fixar a ideia de que há um agente do FBI por trás de cada caixa de correio” – dizia a mensagem do comando do FBI.

VIGILÂNCIA GENERALIZADA

Outro documento, assinado pelo próprio Hoover, revelava a vigilância generalizada, ativa nos campus universitários, contra grupos de estudantes negros. Mas o documento que teria o maior impacto contra o reinado do FBI em todas as atividades da espionagem doméstica foi um cabeçalho de mensagem, datado de 1968, em que se lia uma palavra até então desconhecida: Cointelpro. Nem os assaltantes que roubaram os documentos nem os jornalistas que os receberam conheciam o significado daquela palavra e assim continuaram por muitos anos. Só quando Carl Stern, da rede NBC News, requisitou e obteve judicialmente outros documentos do FBI, nos termos da Lei da Liberdade de Informação, afinal se conheceram os primeiros contornos do Cointelpro – forma abreviada de “Programa de Contrainteligência”.

Desde 1956, o FBI mantinha uma caríssima campanha de espionagem contra líderes dos movimentos pelos direitos civis, organizadores políticos e suspeitos de simpatizarem com o comunismo, e trabalhava para semear a discórdia e a desconfiança entre os membros de vários desses grupos. No bojo da sombria litania de revelações, havia uma carta de chantagem, enviada anonimamente por agentes do FBI ao Reverendo Dr. Martin Luther King Jr., em que ameaçavam divulgar casos extraconjugais, se ele não cometesse suicídio.

“Não se tratava só de espionar cidadãos norte-americanos”, disse Loch K. Johnson, professor de Assuntos Públicos e Internacionais na University of Georgia, que era então assessor do senador Frank Church, Democrata do Idaho. “O objetivo do Cointelpro era destruir vidas e arruinar reputações.” À época, o assalto e os vazamentos subsequentes foram ferozmente condenados. Mas, com o tempo, os abusos do FBI chegaram afinal às manchetes, o que levou a consideráveis esforços para reformas, entre meados e o final da década dos 1970s.

CONDENAÇÃO

Hoje, a atividade do FBI de J. Edgar Hoover é condenada quase universalmente (até por funcionários do governo, pelo menos em público). Os assaltantes jamais foram descobertos. A caçada foi suspensa, porque se estabeleceu o consenso de que haviam feito algo de bom. Agiram em nome do interesse do povo dos EUA, porque o governo dos EUA operava contra a Constituição. Cometeram ato de ilegalidade, mas os crimes do estado eram piores.

Difícil não ver aí muitas semelhanças com o que fez Edward Snowden. Prevejo que o desenvolvimento da atual controvérsia ecoará os eventos que se seguiram ao assalto, em 1971, contra escritórios do FBI. Não tardará, e os que hoje condenam Snowden como criminoso e traidor serão sobrepujados por um consenso crescente de que a apropriação de documentos do estado, depois entregues a jornalistas, expôs novos crimes terríveis cometidos pelo governo contra o interesse público. Sem dúvida, a história trabalha a favor de Snowden.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

 

Morreu o general israelense Ariel Sharon, famoso pela coragem e pela impiedade

Carlos Newton

O general israelense Ariel Sharon, ex-primeiro-ministro, morreu neste sábado, aos 85 anos, depois de 8 anos em coma, informou o hospital de Tel Aviv onde ele estava internado. O quadro médico de Sharon começou a se deteriorar há dois meses e meio, e nos últimos dias ele sofreu uma insuficiência renal que afetou vários de seus órgãos vitais.

Ex-ministro da Defesa de Israel, Sharon era conhecido pela coragem e pela impiedade.  O jornalista Moisés Rabinovici, do Estadão, assim o descreveu: “Tinha a fama de rebelde, não cumpria ordens, e geralmente as excedia. Excesso: esta sempre foi a marca de Sharon. Para ele, não era “olho por olho”, e sim “dois olhos por um olho”. Talvez por isso também o chamavam de Trator, Elefante e Rei de Israel. Nada o brecava. Uma vez, em 1956, ele levou seus paraquedistas a saltar atrás das linhas egípcias, no passo de Mitla, no Deserto do Sinai, para um furioso ataque em que perdeu dezenas de soldados. Outra vez, penetrou com um comando em território jordaniano para vingar o assassinato de uma israelense e seus dois filhos – a Operação Kibia. Uma tragédia: 42 casas de pedra foram dinamitadas, matando seus ocupantes, ao todo 69 pessoas, entre elas muitas crianças”.

Traduzindo: não foi embora um grande homem. Mas que descanse em paz e enfim tenha o julgamento divino por seu atos.

Impasse continua em Humaitá, onde os corpos não são encontrados e os índios voltarão a cobrar pedágios

Trabalho dos militares que buscam pistas de desaparecidos

Da Agência Câmara

A Frente Parlamentar em Defesa dos Povos Indígenas da Câmara dos Deputados não vai tomar a defesa de índios da região de Humaitá, no Amazonas, se for comprovada a responsabilidade deles no desaparecimento de três moradores da cidade. A afirmação é do presidente da frente, deputado Padre Ton (PT-RO).

Por outro lado, os índios Tenharim negam qualquer envolvimento com o desaparecimento do professor Steff Pinheiro de Souza, o representante comercial Luciano Ferreira Freire e funcionário da Eletrobrás Amazonas Energia Aldeney Ribeiro Salvador, que viajavam pela rodovia Transamazônica (BR 230), de Humaitá rumo a Apuí, no Sul do Amazonas, trajeto cortado pela área de reserva dos indígenas.

FUNAI É ACUSADA

O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS), disse que a Funai é cúmplice da situação e cobrou a investigação por parte do Governo Federal. “A Funai é subordinada ao Ministério da Justiça. Queremos que o ministro tome as providências cabíveis, que o próprio advogado-geral da União tome as providências cabíveis”, declarou.

“A Funai está mancomunada com os índios que estão fazendo isso. É uma meia dúzia de índios que estão se aproveitando da situação e fazendo acontecer o que está acontecendo, colocando em risco brancos e índios também”, disse Heinze.

Uma força-tarefa da Polícia Federal faz buscas na região. Há poucos dias, foram encontrados restos de um carro incendiado próximo de uma aldeia Tenharim, que está sendo periciado.

O mediador apontado para o conflito, bispo dom Francisco Merkel, afirmou que as desavenças começaram em 2006, após a instalação de pedágios cobrados pelos índios na Transamazônica.

A Justiça Federal determinou o envio de cópia do processo sobre a segurança dos índios na reserva Tenharim à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para que o órgão internacional tome ciência dos fatos e analise se a postura do Estado brasileiro no caso está em sintonia com acordos internacionais.

MAIS DOIS PROMOTORES

O Corregedor Geral do Ministério Público do Estado do Amazonas, procurador de Justiça José Roque Nunes Marques, esteve no município de Humaitá, ao sul do Estado, para conversar com uma comissão que está empenhada em conter os conflitos que atingem a região.

“Fizemos uma avaliação de todo o processo de condução do caso e queremos, em primeiro lugar, tranquilizar a população do município. Estamos ajudando na apuração do caso e a postos para atender a comunidade. Dois promotores estão sendo deslocados para Humaitá para também auxiliar no trabalho”, disse.

Além do corregedor, o Comandante Geral do CMA, Gen. Eduardo Vilas Boas e representantes da 17ª  Brigada de Porto Velho, do 54º Batalhão de Infantaria de Selva, da 12ª Região Militar, do CPE, do 4º Batalhão de Polícia de Humaitá, e ainda representantes das Polícias Rodoviária e Federal, estão em busca de soluções urgentes para os conflitos.

ÍNDIOS QUEREM PEDÁGIO

Uma das questões mais polêmicas é a cobrança do pedágio. Os índios insistem em continuar. Eles justificam a cobrança do pedágio com argumentos contundentes. Dizem que necessitam dessa renda para evitar que integrantes da tribo cedam ao tráfico de entorpecentes e que o pedágio evita também que eles sejam obrigados a fazer o cultivo de plantas alucinógenas.

Os Tenharim vão reabrir dia 1º de fevereiro os pedágios na Transamazônica. A cobrança será feita apesar da ameaça de um novo ataque dos brancos que, no dia 26 de dezembro, atearam fogo aos postos instalados na área indígena.

Os caciques prometeram estourar as pontes e isolar a reserva caso haja novo ataque dos brancos. Eles foram informados de que estaria sendo preparada uma nova ação para o próximo dia 14 de janeiro.

“O povo tenharim já decretou que o pedágio vai continuar, independente dos protestos de algumas pessoas. Demos um intervalo para não atrapalhar a força-tarefa (que busca os desaparecidos)”, anunciou o cacique Aurélio Tenharim.