O show não pode parar

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Tostão (O Tempo)

Após o primeiro sorteio de ingressos para a Copa, o diário argentino esportivo “Olé” chamou de vergonha o baixíssimo número de bilhetes recebidos pelos argentinos. Dos 266 mil pedidos, apenas 4.500 (menos de 2%) foram atendidos. Os Estados Unidos pediram 374 mil e receberam 65 mil (quase 20%). Outros países sul-americanos, principalmente a Colômbia, receberam muito mais bilhetes que os argentinos.

A Fifa disse que foi azar da Argentina. Mas a enorme diferença contraria a lei das probabilidades. Muitos desconfiam que houve trapaça da Fifa e da CBF. Dizer isso seria uma atitude paranoica ou tudo é possível neste estranho mundo, que não sei se caminha de volta às trevas ou para um novo iluminismo?

A Argentina é, disparado, o país que traz mais turistas ao Brasil. Nos pouco mais de cinco milhões por ano, mais ou menos 30% são argentinos (1,5 milhão). Dos Estados Unidos, segundo lugar, chega à metade.

Um grande número de torcedores argentinos já avisou que virá, mesmo sem ingresso. Confusões à vista. Eles estão eufóricos com a seleção. O time titular não perde há mais de dois anos. Nesse período, ganhou duas vezes do Brasil e de todos os grandes da Europa. Na derrota, fora de casa, para o Uruguai, pelas Eliminatórias da Copa, a Argentina atuou com a equipe reserva. A derrota para o Brasil, com apenas jogadores que atuam nos dois países, não tem nada a ver com as seleções principais.

ARGENTINOS

Os argentinos, e todo o mundo, estão preocupados com mais uma lesão muscular de Messi. Uma das razões é o fato de ele ter jogado os 90 minutos de todas as partidas. Messi não é um craque virtual. Ele é real. Messi quis quebrar todos os recordes. O Barcelona apoiou, e a sociedade do espetáculo, que não tem limites, na qual está inserido o futebol, quer lucrar e consumir rapidamente o talento dos craques. Há outros na fila. Neymar pode ser o próximo. O show não pode parar.

Muitos torcedores e jornalistas brasileiros estão ansiosos, apressados, para comparar Neymar e Messi. Se Neymar fizer um gol espetacular, vão questionar quem é o melhor do mundo. Isso deve acontecer com o tempo, naturalmente. Está cedo para terminar o esplendor de Messi. Por causa do conturbado ano, aumentam as chances, se estiver bem fisicamente, de Messi brilhar mais ainda em 2014. O melhor de 2013 é Cristiano Ronaldo. Os que são eleitos melhores do mundo no ano anterior costumam jogar mal a Copa.

O talento e o jogo de futebol estão mais próximos do imaginário e do encanto do que do simbólico e dos números. Mede-se a eficiência de um craque ou de um time mais pelo fascínio que exercem do que pelas estatísticas. O Cruzeiro não é o melhor time do Brasileirão porque tem números muito mais expressivos, e sim porque encantou e jogou melhor que os outros.

Carta a um jornal de Wall Street

Mauro Santayana

 

(JB) – Ao Senhor Paul Gigot, Vice-Presidente e Diretor Editorial do Wall Street Journal.

 

Normalmente, eu não me dirigiria a um jornal pertencente a um grupo que tem, desde a semana passada, oito ex-funcionários e ex-diretores sentados nos bancos dos réus por suborno e espionagem ilegal, até mesmo do email de uma vítima de homicídio, como é o caso da News Corporation.

Um jornal que sonega e manipula informações para seus leitores, sempre que é conveniente para o dono, como no caso do escândalo das escutas do tablóide sensacionalista News from the World, como revelado agora pelo jornalista David Folkenflik, no livro Murdoch´s world : the last of the media empires, lançado na semana passada pela Perseus Books, que talvez o senhor não tenha tido ainda a oportunidade de ler. Por essa razão, não merecem consideração as costumeiras sandices da página editorial de vocês,  escritas por seus “editorialistas”, como fez Mary O´ Grady, na semana passada, sobre o Brasil.

Quem entenda um mínimo de jornalismo conhece as contradições do Wall Street Journal, e a orientação fascista e de extrema direita e o ultra-relativismo de sua linha editorial. O WSJ é aquele jornal que afirma, em editorial, que não dá para confiar em detectores de mentiras, no caso da acusação de assédio sexual de Anita Hill contra o Juiz conservador, então candidato à Suprema Corte, Clarence Thomas; e oito meses depois, diz que o detector de mentiras é totalmente confiável, ao tentar salvar o Secretário de Estado Caspar Weinberger de indiciamento por perjúrio, no caso Irã-Contras, de venda de armas para iranianos para enviar dinheiro para as milícias assassinas de extrema direita na Nicarágua.

INTERESSADAMENTE

É da tradição do Journal confundir, interessadamente, alhos com bugalhos, como fez no caso de Jonas Savimbi, líder da UNITA,  ao citá-lo, por duas vezes, em 1979 e 1989, como um combatente contra os portugueses pela independência angolana, quando então já havia documentos provando que, na verdade, ele era financiado pelo regime colonial português para combater e enfraquecer o MPLA, o movimento que lutou depois da independência contra o próprio Savimbi, mercenários ocidentais, e sul-africanos, para libertar o país.

O seu jornal chamou de um “bando de bandidos árabes” os paquistaneses e indianos envolvidos com o caso do banco BBCI; escreveu um editorial contra o New York Times, acusando-o de acusar injustamente, o militar e político salvadorenho, Roberto D’Aubuisson, com esquadrões da morte – quando documentos da própria administração Reagan comprovavam esse envolvimento, em milhares de assassinatos de opositores.

Não se pode esperar outra coisa de um jornal que mente, mente, mente, descaradamente quando se trata de defender, dentro dos Estados Unidos, o mais abjeto fundamentalismo de direita. E, fora dele, o pretenso destino manifesto norte-americano de se meter em outros países e se arvorar em “guardiões do mundo”.

“REPUTAÇÃO”

Para saber mais sobre a reputação da linha editorial de seu jornal, sugiro ler 20 Reasons Not to Trust the Journal Editorial Page (20 razões para não ler a página editorial do Journal), de Jim Naureckas e Seteve Rendall e By any Means necessary, the ultrarelativism of the Wall Street Journal Editorial Page  (pelos meios necessários, o ultrarelativismo da página editorial do Wall Street Journal), de Edward S. Herman, professor emérito da Wharton School da Universidade da Pensilvânia.

Como o papel aceita tudo, como dizemos por aqui, o Wall Street Journal tem o direito de publicar o que quiser, só não pode dizer que é um paladino da liberdade e da democracia depois de ter afirmado, em editorial, em julho deste ano, que o Egito  precisa é de um Pinochet, ditador que, aliás, os senhores não se cansavam de elogiar quando estavam no poder.

E é isso que sua editorialista, Mary O´Grady, quis dar a entender – que estava defendendo a “liberdade” e a democracia estilo “Wall Street Journal”, quando publicou, na semana passada, um artigo denominado Why The NSA Watches Brazil – Porque a NSA espiona o Brasil.

Se o artigo tivesse ficado restrito aos seus leitores, provavelmente não faria nenhuma diferença, mas, como foi publicado aqui, e ninguém se dispôs a contestá-lo, estou tentando fazê-lo agora.

PERFEITO IDIOTA

O texto de Mary O´Grady, é filho de um outro texto, chamado  “Porque os Estados Unidos espionam o Brasil”, de Carlos Alberto Montaner, um perfeito  “gusano” cubano,  coautor de um livro  denominado “o perfeito idiota latino-americano”, cuja conclusão é a de que somos todos idiotas, os que defendemos a soberania e a independência de nossos países,  ao contrário dos “inteligentes”  e “brilhantes” defensores da total submissão ao Consenso de Washington e aos interesses dos Estados Unidos.

Segundo Montaner, que inventa uma suposta “conversa” com um embaixador norte-americano não identificado, os EUA espionam o Brasil porque apoiamos regimes como Cuba, Venezuela, a Bolivia, a Siria, e votamos com os BRICS na ONU. Ou seja, os Estados Unidos espionam o Brasil porque não fazemos o que o seu país, senhor Paul Gigot, quer que nós façamos.

Para o seu país, seria uma maravilha, se no lugar do Mercosul, tivéssemos uma ALCA, e fôssemos todos imenso México, que apenas maquila produtos para o mercado norte-americano – e que, apesar do “excelente” negócio que fez ao entrar para o NAFTA, crescerá apenas a metade do que nós iremos crescer este ano.

Para Mary O´Grady, temos que “mudar” nossa geopolítica. Para os EUA, teria sido ótimo se não tivéssemos fundado o G-20, e o mundo ainda fosse comandado pelo G-8, se não existisse o BRICs, nem o Conselho de Segurança da ONU.

E eles pudessem invadir e bombardear quem quisessem, para, depois de perder trilhões de dólares e milhares de homens, sair com o rabo entre as pernas, como estão fazendo de países como o Iraque e o Afeganistão, com suas guerras inúteis.

Mas isso não vai ocorrer, senhor Gigot.

UM PAÍS INDEPENDENTE

O Brasil vai continuar sendo – ou tentando ser – um país independente, que apoia e integra a América do Sul por meio da UNASUL e do Conselho de Segurança da América do Sul.

Vamos continuar pesquisando o urânio, construindo nossos submarinos nucleares, desenvolvendo nossa indústria de defesa, fazendo parcerias com outros países, inclusive do BRICS, porque todo país tem direito a proteger-se.

Vamos fazê-lo porque somos o quinto maior país do mundo em extensão territorial e população, com todos nossos problemas, a sétima economia do mundo e – entre outras coisas – o terceiro maior credor individual externo de seu país, senhor Paul Gigot.

É essa a responsabilidade que temos com o nosso povo. E com a nossa visão de mundo, e nosso projeto geopolítico, multilateralista e democrático, que não é o dos Estados Unidos da América do Norte.

Continuem nos espionando. A Alemanha e a França são seus aliados na OTAN. Eles não são do BRICS, nem estão construindo um novo porto em Cuba, nem mandam comida para a Venezuela, nem compram gás boliviano. E vocês não os espionam também, da mesma forma?

Lembre à senhorita Mary O´Grady que há mais razões para que os EUA nos espionem do que as que ela colocou em seu artigo. Mas são menos razões do que as que vocês nos dão para desconfiar – e passar realmente a espionar – os Estados Unidos.

A casa sem amor, de Joubert de Carvalho

O médico e compositor mineiro Joubert Gontijo de Carvalho (1900-1977) explica na letra de “Minha Casa” que, de nada adiantou buscar um lugar melhor para viver se, na nova casa, só existe solidão, não existe amor. A música “Minha casa” foi gravada por Sílvio Caldas, em 1946, pela Continental

MINHA CASA

Joubert de Carvalho

Foi num dia de tristeza
Que a cidade abandonei
Sem saber o que fazer
Na esperança de encontrar
Pela vida, algum prazer
Alegria em algum lugar
Lá no alto da Tijuca
Tem um sítio bem florido
Onde agora estou morando
Com os pássaros em festa
De galho em galho cantando
Lá dentro, pela floresta

Minha casa é tão bonita
Que dá gosto a gente ver
Tem varanda, tem jardim
Ainda agora estou esperando
Uma rede para mim
A embalar de quando em quando

Minha casa é uma riqueza
Pelas jóias que ela tem
Minha casa aqui tem tudo
Tanta coisa de valor
Minha casa não tem nada
Vivo só, não tenho amor

           (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

Lula polariza com Marina para dividir o PSB e ofuscar Aécio

Pedro do Coutto
 
O ex-presidente Lula tem aproveitado a presença de jornalistas à sua volta, como é natural, para atacar a ex-senadora Marina Silva pelo elogio que fez ao governo Fernando Henrique e também rebater as críticas que vem recebendo da ex-ministra do Meio Ambiente na primeira metade de sua administração. Com esta atitude, Lula busca, e creio que consegue, polarizar o debate entre ele, pelo PT, e Marina, fomentando a divisão no PSB entre as correntes do governador Eduardo Campos e os anseios da Rede Sustentabilidade. Isso de um lado. De outro, age para ofuscar a candidatura de Aécio Neves, deslocando-o para um segundo plano do debate sucessório.

Duas excelentes reportagens focalizaram o lance do ex-presidente: a de Ranier Bragon, Taí Nalon, Mariana Scheiberg e Gustavo Patu, na Folha de São Paulo, e de Chico de Gois e Luiza Damé, no Globo. Lula sustentou que Marina Silva tomou lições erradas de economia e assinalou que os economistas sabem tudo quando estão na oposição. Mas no governo é diferente. E reforçou seu empenho em polarizar a disputa ao afirmar: agora estou  ouvindo até uma candidata falar em tripé, referindo-se diretamente a Marina, pois foi ela quem falou na volta do tripé macroeconômico que, segundo sua visão, funcionou no período FHC, proporcionando estabilidade ao país.

Lula aproveitou a deixa para contestar, lembrando que Marina foi nomeada por ele ministra do Meio Ambiente em 2003 e, no seu ponto de vista, foi testemunha da situação de instabilidade com que ele se deparou no país no início do governo. Sob o ângulo político, Lula não poderia ter encontrado nada melhor do que a declaração de alguém que integrou sua equipe e os quadros do PT. Realmente falar em tripé macroeconômico é dose para dinossauro. O que significa isso exatamente?

É preciso traduzir. Pois partir do princípio da existência de um tripé macroeconômico para se fazer política é tacitamente aceitar a existência de um tripé simplesmente econômico, além de outro microeconômico para se traduzir fatos políticos. Falando claramente, como um dia escreveu o jornalista Carlos Castelo Branco no Jornal do Brasil: não devemos sufocar a política e a democracia com tantos adjetivos. Nada disso.

PARA GOVERNAR
Política é o único instrumento efetivo de se governar. E, ao mesmo tempo, uma ação firme e forte em torno de ideias simples e claras, como definiu De Gaulle, respondendo a críticas de Sartre, como também a única forma de agir coletivamente. Política é igualmente uma forma de se poder sentir a atmosfera predominante numa infinidade de momentos. É tão ampla a palavra (política) que não possui sinônimo em idioma algum. Mas voltando a resposta de De Gaulle, então presidente da França, em 68, vale a pena completá-la incluindo seu elegante arremate.

Sartre , disse De Gaulle, política é uma ação firme e forte em torno de ideias simples e claras. Algo extremamente complexo, mas suas formulações tem que ser sempre transparentes. Quem a torna opaca pode estar fazendo filosofia, mas não política. É o seu caso, Sartre. Que, ainda  por cima diz que posso mandar prender você. Não, Sartre. Não se pode mandar prender Voltaire.

As ações políticas necessitam sobretudo ser claras, acessíveis ao entendimento coletivo. Porque o que é difícil de entender é excludente para a maioria da população. Mas ela reage pela sensação que a atmosfera proporciona. As próximas pesquisas do Datafolha e do Ibope devem registrar os efeitos da polarização colocada no palco (da política) pelo ex-presidente Lula. Aécio Neves e Eduardo Campos devem descer. Marina Silva subir nas intenções de voto para 2014. Mas até o teto da oposição.

 

Afinal, o que significa a vitória de Rui Falcão no PT? Não significa nada, e Dilma vai comer mais uma lasanha…

Carlos Newton

Nas ondas do marqueteiro e guru João Santana, que se tornou uma espécie de quadragésimo ministro de Estado, pois realmente é quem detém o poder, o Planalto deixou “vazar” discretamente que o resultado da disputa pela presidência do PT significaria a consagração do eixo personificado por Lula-Dilma-Rui Falcão.

Só que esse eixo não existe. Quem elegeu Rui Falcão foi Lula, solitariamente. A presidente Dilma Rousseff não tem o menor prestígio no partido. Basta lembrar que, nos debates eleitorais, cinco dos seis candidatos à presidência do PT criticaram duramente o governo e a presidente Dilma. Apenas Rui Falcão ficou em cima do muro, como é de seu feitio, para não pegar mal, e acabou sendo vaiado e chamado de “pelego” no último debate eleitoral.

Rui Falcão não existe, não tem carisma nem liderança. O verdadeiro presidente do partido é Lula, que manda e desmanda, faz o que bem entende. A presidente Dilma nem se atreve a participar da vida partidária. Só apareceu para votar em Falcão, e estamos conversados.

DESESPERO

É justamente essa situação que desespera a presidente Dilma, que não confia em Lula nem no PT. Por isso, tenta desesperadamente ocupar espaço na mídia e não mede consequências, obedecendo fielmente as ordens do guru-marqueteiro.

Foi João Santana que, imitando Ulysses Guimarães, mandou Dilma falar no pessimismo do Velho do Restelo, como se ela fosse grande conhecedora da obra de Camões. Depois, imitando Said Farhat, fez Dilma dizer ao ministro Lobão que saíra incógnita, de moto, dirigindo à noite pelas ruas desertas de Brasília, como João Figueiredo fazia.

Lobão logo espalhou a notícia, que teve de ser desmentida, porque Dilma não tem carteira nem sabe dirigir moto. Ela então disse que pegou carona na garupa de um assessor. Então, imaginemos aquela senhora cada vez mais rotunda, encarapitada na garupa de uma possante moto (capaz de suportar o peso dela e do piloto), morrendo de medo e grudada às costas do motoqueiro.

Uma cena patética, sem dúvida, que jogaria no lixo a dignidade presidencial, mas que nunca aconteceu na realidade. Porém, o marqueteiro-guru Santana mandou falar, e ela obedeceu, claro.

Esse é o quadro atual do poder. Dilma vê Lula crescendo em seu retrovisor, já sente o bafo dele no cangote, vê o PT nos braços de Lula, então se desespera e come mais uma lasanha, depois se entope de bolo de chocolate. E la nave va, fellinianamente, rumo à sucessão presidencial.

A Bela da Neve

Sebastião Nery

RIO – Em dezembro de 1980, a caminho de três meses na Sibéria,  chego a Lima, no Peru, às duas da madrugada, depois de cinco horas de voo. Mudo da Varig para a Aeroflot,  em um enorme Iliushin-62. O avião  cheio lá atrás, e só eu na primeira classe, recebido com um conhaque da Geórgia, daqueles que Stalin mandava para Churchill.

Cinco horas seguidas, até descer em Cuba. Duas horas no chão em Havana  e de novo nos céus. Mais 9 horas até Schenon, na Irlanda. Outras duas horas no chão, o frio roendo os ossos e o voo final de 4 horas até Murmansk, na península de Kola, extremo norte  da Rússia, 300 mil habitantes em pleno Polo Ártico. Sol forte no céu iluminava o horizonte visivelmente curvo, lá em cima, e, de repente, a visão clara, real, inacreditável, da noite caminhando  apressada sobre as nuvens. O avião correndo para um lado e a noite para o outro. E daí  a pouco o meio-dia anoiteceu com a lua e nuvens rosas, como nas histórias bonitas da infância.

Engolido em fusos horários a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Embaixo, a dez mil metros, já era Murmansk  e era meia-noite de novo. O aeroporto dormia sob a  neve a 10 graus abaixo de zero.

MURMANSK

Era a primeira etapa para a distante Sibéria, passando antes por Moscou, Stalingrado (hoje Volgogrado), Novosibirsk, Ikurtski e afinal Vladivostok, fronteira da Mongólia. Do avião tinha visto surgir o mundo mágico de Murmansk, a cidade mítica sobre o gelo eterno. Longos TUS/2 turbinas e  esguios Iliushin pousados sobre um tapete branco e infinito e, andando para eles, grupos de homens e mulheres, nas cabeças grandes gorros peludos, de couro de veado, botas pretas, marrons, vermelhas, luvas e capotes de pele de todos os tipos e de todas as elegâncias. E lá em cima, sobre as nuvens,uma lua gorda boiando no céu azul marinho todo estrelado.

A neve caia sem parar, grossa, intensa. Como era possível os aviões chegarem e saírem? Caminhões enormes, como jamantas, empurrando largas navalhas negras, do tamanho das pistas, iam passando e raspando a neve. O avião desce, a neve volta, vem de novo o caminhão com sua navalha. Um avião, um caminhão, um avião, um caminhão. E a neve!

GREENPEACE

Quando meu avião aterrissou era um meigo e longilíneo tubo de neve, como doce fantasma arriado sobre o lençol branco.  Um caminhão se aproxima com grossos tubos, soprando bafo e derretendo a capa branca: turbinas de velhos aviões engatadas nos caminhões lançando jatos de ar.

Da janela do hotel eu ouvia o silencio gelado da noite sem fim e via apenas os blocos negros, como fantasmas, das plataformas de petróleo, uma a uma. E pensava como um povo consegue conviver, cada ano, meses inteiros, 6, 8, 10, com tudo coberto de gelo e frio. Rios e lagos endurecem. As ruas e calçadas sobem centímetros. Os parques sobem metros  de neve acumulada. E é preciso ir tirando e ela voltando, hora a hora, dia a dia, cada manhã, meses diretos. Batalha interminável. Brinquei com os russos:

– Pensava que vocês tinham ficado livres de Napoleão, que atolou sua invasão na neve das estepes russas. Mas não, todo ano é uma guerra, a mesma guerra certa, fixa, marcada, de meses, guardando tudo, preservando tudo, até a primavera voltar e com ela o sol e as flores e os frutos da terra.

– É o inverno que nos faz fortes. Ele nos ensina a resistir e esperar.

ANA PAULA

Agora vejo presa, no frio daquela mesma Murmansk de 1980, a bela e valente brasileira Ana Paula Maciel, entre um grupo de 30 empregados da ONG americana Greenpeace, quando invadiam uma plataforma de petróleo da Rússia, em águas territoriais russas. Logo, praticavam uma ilegalidade.

Rubem Braga dizia que a prisão é a suprema indignidade. Tomara que Ana Paula saia de lá o mais rápido possível. Mas deve saber que o Greenpeace não é nenhuma benemérita entidade beneficente.  Diz que fazia “um ato de protesto contra a exploração de petróleo no Ártico”. Isto é uma fraude, uma farsa. Ele  é um pé de cabra norte-americano que pratica ações pelo mundo a serviço de negócios de empresas americanas concorrentes.

Diante das plataformas de petróleo russas, já no Ártico internacional,   vi lá, e Ana Paula certamente viu, dezenas de  plataformas da Noruega, Holanda, Inglaterra, EUA (no Alasca).Por que o Greenpeace nunca invadiu nenhuma delas? Por que apenas a russa, a maior concorrente americana?

Ana Paula, a bela da neve, não é nenhuma ingênua.Sabe que trabalha para o mal. É uma alugada do mal. Obama também não sabia de nada.

O golpe para acabar com o golpe (2)

Carlos Chagas

O deputado  Carlos Luz, presidente da Câmara, assumira uma semana atrás a presidência da República, terceiro que era na linha sucessória. Getúlio Vargas dera um tiro no peito, um ano e dois meses antes, e o vice-presidente, Café Filho, licenciara-se para tratamento de saúde. Até hoje pairam dúvidas a respeito: teria ele realmente passado mal, cardíaco que era, internando-se no Hospital dos Servidores do Estado, ou tudo não passava de uma farsa  armada para impedir a posse do presidente democraticamente eleito em outubro,  Juscelino Kubitschek?

Afinal, Luz formava na bancada golpista, apesar de mineiro e do PSD. Café não teria tido coragem para rasgar a Constituição, afastando-se para que a trama se desenvolvesse. O sucesso do impedimento da posse de JK repousava nas forças armadas, com a Marinha e a Aeronáutica francamente favoráveis ao golpe, mas com o ministro da Guerra, general Henrique Lott, sustentando a legalidade. Como o Exército era o   ator  decisivo entre os militares, nada se faria sem o afastamento daquele chefe rígido, cultor da lei e dos regulamentos, ranzinza  e apolítico.

A partir da crise eclodida com o discurso do coronel Bizarria Mamede em favor do impedimento de Juscelino, e com Lott pretendendo prendê-lo,  sem poder, já que o oficial estava subordinado à presidência da República, surgiu a oportunidade para os golpistas afastarem o ministro. Carlos Luz manteria Mamede em liberdade e Lott, cioso de sua autoridade, pediria demissão, como pediu.

A reviravolta lembrada no capítulo anterior revelava o Exército unido em torno da Constituição e de seu ministro.

Carlos Luz foi acordado de madrugada, em seu apartamento de Copacabana, informado de que o Exército ocupava as ruas do Rio. Dirigiu-se ao palácio do Catete, cercado de alguns ministros e parlamentares empenhados na quebra da democracia. Logo verificou o risco de permanecer na sede do governo, prestes a ser ocupada pelos soldados do ministro da Guerra. A sugestão foi para que se dirigissem ao Arsenal de Marinha, para onde também acorreram  alguns coronéis do Exército adversários da posse de Juscelino. Dos dois cruzadores da Marinha, o “Tamandaré” e o “Barroso”, apenas o primeiro encontrava-se em condições de navegabilidade e, mesmo assim, precária.  Nem todas  as caldeiras funcionavam, e em matéria de provisões,  havia mais goiabada do que arroz e feijão.  Mesmo assim, com os comandantes da Marinha dispostos à resistência, Carlos Luz  aceita o convite para embarcarem na belonave e seguirem para São Paulo, onde ele instalaria o governo legítimo, imaginando-se que o governador daquele estado também formava entre os golpistas.

NO TAMANDARÉ

Instalam-se como podem nos camarotes da oficialidade e logo o “Tamandaré” se movimenta, ainda que aprisionado na baía da Guanabara, já que três fortalezas do Exército dominavam a saída, além de outras situadas bem próximo. Os avisos transmitidos por bandeiras, das fortalezas, alertavam estar proibida a passagem de navios de guerra, mas o almirante Pena Botto, maior patente a bordo, ordena ao comandante do cruzador, Silvio Heck, para forçar a passagem.

A essa altura, já na manhã do dia 11 de novembro, o ministro Lott estava informado de tudo. Inflexível, determina que o “Tamandaré” seja posto a pique, se tentar escapar.

Foi quando os primeiros petardos das baterias das fortalezas começam a pipocar. Havia nevoeiro na baía da Guanabara e uma embarcação estrangeira de passageiros ganhava o alto-mar. A instrução do almirante, aliás, presidente da Cruzada Anti-Comunista, foi de a belonave valer-se da proteção do navio civil e fugir da armadilha. Com  os tiros já fora da barra, o convés é esvaziado, os passageiros  refugiam-se no interior e Pena Botto manda chamar um dos  coronéis do Exército partidários do golpe, Jaime Portella, da arma de  Artilharia. Sentem os primeiros impactos, todos caindo na água, mas a conclusão do militar foi de que dentro de poucos minutos um tiro acertaria no navio. Os artilheiros da costa estavam acertando a pontaria. Senão pânico, houve muito  medo por parte dos civis a bordo.

Como estamos no Brasil, graças a Deus, o “Tamandaré” seguia como podia, afastando-se do litoral. Ficou demonstrado, depois, que os oficiais das fortalezas  do Exército não afundaram o navio da Marinha porque não quiseram. Erraram os tiros  de propósito para não derramar  sangue de seus irmãos.

Lott ficou uma fera, mandou punir os artilheiros. Mas estava lavada a honra dos contendores. Uns porque conseguiram furar o bloqueio. Outros porque evitaram uma carnificina. (continua  amanhã).

Mais um escândalo envolvendo políticos. Parece que isso não acaba nunca.

antonio donato haddad 400x250 Corrupção na Prefeitura de São Paulo: Secretário de Governo de Haddad deixa o cargo Haddad “aceitou” a saída de Donato

Deu na Folha

O prefeito Fernando Haddad (PT) aceitou nesta terça-feira o pedido de afastamento do secretário de Governo Antonio Donato. Hoje, ele pediu afastamento da pasta após a Folha revelar que um dos acusados de integrar a chamada máfia do ISS trabalhou em seu gabinete de janeiro a abril deste ano.

O nome do secretário é citado em pelo menos cinco episódios da investigação sobre os fiscais, acusados de ter provocado um rombo de R$ 500 milhões ao reduzir o valor do ISS de imóveis novos em troca de propina.

A sala ocupada pelo secretário petista fica no mesmo andar do gabinete do prefeito. Donato solicitou formalmente a transferência de Barcellos da pasta de Finanças para a sua secretaria no ofício 134/2013, de 17 de janeiro.

O auditor permaneceu na pasta até abril, quando voltou à secretaria original. Segundo a gestão petista, ele mesmo quis a transferência e não tinha “função específica” na secretaria de Donato.

A transferência do auditor para a pasta do Governo ocorreu sem que tivesse sido publicada no “Diário Oficial”.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGO mais interessante e curioso é a declaração do presidente do PT, Rui Falcão, dizendo que o partido “está cortando na sua própria carne”. Pelo contrário, o que ocorreu foi um novo mensalão. O secretário de governo da Prefeitura petista recebia “mesada” de 20 mil de um fiscal. E muitos outros fiscais estavam no esquema. (C.N.)

Acredite se quiser: Procurador pede a prisão imediata dos mensaleiros.

Felipe Recondo e Mariângela Gallucci
(O Estado de S. Paulo)

Brasília – Um pedido feito nesta terça-feira, 12, pelo Ministério Público pode levar o Supremo Tribunal Federal (STF) a determinar a prisão imediata de 20 dos 25 condenados por envolvimento no mensalão, incluindo nessa lista as figuras centrais do escândalo de corrupção: o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o empresário Marcos Valério, apontado como operador do esquema.

Ao menos cinco ministros já afirmaram, reservadamente, serem favoráveis a essa possibilidade. Com mais um voto nesse sentido, o tribunal poderia determinar a prisão imediata de 20 dos condenados e a execução das penas alternativas para três outros condenados. Somente dois deles – Breno Fischberg e João Cláudio Genu – aguardariam o julgamento dos infringentes. Os dois foram condenados por apenas um crime, mas a condenação pode ser revertida no próximo ano, quando forem julgados os recursos.

Dois integrantes da Corte lembram que uma súmula permite a execução das penas, mesmo com embargos infringentes pendentes de julgamento. “Em caso de embargos infringentes parciais, é definitiva a parte da decisão embargada em que não houve divergência na votação”, estabelece a súmula do tribunal. Outro ministro indica dois precedentes em que o STF permitiu a execução da pena, independentemente da existência de embargos infringentes.

No pedido feito ao STF na tarde desta terça, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, argumentou serem imutáveis as penas impostas aos réus que não têm direito a novo julgamento. E para os réus que pediram novo julgamento, parte das penas também não pode mais ser alterada.

PRISÃO IMEDIATA

“É entendimento sedimentado no âmbito desse STF que não há necessidade de aguardar o julgamento de todos os recursos que as defesas interponham para a determinação de imediato cumprimento das penas, notadamente quando já apreciados (e rejeitados) os primeiros embargos de declaração ajuizados contra a decisão condenatória do plenário”, afirmou Janot no parecer.

No caso de Dirceu, por exemplo, a pena imposta pelo crime de corrupção ativa não pode mais ser alterada. O placar do julgamento neste ponto específico foi de 8 votos a 2 pela condenação. Como não houve quatro votos divergentes, Dirceu não poderia pedir novo julgamento para esta acusação.

No entanto, por 6 votos a 4, o tribunal condenou Dirceu por formação de quadrilha. Em razão desse placar, a defesa de Dirceu pediu ao tribunal, por meio dos embargos infringentes, novo julgamento para esta acusação, o que deve ocorrer somente no início de 2014.

Assim, conforme o pedido de Rodrigo Janot e a defesa antecipada por parte dos ministros, Dirceu poderia começar a cumprir a pena pelo crime de corrupção, aguardando preso o novo julgamento pelo crime de quadrilha. Outros nove réus estão na mesma condição, incluindo Genoino, Valério, Delúbio Soares, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP), a ex-presidente do Banco Rural Kátia Rabello, o publicitário Cristiano Paz, ex-sócio de Valério.

JULGAMENTO

Nesta quarta,13, o STF inicia julgamento dos segundos recursos de parte dos réus do mensalão. Nesse grupo estão os deputados Pedro Henry (PP-MT) e Valdemar Costa Neto (PR-SP). Os dois e outros oito condenados apontam contradições, omissões e ambiguidades no julgamento dos primeiros recursos.

A tendência do tribunal é rejeitar os recursos e considerá-los uma tentativa da defesa de protelar o fim do processo. Por isso, o tribunal deve decretar a execução imediata das penas desse grupo que não tem direito aos chamados embargos infringentes.

Nessa lista de prováveis presos nos próximos dias estão também o ex-presidente do PTB Roberto Jefferson, os ex-deputados Bispo Rodrigues, José Borba e Pedro Corrêa, o ex-vice-presidente do Banco Rural Vinicius Samarane. No total, dez condenados podem ser presos nos próximos dias – sendo dois em regime fechado. Outros três cumpririam pena alternativa.

Surgem novos podres do ministro Fernando Pimentel

Deu no Globo
(Ezequiel Fagundes)

O ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, provável candidato do PT ao governo de Minas no ano que vem, virou alvo de outra ação do Ministério Público Estadual (MPE) de Minas por causa de suspeitas na implantação do programa de vigilância batizado de “Olho Vivo” quando ele era prefeito de Belo Horizonte, em 2004.

Dessa vez, o MPE pediu à Justiça o bloqueio dos bens do ministro e sua condenação por improbidade administrativa (mau uso de dinheiro público). Os promotores de Justiça da capital querem que Pimentel e outros acusados devolvam R$ 8 milhões aos cofres públicos. Um ex-procurador-geral de BH, dois ex-secretários municipais, a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e um diretor da entidade também são acusados de dispensa de licitação, o que causou danos ao erário, segundo a promotoria.

Em março do ano passado, a Procuradoria Geral da República (PGR), em Brasília, já havia oferecido denúncia criminal contra Pimentel ao Supremo Tribunal Federal (STF) por fraude em licitação e desvio de recursos em proveito alheio. Como o petista já havia sido nomeado ministro, o processo tramita no STF por causa do foro privilegiado por prerrogativa de função do cargo. O relator é o ministro José Dias Toffoli. Os outros réus respondem a ação penal na 9ª Vara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG).

IMPROBIDADE

Nessa nova ação do MPE, o processo tramita em Minas por se tratar de uma ação na esfera civil. Portanto, que pede ressarcimento os cofres públicos e a condenação por improbidade administrativa. Esse tipo de ação é imprescritível e atinge quem possui foro privilegiado. Nela, o MPE reitera que a contratação da CDL pelo então prefeito e seus ex-secretários, em janeiro de 2004, recebeu o nome de “convênio” para dar “aparência de legalidade ao imbróglio”.

A contratação previa o repasse à entidade de R$ 14,7 milhões em parcelas, mas uma investigação suspendeu o repasse quando já haviam sido destinados R$ 4,4 milhões. Além disso, a CDL recebeu no período R$ 4 milhões de empréstimo ao Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) para “aplicar no ilegal ‘convênio’”. O MPE afirma que a CDL chegou a apresentar uma “nota fiscal inidônea” para comprovar a aquisição de parte dos materiais eletrônicos.

NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – O ministro Fernando Pimentel tem mais irregularidades a explicar, como o milhão de reais que recebeu da Federação das Indústrias de Minas Gerais, para dar palestras no interior, embolsou o dinheiro, não fez uma só palestra e ficou tudo por isso mesmo. O Planalto diz que ele é inocente, porque seus atos ilegais foram cometidos antes de ser nomeado ministro. (C. N.)

Devagar, quase parando: Justiça leva três anos para cassar passaporte ilegal do filho de Lula

Carlos Newton

A Justiça Federal de Brasília enfim declarou nulo o passaporte diplomático concedido a Luís Cláudio Lula da Silva, um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Levou quase três para tomar uma decisão óbvia, pois a concessão do passaporte ocorreu inteiramente fora-da-lei.

Como se sabe, Luís Cláudio ganhou esse passaporte três dias antes do término do mandato de seu pai. Pouco depois, em janeiro de 2011, o Ministério Público abriu uma investigação preliminar, motivada por diversas reportagens na imprensa que revelaram uma extensa lista de beneficiários do passaporte especial, como parentes do ex-presidente, autoridades religiosas, políticos e ex-ministros.

Como se esperava, a Procuradoria da República no Distrito Federal logo considerou a emissão do documento ilegal e fora do interesse do País. Mas a sentença só saiu no início do mês passado, quase três anos depois, em ação civil pública movida em 2012 pelo Ministério Público Federal.

Luís Cláudio entrou de penetra, porque só fazem jus ao passaporte diplomático aqueles que desempenham ou vão desempenhar no exterior missão ou atividade continuada de especial interesse do País. Dá ao seu portador uma série de regalias, como acesso à fila separada em aeroportos e tratamento no embarque e desembarque menos rígido nos países com os quais o Brasil tem relação diplomática. De emissão gratuita, o documento também torna dispensável, em alguns países, a exigência do visto de entrada.

Na política, dois jogos ao mesmo tempo

Luiz Tito

O senador Aécio Neves, para dirimir controvérsias, anunciou nos últimos dias a disposição de antecipar o lançamento de sua candidatura à Presidência da República, com o fim, ainda, de consolidar alianças voltadas para seu projeto nacional. É uma estratégia avaliada como correta, neste momento, na medida em que o PSDB se esforça para fazer o país acreditar no nome do senador mineiro como alternativa real de desestabilização da candidatura da presidente Dilma Rousseff à reeleição.

Nos últimos dias, Aécio se viu obrigado a responder ao ex-governador José Serra, que disparara críticas ao que chamou de equivocadas e confusas manifestações de lideranças do PSDB, que insistem em oferecer, como plataforma, críticas desatualizadas ao governo petista. Serra se referia ao tom dado pelo partido na avaliação do malsucedido leilão de Libra, cujos resultados econômicos reforçaram o improviso da Petrobras no seu patrocínio e a desconfiança de investidores internos e externos em eventual participação no certame.

Para tal, ousou dizer que o PSDB se mostra incapaz de adotar um discurso para confrontar-se com o PT. Aécio respondeu, no Amazonas, onde se encontrava, dizendo que cada um colabora como lhe é dado fazer. Ele, Aécio, estava no norte do Brasil levando as razões de sua candidatura para discuti-las com as bases do partido. Já Serra se encontrava no conforto, em São Paulo, falando para uma resumida plateia de seus admiradores. A contenda não teria maior importância se não revelasse a distância em que se acham expressivas lideranças do maior partido de oposição ao governo e que aspira ser uma opção de alternância de poder e desconstrução do mando quase hegemônico do PT.

PIMENTA DA VEIGA

Em Minas, a decisão de Aécio também teve importância. Isso porque o lançamento da candidatura do ex-prefeito e ex-ministro Pimenta da Veiga ao governo do Estado fora recebido como uma manobra aecista para ocupar o lugar pretendido por inquietos pré-candidatos, há tempos trabalhando pelo fortalecimento e aceitação de suas postulações. Exemplos são o próprio vice-governador Alberto Pinto Coelho, o deputado federal Marcus Pestana e o deputado estadual Dinis Pinheiro, colocados no corredor de onde, sem consultas, foram compelidos a saldar o desfile do preferido Pimenta da Veiga à vaga antes exaustivamente trabalhada por eles.

Desconfiava-se que o lançamento de Pimenta, naquele momento e com tanta surpresa, fosse uma forma de Aécio manter aberta a porta para sua própria candidatura ao governo de Minas, se sentisse o favoritismo da candidatura do opositor, o ex-prefeito Fernando Pimentel no confronto com Pimenta da Veiga.

Nesse conjunto de incertezas, a maior delas é a pouca disposição do governador Antonio Anastasia em postular a única vaga de senador na bancada mineira nas próximas eleições. Anastasia terá dificuldades em não se candidatar, tal é o apelo para que o faça, embora ainda resista publicamente à ideia. Seu nome ilustraria a representação de Minas no Senado, hoje claramente prejudicada pela sua atual e difusa composição.

O calendário é curto e avançam as discussões. A equação está em acomodar pretensões num cenário refém do projeto nacional do PSDB, hoje liderado pelo senador Aécio Neves. O que podemos esperar?

Os protestos do ano que vem

João Gualberto Jr.

A pergunta não é se vai haver protesto no ano que vem. Já são favas contadas. O que aflige é o quanto e o como. Irão novamente às ruas os brasileiros aos milhões? Serão atos numerosos, democráticos e ordeiros ou o que irá se destacar serão o quebra-quebra e o clima de guerra civil?

Ano que vem tem Copa do Mundo no Brasil: estádios e hotéis lotados (os números oficiais prévios sustentam essa expectativa) e, certamente, também a rua, “a maior arquibancada do Brasil”. As demandas por “padrões Fifa” nos serviços públicos voltarão às bocas e aos cartazes. Apenas três meses vão separar a Copa das eleições gerais. Os protestos poderão interferir no resultado do voto? Sim, mas terão fôlego e força suficientes para estender seus efeitos por três meses?

No começo de outubro último, as marchas dos milhões empreendidas em junho tinham virado passado. Apesar dos atos mais violentos disseminados nas principais cidades no 7 de Setembro e de um ou outro esporádico no Rio e em São Paulo, a passagem do tempo foi o bastante para descolar, na memória média, a época da Copa das Confederações das primeiras semanas de outubro.

Enfim, depende de sua amplitude a capacidade de a onda do povo na rua se propagar até a urna eletrônica. Contudo, já não depende mais de nada o impacto que ela causou nos discursos e nas posturas dos políticos. As reivindicações entraram e não sairão tão cedo das plataformas eleitorais do ano que vem, mesmo que os protestos que vierem a ocorrer em 2014 não se confirmem tão numerosos.

ECO DAS RUAS

Dessa forma, em alguma medida, o pré-candidato A e o pré-candidato B já absorveram inteligentemente o eco das ruas em benefício próprio. O mesmo fizeram os Parlamentos, aprovando medidas moralizantes de alto apelo popular para, em outubro próximo, apresentar a fatura.</CW>

Em junho passado, o turbilhão crescente pegou de calça nas mãos todas as autoridades, do vereador à presidente da República. A surpresa não se repetirá para ninguém na Copa, do que se deduz que o impacto político da balbúrdia tenderá a ser menor: as respostas virão com mais agilidade e os colchões de absorção já foram afixados às grades de proteção.

O Palácio do Planalto, por exemplo, criou uma estrutura digital para se aproximar do eleitor, o que inclui tuitadas diárias do perfil @dilmabr, conta oficial do Facebook e um corpo de comunicação online para interceptar e poder lidar com as movimentações no campo de mobilização prioritário: a internet.

E se os black blocs dominarem a cena? Nesse caso, há dois resultados possíveis: o primeiro é o afastamento de quem está disposto a mostrar a cara e gritar na rua, mas não a jogar coquetel molotov em concessionária de automóveis. O outro, em benefício de Dilma, é um discurso preparado.

Os black blocs existem para confrontar as forças policiais, todas elas estaduais. Se o caldo entornar, restará à presidente lamentar os excessos de ambos os lados e lavar as mãos. (transcrito de O Tempo)

Nova revolução?

Gelio Fregapani

Lamentavelmente estamos nos encaminhando nessa direção. Os componentes que a propiciam estão presentes e aumentando.

As revoluções da classe “A” costumam ser palacianas, como o impeachment do Collor. São realizadas no âmbito das elites, mas necessitam contar com pelo menos o concordo das Forças Armadas e com expressiva insatisfação popular.

Para haver uma revolução de classe média, como a de 64, é indispensável também alguma  insatisfação popular e é por demais evidente a insatisfação com a corrupção dos congressistas, com a inércia do Judiciário e com a sequência das greves e das depredações. Mais do que a insatisfação é necessário uma irredutível divergência dessa classe com o Governo e, mais ainda, o envolvimento das Forças Armadas, pois a classe “B” tem pouca disposição para lutar e sempre desejará que alguém lute por ela e somente se levantará sentindo-se ameaçada, inclusive de invasão de suas casas.

Isto está iniciando, menos por motivos políticos, mais por conta da (in)Segurança Pública. Não nos estenderemos sobre as classes baixas (C e D) por essas, no momento, não terem motivações para uma revolução. Talvez encontrem algum motivo para se opor a mesma. Contudo, em grande parte, considerariam desejáveis um pouco mais de ordem e a punição severa da corrupção.

INSATISFAÇÕES

Qualquer analista concordará que está em formação uma massa crítica de insatisfações e que o caminho é perigoso. Que, embora a insatisfação tenha motivos reais, é insuflada também pelo estrangeiro, ou melhor, pela oligarquia financeira internacional. Como a insatisfação tende a crescer, pode chegar a uma massa explosiva e se conseguir o envolvimento ou ao menos a neutralidade  das Forças Armadas o caminho da revolução estará aberto.

Mesmo havendo uma massa crítica, ela só explode com um evento acionador. A “espoleta” de nova revolução será a reação dos produtores rurais ao absurdo das invasões dos movimentos indigenistas, aos desmandos ambientalistas e aos esbulhos dos truculentos movimentos dos sem terra. Privados de apoio no Judiciário os fazendeiros já criam as suas milícias. Aí temos divergências irredutíveis e forças reativas, prontas para iniciarem o conflito. Em 64 a espoleta foi o governo da Minas. As Forças Armadas, descontentes,  simplesmente aderiram.

E agora, as Forças Armadas, como se portarão? – Ainda é uma incógnita. Excepcionalmente espezinhadas no governo FHC e menosprezadas no governo Lula, foram aos poucos levantando as restrições no atual governo, quando começaram a ser ligeiramente mais bem tratadas. Entretanto, as imbecilidades da Comissão da Verdade e da Ministra dos Direitos Humanos impedem a adesão emocional à comandante suprema.

A tradição das Forças Armadas é de legalidade, tradição herdada de Caxias. O rompimento da legalidade em 64 foi algo excepcional, algo pedido por toda a população. Já a Proclamação da República foi o resultado de uma conspiração espúria quase restrita a  insatisfação militar, naturalmente insuflada pela insatisfação da elite de então – os fazendeiros que perderam seus escravos.O povo da Capital manteve-se neutro, ou bestificado, como se falou então. No interior a República foi imposta a manu militari.

Haverá uma nova revolução? Que característica terá? A quem servirá? Será insuflada do exterior? O que Caxias diria?

Certamente o mesmo que disse aos farroupilhas: Unamo-nos e marchemos ombro a ombro e não peito a peito, em defesa da Pátria que é a nossa mãe comum.

Que Deus abençoe o nosso País.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOGNosso colaborador Gelio Fregapani é coronel da reserva e tem informações internas. Realmente, há insatisfação nos quartéis. Há alguns dias, numa Convenção em Brasília, dois oficiais-generais da ativa fizeram duras críticas ao governo. O jornalista que ouviu seus pronunciamentos perguntou se podia publicar as críticas e eles disseram que sim. Isso tem um significado. Todo cuidado é pouco. (C.N.)

A falência da Universidade brasileira

Mário Assis

Há muito tempo eu não lia algo assim, com este alto grau de assertividade e verdade. Confiram essas palavras de Luiz Costa Lima, pernambucano, crítico e professor emérito da PUC-Rio, 76 anos. Entrevista publicada no Caderno Prosa & Verso, no Globo, sábado 08/11/2013. Recebeu há poucos dias o Prêmio Jabuti de Teoria e Crítica Literária.

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NÃO HÁ DEBATE INTELECTUAL

Luiz Costa Lima 

“O Brasil não tem tradição forte de debate intelectual, por vários motivos. Uma razão é que a universidade como grande centro de reflexão, uma tradição no Ocidente, é muito recente entre nós. Uma segunda razão é o analfabetismo generalizado. Fui posto para fora da universidade (Universidade do Recife, em 1964) pela ditadura porque trabalhava com o serviço de alfabetização de Paulo Friere, que, alías, sofria oposição tanto da direita quanto do Partido Comunista. Penso que o problema hoje se alastrou, em vez de ter diminuído como apresentam as cifras oficiais, porque temos um analfabetismo alfabetizado, o que chamam de ‘analfabetismo funcional”. É um problema mais amplo do que se imagina, atinge até professores universitários. Uma terceira razão é que dentro da própria universidade há um círculo vicioso de banalização: o professor, que já chega mal preparado, sofre pressões para entregar uma informação simplificada ao aluno, que só quer um diploma para ter um emprego no qual o seu analfabetismo funcional funcione. Um quarto motivo é nosso compadrio. que se estende ao meio acadêmico e prejudica o debate público, os concursos e o ensino”.