Catucando a onça com vara curta

Carlos Chagas

Pelo cerimonial da sessão de abertura da Assembléia Geral das Nações Unidas, cabe ao Brasil o discurso de abertura. O segundo orador é o representante dos Estados Unidos. De uns tempos para cá nossos presidentes da República, e os deles, tem se pronunciado quase rotineiramente. João Figueiredo inaugurou a temporada, depois José Sarney e os demais, com exceção de Itamar Franco. Dilma já foi uma vez e agora vai de novo, dada a importância da denúncia que deverá fazer, a respeito das ações de espionagem dos americanos junto a seus aliados. Viaja hoje à noite, preparando-se para a terça-feira.

Barack Obama falará em seguida. Pelo ritual da ONU, os oradores não se encontram. Ficam em salas separadas aguardando sua vez, com direito a dez ou quinze minutos de exposição antes de assumir a tribuna, sentados em incômodas e isoladas cadeiras, um patamar abaixo da bancada onde se assenta o presidente da sessão. Podem, quem discursou  e quem vai discursar, no máximo cruzar-se no trajeto de ida e volta, cumprimentando-se. Encontrar-se depois é uma questão de agenda e de preferência, geralmente deixada de lado.

Como Dilma parece que será veemente em sua crítica, é provável que não troque sequer um “bom dia” com Obama, apesar de a diplomacia envolver surpresas e inusitados. Afinal, ela terá baixado tacape e borduna na política de espionagem do governo americano, esperando-se a devida e imediata réplica, ainda que muitos outros temas devam ser objeto da fala do gringo, como  por exemplo a questão da Síria.

É óbvio que o atual inquilino da Casa Branca não gostou nem um pouco do adiamento da visita que nossa presidente faria a Washington em outubro. Engoliu a desfeita, certamente deixará para as calendas a fixação de datas posteriores. Como o Brasil ousou expor as entranhas de seu país, primeiro cancelando programação antes acertada e agora verberando ao vivo e a cores a invasão cibernética praticada sabe-se lá desde quando?

Devemos estar preparados para retaliações tanto no campo político quanto no  econômico. Além dos prejuízos financeiros, cada  gesto de má vontade adotado pelos Estados Unidos em seu relacionamento com o Brasil renderá para nosso governo  dividendos internos e externos. Funcionará em favor da reeleição de Dilma, ano que vem, assim como reafirmará nossa liderança no continente sul-americano. Apesar disso, trata-se de um risco a correr, esse de catucar a onça com vara curta.

COMPENSAÇÃO DESPROPORCIONAL

Diante do impacto do prolongamento por mais um ano do  julgamento dos mensaleiros agraciados com embargos infringentes, parece desproporcional a possibilidade não confirmada de alguns réus poderem tomar imediato rumo da cadeia. A iniciativa será desproporcional, mesmo se adotada proximamente contra os que não tem mais  direito a recursos. As atenções gerais, melhor dizendo, o clamor das massas, voltam-se muito mais para os que acabam de receber uma espécie de carta de alforria válida até sabe-se lá quando do próximo ano. São eles, ex-dirigentes do PT, que concentram a frustração e até a indignação popular por terem chefiado a compra de votos parlamentares e, agora, se encontrarem acobertados pela possibilidade de redução de suas penas.

O novo Procurador Geral da República mostra-se cauteloso ao programar iniciativas, assim como o presidente Joaquim Barbosa. Cada dia que passa, no entanto,  faz esmaecer  a imagem da Justiça junto à opinião pública.

DIFERENÇAS FUNDAMENTAIS

Quando os clubes de futebol  vão mal nos campeonatos, como o brasileirão, os técnicos são os primeiros a sofrer. Quantos tem sido demitidos ainda longe do encerramento do certame? Infelizmente, o mesmo não se passa com relação aos partidos políticos. Apesar de sucessivas baixarias, seus presidentes permanecem impávidos no comando, mesmo quando se tornam diretamente responsáveis pelas lambanças.  Essas diferenças fundamentais salvam o futebol, mas condenam a política.

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5 thoughts on “Catucando a onça com vara curta

  1. “Devemos estar preparados para retaliações…, trata-se de um risco a correr…”.
    O que o Brasil tem a perder adotando uma politica de independência em relação aos EUA além do que já perdeu sendo tutelado?

    “Diante do impacto do prolongamento por mais um ano do julgamento dos mensaleiros…”.
    Quem impacto? Para quem?
    “As atenções gerais, melhor dizendo, o clamor das massas… concentram a frustração e até a indignação popular…”.
    Que clamor das massas, que frustração popular, que indignação popular, onde? Aponte uma manifestação popular de peso contraria ao resultado da aceitação dos embargos infringentes por parte do STF.
    “O novo Procurador Geral da República mostra-se cauteloso ao programar iniciativas, assim como o presidente Joaquim Barbosa”.
    Tanto para Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, quanto para Presidente do STF, Joaquim Barbosa, não se trata de cautela, mas de simples cumprimento da lei. A prisão dos réus só poderá ocorrer quando as sentenças transitarem em julgado e isso só poderá ocorrer depois de esgotados todos os recursos cabíveis por lei.

    “… Essas diferenças fundamentais salvam o futebol, mas condenam a política.”.
    Comentário absolutamente ridículo, para dizer o mínimo, uma vez que o futebol esta tão podre quanto a política.
    Além disso, o equivalente a um presidente de partido político em um time de futebol é o seu presidente e não o técnico. Esse cai pela simples razão que não dá para trocar o time inteiro em meio ao campeonato, mas alguém tem que ser o bode. Isso quando o próprio time não boicota o técnico para fazê-lo cair.

  2. O PT, Dilma e principalmente Lula se curvaram diante de Evo Morales quando ele e sua turma na Bolivia nacionalizaram as refinarias da Petrobras e pagaram preços bem abaixo do mercado pelas mesmas. Aí não houve contestação e nem ficaram chateados. Afinal de contas o cocaleiro, amigo do PT, de Dilma e principalmente de Lula, não pode ser contestado porque são parceiros no tal do Foro de São Paulo. Me engana que eu gosto. Se houver retaliações do governo americano as conseguências serão sentidas por todo nós. Pedir explicações ao governo americano e ao presidente Obama é justo, mas não fazer disto uma grande tempestade. Exigir explicações tudo bem, mas não tornar este sério incidente num cavalo de batalha. Diplomacia é sempre importante para resolver casos emblemáticos como este. No caso de Evo Morales todos se calaram e deixaram as nossas refinarias ficar em poder deste cocaleiro de uma figa.

  3. Chaves atingiu o paroxismo na sua batalha contra Tio Sam, e vejam só qual o resultado disso: está tudo como antes, apenas que agora falta tbém papel higiênico na Venezuela. Uma coisa é a soberania, que se firma de diversas maneiras, outra é a bravata que leva ao sofrimento do povo. Governo bom é o governo inteligente, não o bravateiro.

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