Cavendish repete PC Farias e abre demais o lado sombrio do poder

Pedro do Coutto

A presidente Dilma Rousseff deve ficar atenta ao episódio e às consequências possíveis, e até prováveis, da gravação de afirmação do empresário Fernando Cavendish, que, em baixo nível de linguagem, repetiu PC Farias ao escancarar o jogo sombrio de uma empreiteira, no caso a Delta, no subsolo do poder.

Principalmente porque esta empresa, entre tantas obras que conquistou nos últimos anos, junto com a Odebrecht e a Andrade Gutierrez, é responsável pela modernização do Maracanã, Estádio Mario Filho, irmão de Nelson Rodrigues, cujo centenário de nascimento comemora-se este ano.

Mas sobretudo porque a obra vincula-se diretamente à Copa do Mundo de 2014 e seria um desastre para o Brasil que não ficasse pronta a tempo. Excelente reportagem de Fábio Vasconcelos e André de Souza, O Globo do dia 17, como era de esperar, alcançou repercussão enorme. As fotos que acompanham o contexto são de Sérgio Marques e Júlio Bitencourt, fortemente expressivas.

Uma ruptura, no final de 2009, com a Sigma, que atuava em sociedade com a Delta, levou à gravação das palavras alucinadas de Fernando Cavendish que terminaram, agora, o incriminando acentuadamente. Falta absoluta de compostura, descaso para com o universo político, especialmente o Senado Federal. A Casa tem obrigação de reagir, pois foi esbofeteada publicamente pelo diretor presidente e controlador da empreiteira.

Aliás, extremamente ligada a Carlos Ramos Cachoeira, cujo sistema funcionava como uma alavanca para negócios e seus preços finais, certamente. Não consigo compreender bem por que Fernando Cavendish, com tantos contatos importantes na política administrativa, ou na política e na administração pública, necessitava dos serviços de um homem que, em 2003, gravou a entrega de dinheiro, por ele mesmo, a Valdemiro Diniz, que, em consequência foi demitido da Subchefia da Casa Civil então ocupada por José Dirceu.

E José Dirceu, talvez por uma coincidência do destino, emerge na rede de atuação da Delta Construtora, como O Globo publicou.

Mas eu disse que Fernando Cavendish, em 2012, revive PC Farias 92, governo Fernando Collor. Sem dúvida. Ambos abriram o jogo de interesses demais. PC Farias cobrava 260 mil dólares por consultorias verbais de 40 minutos ao empresárioJosé Ermírio de Moraes, já falecido. PC Farias foi a este e fez a proposta. Atendido o pleito, José Ermírio lançou o pagamento entre as deduções do Imposto de Renda. Apareceu o nome da EPC Consultoria.

O cruzamento das informações foi realizado pelo então diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. Em declarações à Folha de São Paulo, na época, Antonio Ermírio de Moares afirmou que, se tivesse sido com ele o contato, não teria pago. As relações entre os irmãos ficaram estremecidas durante algum tempo. Antonio Ermírio, em coluna publicada numa edição de domingo da mesma Folha, lembrando a importância e o passado do senador Ermírio de Moraes, pai de ambos, desfez a nuvem. Mas esta é outra questão.

A respeito de Cavendish, me vem à lembrança um filme famoso, com Burt Lancaster no papel do poderoso jornalista Walter Winchel, “A Embriaguez do Sucesso”, com Tony Curtis como segundo personagem. Porque só a embriaguez do sucesso, no fundo, é capaz de explicar comportamentos assim como o do controlador da Delta.

Pessoas de êxito flutuam e acham que podem comprar tudo e todas as pessoas. Nem tudo se compra à base da moeda, tampouco todas as pessoas encontram-se à venda. A vida não é um balcão de ofertas e trocas. Os seres humanos, exceções confirmando a regra, não são mercadorias.

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