Chamas de Londres: sinal vermelho para o conservadorismo

Pedro do Coutto

As chamas que devoraram edifícios e lojas de Londres e levaram a capital inglesa ao pânico, uma cidade que suportou durante quatro anos os bombardeios nazistas, não são apenas reflexo da morte de uma pessoa, ou da ação de gangues e saqueadores que se aproveitam de episódios críticos para roubar e assim violar direitos humanos. Há também na atmosfera urbana um panorama que encoraja a investida de vândalos. Sem uma forte tensão no clima político e social não existe caldo de cultura que arme a mão dos alucinados. Londres, uma cidade heróica, não se tornou o primeiro palco do desespero coletivo que nasce da insatisfação.

Em Paris, recentemente, houve violência lembrando os conflitos de 68 que culminaram com a renúncia do presidente Charles De Gaulle. Houve lutas violentas em Atenas, em Madrid, na Venezuela, Bolívia, na Alemanha. Em Israel há poucos dias, 300 mil pessoas foram às ruas de Telavive em protesto frontal contra o aumento do custo de vida, das moradias, dos alugueis. Estranhamente, como observou minha mulher, apenas a Globo News cobriu a conturbação dentro das fronteiras da Terra Santa. Porque será?

Alinhei exemplos em países democráticos. Mas a revolta explodiu também nos regimes ditatoriais da Líbia, Síria, Egito, onde Mubarak foi parar dentro de uma jaula e nesta condição está sendo julgado pelos que o substituíram no poder. Na Síria, o povo, numa onda de protesto contra o governo, está sendo assassinado nas ruas de Damasco. Não vale a pena citar o que acontece no Iraque, Paquistão e Afeganistão, onde se encontram, a exemplo de no Iraque, forças militares norte-americanas. No Iraque também inglesas, na Líbia, italianas. E
estava esquecendo do Chile do presidente Pinera, alvo de manifestações populares de enorme intensidade.

Na Espanha, o governo socialista, que se afastou do socialismo, desabou. Zapatero convocou novas eleições gerais. O Partido Socialista de Portugal foi amplamente derrotado nas urnas de há dois ou três meses atrás. Além das chamas de Londres, a impopularidade de Sarkosy, que apesar da gravidez de Carla Bruni, chega, conforme o jornal Liberacion, a 66%.

Na capital da realeza, em meio aos tumultos e assaltos à propriedade privada, está no fogo o primeiro-ministro David Cameron. Nos EUA, Barack Obama perde pontos quanto à aprovação popular. Está hoje no quadragésimo quinto andar. Já esteve no sexagésimo quinto. E as eleições presidenciais são em novembro de 2012. Acusando o golpe, ele decidiu – está nos jornais de sexta-feira – reduzir impostos sobre a classe média e promover agora uma política de retomada dos níveis de emprego. Um desemprego superior a 10% é algo politicamente fatal. A insatisfação do eleitorado cresce.

Não quero me afastar da palavra conservadorismo contida no título. Não importa que os governos, quanto as siglas, sejam conservadores ou socialistas. Importa, isso sim, que todos esses em crise não estão se mostrando capazes de fornecer respostas concretas à sociedade quanto a seus problemas efetivos. O conservadorismo seja de direita ou esquerda não funciona. As populações frustradas se cansam de esperar. E parte para o desespero que leva ao vandalismo, ao saque, à ruptura legal. É preciso ir ao encontro do povo e apagar as chamas de Londres. Sinal vermelho está aceso no mundo.

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