Chaplin (Um Rei Em Nova York) e Cristiane Torloni (Fina Estampa)

Pedro do Coutto

Os jornais publicaram no meio da semana passada um incidente nos bastidores da Rede Globo envolvendo a atriz Cristiane Torloni e uma maquiadora. A atriz, aliás excelente, não ficou satisfeita com o trabalho da profissional e a tratou aos empurrões. O caso, informou-se, foi parar na área de recursos humanos da Vênus Platinada, como a principal emissora do país
é também conhecida. Não sei o desfecho, mas acredito ter acabado entre tapas e beijos, título da novela da tarde.

Cristiane Torloni é uma das personagens principais da novela de Aguinaldo Silva. A Folha de São Paulo de domingo, então, em reportagem de Elisângela Roxo, abordou o episódio, ouvindo o cirurgião plástico Carlos Alberto Komatu, a dermatologista Ligia Kogos, tratada por Elisângela como a rainha do botox, e o diretor e ator de teatro José Celso Martinez Correa.

Este considera que o desempenho do ator e da atriz depende mais da personalidade e adaptação ao papel desempenhado do que a plástica e a maquiagem. Mas Alberto Komotu e Ligia Kogos discordaram. Acham que o exagero da plástica e do uso do botox contribuem para paralisar as expressões faciais e o próprio olhar.

Neste ponto me lembro do filme Um Rei Em Nova Iorque, de Charles Chaplin, início da década de 50, rodado na Inglaterra, onde o gênio vivia e trabalhava na época, vítima da perseguição do senador Macarthy, que, assim como Carlos Lacerda no Brasil, via comunismo em tudo nos Estados Unidos. Dois anos depois, Chaplin retornou à América do Norte, dirigindo Luzes da Ribalta.

Mas falava na obra anterior. Chaplin vive um milionário que, para enfrentar o entardecer de sua vida, resolve submeter-se a uma cirurgia plástica. (Tema que hoje está envolvendo a novela central da Globo, que esta semana atingiu 40 pontos de audiência).

A operação – no filme –  à primeira vista alcançou êxito. O personagem rejuvenesceu. Mas quando se mantinha em expressões fixas. Não podia
sorrir, chorar, exprimir um sentimento em sua face e seu olhar. Tinha praticamente se transformado numa espécie de robô de si mesmo. Tentou lutar contra a fixidez de sua idade. Uma versão, então moderna, de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

De tanto se esforçar para conseguir um equilíbrio entre a emoção  humana e o tempo de vida, um dia, num almoço entre banqueiros, ao rir de uma piada de um amigo, a plástica desaba no rosto de Chaplin.

Sessenta anos depois, a dualidade retorna à cena envolvendo artistas. Claro que não estou comparando Cristiane Torloni, Renata Sorrah e Cláudia Alencar, esta protagonista de novela da Record, ao fantástico Chaplin. Estou apenas dizendo que o tema levantado por Carlitos, Verdoux e Calvero, sua trilogia, recoloca-se tanto no palco quanto nos bastidores. Inclui Renata Sorrah e Cláudia Alencar, porque estas foram focalizadas pelo cirurgião e pela dermatologista.

Para Lígia Kogos, a sobrancelha de Sorrah ficou malfeita. Defeito também no sorriso da Claudia, e excesso de botox na face de Torloni. Para os dois médicos, o botox em demasia está atrapalhando a atuação de Cristiane. Para Lígia Kogos, a maquiagem seria uma consequência, não a causa de uma expressão gelificada da atriz que faz o papel de uma mulher insuportável na excelente obra de Aguinaldo Silva.

Como se vê, mais uma vez a vida e a arte se encontram. Aliás se prestarmos bem atenção ao desenrolar dos fatos, os dois planos são inseparáveis. Se interpenetram e se completam. Mas deve-se ressaltar uma coisa: Chaplin anteviu 60 anos antes o que poderia ocorrer – e ocorre – sessenta anos depois.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *