Charles, este é o filho de Lua.

Jacques Gruman

É batata. Quando “especialistas” fazem listas dos melhores filmes de todos os tempos, Cidadão Kane costuma ficar no alto do pódio. Não deixa de ser um consolo: produzido em 1941, atores contracenando com atores (e não com fundos azuis, sobre os quais se penduram imagens fabricadas em computador), seduz pela carga dramática, por magníficas interpretações, por uma história que incomoda e por um dos mistérios mais comentados da história do cinema: o que seria Rosebud ? Ninguém dá um tiro, orgasmos permanecem assunto privado e não contribuem para o faturamento, não se alugam espaços cenográficos para vender nada. Excitam-se os neurônios, não os países baixos.

A primeira vez que assisti o Cidadão foi na antiga Cinemateca do MAM. Época da geração Paissandu, cinema de rua que as salas de shopping tornaram obsoleto. Quando a censura dos milicos deixava, a gente assistia muita coisa que não entendia. Os pesadíssimos Bergman, por exemplo. Qualquer rodinha falava das psicanalices bergmanianas com solene empáfia, de um modo geral com absoluto desconhecimento de causa. Pegava mal confessar ignorância sobre aquelas imagens herméticas, que nós, praticamente adolescentes, não tínhamos a menor condição de compreender.

Faz muito tempo que a psicanálise vazou dos consultórios e invadiu os espaços culturais. Há uma tira genial dos Peanuts, início dos anos 60. Charlie Brown e Linus conversam. Linus pergunta: “Por que já não se encontram aqueles caixotes vendendo limonada nas calçadas ?”. Neste momento, passam na frente do famoso quiosque da Lucy, onde se lê “a doutora está aqui (the doctor is in)” e “consultas a 5 cents”. A indescritível Lucy dava uma de psiquiatra. Charlie responde ao Linus: “É por isso aí”. Limonada enxotada por Freud.

REVENDO O CIDADÃO KANE

Voltando ao Cidadão. Resolvi, agora com mais quilometragem, assistir novamente o filmaço do Orson Welles. Foi uma experiência e tanto. O melhor de tudo é que descobri que Rosebud não passa de um segredo de Polichinelo. A história é absolutamente contemporânea e estranhamente familiar. Um menino de oito anos, Charles Foster Kane, de família pobre, é praticamente vendido para um banco, numa transação um tanto nebulosa. Até os 25 anos, é tutelado por um banqueiro e, milionário, inicia uma portentosa carreira jornalística.

Inescrupuloso, manipulador, carreirista, constrói um império midiático (na década de 40, isso significava jornais e rádios) e tenta uma carreira política (abortada, no mais puro estilo ianque, por um rabo de saia). Colecionador compulsivo, é um solitário cercado de gente em Xanadu, a mansão que seria seu túmulo. Em tudo o que faz, emana uma vontade imperiosa de controle absoluto. Quem sabe, um desejo inconsciente de transformar o passado ou de ser imortal. É aí que meu Sherlock rastreou Rosebud, a última palavra que Kane disse antes de morrer, soltando ao chão uma pequena bola de vidro, em cujo interior havia uma ilusão de nevasca. Objeto precário nas mãos de um magnata implacável. Por quê ?

Salto rápido para a última cena do filme. Operários jogam numa fornalha objetos antigos, memorabília que Kane guardava junto com os milhares de engradados com obras de arte, que comprava e sequer abria. Para o fogo, vai o trenó de madeira que Kane usava para brincar antes de ser afastado de seus pais. A marca: Rosebud. Elementar, meu caro Orson: foi durante uma nevasca, agarrado ao trenozinho de madeira, que o futuro imperador da mídia acabou separado de seus pais. Um trauma que tentou, em vão, abafar com riqueza e poder.

Rosebud era território sagrado, seguro, congelado não pela neve, mas por uma tristeza definitiva. Há uma cena genial. Ao ser abandonado por sua segunda mulher, Kane se arrasta por Xanadu e, de repente, passa por um espelho que multiplica sua imagem ao infinito. São muitos Kanes, fragmentos que trazem Rosebud no bolso. Kanes irrecuperáveis, decadentes. Sem açúcar, sem afeto. O menino não volta.

Quantos de nós não sonham o sonho impossível de viajar no tempo e mudar alguma passagem decisiva, um detalhe, uma firula, aquela cuja ferida teima em não cicatrizar, aquela que cisma em produzir bile em doses industriais e procria filhotes bastardos. Isso já deu outros bons filmes (recomendo, por exemplo, o magnífico curta Barbosa, de Paulo Perdigão), mas não falo de ficção. Matéria humana é brutalmente sinuosa, utopizadora. Como disse Caetano Veloso, de perto, ninguém é normal/às vezes, segue em linha reta/a vida que é “nem bem, nem mal”.

KANE E GONZAGUINHA

Imagino um encontro entre Charles Foster Kane, uma ficção muito da realista, com um personagem de carne e osso: Gonzaguinha, filho de Luiz Gonzaga do Nascimento, o Lua, Rei do Baião.

Gonzaguinha não chegou a ser vendido para um banqueiro, mas foi órfão de pai vivo. Ignorado e abandonado por muito tempo pelo pai, conseguiu atravessar a aridez afetiva e, depois de purgar um ódio compreensível, estendeu a mão e colou o retrato rasgado. Artista consagrado, tocou e cantou com Lua, que, à época, já não tinha o prestígio do início de carreira.

Gonzaguinha teve o gesto complexo, difícil, generoso, de acolher Lua como ele era, com todos os ingredientes, vários deles com validade vencida. Percebeu que se prepara um pudim com o que é possível comprar. Seu pai era muitos, como qualquer um de nós. Superou a amargura com a palavra, com o diálogo, não com o silêncio ou a prepotência.

Não estou propondo receitas. Não acredito em rótulos. Cada um descobre seus caminhos em meio às ruínas existenciais. Às vezes, é preciso um tempo de afastamento para reiniciar uma aproximação. Um tempo de luto para dar nova chance à vida. Um tempo de dor para se alcançar a paz. Um tempo de solidão para admitir a despedida.

A PERDA DO PAI

A poetisa argentina contemporânea Tamara Kamenszain traduziu isso com enorme sensibilidade no poema Kaddish, em que lembra o momento da perda de seu pai, com quem mantinha excelente relacionamento. Uns poucos esclarecimentos. Kaddish é a oração dos mortos na liturgia judaica. Para rezá-lo, são necessários dez homens (minián). Nas famílias observantes, costuma-se reunir um minián na casa do primogênito do falecido, para rezar o Kaddish durante uma semana. Compartilho com vocês.

O que é um pai ?/Sonho que ainda o tenho./Não rezem em meus ouvidos/pois vão me acordar.

O que é um pai ?/Sonho que ainda o tenho./Dez homens o invocam na segunda-feira/num círculos de inúteis orações.

O que é um pai ?/Dez homens o invocam na terça-feira/num espaço sem ele/seu idioma/soa estrangeiro.

O que é um pai ?/Em minha casa dele/formam o minián/É quarta-feira/portas a dentro adormecida/rezam até me acordar.

O que é um pai ?/Quinta-feira o saberei/porque continuam reunidos/em seu nome.

O que é um pai?/Dez homens não bastam para fechar a sexta-feira/num círculo masculino/que por dentro me libere/órfã.

O que é um pai?/Com a primeira estrela/chega o shabat/e ainda não tenho resposta./Eles se dispersaram mas eu/filha de Tuvia bem Biniamin/continuarei buscando acordada/para depois/poder esquecer.

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