Chávez não era o demônio

Murilo Rocha

Menos de 24 horas após a morte do ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez, as notícias veiculadas pelas imprensas sul-americana e mundial contrastavam com a imagem criada pela mídia, inclusive aqui no Brasil, do líder da chamada “Revolução Bolivariana” ao longo da última década. Desde quando chegou ao poder, em 1999, o tenente-coronel do exército venezuelano foi tratado, repetida e sistematicamente, com muita má vontade por parcela significativa da opinião pública dentro e fora da América Latina.

Agora, porém, amainada talvez pela comoção da morte de Chávez e pelo apoio incontestável da imensa maioria da população daquele país ao dirigente, essa mesma parcela da opinião pública deixou “escapar” outro perfil do ex-presidente.

É como se agora, com Chávez morto, pudessem vir à tona verdades até então omitidas ou subvalorizadas sobre a realidade econômica e social da Venezuela durante o chavismo. Expressões como “demônio”, “ditador”, “tirano”, “louco” – continuamente disseminadas na imprensa mundial e também no Brasil – foram trocadas ontem por outras menos severas como “líder populista”, “anti-imperialista” e “governante pouco democrático”.

Não, não se trata de uma crise de arrependimento ou de generosidade de políticos e jornalistas opositores ao chavismo. A mudança de comportamento, uma espécie de baixa de guarda contra Hugo Chávez, é apenas uma maneira de tentar acomodar, de forma menos traumática, um discurso desconexo com a realidade da Venezuela. As críticas ácidas e preconceituosas replicadas durante anos contra o ex-presidente não encontraram, antes e muito menos agora, respaldo na reação da maior parte do povo venezuelano.

Sustentado pela produção abundante de petróleo ao longo de seus quatro mandatos, refletida por um PIB triplicado entre 1999 e 2012, Hugo Chávez proporcionou ganhos reais à população mais pobre de seu país e diminuiu a ainda grande desigualdade social da Venezuela – o país convive com uma inflação alta e com índices preocupantes de criminalidade. Chávez, muitas vezes comparado, por analistas políticos, com Lula, foi muito mais agudo do que o colega brasileiro em suas mudanças de caráter popular e também em seu discurso de oposição a práticas imperialistas dos Estados Unidos e da Europa dentro da América Latina.

Ganhou antipatia mundial porque teve coragem de mudar o curso da história ao pegar a fonte de dinheiro abastecida pela imensa produção de petróleo do seu país e direcioná-la para reformas de interesse da camada mais pobre da população, promovendo inclusão social e comprando a briga com grandes empresários locais e conglomerados econômicos internacionais.

Para o povo da Venezuela, Chávez, que mudou a Constituição para poder concorrer a seguidas reeleições, está mais para santo do que para demônio.

(transcrito de O Tempo)

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *