Chega de intermediários. Vamos nomear logo José Júnior (AfroReggae) para a Secretaria de Segurança, ficar numa boa com os traficantes e deixar a vida nos levar, no estilo Zeca Pagodinho.

Carlos Newton

É admirável a coragem do excelente advogado José Folena, que em recente artigo publicado aqui na Tribuna da Imprensa demonstrou sua preocupação com a atuação das Forças Armadas em atividades meramente policiais, possibilidade que a Constituição não admite. Só podem acontecer quando ficar demonstrado que as autoridades estaduais realmente perderam o controle.

Folena não está em dúvida. Ele acha que as autoridades estaduais ainda não haviam esgotado todas as suas possibilidades. E tem toda razão. Afinal, as autoridades não afirmam ter “dominado” a situação nas 14 favelas onde hoje existem UPPS (Unidades Policiais de Pacificação)? Por que não poderiam “dominar” também o Complexo do Alemão?

Tudo é estranho, muito estranho. E agora não tem mais volta. O povo quer as Forças Armadas atuando no combate aos traficantes. Portanto, defender a retirada dos militares significa contestar a opinião pública, mas Folena, corajosamente, o fez. Se os militares se retirarem, será uma decepção. Alguém tem dúvida? Mas ninguém deve esquecer também que eles podem se banalizar e até se desmoralizar no serviço meramente policial.

Em meio a essas intrigantes questões, o mais importante é que, pouco a pouco, a realidade sobre os atentados no Rio de Janeiro começa a vir à tona. Às vezes, esta verdade flui dos próprios protagonistas, como é o caso do animador cultural José Júnior, criador do AfroReggae.

Em entrevista ao jornal “Publico”, de Portugal, José Júnior admitiu que tinha conhecimento prévio de que ocorreriam os ataques. Foi informado por seu amigo Rogério Menezes, que trabalha com ele no AfroReggae. E os dois, que não escondem o fato de serem ligados ao governador Sérgio Cabral, então foram procurar os traficantes, para conseguir que eles não fizessem os ataques antes da eleição (3 de outubro).

Vamos então conferir esse importante trecho da reportagem de Alexandra Lucas Coelho para o “Público”, com perguntas realmente muito precisas:

ALEXANDRA- Por que não fizeram os ataques na campanha eleitoral? Não seria mais eficaz como protesto?

JOSÉ JÚNIOR – Rolaram algumas mediações para que isso não acontecesse. 

– Com o Governo? 

– Não. Mediações com pessoas para evitar os ataques. Por isso é que não aconteceu. [Pausa] Vou te falar a verdade: não aconteceu, porque nós mediamos para não acontecer no primeiro turno. Não foi a pedido do Governo, não. Fizemos isso porque quisemos. A gente sabia, e entrou no circuito para não acontecer. 

– Então você  mediou… 

– Nós. Do AfroReggae. Não sou eu. 

– Ok, um grupo. Liderado por você, presumo? 

– Mas o Rogério [Menezes] participou também. Outras pessoas participaram. Inclusive a informação [de que poderia haver ataques em preparação] chegou para o Rogério e o Rogério falou para mim. Não estou falando isso porque sou generoso, mas porque é verdade.

– A iniciativa partiu de quem? 

– De nós. 

 – E foi feita com quem? 

 – Ah, não vou te falar. 

 – Com o Complexo do Alemão, com a Penha? 

– Também não vou te falar. Você tem suas fontes, eu tenho as minhas, se eu te revelar minhas fontes, elas podem morrer. E as fontes são desde traficantes a pessoas que não têm nada a ver com o crime e sabem o que está acontecendo. Fizemos essa mediação para que não acontecesse no primeiro turno. Tinha outro período em que eles queriam fazer também [ataques], no início do ano. Tinha várias situações. 

Nós trabalhamos nos presídios [onde estão muitos traficantes, e de onde partem ordens de ataques]. O AfroReaggae tem 75 projetos. Trabalha em Bangu II, Bangu III, Bangu IV, Bangu VI, Talavera Bruce [nomes de cadeias]. Então, fazemos trabalho em diversos presídios, diversas favelas e diversas facções do narcotráfico. Temos um projeto que encaminha ex-presidiários e ex-traficantes para trabalhar em empresas privadas, inclusive tem uma pessoa que foi de cada facção trabalhando aqui, encaminhando. Tem ex-traficante do Terceiro Comando, do ADA [Amigos dos Amigos], do Comando Vermelho, e essa semana agora começa a trabalhar um cara que foi da milícia. Era PM [Polícia Militar], foi preso, voltou para a milícia e saiu da milícia. Começa essa semana a trabalhar. 

***

Essa parte da entrevista de José Junior explica muita coisa. Ele foi sincero quase o tempo todo, mas não há dúvida de que tentou “proteger” o governo estadual. Ninguém pode acreditar que ele, pessoalmente, tenha tomado essa iniciativa de transferir os atentados para depois das eleições, sem se comunicar previamente com o principal interessado, o governador Sergio Cabral, seu amigo pessoal. Portanto, agora ficou claro que Cabral sabia que os ataques aconteceriam depois do segundo turno, porém nada fez para impedi-los.

Em outra parte da entrevista, também muito importante, José Júnior admite que nenhum bandido do Complexo do Alemão estava disposto a enfrentar a polícia e os militares. Ou seja, não havia a menor possibilidade de confronto.

ALEXANDRA – Voltando à  negociação no Alemão. Você lá foi no sábado [véspera da invasão militar]. O que é que aconteceu? 

JOSÉ JÚNIOR – Me pediram para ir lá, eu fui. Sugeri que não fossem para o confronto, que abandonassem as armas, que se entregassem. Mas o mérito todo é da polícia, do governador. A gente só sugeriu. 

– O que é  que eles responderam? 

– Tinha gente querendo se entregar, tinha gente… Ninguém queria ir para o confronto. Ninguém. Não teve um que falou: “Ah, vamos partir para dentro.” Ninguém falou isso. 

***

ALEXANDRA – A ordem para os ataques que puseram o Rio em pânico veio do Alemão? Isso é  claro? 

JOSÉ JÚNIOR – Não sei se é claro. A confusão de Vila Cruzeiro com o Complexo do Alemão  é muito grande. Se você fizer um google e colocar Vila Cruzeiro, vai ver que várias matérias dizem “Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão”, quando a Vila Cruzeiro é no Complexo da Penha. Então, se [a ordem] partiu do Alemão ou da Penha, não posso te afirmar. Seria leviano. O que posso te afirmar é que esses ataques partiram de um poder central.

 – Eram uma retaliação contra as UPP [Unidades de Polícia Pacificadora, que ocupam já  13 favelas]? 

– Acredito que sim. Quando você bota uma UPP, atinge os interesses deles. Imagina, você tem uma locadora de filme [clube de vídeo]. Aí chega o Blockbuster e acaba com as locadoras de todo o mundo. A UPP é a Blockbuster. 

***

Afinal, a que “poder central” José Júnior estava se referindo? Seria mesmo a facção que domina os complexos da Penha e do Alemão, o Comando Vermelho? Ou já haveria um “poder central”, fruto de uma aproximação entre Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos?

Resumindo. Agora várias coisas ficam evidentes, com toda certeza: 1) José Júnior é o representante de Cabral junto aos traficantes. 2) Júnior sabia que haveria os ataques. 3) Então, o governador Sérgio Cabral também sabia, mas nada fez para evitá-los, só queria ganhar a eleição. 4) Da mesma forma, Júnior e Cabral sabiam que não haveria confronto no Alemão. 5) Os traficantes foram liberados para fugir na véspera da “invasão”. 6) A tal “invasão” do sábado, portanto, foi apenas uma grande encenação.

Concluindo. Chega de intermediários. Vamos nomear logo José Júnior para a Secretaria de Segurança, ficar numa boa com os traficantes, e deixar a vida nos levar, no estilo Zeca Pagodinho. E pensar que o Rio de Janeiro já foi uma cidade séria, hein?

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One thought on “Chega de intermediários. Vamos nomear logo José Júnior (AfroReggae) para a Secretaria de Segurança, ficar numa boa com os traficantes e deixar a vida nos levar, no estilo Zeca Pagodinho.

  1. Ficou claro na época que esses ataques foram comandados pelo governo para gerar um clima de insegurança e a população pedir a invasão da favela e a vinda das forças armadas. O governo não podia sair invadindo sem o apoio da população. Foi tudo uma grande encenação.

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