Ciência e Religião precisam ser parceiras num mundo com tantos conflitos e desafios

A vacinação é a mais eficaz maneira de evitar a influenza – Agência Brasília

Contra a pandemia, ciência e religião se complementaram

Cicero Urban
Estadão

Na primeira vez que a religião se deparou com a ciência, o encontro foi amigável. Afinal, a revolução científica no século 17 foi realizada por cristãos devotos, que diziam estudar a obra de Deus. Cem anos depois, os cientistas da época acreditavam num Deus que havia planejado o universo, mas não se envolvia ativamente no mundo e nas suas criaturas.

No século passado, algumas descobertas científicas entraram em conflito com ideias religiosas tradicionais. E agora, no mundo ainda dominado pela covid-19, como se encontram a ciência e a religião: são inimigas, estranhas ou parceiras?

DOIS ENFOQUES – Para Ian Barbour, a ciência preocupa-se com as relações causais entre os fatos, enquanto a religião se preocupa com o propósito de nossa vida. Os dois tipos de perspectivas de mundo são complementares, mas separados por alguns espaços vazios e zonas de conflito.

Cientistas, por meio do resultado de suas pesquisas, levantam questões que muitas vezes a ciência não é capaz de responder, e eles estão cientes disso. Alguns teólogos, por seu lado, vêm reformulando ideias tradicionais de Deus, levando em conta as descobertas científicas.

Essa postura de ambos estimula um diálogo inteligente e construtivo, já que cada um estaria consciente de suas limitações, longe de uma atitude belicosa de quem tem a posse de todas as repostas.

EXEMPLO DA PANDEMIA – Se, de um lado, a pandemia trouxe à tona uma série de injustiças sociais, desemprego, falências em todos os setores e, o mais doloroso de tudo, perdas humanas, irreparáveis, ela também serviu de motor para a inovação e para que diversas áreas sofressem verdadeiras revoluções em poucos meses.

Foi neste ano que a ciência mostrou uma capacidade notável de trabalho e de transformação. Em 11 meses, dezenas de candidatas potenciais à vacina foram criadas e algumas delas, depois de passarem por todas as fases dos estudos clínicos, já foram aprovadas para uso em seres humanos.

Centenas de milhares de voluntários, milhares de cientistas, parcerias entre a academia, a indústria farmacêutica e a sociedade, milhares de publicações em todas as áreas. Bilhões de dólares foram gastos, num esforço sem precedentes.

INTERPRETAR MELHOR – Santo Agostinho dizia que, quando havia um conflito entre o conhecimento provado e a leitura ao pé da letra da Bíblia, as Escrituras deveriam ser interpretadas metaforicamente. Alguns, infelizmente, esqueceram-se disso.

Fundamentalismos, com interpretações teológicas errôneas e perigosas, põem todos em risco numa pandemia. A religião, quando mal utilizada, quando se espera que Deus nos torne invulneráveis e, por isso, deixamos de tomar cuidados fundamentais, se esquecem dois de seus princípios mais importantes: tratar o próximo como a si mesmo e respeitar cada vida humana.

Na pandemia, nos momentos mais cruciais e graves, muitas vezes o que se viu foi a ética da escolha de Sofia: o desespero de profissionais de saúde que tiveram de escolher quem iria viver ou sucumbir ao vírus.

CONFORTO E AMPARO – A religião “boa”, bem utilizada, em contrapartida, trouxe conforto e amparo a tantas pessoas. Força para enfrentarmos um período em que a vida, mais do que nunca, precisa ser celebrada todos os dias. Seja ela de origem divina ou fruto da evolução, fruto do acaso ou de um planejamento superior.

 O papa João Paulo II dizia que a ciência pode purificar a religião do erro e das superstições. A religião pode purificar a ciência da idolatria e dos falsos absolutos. A ciência mal conduzida pode levar a um materialismo dogmático e a reducionismos com implicações éticas sérias.

Galileu, em sua defesa, citou um cardeal de sua época, dizendo que “a intenção do Espírito Santo é ensinarmos como se vai para o céu, e não como vai o céu”. Ambos bons exemplos de atitudes de independência entre os postulados científicos e teológicos.

LINGUAGENS DIFERENTES – A ciência faz previsões quantitativas, que podem ser testadas experimentalmente. A religião usa linguagem simbólica e se baseia em pressupostos que não podem ser testados pelo método científico. Uma aceita os limites do método científico, a outra transcende o método.

O diálogo e o entendimento entre elas torna a vida humana mais ampla e também mais confortável, na medida em que cada uma respeite seu espaço e seus limites. É preciso lembrar que mesmo os cientistas, quando saem dos seus laboratórios e fazem especulações fora das suas especialidades, não são mais sábios do que qualquer outra pessoa.

Em 2020 ciência e religião se encontraram em vários momentos, com conflitos eventuais, mas também como amigas. Ao final, elas não são nem inimigas, nem estranhas morais. Precisam ser parceiras num mundo com tantas divisões e tantos conflitos, e com grandes desafios para 2021.

9 thoughts on “Ciência e Religião precisam ser parceiras num mundo com tantos conflitos e desafios

  1. Religião “boa” é uma coisa difícil de se provar.
    Talvez o Jainismo (!?) porque as três religiões abraamicas (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo) não sei não… talvez foram as que mais atrocidades cometetam, especialmente as duas primeiras.

  2. 1) O apóstolo São Paulo já dizia; “a letra mata, o espírito vivifica”, isto é, não devemos seguir o texto bíblico ipsis literis…

    2) “a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” = 2Cor 5,6.

    3) Mas nem todos os fanáticos aceitam a mensagem acima. Ou seja, O importante é a essência da mensagem de Cristo.

  3. Religiões são análogas às doenças psicossomáticas: o PACIENTE toma um inferno para si, começa a entrar em “parafuso” e se tornar um aliado patológico do próprio mal que o atormenta. Quando acorda daquela fósmea, vai constatar que era tudo uma alucinação, e que ele pode viver normalmente fora daquele estado beligerante!
    Quanto à ciência, hoje, ela ganhou mais um papel sublime: “solucionar” o problema, cujo mérito é-lhe roubado e repassado a Deus, através de sub-reptícios dos clérigos.

  4. Em geral quem começa o conflito são os cientistas não os religiosos, porque religioso burro só aqueles que se “declaram” da noite para o dia como sendo pastores. Os que estudam não negam a Ciência, os ignorantes é que cometem este erro.

  5. O título do artigo de autoria do sr. Cícero Urban comete uma imprevidência no seu início, que a ciência e a religião precisam ser parceiras, em razão dos conflitos e desafios atuais.

    Simplesmente não há como essa ideia ser sequer plausível, quanto mais realizável.

    Religião requer como pressuposto fundamental a fé. A crença em dogmas. Crer na Bíblia, Torá e Corão. Acreditar em espíritos, reencarnações, carmas, situações que a ciência não comprova ser possível.

    A partir desse momento, as crenças significam “a priori” meras especulações, uma necessidade premente de o homem saber da sua insignificância perante o Universo mas, ao mesmo tempo, a esperança de alcançar vidas melhores depois que partir desse mundo, e de haver um ser poderosíssimo, que deu início ao tempo e a matéria.

    Se, a questão do articulista é aproveitar, em tese, os que as religiões têm de positivo e unir às descobertas científicas e tecnológicas, também não será possível, pois as diferenças no professar de crenças diferentes dão sempre motivos para desentendimentos, inimizades e até conflitos nacionais e internacionais.

    A separação do ser humano, afora os aspectos sociais e políticos, mas os causados pelas religiões têm sido irreconciliáveis, e faz tempo que a História registra desentendimentos sérios e graves neste particular.

    Logo, a pretensa união imaginada pelo autor do texto em tela, trata-se de uma ideia que não estabelece paralelos, mas linhas que se chocam e rompem quaisquer possibilidades de a ciência e a religião andarem lado a lado no pensamento e comportamento humanos.

    Agora, nada contra um cientista acreditar em Deus;
    No entanto, extremamente difícil um religioso ser um cientista, pois a sua fé estaria sendo questionada permanentemente.

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