Cientista político diz que julgamento do mensalão pode criar ‘círculo virtuoso’

Fernando Mello (Folha de S. Paulo)

Após cinco anos na Universidade de São Paulo, o cientista político Matthew Taylor voltou para a American University, em Washington. Antes, publicou (com Timothy Power) o livro “Corrupção e Democracia no Brasil”, uma análise sobre a impunidade de autoridades brasileiras.

Para Taylor, dependendo do resultado, o julgamento do mensalão pode iniciar um “círculo virtuoso”, ao aumentar a confiança nos brasileiros de que políticos devem, sim, temer a Justiça e podem ir para a cadeia.

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Folha – Qual é a importância do julgamento do mensalão?

Matthew Taylor – Apenas o fato de o STF julgar publicamente é um avanço, pois são pessoas graúdas e importantes da política. Pelo tamanho, pelo número de réus e por impactar uma presidência que foi muito louvada em outros campos, a de Lula, é um caso histórico.

Quais podem ser as consequências de condenações?

Quando a corrupção é descoberta, investigada e punida, um círculo virtuoso se torna possível, com ganhos institucionais. Primeiro, acaba com práticas específicas e contribui com o saneamento do jogo político. Segundo, pode dar a demonstração de que existem custos e riscos para aqueles que se engajam em práticas corruptas. Terceiro, pode ajudar a restaurar a confiança nas instituições.

O efeito é imediato?

Não, são mudanças paulatinas. Se compararmos o Brasil de 1980 e o de hoje, não houve nenhum momento de mudança institucional radical no combate à corrupção. Mesmo assim, a melhora acumulada ao longo da última geração é significativa.

Que escândalos tiveram efeitos institucionais positivos?

Após os anões do Orçamento, iniciou-se uma iniciativa que só vingou uma década depois: a possibilidade de políticos serem julgados ou investigados pelo STF sem a necessidade de autorização do Congresso. Mas em cada momento histórico surgem gargalos a serem enfrentados. Não acredito que o problema da impunidade ou corrupção seja, prioritariamente, cultural, mas institucional. Atualmente, me parece claro que o Judiciário é esse gargalo.

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