Cilada para os ninjas

Luciano Trigo

Das primeiras manifestações do Movimento Passe Livre ao “casamento da dona Baratinha”, dos protestos na Copa das Confederações ao quebra-quebra no Leblon, milhares de pessoas têm acompanhado a crise por meio do Mídia Ninja, um coletivo de jornalistas que transmite tudo ao vivo e sem cortes, do olho do furacão, usando smartphones e redes 3G.

Ainda que sua audiência seja pequena, a novidade aponta para uma mudança de paradigma nas coberturas de acontecimentos de massa.

Ocupando o vácuo deixado pelos canais de televisão, os ninjas conquistaram espaço não pela qualidade técnica de suas imagens, mas pela ousadia com que se metem em situações de risco para entrevistar manifestantes e policiais, expondo sem filtros a ação (ou omissão) do aparato repressor e ensejando um inédito grau de controle social sobre situações que, se dependesse da mídia “tradicional”, sequer teriam sido divulgadas.

Isso posto, é preciso questionar a euforia com que muita gente se apressou a decretar o fim do jornalismo convencional, um morto sem sepultura atropelado pela revolucionária ação dos ninjas.

Para demonstrar a ingenuidade dessa tese bastaria lembrar que rigorosamente todos os escândalos que conspiraram para a insatisfação geral da sociedade foram investigados e denunciados por profissionais que apuram, ouvem diversas fontes, checam informações e passam pelos crivos da boa prática da profissão.

ENTREVISTA COM PAES

Mas a melhor lição para quem acha que nada disso importa e basta estar do lado certo para fazer bom jornalismo foi a entrevista de mais de uma hora que o Mídia Ninja fez com Eduardo Paes na última sexta-feira.

Uma coisa é interpelar PMs despreparados no calor de uma manifestação, outra é entrevistar um político profissional: desinformados e fazendo perguntas sofríveis, os ninjas foram simplesmente jantados pelo prefeito. É evidente que isso não tira o mérito da cobertura dos protestos, mas convém baixar um pouco a bola: a falta de humildade é a primeira cilada que se apresenta para os ninjas. (artigo enviado por Mário Assis)

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10 thoughts on “Cilada para os ninjas

  1. Aí sim. De fato, assisti ao vivo a entrevista de Paes à Ninja. Foi uma entrevista aquém das minhas expectativas. No início, o prefeito parecia -e de fato, estava- nervoso. Porém, ele percebeu logo logo a inexperiência dos entrevistadores. Contudo, isto não foi demérito. Foi falha de principiante e não serve para desqualificar a NINJA.
    As situações e o meio de lidar com elas, mudam com o tempo, através da prática, que traz a experiência.
    A Tribuna da Imprensa, por exemplo, com muitos “macacos velhos”, já para aquela época, saudou o golpe militar de 1964 e, no dia 02/04/1964, fez um ataque grotesco à saída forçada de Goulart, ofendendo-o descaradamente. Depois, é claro, Lacerda caiu em desgraça e a Tribuna resolveu mudar a linha. Foi a experiência.

  2. À parte de ideologias, intenções, interesses, financiamentos e dos dribles que tomaram do Eduardo “Somebody Love” Paes naquela entrevista, a cobertura dessa ‘Mídia Ninja’ nas manifestações é digna de um filme de Sidney Lumet.

  3. SEM DUVIDA ALGUMA OS JORNALISTAS DA MIDIA TRADICIONAL ESTAO PREOCUPADOS , DESEJO A ELES QUE ENTREM NO “OLHO DO FURACÃO” E FILMEM O QUE ESTA ACONTECENDO, PELA IDADE E A EXPERIENCIA DE ANOS DE LUTAS CERTAMENTE COM EQUIPAMENTOS MAIS ADEQUADOS PODERIAM MOSTRAR MELHORES IMAGENS DO QUE A “RAPAZIADA”… E MAIS FACIL COMENTAR DO QUE ARRISCAR A PROPRIA PELE E SENTIR MEDO DE PERDER A MORDOMIA, CONFORTO DA SUA MESA DE TRABALHO.

  4. Da Tribuna, dona Mônica? História da Tribuna?
    Quem não sabe que o Lacerda era um fascistão degenerado, o qual se proclamava de ex-comunista na juventude? Quem não sabe, ou não se recorda, que O Corvo (como era conhecido) dedurava os próprios amigos?
    O que tem isso a ver com a Tribuna de hoje?

  5. Sr Paulo Solon: eu leio o jornal desde 1997, eu tinha 21 anos e o jornal ainda era impresso. Meu marido desde 1972: logo, conheço parte da história do jornal, em especial por ele. Mas gosto de ler outras informações à respeito, certo?

  6. Bem, posso estar enganado, mas antigamente vc tinha (no RJ) além das Organizações Globo, a Tribuna da Imprensa, o Jornal do Brasil, além do O Dia e a Tupi. Hoje vc tem fazendo a cobertura, além do próprio O Dia e a TUPI, o Jornal O Globo, a Rede Globo, a Globo News, o Jornal Extra (se não me engano da Globopar tb – alguém me corrija se eu estiver errado), a rádio Globo e a CBN. Então vc tem praticamente 1 visão (ou versão) do fato jornalístico! A Mídia Ninja e os muitos anônimos que aproveitam que seus celulares tem câmera de vídeo veem para preencher esse vácuo (como o próprio texto assinala). Eles não são jornalistas (pelo menos, acho que não sejam, nem sei se são estudantes de), mas suas ações valem mais como o registro nu e cru da realidade. Obviamente, o jornalismo clássico não acabará, mas terá que repensar seu modo de editar (ou “editar”) o fato. Parabéns ao Blog da Tribuna pelo espaço!

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