Ciro desiste de São Paulo e se afasta de Dilma

Pedro do Coutto

A  política é como nuvens, muda de forma e direção a todo instante, definiu       eternamente o governador Magalhães Pinto recorrendo à poesia para sintetizar as mutações da busca do poder. Há pouco mais de um mês, o presidente     Lula admitiu a hipótese de o deputado Ciro Gomes mudar, até 30 de setembro, data limite, seu domicílio eleitoral e vir a disputar o governo de São Paulo. O próprio Ciro revelou concordar em princípio.

Mas isso até o dia 11 de agosto. Mudou de idéia totalmente. Está na matéria de Dimmi Amora, O Globo desse mesmo dia, a critica que desfechou contra o governo, contra a aliança PT-PMDB, que classificou como de moral frouxa, e portanto tacitamente deixou claro que  não se encaixa no projeto paulista e também não no sistema de apoio à candidatura de Dilma Roussef.

Pois assim não fosse, não teria feito a afirmação que fez: “Lula –disse- aguenta defender Sarney e Renan e se abraçar a Collor por sua liderança política. Mas nem eu, nem Serra, nem Dilma, nem ninguém suporta isso.” Estas afirmações evidentemente não são de alguém que pudesse se integrar no esquema político do Planalto. Inclusive acentuou que uma candidatura à presidência da senadora Marina Silva, pelo PV, pode implodir a da Chefe da Casa Civil.

Ciro surpreendeu mais uma vez. Neste caso, sobretudo porque anunciou que mantém sua própria candidatura à sucessão de 2010. Logo, não pretende sair do PSB. Para que o PTY apoiasse sua indicação para São Paulo seria absolutamente necessária uma aliança com o PT. O ex governador do Ceará provavelmente sentiu a intensidade da reação da seção paulista do Partido dos Trabalhadores ao projeto  que  tem (ou teve) o ex ministro José Dirceu como um dos articuladores. Inclusive Dirceu chegou a publicar em seu blog um artigo nesse sentido. Como disse o poeta, entretanto, foi tudo um sonho de uma noite de verão.

Claro que Ciro retira votos de Dilma Roussef, da mesma forma que Marina Silva. Mas é indispensável considerar que a eleição é em dois turnos. Quanto mais candidatos houver, pensa Ciro, melhor para ele. Sabe que José Serra, mais forte que Aécio Neves nas pesquisas do Ibope e Datafolha, tem seu passaporte assegurado para o desfecho final. Mas,  diante de uma divisão aprofundada pela ex ministra do Meio Ambiente, talvez ele, Ciro Gomes, possa superar Dilma e se classificar para o momento decisivo.

Nesse ponto, errada ou certa sua análise, não importa no caso agora, ele projeta uma vaga chance de vir a ser o antagonista preferido, senão pelo PT, pelas bases petistas. É um plano que ficou nítido no episódio desta semana. Se vai dar certo ou não, é outra história. Mas tem lá sua lógica.

Ele está sentindo que a ministra  chefe da Casa Civil, principalmente em face das articulações desenvolvidas pelo presidente Lula, está dependendo mais dos apoios que receber do que de si própria. Na verdade, tem razão, pois são acessórios, não essenciais. O candidato, no caso a candidata, tem que se afirmar por si. Apoios formais de siglas e correntes decorrem do fato de a candidatura estar forte: afinal os rios correm para o mar. E não o contrário.

Sustentações, por paradoxal que pareça, não asseguram o êxito da jornada. Elas acrescentam, isso sim, e se potencializam em função da capacidade de arrebatar votos de quem os está disputando. Ciro Gomes identifica em Dilma a imagem de quem está condicionada à força das adesões. E não o contrário. A véspera do poder e da vitória é um corredor estreito. Nele pontifica a emoção, não a manifestação conseguida à base da troca de concessões. Mas sim aquela que arrebata e torna as concessões um reflexo natural da política.

A luta pelo poder é assim. Ciro quer ser uma alternativa para o segundo turno. Esta sua estratégia. Ficou nítida.

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