Collor em entrevista Globonews: Escrevi um livro que vai abalar o Brasil. Depois, mudando de tom: Mas s vou publicar quando todos estiverem mortos. Desde j, deu nomes e comprometeu muita gente

O ex-deputado Cleto Falco, a pessoa mais ligada ao (futuro) presidente Collor, at a eleio e a posse, deu entrevista aberta e escandalosa, ao reprter Genetton Moraes. A Globonews publicou. Comentei logo a seguir. A entrevista jornalisticamente importantssima, mas por que publicar neste momento?

20 anos depois da eleio. 17 anos transcorridos do impeachment. 3 anos a partir de sua volta como senador e como personagem temido e polmico, pelas coisas que diz e principalmente pelo que sabe e no se cansa de dizer: Vou publicar. Como a Organizao no tem fanatismo jornalstico, alguma coisa aconteceu.

Alguns no falam nada a respeito da entrevista do Cleto, que no repercutiu, o personagem conhecido demais. Outros falam que Collor pediu direito de resposta. Pessoas ligadas aos dois lados, me dizem: Ele no PEDIU e sim EXIGIU esse direito. Est em condies de fazer isso, pelo que pode publicar. E ele mesmo falou em entrevista: Sempre diziam que eu era maluco. E deu uma gargalhada, a nica num depoimento sbrio, discreto, cheio de nomes e relatos.

Como Collor foi o presidente mais moo, ganhando em 1989 de Ulisses, Covas, Brizola, Lula e que sofreu o primeiro impeachment da nossa histria, vou comentar.

O mesmo Genetton (bom reprter, nenhuma intimidade com a televiso, apanhava das cmeras e at dos papis, mas tinha disposio assunto fascinante) fez a segunda entrevista. Como levou 45 minutos, preciso destacar os pontos mais importantes, embora tenha tudo na memria.

Eleio: Sabia que ia vencer, nunca tive a menor dvida”.

Dinheiro: O financiamento foi difcil para o primeiro turno, os recursos no entravam.

Segundo turno: Depois, foi uma avalanche. O que entrava de dinheiro provocava surpresa total. At eu ficava assombrado com o volume que chegava para a campanha.

O reprter pergunta para onde foi tanto dinheiro: Financiamos a campanha de muita gente, governadores, deputados. Hesita um pouco e acrescenta: Tambm senadores. E sobrou, pergunta Genetton: Sobrou muito depois de tudo isso. Mais de 50 milhes, acho que mais de 55 milhes, quem controlava tudo era o Paulo Csar.

Inflao: Entre a eleio e a posse, minha grande preocupao era como controlar a inflao, que estava em nmeros assustadores. (A Era Malson, com a inflao em mais de 80 por cento ao ms). Sabia que precisava dar um choque, conversei muito com economistas da campanha e outros, como Mrio Henrique Simonsen, que convidado, no aceitou, mas colaborou com sugestes sobre o choque.

Circulao de dinheiro: Sem consultar ningum eu achava que havia muito dinheiro, e isso alimentava a inflao. Era preciso cortar esse volume, s no sabia como, embora tivesse que ser medida radical, sem paliativo. Estava convencido, mas queria ouvir economistas.

Andr Lara Resende: O choque ter problemas polticos, mas tecnicamente possvel e aceitvel. (Collor se estende na conversa sem explicar, s fala Andr, que no era luminar. Ganharia projeo indevida com o Plano Real, no era o mais brilhante. Mas pessoalmente foi vitorioso, mora e vive luxuosamente na Europa).

Mrio Henrique Simonsen: O ex-presidente conta: Conversei muito com ele, convidei-o (no diz para qu, pressupe-se que para cargo imperial no governo), ele disse que no, mas garantiu que faria sugestes. E fez, diz Collor, favorveis ao choque. Sem saber da idia do Andr, disse a mesma coisa. Era a SOLUO, tecnicamente possvel.

(O prprio Collor mostra que no estava bem orientado. Simonsen era homem de esquemas e no apenas tericos. Como poderoso Consultor da CNI ( Confederao Nacional da Indstria) proporcionou lucros de bilhes e bilhes para as fbricas de bebidas e cigarros. Em plena Era da Inflao, os maos de cigarros e as garrafas de bebidas vinham com os impostos colados em selos. Simonsen mudou, elas passaram a recolher o SELO POR VERBA.

Era o seguinte: no colavam mais nada, tinham 30 dias para pagar. Em plena inflao e o domnio do que se chamava de Open Market, enriqueceram. Simonsen mais tarde foi Ministro da Fazenda do presidente Geisel, ficou um pouco com Figueiredo. Saiu, foi ser executivo do Citibank. Passei a cham-lo de CITISIMONSEN).

Alosio Mercadante: Economista muito ligado a Lula, (seria seu vice-presidente em 1994, segunda candidatura) procurou Zlia Cardoso de Mello, que j se sabia que seria a minha Ministra da Fazenda, E no escondeu: Esse choque com confisco do dinheiro nosso (do PT e de Lula) sonho de governo. Mas estamos convencidos de que se fosse eleito e fizesse isso, Lula no governaria, seria derrubado. (Textual de Collor e textual dele sobre Mercadante).

O confisco: no era para atingir tudo, as aes e os bens no seriam prejudicados. Mas o mercado muito esperto (textual), comeou a transferir para aes e imveis, fugindo da poupana. Tivemos que radicalizar, confiscar at ttulos ao portador.

O incio do impeachment: A reao foi violentssima, muito maior do que imaginvamos. Comearam a surgir protestos e ameaas de todos os lados, aparecia a palavra impeachment. Como tinha mais de 400 deputados FIIS, no me preocupei.

A maioria desapareceu: medida que os protestos aumentavam, a vantagem na Cmara diminua. O reprter fala sobre as aventuras do presidente Batman, Collor ri, fica logo srio, e diz: Precisava me projetar junto ao povo, e eu j disse que era tido como MALUCO. (Repete a identificao feita por ele mesmo).

A traio: Comecei a sentir que estava ficando isolado, a realmente passei a pensar sobre o assunto. Genetton aproveita a pergunta, as entrevistas do seu irmo com acusaes pesadas, tiveram importncia?. Vem a primeira e grande gargalhada, demorada, e a resposta: Nada a ver. Eram apenas problemas familiares, nenhuma ligao poltica ou com impeachment.

O vice conspirador: faz a primeira acusao frontal contra algum, dizendo: Itamar Franco comandou um movimento para a minha derrubada e a transferncia do Poder para Ulisses Guimares. Este, que me apoiava, passou a me evitar, e logo ficou contra, queria assumir a presidncia, que tentou a vida toda. Depois, morreu, acabou tudo.

(Equvoco de Collor. Que o vice conspirasse, nada surpreendente, sempre assim. Mas que conspirasse para entregar o Poder a outra pessoa, isso no tem sentido, rigorosamente inacreditvel).

A derrota na Cmara: O impeachment avanou com violncia, os 400 deputados votaram contra mim, no fiquei surpreendido, mas compreendi muita coisa. E fiquei pensando no que fazer.

A renncia: Faltava o Senado. Usa o chavo, nada melhor do que um dia depois do outro com uma noite no meio para decidir. Ento pensei, se perdi na Cmara, vou perder no Senado. Durante a noite redigi o pedido de renncia, que pela manh foi entregue ao presidente do Senado. No aceitaram, tudo estava decidido.

A volta: Retirado do governo por acusaes sem nenhuma base, o Supremo me absolveu por 5 a 3. Compreendi que havia confiado demais, precisava fazer uma anlise sobre o meu prprio comportamento e os erros cometidos.

O livro-bomba: Diz, logo, logo comecei a escrever tudo o que acontecera, fui botando no papel, ficou pronto, vi que era uma bomba, (ele mesmo coloca essa palavra como a chave do livro) o pas no aguentaria, iria politicamente pelos ares.

Thales Ramalho: Resolvi ir com mais calma, achei que tinha que dar um tempo, vou publicar o livro, mas precisava me aconselhar. Procurei ento o Ministro Thales Ramalho, grande articulador, que me mostrou coisas que eu no havia visto. Me disse: Presidente, por que fazer isso agora, esto todos ainda a, vivos e atuantes, o senhor sabe o que pode acontecer? No melhor esperar?.

Mais calmo: Concordei com sua sabedoria, no era a hora, mas no desisti, apenas vou esperar.

* * *

PS Em suma: no h suma nem smula. Todos os que esto citados NOMINALMENTE no podem fugir da resposta. Tm que se explicar, gastaram a reputao, esbanjam o que ganharam com a perda da reputao.

PS2 S o Ministro Citisimonsen, (escrevi tudo sobre ele, quando era todo poderoso, at o apelido ele recebeu em plena atividade) est livre de explicaes. Morreu moo e sem qualquer desfalque visvel.

PS3 Teve antes, a mesma sabedoria de Srgio Motta, que morreu tambm moo, apenas desfalcado em vida pelo fato de ter sido scio de Golbery (Durante a ditadura). E financiador da REEELEIO de FHC. Sua morte sepultou o terceiro mandato.

PS4 Gosto muito deste tipo de matria. 45 minutos vendo, ouvindo e guardando na memria. Para transformar em palavras, na hora necessria. Os que tero que se explicar com a comunidade, algum prazer? Se conseguirem desmentir Collor, estaro se defendendo e servindo coletividade.

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