Com a vitória de Carter nos EUA, começou o crepúsculo da ditadura no Brasil

Em 1976, Carter atacou as ditaduras sul-americanas

Pedro do Coutto 

No momento em que o grande jornalista Elio Gaspari completa sua obra histórica sobre a ditadura militar brasileira, iniciada em 54 e que teve fim em 85, obra que ficará para sempre na história de nosso país, creio valer a pena acrescentar uma etapa essencialmente importante, que apressou o desfecho no tempo e no espaço. O livro de Gaspari, cumpre destacar, foi excepcionalmente focalizado pelo repórter Thiago Herdy, O Globo, edição de sexta-feira, e também por matérias publicadas na Folha de São Paulo e no Estado de São Paulo.

A revolta militar contra o regime democrático começou em 64, processo iniciado pela renúncia de Jânio Quadros em 61. As correntes ligadas à UDN, que tinham Carlos Lacerda como líder, opunham-se basicamente a Getúlio Vargas. Perderam com a revolução de 30, com a Constituinte de 34, nas urnas de 45, na volta triunfal de Vargas em 50. E a tragédia de 54 foi logo sucedida com a vitória de Juscelino Kubitschek em 55.

Em vão o antivarguismo empenhou-se para impedir a posse de JK.

JÂNIO RENUNCIOU

Mas veio 60. Nas urnas, pela primeira vez, o antivarguismo alcançou o poder. O que o presidente eleito fez? Jânio Quadros renunciou ao tentar um golpe e, com isso, devolveu o poder exatamente ao varguismo que ressurgiu com João Goulart. A corrente militar, perplexa, afastou-se do caminho das urnas. Pois nas urnas perderam e, quando venceram, o vitorioso devolve o poder àquele que se presumia herdeiro de Vargas. Não era. Mas parecia.

Castelo Branco tentou o roteiro democrático. Costa e Silva impediu e o sucedeu. Costa e Silva viria a ser deposto a partir do Ato 5, dezembro de 68. Veio Médici, perdeu para a facção considerada intelectual de Ernesto Geisel. João Figueiredo foi o denominador entre Geisel e a tropa. Mas nessa passagem de poder, emergiu um fato inesperado: a vitória de Jimmy Carter nas urnas de novembro de 76.

CONTRA AS DITADURAS

Em sua campanha, carter condenou frontalmente a ditadura militar brasileira e a de Pinochet no Chile. Referiu-se às perseguições, às torturas, à censura à imprensa. Os debates de que participou contra Gerald Ford foram transmitidos pelas emissoras de televisão. A vitória de Carter deixou claro que Washington não mais apoiava regimes ditatoriais de exceção.

Foi, como está no título deste artigo, o início do crepúsculo do regime militar no Brasil. João Figueiredo propôs e sancionou a Lei de Anistia em 79.

No dia 30 de abril de 81, viria a ser parcialmente imobilizado pelos grupos radicais com o imundo atentado do Riocentro. Não teve força para punir os culpados. O poder militar ss dividia. Dessa divisão surgiria a histórica campanha pelas Diretas Já. As multidões nas ruas exigiam  a mudança do sistema de poder.

CAPÍTULO FINAL

A candidatura de Tancredo Neves e a imprevista posse de José Sarney formaram o desfecho e a superação do capítulo final da longa noite dos generais. O jornalista Carlos Chagas, em sua obra também de grande importância para a história, focalizou bem o tema e o consolidou na memória nacional.

Agora Elio Gaspari encerra mais um ciclo. Pleno de documentos que lhe foram reservados pelo general Golbery do Couto e Silva, abre as cortinas para adições, revisões, confirmações, detalhes, retificações. A história se escreve assim, como os séculos revelam e demonstram. Os jornais são a sua maior fonte. As observações acrescentam, as traduções das sombras iluminadas por interpretações, também.

VOLTA À DEMOCRACIA

Este artigo exalta a produção de Gaspari, o maior intérprete de política brasileira de agora. Apenas acrescenta, o que para mim, foi decisivo: a vitória de Jimmy Carter nos EUA, sua chegada à Casa Branca, mudou o rumo do quadro brasileiro. Encerrava-se o tempo da ditadura. Amanhecia o tempo da volta à democracia.

8 thoughts on “Com a vitória de Carter nos EUA, começou o crepúsculo da ditadura no Brasil

  1. “Amanhecia o tempo da volta à democracia.” kkkkk. Qual democracia? Essa em que vivemos atualmente? Me interesso muito por esse período da história brasileira, mas quando o autor se refere ao período de governos militares como “ditadura”, nem me preocupo em ler, porque já sei qual é a linha de pensamento. Tenho esperança que um dia a história desse período, que os esquerdopatas se referem como “ditadura”, seja reescrito e a verdade venha à tona. Obrigado aos militares, que heroicamente evitaram que esse país virasse uma nova Cuba, com o mínimo de perdas humanas possível.

  2. O que mais me impressiona nos textos do prezadíssimo Pedro do Coutto é sua capacidade de, com poucas, com mínimas, palavras dizer o que pensa. Quando lemos seus comentários, quase uma crônica da vida política brasileira, em cinco linhas viajamos cinco décadas. Pedro, nunca pare de escrever!

    Mas, caríssimo Pedro, apenas uma dúvida me abateu. Por que você diz, em relação a Jango, “que se presumia herdeiro de Vargas. Não era. Mas parecia.”? Não era? Sempre pensei que fosse.
    Agradeço muitíssimo se puder explicar.

  3. Pedro do Couto. sem demerecer teu valor de profissional que desde a posse de Getúlio em 1951 acompanhaste trabalhando como jornalista se não me engano no “Correio da Manhã” nossos dramas políticos até hoje, preciso retificar duas coisas: 1) Em 1930 a UDN não existia: A família Lacerda: Maurício, Fernando e Paulo apoiaram a Revolução de 1930. Maurício, pai de Carlos Lacerda foi nomeado Embaixador Plenipotenciário para os Paises do Prata. (Maurício pertencia ao Partido Libertador que fora um de seus fundadores em 1928). Com a prisão de Paulo e Fernando irmãos de Maurício e tios de Carlos Lacerda que eram comunistas. A família Lacerda rompeu com Getúlio em 1932. 2) Quanto a Jango (João Belchior Marques Goulart), foi herdeiro político de Getúlio Vargas sim. ET: A UDN foi fundada em 1946.

  4. O JPL tem toda a razão. Nisso, o articulista e o Gaspari concordam: Castello Branco foi um democrata. Também questiono essa importância toda atribuída a Carter para justificar a queda da ditadura no Brasil. Acho que essa influência foi bastante relativa, e deprecia toda a dinâmica social interna que levou ao fim da ditadura. Penso que Carter foi contra a ditadura mais por ter a Westinghouse americana perdido o programa nuclear para a empresa alemã em 74 e porque Geisel rompeu o Acordo Militar com os Estados Unidos em 77. Não esqueçamos que Carter era democrata, assim como eram democratas Kennedy e Johnson, que contribuíram decisivamente para o sucesso do golpe de 64 no Brasil, reconhecendo imediatamente o governo ditatorial e enviando uma Força Tarefa naval para o litoral brasileiro para apoiar os golpistas.

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