Com ingresso a R$ 150, o futebol não é espetáculo

João Gualberto Jr. (O Tempo)

Defendem os cronistas especializados que o futebol-arte morreu em 1982. Pelo menos foi assim para os brasileiros, que choraram a derrota da seleção do Telê, com Zico, Sócrates, Falcão e companhia, para a Itália de Rossi, pragmática e contundente. Veio na corrente dos dias a impressão de que aquele trauma na Espanha causou um cisma no futebol brasileiro entre a arte e o resultado. A derrota se somava a outros sintomas do nosso complexo de inúteis vira-latas: “a gente joga bola e não consegue ganhar”.
Saindo do divã coletivo e partindo para uma visão de negócios, contudo, convém frisar que o brasileiro jamais encarou seu esporte número 1 como espetáculo. E uma mudança nessa percepção faz parte do pacote do projeto de elitização do futebol em curso no Brasil.

Houve determinados craques e equipes que, dentro de campo, se portavam como verdadeiros artistas da bola: jogar era improvisar, com dribles e jogadas, e construções individuais e coletivas transformavam lances e gols em pinturas, como diz o jargão boleiro. A intenção aqui não é ser saudosista. Craques ainda existem. Contudo, espetáculo, com direito a gol de placa e espectadores despreocupados com o placar, é exceção, mesmo no Brasil, a terra do “atleta do século”.

O torcedor vai ao estádio não para presenciar uma experiência de deleite estético. Ele não pretende admirar, com os sentidos, uma determinada disposição de cores, movimentos e sons. Ele vai para incentivar e testemunhar o desempenho de seu time do coração contra os adversários. Mesmo nos casos em que a superioridade do clube para o qual se torce torne pequena a hipótese da derrota, ainda assim, ela é sempre uma possibilidade. Afinal, futebol é uma “caixinha de surpresas”, não é verdade?

O torcedor comparece ao estádio e paga ingresso com o desejo de obter prazer, mas o sofrimento é uma iminência. E, mesmo que os planos deem errado e o time seja derrotado, na maior parte dos casos, o devotado não se arrepende de ter assistido ao revés. No teatro ou no cinema, não é assim. O direito ao deleite é adquirido no preço do ingresso.

PAIXÃO E  SELEÇÃO

Essa distinção de predisposições entre o torcedor e o espectador da arte fica evidente nos jogos da seleção brasileira. A paixão clubística é muito mais incondicional do que os sentimentos que se nutrem pelos jogadores que, eventualmente, vestem a amarelinha. Em um jogo do Brasil, parece que domina as arquibancadas o comportamento de quem espera o espetáculo – até porque esses jogos, normalmente amistosos, atraem um público diferente do que frequenta os estádios religiosamente aos domingos.

Se existem fila e demora para se chegar às catracas, o espectador se cansa. Se a cadeira numerada no tíquete está ocupada por outro, ele se irrita. Alguém na fileira da frente se levanta? “Vamos sentar aí, pô!” E, se o show não vem, vem a vaia.

Estádio não é teatro. Além do mais, Barcelona, Munique ou Londres não ficam no Brasil. E qual é a miopia de origem inoculada pelos organizadores da Copa? Vender a ilusão de que futebol é espetáculo. Mas a culpa não é de quem compra o ingresso. Qualquer um que pagar uns R$ 150 para entrar no Mineirão tem, sim, todo o direito de esperar um show.

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5 thoughts on “Com ingresso a R$ 150, o futebol não é espetáculo

  1. Assim como na época de carnaval, onde o ingresso era gratuito, passou-se ao futebol, ou seja, só a elite tem os privilégios de acomodação nos melhores lugares, o povão que se dane, este é um país de todos, conforme preconiza o slogan do governo federal, deveria ser “BRASIL UM PAÍS PRA POUCOS”.

  2. Ainda bem!!!

    Já estão tirando o “pão” com a inflação.

    Que tirem o “circo” também!

    Quem sabe o povo não acorda e faz uma Revolução à Francesa?

  3. Foi o tempo de ‘Ad captandum vulgus, panem et circenses’, agora, além de faltar o pão e circo, os vampiros assenhoram-se de nossas clunis, alcovas, sangue e almas.

  4. Pingback: Com ingresso a R$ 150,00, o futebol não é espetáculo! | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

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