Com patriotismo de fancaria, Bolsonaro transforma discurso de amor à Pátria em culto à personalidade

Jair Bolsonaro e cesta básica

Em campanha, Bolsonaro usa patriotismo no supermervado

Vera Magalhães
Estadão

“Patriotismo significa apoiar o País. Não significa apoiar o presidente.” Diferentemente de outras frases citadas com frequência e falsamente atribuídas a pensadores, esta foi de fato escrita por Theodore Roosevelt, 26º presidente norte-americano (republicano), num ensaio de 1918 em que falava sobre Abraham Lincoln e a liberdade de expressão.

Trago a citação a este texto no Sete de Setembro, feriado nacional que será desculpa para mais um show de uso de fancaria do termo por parte de Jair Bolsonaro e seus seguidores, num truque comum a regimes de corte nacional-populista e do qual o presidente brasileiro lança mão desde que deixou o Exército pela porta dos fundos para entrar na política pela mesma via.

LIBERALIDADES – O sequestro do patriotismo permite ao “capitão” desde desqualificar qualquer opositor como sendo inimigo do Brasil até cunhar frases absurdas como a de que donos de supermercados deveriam demonstrar seu amor à Pátria baixando o preço dos produtos.

É essa apropriação indébita que faz com que o discurso propagandista vendido pela Secom, transformada por Bolsonaro num Ministério da Propaganda, eleja aproveitadores como “heróis” e venda uma narrativa parcial como sendo a História do Brasil.

“Nosso presente está repleto de passado”, disse a historiadora e antropóloga Lília Moritz Schwarcz ao ser questionada por mim sobre o uso torpe do patriotismo como muleta por governantes durante o Roda Viva especial da Independência do Brasil que será exibido nesta segunda-feira.

FERRAMENTA BÁSICA – O recurso a um passado falsamente idealizado não é um expediente original do bolsonarismo. Ele é uma das ferramentas básicas por meio das quais regimes e líderes políticos autoritários constroem a mística em torno de si.

No caso do atual ocupante da Presidência do Brasil, essa narrativa inventada inclui dizer que nossa ditadura militar foi um período “mal interpretado”, como o próprio Bolsonaro fez questão de dizer para um incrédulo Al Gore nos corredores do Fórum Econômico Mundial, em Davos, em 2019. Dentro dessa falsificação, criminosos sanguinários como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra são metamorfoseados em heróis.

O mau uso do patriotismo – um conceito que, em vez de ajudar a clarear, os setores “progressistas” da sociedade preferem olhar com soberba, nojinho ou enfado – faz com que mentiras como as cunhadas por Bolsonaro para se eleger, para atentar contra as instituições e para boicotar o combate à pandemia se legitimem junto a uma larga faixa do eleitorado.

FISCAIS DO SARNEY – Patriotismo nada tem a ver com a versão revisitada dos “fiscais do Sarney” que Bolsonaro evocou na sua última viagem de campanha antecipada sem agenda alguma. Uma visão de amor à Pátria por parte do presidente o levaria, por exemplo, a defender a vacinação em massa e obrigatória para seu povo como um direito de todos e um dever do governo, e não uma “imposição indevida”, como fez em mais uma fala criminosa em que usurpou conceitos, dessa vez o de liberalismo, que ele desconhece completamente.

Inebriado por uma circunstancial melhora de sua popularidade à custa de mais uma ilusão, a de que de repente passou a se preocupar com os pobres graças ao auxílio emergencial, Bolsonaro vestiu o figurino populista e com ele acha que poderá escapar ileso da gestão desastrosa em áreas essenciais, como o combate à pandemia e a política ambiental, e das investidas sistemáticas que fez contra a democracia.

É preciso que os verdadeiros patriotas, aqueles que não usam a Bandeira do Brasil como abadá, pensem em feriados como o de hoje como um momento de reflexão a respeito desse presente cheio de um passado do qual a História sem narrativa não permite sentir saudades nem orgulho.

18 thoughts on “Com patriotismo de fancaria, Bolsonaro transforma discurso de amor à Pátria em culto à personalidade

  1. FHC e Lula começaram o processo de venezuelização do Brasil, Bolsonaro está concluindo a obra. E viva o militarismo e o partidarismo, politiqueiro$, e seus tentáculos, Velhaco$, e que venha a Brazuela.

  2. Ó Pátria amada
    Idolatrada
    Sofre! Sofre!
    O que comemorar neste sete de setembro?
    O lobo-guará ou o povo jogado ao deus-dará?
    O que comemorar, se temos tanta desgraça e o futuro ainda vai piorar?
    Não procurem rezar, porque nem isso vai ajudar.
    Mas procurem pensar antes de votar.
    E lembrem-se: o Jair Messias só dá azar!

  3. O b*st*nágua acha que está tudo comprado e tem o $$$ para comprar o que quer que falte. Mas, talvez, esteja esquecendo que uma mudança muito breve no horizonte que introduzirá um elemento que talvez não seja de fácil manipulação. Este elemento pode trazer ao país uma nova esperança de que nem tudo está perdido. Ele poderá moralizar o órgão que, de há muito, vem transformando o país numa zona de baixo meretrício, uma avacalhação total por decisões que levam o país direto ao precipício. É a nossa última esperança porque no que depender da imensa maioria dos eleitores, o brejo é logo ali.

    Veni ad salvandum nos, o et redemptor meus!!

  4. Psrece que temos um presidente vendedor de fumaça, como diria o barão de Itararé.

    Por outro lado, parece que o “Cavalão” arranjou uma inimiga firme de montaria, uma hábil cavaleira que sabe usar as palavras com acidez.

    Vai ser difícil tirar ela de cima.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *