Com uma velocidade impressionante, o Trem-Bala vai consumir R$ 50 bilhões, recursos que deveriam ser aplicados para melhorar a logística e reduzir o Custo Brasil, gerando empregos e riquezas.

Carlos Newton

Já falamos aqui na Tribuna da Imprensa que nossas autoridades e elites são provincianas, estão sempre dispostas a copiar o que veem no exterior. É o caso do Trem-Bala. Mas será que o Brasil precisa mesmo dessa “inovação”, ou seria melhor aplicar os recursos em outras necessidades? Esta é a questão, que o governo se recusa a discutir.

Os argumentos favoráveis à construção do Trem-Bala chegam a ser de um ridículo atroz. O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse a seguinte asneira. “O projeto é muito relevante, inclusive para o setor aeroportuário, porque conectaria os principais aeroportos no coração do País, incluindo São Paulo, Campinas e Rio de Janeiro“. Ora, é a primeira vez que se ouve falar em trem ligando aeroportos. Até então, o que ligava aeroportos era o avião, não o trem. Jamais na História deste país se ouviu tolice igual.

O banco estatal, que deveria ter outras prioridades, vai emprestar R$ 20 bilhões para a construção do Trem de Alta Velocidade (TAV), chamado de Trem-Bala. Mas o custo total poderá chegar a R$ 50 bilhões, se forem levados em conta imprevistos que podem acontecer, porque estudos especializados apontam que o custo desse tipo de obra, em média, acaba sendo 45% maior que o planejado antes de o empreendimento começar.

Se as autoridades pesquisassem, iriam descobrir que o Trem-Bala não dá lucro em nenhum país. Não é por mera coincidência que não existe Trem-Bala nos Estados Unidos, onde nunca houve interessem em adotá-lo. Não dão lucro, em todos os países é um transporte elitista que tem de ser subsidiado.

No Senado, o assunto foi debatido em profundidade e o os representantes do governo não conseguiram justificar essa empreitada. Na semana passada, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO)deu números irrefutáveis. Disse que, para construir um quilômetro de hidrovia no País, gastam-se em dragagem e portos, apenas R$ 50 mil. E repetiu “Cinquentinha, cinquenta mil reais! Cinco casas populares de R$ 10 mil, para cada quilômetro de hidrovia”.

Para fazer uma ferrovia, também um dos transportes mais baratos do Brasil, gastam-se entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões por quilômetro. E para fazer uma rodovia, gastam-se, R$ 2,5 milhões. Então vou repetir. Quilômetro de hidrovia, 50 mil; ferrovia, R$ 4 ou 5 milhões; rodovia, 2,5 milhões. Para o trem-bala, são R$ 63 milhões por quilômetro. Como aceitar isso?”- indagou.

Em seguida, a senadora Kátia Abreu lembrou um dos maiores problemas do país, que realmente está travando o crescimento socieconômico – a questão da logística. “Tenho certeza de que os senadores da República, especialmente do Centro-Oeste brasileiro, do Nordeste deste País, da região Norte, do Sul não vão aprovar esta medida provisória, porque nós estamos com os nossos portos e a nossa produção estrangulada, enquanto os americanos, os chineses e os argentinos transportam as suas mercadorias por um preço muito abaixo. No Brasil, nós pagamos US$ 78 por uma tonelada de soja; os americanos, US$ 18 e os argentinos, US$ 20. É isso que nós estamos querendo fazer com o Brasil?

Mas não adianta, o governo não quer ouvir a realidade. Não há argumento capaz de fazê-lo recuar dessa empreitada, que começou custando R$ 18 bilhões, a ser inteiramente custeada pela iniciativa privada. Hoje, já está em R$ 50 bilhões, a serem gastos por uma nova estatal, pois a iniciativa privada não gosta de jogar dinheiro fora.

A irresponsabilidade falou mais alto. O Senado já aprovou o empréstimo bilionário do BNDES, por 44 votos a 17. Os parlamentares brasileiros não mais representam seus eleitores, apenas defendem os interesses de quem estiver no poder, seja lá quem for. Seria muito mais importante gastar os R$ 50 bilhões reforçando a logística e baixando expressivamente o chamado Custo Brasil, para aumentar a competitividade de nossas exportações. Mas quem se interessa?

Quando Tancredo Neves ia assumir o poder, em 1985, já tinha o discurso pronto, sob o título “É proibido gastar”. Queria direcionar todos os recursos para desenvolver o país e melhorar a qualidade de vida dos brasileiros. O atual governo faz exatamente o contrário. Acaba de criar mais dois ministérios (já são 39, recorde mundial absoluto) e consome bilhões e mais bilhões em estádios de futebol e trens-bala.

Que país é esse, Francelino Pereira? Ora, é evidente que se trata de um país pobre, mas com um governo rico e pródigo, que não liga para os problemas à sua volta e parece viver no melhor dos mundos, no estilo otimista do prof. Pangloss, imortal personagem cômico criado por Voltaire. Mas a vida irreal não é literatura, muito menos comédia.

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