Comando terceirizado e inércia na gestão

João Bosco Rabello
Estadão

Devem ser deploradas as manifestações de protesto ao governo reeleito de conteúdo golpista verificadas em passeatas e disseminadas nas redes sociais por grupos que defendem a volta do regime militar. A rigor, se fosse possível, melhor seria ignorá-las.

Infiltradas nos movimentos de oposição, merecem desta o mais veemente repúdio, como tem feito o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, sequenciado por lideranças de seu partido e de aliados.É importante, porém, que se atente para dois aspectos que as estimulam.

O primeiro deles, o radicalismo da esquerda autoritária cujo figurino é vestido pelo PT: são polos opostos que se atraem. O segundo, o perigoso vácuo político deixado pelo governo, que mantém a inércia de gestão enquanto prosseguem as avassaladoras informações de corrupção avalizadas pelo Judiciário.

As medidas saneadoras anunciadas pela Petrobras no âmbito interno chegam tarde e soam como uma tentativa de criar clima de reação meramente burocrático sem a necessária força política para reverter as expectativas em relação à empresa.

LINHA DE NEGAÇÃO

A condução da narrativa do governo concentrada no ministro da Casa Civil, Aloísio Mercadante, além de manter a linha de negação dos problemas graves que desafiam o segundo mandato presidencial, não produz resultado político.

Tanto na Petrobras, quanto no governo, esses movimentos padecem de um pecado capital: a ausência da presidente da República, a quem cabe liderar pessoalmente as ações que possam convencer a população quanto à sua capacidade de enfrentar a crise.

Esta, é política, acima de tudo. E requer o comando presidencial objetivo. Quanto à Petrobras, por exemplo, já passou da hora de a presidente Dilma intervir para renovar a direção da estatal demonstrando que seu governo avalia com a dimensão correta o momento grave que a empresa atravessa.

Sobretudo ela, que deu legitimidade às primeiras suspeitas sobre desvios na estatal ao atribuir a aprovação da compra da refinaria de Pasadena à omissão de informações sobre a operação por parte da diretoria da época, hoje investigada e com alguns de seus integrantes presos.

GRAÇA FOSTER, ATROPELADA PELOS FATOS

Sob o comando de Graça Foster, as reações da Petrobras não passam de um conjunto de medidas de efeito futuro, que podem até se constituir em obstáculo à corrupção interna, mas atropeladas pelos fatos que já estão na esfera do Judiciário.

Não falam do presente, mas do futuro, e não têm força política para produzir o clima pretendido de mudança. Trocando em miúdos, não é recomendável que o foco das atenções nacionais, centrado no cenário de corrupção, seja terceirizado pela presidente da República, especialmente para os protagonistas de uma gestão que levou ao descrédito da estatal.

No plano político, a receita é a mesma. É da presidente o ônus da liderança de um processo difícil que tem na suspeição de algumas dezenas de parlamentares um entrave à fluidez das relações entre Executivo e Legislativo. Na gestão ordinária a delegação é fundamental, mas Dilma não a permite; já a crise é indelegável, mas a presidente parece inverter essa equação.

O governo precisa encontrar sintonia com seu partido, o PT, e com o principal aliado, o PMDB, para a condução da sucessão na presidência da Câmara, cenário em que se consolida com rapidez indesejada pelo Planalto a candidatura do líder peemedebista, Eduardo Cunha (RJ).

PONTO DE NÃO RETORNO

Para uma parcela considerável de parlamentares, a candidatura de Cunha alcançou não só o ponto de não retorno, mas também a consistência numérica para torná-la favorita. Para esses analistas dos partidos, ao governo cabe agora decidir com rapidez se comporá com Eduardo Cunha e terá um presidente na Câmara com Eduardo Cunha alguma dose de independência, porém, amistoso, ou se o enfrentará e, derrotando-o, terá um líder do maior aliado na oposição na Câmara.

Nada disso está consolidado, mas é desenho já visível. É provável que o PT lance candidato, assim como a oposição, que pode ter um apenas ou mais. O que é preocupante é a ausência do governo no processo até aqui.

Não há fato novo produzido pelo governo – nem movimento que o exiba como o principal ator em cena. Os fatos novos têm sido as revelações diárias sobre o sistema de corrupção na Petrobras, agora com perspectiva de extensão, numa espécie de metástase, para outras áreas do Executivo, como o setor elétrico e os fundos de pensão.

8 thoughts on “Comando terceirizado e inércia na gestão

  1. Concordo com a análise do jornalista João Bosco. Faz muito sentido.

    No geral, esperava-se que retorno do encontro do G 20 a presidente adotaria um discurso tipo Obama – vou do jeito que der.. entrar de sola…

    Todavia, com tanto vento contra, ela ancorou o seu destroyer…quietinho, sem marola.
    Sua grande mágica está sendo esperada quando anunciar o ministro da Fazenda. Talvez esta semana.

    À conferir.

  2. Caro CN … Caro Andrade … … … Boa tarde!

    Comentemos por partes:

    1 – Constituição Federal CIDADÃ de 1988: “Art. 142. As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.”

    2 – As FFAA destinam-se à defesa da Pátria … aí o cidadão jura Bandeira, se comprometendo em dar até sua vida em defesa da Pátria!!! isto, em relação às ameaças externas.

    3 – As FFAA destinam-se à garantia dos poderes constitucionais … aí o cidadão exerce o voto diretamente elegendo Legislativo e Executivo – e, por meio deles, indiretamente o Judiciário … … … é claro que, em caso de dúvida no processo eleitoral, as FFAA podem ser destinadas – como???

    4 – As FFAA destinam-se à garantia da lei e da ordem – para exercer esta garantia, só por iniciativa de qualquer Poder Constitucional.

    5 – Observa-se que as FFAA destinam-se à GARANTIA e não à DEFESA da lei e da ordem!!!

    6 – Não é constitucional pedir a volta da Ditadura, do Autoritarismo Militar-Civil … conforme aconteceu até 1964 … até então não havia ordenamento legal para a GARANTIA DA LEI E DA ORDEM por iniciativa de qualquer Poder Constitucional!!!

    7 – Hoje é diferente … após a REVOLUÇÃO DO ROSÁRIO, das MARCHAS DA FAMÍLIA COM DEUS PELA LIBERDADE … em que as FFAA atenderam, se excederam, anistiaram … tivemos a Constituinte de 1988, convocada sem ter havido outra Revolução … … … consequentemente, a CONSTITUIÇÃO FEDERAL CIDADÃ de 1988 é a versão final da REVOLUÇÃO DO ROSÁRIO!!! !!! !!!

  3. O fundo de pensão Previ também precisa ser investigado: rico, distribui superávit para o Banco do Brasil, quando o esse banco participa como patrocinador. É o mesmo que se pagar FGTS para um empregado e tempos depois se apoderar da metade.

  4. Caros Francisco Bendl e Jorge Béja … saudações!

    Muito boas as matérias sobre os financiamentos de obras no exterior e sobre o conceito de malfeito.

    Quanto às obras, realmente não acrescentam muito ao prestígio do Brasil junto às populações dos países beneficiados … as obras destacam os políticos que as realizam … … … pouca gente se lembra das empreiteiras da construção de Brasília; porém, poucos não sabem de seu construtor JK!!! Igualmente, a Ponte Rio-Niterói foi construída por qual empresa??? porém, está lá no nome dela – Ponte Presidente Costa e Silva.

    E há detalhe … tanto o governo JK, quanto Andreazza (construtor da Ponte) … são dados como corruptos!!! tanto que Jânio foi eleito com discurso de varrer a corrupção!!!

    No entanto, JK e Andreazza morreram pobres e as construtoras de Brasília e da Ponte??? ??? ???

  5. Já malfeito é termo pesadão … conferir em “22. Sempre em caminho para Jerusalém, Jesus ia atravessando cidades e aldeias e nelas ensinava. 23. Alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os homens que se salvam? Ele respondeu: 24. Procurai entrar pela porta estreita; porque, digo-vos, muitos procurarão entrar e não o conseguirão. 25. Quando o pai de família tiver entrado e fechado a porta, e vós, de fora, começardes a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos, ele responderá: Digo-vos que não sei de onde sois. 26. Direis então: Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste em nossas praças. 27. Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores. 28. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac, Jacó e todos os profetas no Reino de Deus, e vós serdes lançados para fora. 29. Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e sentar-se-ão à mesa no Reino de Deus. 30. Há últimos que serão os primeiros, e há primeiros que serão os últimos. (Lc 13)”

    Destaco: “27. Ele, porém, vos dirá: Não sei de onde sois; apartai-vos de mim todos vós que sois malfeitores.”

  6. Tem mais:

    1 – “Pois vos digo: é necessário que se cumpra em mim ainda este oráculo: E foi contado entre os malfeitores (Is 53,12). Com efeito, aquilo que me diz respeito está próximo de se cumprir”. (Lc 22,37)

    2 – “Eram conduzidos ao mesmo tempo dois malfeitores para serem mortos com Jesus”. (Lc 23,32)

    3 – “Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!” (Lc 23,39)

  7. EXPECTATIVA DE GRANDES TRANSFORMAÇÕES PARA O PAÍS

    Ao retornar ao Brasil após participar de um encontro mundial de líderes populares com o papa Francisco, no Vaticano, o líder do MST – João Pedro Stédile – se mostra revigorado para a luta e acredita que o país passará por grandes transformações nesta nova fase de sua história, com o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

    “Estamos vivendo um período de transição, que sempre é tensionado pelos grupos que querem influenciar o próximo governo”, diz ele. Sobre o personagem Francisco, enfatiza que “surpreendeu pela simplicidade, coragem e sabedoria”, encerrando sua longa entrevista concedida ao Brasil 247. Das respostas, copiei doze pontos que considero importantes para análise e reflexão da conjuntura brasileira, transcritos a seguir.

    1. Os tucanos chamaram mobilizações de protestos dia 15 de novembro, que são normais na democracia. E lá se infiltraram algumas viúvas da ditadura militar, que não merecem crédito, que não têm base na sociedade. Até os tucanos ficaram com vergonha.

    2. A mídia no Brasil faz campanha permanente na sociedade mantendo a hegemonia da visão de mundo burguesa, defendendo os interesses dos privilegiados e os falsos valores do individualismo, egoismo e consumismo, como se fossem valores da liberdade e da democracia.

    3. Defendemos que todos os casos de corrupção sejam investigados à exaustão e denunciados, sobretudo os corruptores, que na maioria das vezes saem impunes. Todos os que cometeram algum delito devem pagar por eles.

    4. Não acredito em desestabilização do governo. Estamos vivendo um período de transição do primeiro para o segundo mandato, que sempre é muito lento e tensionado, pelos grupos que querem influenciar o próximo governo. Esse período de transição é sempre de debates e de expectativas.

    5. Nenhum governo do mundo, federal, estadual ou municipal funciona sem a pressão do povo. Os problemas de moradia, transporte público, especulação imobiliária, juros estratosféricos, falta de terra e vagas restritas na universidade estão ai, pedindo soluções urgentes.

    6. O Congresso brasileiro infelizmente tem se revelado um balcão de negócios. O financiamento privado das campanhas deformou sua representação em relação à sociedade. Apenas dez empresas elegeram 70% dos parlamentares nestas eleições.

    7. Nós temos uma plenária nacional com mais de 400 movimentos, entidades e organizações, organizamos mais de 2 mil comitês populares em todo o país. Recolhemos quase 8 milhões de votos de eleitores, exigindo a convocação de uma assembleia constituinte.

    8. Sabe-se pela imprensa que esse esquema está montando na Petrobras desde os tempos do governo FHC. É uma vergonha que muitos diretores se locupletaram e desviaram milhões. Uma vergonha que as empresas pagassem esse pedágio e certamente incluíam depois no custo das obras.

    9. Os corruptos e corruptores não tem partidos, têm apenas interesses pessoais. O salutar seria que todas as empresas estatais, do governo federal e de alguns grandes estados como Minas, São Paulo e Rio, também passassem por esse pente fino.

    10. Os governos em geral sempre são muito burocráticos e desvinculados da vida real. Como dizia um mestre: ”os governos em geral são surdos e cegos” para as demandas populares. Daí a necessidade do povão se organizar e lutar por seus direitos.

    11. A Igreja Católica passou os últimos trinta anos imersa numa visão conservadora do mundo. Isso levou o Vaticano a uma grave crise econômica, política e moral. Por isso, Ratzinger teve coragem de renunciar para encontrar uma saída para a crise.

    12. E a saída foi escolher um cardeal progressista, e pela primeira vez em dois mil anos, o primeiro Papa representante da América Latina e do Hemisfério Sul. O papa Francisco demonstra ter consciência das mudanças que precisam ser feitas.

    FONTE: http://www.brasil247.com/pt/247/poder/161000/Stédile-“Golpe-destamparia-a-revolta-popular”.htm

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