Comentarista relembra troca de correspondências entre Sarney e Helio Fernandes, sobre Carlos Lacerda.

Vilé Magalhães

Caro Carlos Newton, revendo meus arquivos encontrei essa beleza de matéria do mestre Hélio Fernandes na Tribuna da Imprensa, contestando artigo do José Sarney e diplomática e educadamente desmentindo-o e colocando-o no gueto da história, como podem alguns amigos do Blog relembrar.

***
CARTA DE SARNEY A HELIO FERNANDES

Meu caro Helio, caro amigo.

Fiquei muito surpreso com suas observações sobre o artigo que fiz a respeito do atentado da Rua Tonelero. A motivação dele foi justamente a minha revolta de ter lido, na Folha de S. Paulo, várias versões sobre aquele episódio, todas elas violentadoras da realidade, inclusive a falta de respeito do autor – Alcino – à memória do nosso Carlos.

Escrevi para tentar repor os fatos como eles se passaram e aproveitar o instante para mostrar que a violência da guarda pessoal de Getulio não era uma coisa nova, mas, sim, uma coisa sistemática, desde São Borja.

Talvez seja eu um dos poucos que sempre tem defendido e exaltado Carlos Lacerda, de quem fui amigo e vice-líder na Câmara dos Deputados. Estivemos afastados durante um certo período, mas, no fim da sua vida reatamos a velha amizade e estivemos sempre juntos.

Recordo que, ao tempo de Odylo Costa, filho, que era diretor da Tribuna de Imprensa, eu era, todas as tardes, presença constante no jornal. Tenho pelo Carlos Lacerda uma admiração muito grande, recordações indeléveis e jamais poderia pensar que o que escrevi fosse interpretado de maneira diferente. Quando falei que acompanhei os fatos não disse que os presenciei, mas os vivi intensamente.

Um abraço

José Sarney

***
RESPOSTA DE HELIO FERNANDES A SARNEY

Ontem, depois de cumpridas minhas exaustivas obrigações no jornal, recebi a carta acima. Não posso, não devo, não gosto, não quero deixar sem resposta comunicação tão amável, principalmente vinda de um ex-presidente da República e presidente do Senado.

Como disse Pedro Simon há tempos, da tribuna do Senado, não acho muito agradável fazer concessões. Principalmente de caráter histórico. Lamento ter que contradizer inteiramente o senador Sarney, o que fazer?

Diz o senador que escreveu para repor “a falta de respeito com o nosso Carlos”. Ficou “revoltado”, (textual), então por que repetiu o que disse o pistoleiro? Uma famosa revista católica dos EUA, “revoltada” com a “apelação” para o nu de outras revistas, encheu suas páginas de mulheres inteiramente nuas, com a explicação: “É isso que os outros fazem e que nos recusamos a fazer”. Nunca venderam tanto.

Mais adiante: “Sempre fui um dos poucos a defender Carlos Lacerda, fui seu amigo e vice-líder dele na Câmara dos deputados”. Um deputado federal como foi Sarney, vice-líder de um governador? Isso não existe. Governador tem líder e vice-líder na Assembléia Legislativa. É o que na certa aconteceu com o próprio Sarney, por 5 anos governador do Maranhão.

Amigo? Eis uma palavra usada muitas vezes em vão. Carlos Lacerda foi deputado de 1950 a 1954, Sarney ainda estava no Maranhão. Os dois estiveram na mesma Câmara a partir de 31 de janeiro de 1959, mas logo em 1960, a capital mudaria para Brasília, Sarney indo naturalmente para lá. Em 5 de novembro de 1960 Lacerda se elegeu governador, tomou posse em 5 de dezembro também de 1960. Sarney nem veio à posse, compreendo, dividia seu tempo entre a capital, o Maranhão, e São Paulo, onde tinha um grande projeto empresarial com Abreu Sodré. Sócio a quem muito mais tarde faria ministro do Exterior.

De 1960 a 1964, Sarney ficou entregue ao seu trabalho, Lacerda foi governador até 1965. Em 1965 foi Sarney quem se elegeu governador, morou o tempo todo no Maranhão. De 1965 a 1970, que acontecimentos, que momentos, que aborrecimento o de Sarney, tendo que ficar no Maranhão, não ter o prazer de estar ao lado do amigo, um instante que fosse.

No episódio da Frente Ampla, Sarney não apareceu, era governador, isso foi em 1966.

No AI-5 de 1968, Sarney não foi atingido, Lacerda foi preso e cassado, nem uma visitazinha do amigo. Havia fila para entrar no Caetano de Farias, todos queriam visitar Lacerda, Mario Lago, Osvaldo Peralva, menos o amigo Sarney. Eu sei, não podia deixar o Maranhão, seu mandato só acabava em 1970.

Em 1970 Lacerda estava no exterior, deprimido, Sarney foi eleito senador, uma amizade que não prosperou nem progrediu, lógico, por falta de oportunidade.

Lacerda foi cassado no dia 30 de dezembro de 1968, viajou para a Europa no dia 2 de janeiro de 1969. Mas ainda encontrou tempo para se despedir dos amigos com os quais ficou seqüestrado pela ditadura.

Enquanto isso acontecia, o amigo Sarney estava na Arena e no PDS, os dois partidos, sustentáculos da ditadura. Sarney foi sempre contra a violência, a tortura, a perseguição, mas não pôde interceder pelo amigo.

Garante que quando Odylo Costa, filho foi diretor desta Tribuna da Imprensa, “era presença constante nas tardes do jornal”. É possível, é possível, só que o Odylo passou tão pouco tempo na Tribuna, que as tardes de Sarney, ficaram inteiramente desconhecidas.

Lacerda voltou da Europa em 1972, morreria em 1977, aos 63 anos de idade, desde os 40 pensando na Presidência da República. Sarney que jamais pensou nisso, chegou lá em 1985, depois da morte de Lacerda, que na certa ficaria assombrado com o fato.

Como se sabe, Carlos Lacerda morreu mocíssimo aos 63 anos, em 1977. Se tivesse vivido mais 7 anos, completaria 70, e ficaria satisfeitíssimo de ver
Sarney na vice-presidência. Que logo depois se transformaria em Presidência. Nada surpreendente na História do Brasil, onde tantos vices, vicejaram.

Finalmente para não ir muito mais longe, despedida carinhosa com o ex-presidente e um lembrete. Hoje, Sarney, que você é escritor consagrado, e quem sabe, até lido, é preciso cuidado com a filologia. Você garante: “Não quis dizer que PRESENCIEI os fatos e sim que os VIVI intensamente”.

Essas duas palavras, Sarney, são muito próximas, quase aparentadas, mas se hostilizam o tempo todo. Quem vivencia é o ator, coisa que Carlos Lacerda foi à vida inteira. Na verdade, jamais saiu do palco, aplaudido e vaiado, isso aconteceu até mesmo com Laurence Oliver, Marlon Brando, Orson Welles.

Quem presencia é apenas espectador, não participa do espetáculo, contribui com esse espetáculo mas nunca sobe ao palco. Não cometeria a injustiça de dizer que você em determinado momento não passou de espectador a ator.
Passou, sem dúvida, mas sem comprar ingresso.

Também não posso deixar de repetir uma convicção, que aprendi e apreendi em tantos lances com Carlos Lacerda: se ele tivesse sido presidente, o Brasil estaria inteiramente diferente. Não sei se para o progresso ou o retrocesso, mas não seria o mesmo.

PS – Infelizmente, Sarney, você ficou no Poder durante 5 anos, o Brasil continuou o mesmo. É bem verdade que nos 500 anos desde a descoberta, é o mesmo. E reconheço com a maior sinceridade, que você possa se justificar assim: “Afinal, como desses 500 anos só governei 5, posso até ter atrasado o Brasil em 1 por cento, não mais do que isso”.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *