Comissão da Verdade é mais um factóide do país do faz-de-conta e da terra-do-nunca-jamais

Carlos Newton

Recentemente, o jornalista Carlos Chagas fez um artigo aqui no Blog, questionando os caminhos da Comissão da Verdade. Em sua opinião, os trabalhos têm um encontro marcado com o fracasso, porque cada comissário mora num lugar, eles pouco se reúnem e a documentação sobre as barbaridades cometidas pelos militares e simpatizantes da ditadura já faz tempo que foi destruída.

Chagas tem toda razão. Resta pouco a fazer, como se constata neste iniciar dos trabalhos da Comissão da Verdade. Uma de suas primeiras providências foi convocar para depor o jornalista Elio Gaspari, autor de diversos livros sobre o regime militar, com destaque para a série “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada” e a “Ditadura Encurralada”.

Agora, em função da reportagem publicada nos Diários Associados (Correio Braziliense, Estado de Minas etc.) sobre as torturas sofridas pela presidente Dilma Rousseff durante a ditadura militar, a Comissão da Verdade decidiu requisitar os documentos encontrados em Minas Gerais.

Os papéis estão arquivados no Conedh-MG (Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais), em Belo Horizonte, e a Comissão da Verdade destacou um assessor para viajar à capital mineira para obter cópia dos documentos.

Bem, com o depoimento de Elio Gaspari, o que pode a Comissão da Verdade apurar de novidade sobre o instigante e vergonhoso assunto? Nada, salvo o que ele já escreveu e que dificilmente conseguirá reproduzir de memória. Terá de consultar a própria obra. Chega a ser ridículo pensar nisso.

Também em relação aos papéis arquivados no Conedh-MG, o que a Comissão espera encontrar? Nada, porque as informações mais importantes surgiram da entrevista concedida pela presidente Dilma, não em função dos documentos, que têm caráter meramente burocrático.

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JUSTICIAMENTOS

Ao mesmo tempo, aumentam as pressões para que seja esclarecidos os justiciamentos realizados pelos guerrilheiros, que executaram diversos companheiros por suspeições que muitas vezes não tinham o menor cabimento.

Na Folha, o jornalista Lucas Ferraz mostra que 40 anos depois, a esquerda começa a debater os justiçamentos. Em seu recém-lançado “K.” [Expressão Popular, 178 págs., R$ 15],  o autor Bernardo Kucinski narra a história de um jovem casal: uma professora de química da Universidade de São Paulo e um físico que trabalha na iniciativa privada. Eles desaparecem misteriosamente em 1974, durante uma das fases mais violentas da ditadura militar.

Jornalista e professor, Kucinski trabalhou no Palácio do Planalto, no primeiro mandato do governo Lula (2003-07), como assessor do presidente, elaborando uma crítica diária da imprensa e sobre a conjuntura do país.

Sob a narrativa ficcional – ou “transcendental”, como o autor prefere -, a história contada é a de sua irmã, Ana Rosa Kucinski Silva, e seu marido, Wilson Silva. Militantes da ALN, os dois foram vistos pela última vez em abril de 1974, nos arredores da praça da República, no centro de São Paulo. O casal integra a lista de desaparecidos políticos.

E assim caminhamos neste país do faz-de-conta e nesta terra-do-nunca-jamais, como na história de Peter Pan, peça teatral do inglês James Matthew Barrie, onde os personagens não envelhecem e vivem como eternos adolescentes, olhando para trás, ao invés de se voltarem para a frente.

Lá vamos nós, de olho no retrovisor.

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