Comissão Nacional da Verdade recebe documentos denunciando atuação de Roberto Marinho na ditadura

Carlos Newton

Foi recebido pela Comissão Nacional da Verdade um requerimento pedindo que seja investigada a ligação do jornalista Roberto Marinho com o regime militar, possibilitando o crescimento da Organização Globo, que passou a ser praticamente hegemônica no setor de comunicação.


O texto cita depoimento do ex-marido da presidente Dilma Rousseff, Carlos Araújo, em que o ex-parlamentar do PDT afirma que a Comissão da Verdade precisa apurar as ligações entre os empresários e os líderes do regime militar.

“É relevante investigar também o silêncio oportunista da maior rede de TV do País, a Globo, que naquela mesma época já tinha 75% de audiência e se omitiu na divulgação de atos arbitrários praticados pelos governantes militares. Se a Rede Globo não tivesse silenciado e acobertado as ações da ditadura, com toda certeza o número de perseguidos e vítimas do regime militar teria sido bem menor. Mas a importante organização não moveu uma palha para combater a truculência e as arbitrariedades de então”, diz o requerimento.

EDITORIAL DE MARINHO

Em seguida, o requerimento destaca que, quando o chamado ciclo militar da Revolução de 1964 estava realmente chegando ao fim, devido à convocação da eleição indireta para eleger o primeiro presidente civil em 15 de janeiro de 1985, o jornalista Roberto Marinho fez questão de publicar um revelador editorial de página inteira em seu jornal O Globo, do Rio de Janeiro, enaltecendo o regime militar e fazendo uma clara advertência àqueles que participavam do histórico movimento pela redemocratização do Brasil, como se fosse possível uma volta dos militares ao poder.

“Esse apoio à ditadura e essa deliberada omissão em sua atividade jornalística renderam grandes benefícios a Roberto Marinho, em especial, a transferência ilegal da concessão do canal 5 de São Paulo (TV Paulista), obtida por ele mediante crimes societários até confessados em juízo pelos próprios advogados da TV Globo, quando já estavam prescritos, é claro”, diz o documento, acrescentando:

“A grande e irrefutável verdade é que, depois de 12 anos de funcionamento irregular, de 1965 a 1977, com a concessão ainda em nome dos legítimos controladores da TV Paulista, as autoridades do regime militar fecharam os olhos e aceitaram como legal uma Assembleia Geral Extraordinária totalmente irregular, presidida pelo próprio Roberto Marinho e com o claro objetivo de excluir da sociedade os seus 673 acionistas fundadores, como registrado em ata fraudada, mas aceita pelo regime militar como boa, normal”.

ASSEMBLÉIA ILEGAL

“Foi por meio dessa Assembleia rigorosamente ilegal (com procurações sem valor,em nome de grandes acionistas que há anos já tinham morrido) que sem custo algum Roberto Marinho se apropriou da totalidade das ações dos fundadores da Rádio Televisão Paulista S/A, depois TV Globo de São Paulo, como já provado em diversos processos judiciais e agora pela denúncia esclarecedora do ex-deputado Afanasio Jazadji à Presidência da República”, salienta o requerimento à Comissão da Verdade, destacando:

“A Rede Globo, em sua fase inicial, para conquistar audiência nacional e sólida base econômica, ignorou o princípio constitucional que assegura a plena liberdade de imprensa aos veículos de comunicação, deixando, PORÉM, convenientemente, de informar as atrocidades praticadas pelos governantes militares de então, em troca da regularização de seu canal de TV em São Paulo e das polpudas e favorecedoras verbas publicitárias oficiais que lhe asseguraram crescimento invejável e imbatível”.

E continua a denúncia: “Sem dúvida, para crescer e se agigantar, ignorou o código de ética, princípios constitucionais e a indeclinável obrigação de levar ao Brasil e ao mundo (OEA e ONU) as deploráveis e ignominiosas notícias sobre as intermináveis violências cometidas contra os direitos humanos e o próprio estado democrático de direito”.

“FOI CONDESCENDENTE”

O requerimento diz que “Roberto Marinho prevaricou de sua obrigação de informar, foi condescendente com autoridades arrogantes e atrabiliárias, portando-se como cúmplice de todas essas barbaridades perpetradas entre 1964 e 1984. Lambeu as botas dos ditadores de então e foi regiamente compensado. Se não tivesse se acovardado, sem dúvida, não teria alcançado a grandeza que ostenta, mas, por certo, teria evitado o sacrifício de muitos jovens brasileiros, executados como simples marginais em nome da suposta segurança nacional”.

“É esta a verdade que a comissão nacional da verdade não pode ignorar: Roberto Marinho, para ganhar a concessão da TV Paulista, por meios nada societários e ilegais, esqueceu o indeclinável dever de informar a verdade a toda a nação, sobre os indescritíveis e bárbaros crimes cometidos pelos agentes da ditadura, que, em contrapartida, fizeram vistas grossas de sua manobra para simular a regularização societária da TV Paulista e se apoderar da mais valiosa concessão de TV de todo o país, a hoje TV Globo de São Paulo. Este é o elefante branco que está colocado na sala da Comissão Nacional da Verdade e que precisa ser enfrentado”, salienta o requerimento, dizendo que Silvio Santos está na mesma situação:

“O mesmo de se dizer do Sr. Silvio Santos, dono do Baú, da Telesena e de outros jogos ilegais, e controlador do Banco Panamericano, que deu um golpe de quase cinco bilhões de reais, com a anuência da Caixa Econômica Federal, e que também ganhou uma rede de TV, por estar a serviço dos ditadores. Silvio serviu-se, inicialmente, de horário comprado da TV Globo de São Paulo para massagear o ego de generais e de ministros dos governos revolucionários. Fez de conta que nada de errado aconteceu no Brasil, entre 1964 e 1985”.

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