Como ganhar a qualquer preço

Vittorio Medioli

As notícias bombásticas de descobertas e redescobrimentos da Petrobras no pré-sal, campo de Libra, coincidem com um momento importante da agenda eleitoral. A sede de boas notícias que revigorem o frustrado eleitor e espalhem a sensação de ele ser um ganhador de loteria se repete.

O “mestre” Lula, rouco em suas falas, mas sutil quando precisa ganhar eleições, sabe quanto é importante distribuir boas novas, e quanto mais surpreendentes e empolgantes as novas, melhor para o governante que as anuncia.
A novidade alvissareira faz esquecer dúvidas e angústias. Acalenta o sonho. Cria no inconsciente de quem pouca consciência possui – cerca de 99 em 100 cidadãos – que algo fantástico e benfazejo está para acontecer, que um maná bíblico cairá no deserto a pedido de Moisés/Lula para saciar a fome do povo que foge da perseguição egípcia.
Obviamente sem ter os dons do profeta hebraico, Lula, como atento retirante e experimentado sindicalista, desenvolveu capacidades quase super-humanas de engabelar seus semelhantes. Seu entourage que prepara “eleições” se dedica à causa discretamente apesar de ser órgão oficial do partido, PT.
GTE (Grupo de Trabalho Eleitoral permanente), ligado à Executiva Nacional do PT, em mais de 20 anos de dedicada labuta, aprendeu a controlar e estruturar estratégias, conduzir análises primorosas dos eventos relacionados com disputas eleitorais. O GTE, assim como um iceberg, tem apenas uma pontinha que aparece.
O PT, sedimentando sobre regras rígidas e sectárias, diferentemente de outros partidos, acumulou e capitalizou conhecimento, atuando em rígido “controle de processo” eleitoral, aprendido e treinado provavelmente nos países do Leste socialista em época de Guerra Fria. O PT armazena um acervo monumental de informações, em níveis municipal, estadual e nacional.
O que o GTE determina e indica aos candidatos “escolhidos” se repete, adaptando-se a conjunturas, temporais e geográficas. No último pleito municipal, em 2012, o GTE acompanhou 172 candidaturas de prefeitos, nos municípios de interesse do PT, lá onde o partido disputava orçamentos municipais vultosos. Os candidatos a prefeito, bem como a governador e presidente, recebem, em forma de receita e apostilas, planos de ação engendrados segundo uma lógica marcada pela estrela do partido, um uníssono nacional. Isso tem a vantagem de estimular o surgimento de ondas, e as ondas podem remover montanhas.
Algumas regras são rotineiras e se repetem exaustivamente, como se submeter a plásticas, botox, maquiagem, treinos exaustivos de dicção, acompanhamento de personal trainer, aulas de postura e estilo, cuidados com traje. Quando falta um ano para a eleição, o candidato precisa passar por treinos exaustivos e até condicionamentos psicológicos. As mãos de experientes cirurgiões simetrizam o rosto, a dentadura, retiram manchas, pelos indesejados, repõem cabelos, tudo para criar um visual agradável, um charme pessoal.
O GTE, em seguida, impõe ao candidato uma agenda que corrige ou preenche suas lacunas e tenta ecumenizá-lo, amenizando rejeições.
Antes do GTE, em épocas remotas, os governantes possuíam o “sacerdote” de corte, normalmente acreditado de capacidades oraculares que lia nas entranhas dos bodes expiatórios, no voo dos pássaros, decifrava relâmpagos e trovoadas, o cheiro dos ventos; sugeriam, ainda, alianças, traições, sacrifícios, magias e até bruxarias.

O GTE é sucedâneo do antigo “sacerdote-mor”, conselheiro oculto, mas que, por manter as regras de pragmatismo, ensina a mentir, a confundir, a iludir, a conseguir convencer a qualquer preço, até espalhando inverdades assustadoras, terror e confusão.

Esse caso de boato de cancelamento da Bolsa Família, que desencadeou, na semana passada, uma corrida aos saques dos cartões desses, em linhas gerais, apesar de ser um ato aparentemente voltado contra a presidente Dilma, poderia ser perfeitamente uma ação conspiratória engendrada para repautar os benefícios da Bolsa Família e ainda criminalizar adversários. O GTE poderia ter feito isso? Já que aprontou o caso do dossiê antitucano e o dos “aloprados”, qualquer outra desconfiança resta de pé.

Também demolir o conceito do adversário atribuindo-lhe os piores pecados e delitos aparece com insistência nos relatos do GTE a que teve acesso por mero infortúnio. Cinismo cruel, sem piscar de olho. Uma antissíntese ubaldiana. O abraço de Lula e Maluf para eleger Haddad exemplifica a lógica do GTE.
Faltando agora um ano e poucos meses, de camada por camada, o GTE tenta compactar a estrada dos seus candidatos e prepara seu menu; isso já fez e volta a fazer.

Pode-se lembrar o desconto de 20% nas tarifas elétricas, em plena campanha eleitoral municipal em 2012. Apesar da insustentabilidade de baratear um bem escasso, o anúncio de Dilma foi badalado em rede nacional como uma redistribuição de renda, um gesto à Robin Hood de tirar dos ricos e dar aos pobres R$ 6 bilhões de descontos. Pois é, passados seis meses, o gesto contabiliza perdas de R$ 53 bilhões, líquidas e patrimoniais, do setor público. Pior, as tarifas já são mais caras que antes do “desconto” e ainda têm impulso, se não acontecer milagre, de aumentar significativamente.
Colocar um “poste” do partido no governo de São Paulo valeu o esforço; a conta, salgada, quem paga é o contribuinte. Li ontem que o pré-sal volta a se movimentar lá nas profundezas com anúncios bombásticos da Petrobras, assim como se movimentou em 2009 e 2010. Depois de elevar e derrubar mitos como Eike Batista, o pré-sal está de volta à pauta nacional.
PETROBRAS

Petrobras é parte fundamental das estratégias do GTE, como o demonstra a trajetória do lulismo. Talvez não se encontre maior fabricante de engodos eleitorais que a Petrobras. Nos últimos dez anos, serviu para afiançar promessas de biodiesel de mamona – teoria estapafúrdia como seria fazer detergente com conhaque Napoleon.
Depois foi a vez do H-Bio, outro milagre, patenteado pelo Petrobras, que, já na semana seguinte às eleições, não mais foi comentada por ninguém. A escalada do uso irresponsável da Petrobras se deu, em seguida, com a festa da autossuficiência petrolífera, com Lula sujando as mãos de petróleo, porém, dali em diante, as importações de derivados dispararam e chegaram a 300 mil barris por dia, arrebentando nossa balança comercial. Ainda o pré-sal paralisou o trabalho do Congresso por um ano, em brigas ainda insuperadas, para dividir royalties e distribuir lucros que, na realidade, hoje são graves perdas.
Caberia, para não se voltar a pagar contas desastrosas, debater hoje as “armas” eleitorais, o compromisso com a “verdade” das informações, até se formar um conselho regulador de notáveis que pudesse intervir como moderador de iniciativas nitidamente eleitoreiras e enganadoras que nunca poderão resultar em qualquer vantagem, mas, sim, em graves perdas para a nação.
Além dos aspectos friamente legais, precisar-se-ia questionar os aspectos imorais que a cada dia assumem, tristemente, importância.

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6 thoughts on “Como ganhar a qualquer preço

  1. Dei-me um país que tenha monopólio estatal do petróleo e eu lhe darei um país pobre, em crise e uma cleptocracia. Exemplos:Argentina, Bolívia, Brasil, Irã, Coreia do Norte,etc.
    ****************
    A verdadeira função da Petrobrás, não é nem nunca foi produzir ou refinar petró1eo. A mais importante função da Petrobrás é e sempre foi enganar os trouxas do povo brasileiro, em seguida, a função da Petrobrás é servir como antro de pilhagem de dinheiro público.

  2. O primeiro comentarista sabe tanto que conseguiu a incrível façanha de descobrir petróleo na Coréia do Norte. Precisa nos dizer urgentemente se é do tipo BRENT, WEST TEXAS INTERMEDIATE ou QUINA PETRÓLEO MENELIK do tempo da BRILHANTINA GLOSTORA.

  3. O que o GTE determina e indica aos candidatos “escolhidos” se repete, adaptando-se a conjunturas, temporais e geográficas. No último pleito municipal, em 2012, o GTE acompanhou 172 candidaturas de prefeitos, nos municípios de interesse do PT, lá onde o partido disputava orçamentos municipais vultosos. Os candidatos a prefeito, bem como a governador e presidente, recebem, em forma de receita e apostilas, planos de ação engendrados segundo uma lógica marcada pela estrela do partido, um uníssono nacional. Isso tem a vantagem de estimular o surgimento de ondas, e as ondas podem remover montanhas.

  4. A dupla Lula-Gabrielli destruiu a Petrobrás.Cadê os sindicatos de Petroleiros,a Cut,aepet,etc,tão atuantes nos tempos de FHC.Privatização já.

  5. A insuficiência na extração e refino, assim como os mega congestionamentos em TODAS os médios e grandes centros urbanos; tem uma relação direta, não relatada no artigo. Podemos ainda incluir nesta crise de crescimento vivido pelo Brasil, os aeroportos superlotados de NOVOS passageiros; os portos que sempre estão repletos de navios carregando ou descarregando; e muitos outros sintomas. São as dores do parto. Como todos estes gargalos estão na pauta, aguardem mais uns 3 ou 4 anos. Afinal desejam que cresçamos ou voltemos à 2002, onde estes problemas não existiam?

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