Como interpretar o que querem dizer as multidões nas ruas

Leonardo Boff

Um espírito de insurreição de massas humanas está varrendo o mundo todo, ocupando o único espaço que lhes restou: as ruas e as praças. O movimento está apenas começando. Ninguém se reporta às clássicas bandeiras do socialismo, de algum partido libertador ou da revolução. Todas essas propostas ou se esgotaram, ou não oferecem o fascínio suficiente para mover as massas.

Agora são temas ligados à vida concreta do cidadão: democracia participativa, trabalho para todos, direitos humanos pessoais e sociais, presença ativa das mulheres, transparência na coisa pública, rejeição a todo tipo de corrupção, um novo mundo possível e necessário. Ninguém se sente representado pelos poderes instituídos que geraram um mundo político palaciano, de costas para o povo ou manipulando diretamente os cidadãos.

Representa um desafio para qualquer analista interpretar tal fenômeno. Não basta a razão pura; tem que ser uma razão holística, que incorpore outras formas de inteligência, dados racionais, emocionais e arquetípicos, além de emergências próprias do processo histórico e mesmo da cosmogênese. Só assim teremos um quadro mais ou menos abrangente que faça justiça à singularidade do fenômeno.

Antes de mais nada, importa reconhecer que é o primeiro grande evento fruto de uma nova fase da comunicação humana, esta totalmente aberta, de uma democracia em grau zero que se expressa pelas redes sociais. Cada cidadão pode sair do anonimato, encontrar interlocutores, organizar grupos, formular uma bandeira e sair à rua. De repente, formam-se redes que movimentam milhares de pessoas para além dos limites do espaço e do tempo.

Esse fenômeno pode representar um salto civilizatório que definirá um rumo novo à história, não só de um país, mas de toda a humanidade. As manifestações no Brasil provocaram atos de solidariedade em dezenas de outras cidades no mundo, especialmente na Europa. De repente, o Brasil não é mais só dos brasileiros. É uma porção da humanidade que se identifica como espécie, numa mesma casa comum, ao redor de causas coletivas e universais.

SATURAÇÃO

Por que tais movimentos massivos irromperam no Brasil agora? Muitas são as razões. Atenho-me apenas a uma.

Meu sentimento do mundo me diz que, em primeiro lugar, se trata de um efeito da saturação: o povo se saturou com o tipo de política que está sendo praticada no Brasil, inclusive pelas cúpulas do PT (o resguardo as políticas municipais do PT, que ainda guardam o antigo fervor popular). O povo se beneficiou do Bolsa Família, do Luz para Todos, do Minha Casa, Minha Vida, do crédito consignado; ingressou na sociedade de consumo. E agora? Bem dizia o poeta cubano Ricardo Retamar: “O ser humano possui duas fomes: uma de pão, que é saciável; e outra de beleza, que é insaciável”. Como beleza se entendem educação, cultura, dignidade humana e direitos pessoais e sociais, como saúde e transporte.

Essa segunda fome não foi atendida adequadamente pelo poder público. Os que mataram sua fome querem ver atendidas outras fomes, não em último lugar. Avulta a consciência das profundas desigualdades sociais, o grande estigma da sociedade brasileira. Esse fenômeno se torna mais e mais intolerável na medida em que cresce a consciência de cidadania e de democracia real. A democracia em sociedades desiguais como a nossa é meramente formal, praticada apenas no ato de votar (que, no fundo, é o poder de escolher seu “ditador” a cada quatro anos, porque, uma vez eleito, ele dá as costas ao povo e pratica a política palaciana dos partidos). É uma farsa coletiva. Essa farsa está sendo desmascarada. As massas querem estar presentes nas decisões dos projetos que as afetam.

Esse grito não pode deixar de ser escutado, interpretado e seguido. A política poderá ser outra daqui para a frente. (transcrito de O Tempo)

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11 thoughts on “Como interpretar o que querem dizer as multidões nas ruas

  1. Quando o povo não se organiza alguém o faz em proveito próprio, por isso a população está de saco cheios desses partidos políticos que não os representa, sua agenda não coincide com a do cidadão.
    Não significa dizer que abominemos os partidos políticos, necessitamos de organizações com capilaridade em todo o país capazes de interpretar e encaminhar as demandas sociais, de quadrilhas organizadas bastam aquelas que assaltam o povo diuturnamente.

  2. Quanto a segunda “fome”, citada por Leonardo Boff, tenho plena certeza que ela ficou longe da necessária saciedade.
    Em relação à primeira “fome”, a mesma foi saciada com um grande “Big Mac”, sem nutrientes, capaz unicamente de matar a fome de imediato. Pior que só deu para fornecer um para cada vítima,além de tudo superfaturado…

  3. O mentiroso afirma que o povo entrou na sociedade de consumo. Quando é que o povo nunca entrou? Que se sabe todos queremos consumir. Quem não quer?
    O problema é que o dinheiro que povo recebe é insuficiente. Não dá para fazer como ele, Boff, que tem sua geladeira side by side lotada de produtos do agro-negócio.
    Acorda Boff, pare de querer o mundo á sua imagem e semelhança. Todos queremos conforto como o senhor tem . Queremos viver como os canadenses, japoneses, alemães, americanos, australianos e outros desse nível.
    E o povo tem esse direito, pois paga impostos de país socialistas como os da escandinávia. Só que esse dinheiro o governo desse partido que vc sempre apoiou, desvia até para o seu comandante Fidel, pro índio da Bolívia, trem bala de mais 50 bilhões, compra refinaria de 300 e paga mais de 1 bilhão,etc,etc,etc

  4. É inacreditável a covardia que fazem com o povo, essa gente ligada a partidos ou ao poder.
    O que o povo está querendo não precisa de interpretações.
    Está claríssimo: o povo quer o dinheiro que lhe pertence e punição para os que o roubam.

  5. Comida
    Titãs
    Bebida é água!
    Comida é pasto!
    Você tem sede de que?
    Você tem fome de que?…

    A gente não quer só comida
    A gente quer comida
    Diversão e arte
    A gente não quer só comida
    A gente quer saída
    Para qualquer parte…

    A gente não quer só comida
    A gente quer bebida
    Diversão, balé
    A gente não quer só comida
    A gente quer a vida
    Como a vida quer…

    Bebida é água!
    Comida é pasto!
    Você tem sede de que?
    Você tem fome de que?…

    A gente não quer só comer
    A gente quer comer
    E quer fazer amor
    A gente não quer só comer
    A gente quer prazer
    Prá aliviar a dor…

    A gente não quer
    Só dinheiro
    A gente quer dinheiro
    E felicidade
    A gente não quer
    Só dinheiro
    A gente quer inteiro
    E não pela metade…

    Bebida é água!
    Comida é pasto!
    Você tem sede de que?
    Você tem fome de que?…

    A gente não quer só comida
    A gente quer comida
    Diversão e arte
    A gente não quer só comida
    A gente quer saída
    Para qualquer parte…

    A gente não quer só comida
    A gente quer bebida
    Diversão, balé
    A gente não quer só comida
    A gente quer a vida
    Como a vida quer…

    A gente não quer só comer
    A gente quer comer
    E quer fazer amor
    A gente não quer só comer
    A gente quer prazer
    Prá aliviar a dor…

    A gente não quer
    Só dinheiro
    A gente quer dinheiro
    E felicidade
    A gente não quer
    Só dinheiro
    A gente quer inteiro
    E não pela metade…

    Diversão e arte
    Para qualquer parte
    Diversão, balé
    Como a vida quer
    Desejo, necessidade, vontade
    Necessidade, desejo, eh!
    Necessidade, vontade, eh!
    Necessidade…

    Composição: Arnaldo Antunes / Marcelo Fromer / Sérgio Britto · Corrigir

  6. Dione, saudações !!!
    Muito apropriado para este momento, esta sua recordação dos Titãs!!!
    Aliás … para este momento e para tantos e tantos outros momentos, ao longo de décadas e décadas.
    Pronto, está tudo devidamente “interpretado”.
    Valeu mesmo!!! Abraço forte!!!

  7. Liberdade pão , escola, transporte, segurança, saúde é obrigação do estado democrático.
    Felicidade nem Papai Noel é capaz de conseguir prá ninguém.
    É coisa pessoal e passageira.
    Impossível ser feliz 24 horas por dia.

  8. Escreva, caro Leonardo Boff. Escreva tanto quanto possível no tempo que te é dado. Em meio a mediocridade em que vivemos é imprescindível textos que deitem luz, que possibilitem novos olhares para a compreensão do Presente. Não temos de concordar contigo, contudo, na discordância, na contra-argumentação existe uma possibilidade real de crescimento para ambos – se ambos os viajantes estiverem propensos a perceberem a árvore e a floresta, o texto e o contexto. Caso contrário, “pérolas jogadas aos porcos”.

  9. Em países com educação precária com o nosso, o que significa que a educação aqui está mais para religião ou ideologia do que para fatos concretos ou científica, a maioria da população não dispõe de defesa suficiente contra seus mentores ou sacerdotes, que só pensam no poder e querem-na escravizar.
    O caso desse sacerdote é fato, pois ele se alinha a Fidel, a quem o chama de “meu comandante”. Ele confessa isso em seu site.
    Então é escolher o que se quer: ser igual a um canadense livre com ótima qualidade de vida ou um cubano escravizado como quer o pregador, ganhando 20 dólares por mês.

    Entender a fenomenologia da mente ou consciência não está ao alcance da maioria aqui. Razões já explicadas em cima.
    Ainda mais de pessoas debilitadas e já totalmente escravizadas pelas fantasias de mundos perfeitos que as religiões e ideologias pregam e que as ilude com sua falsa-moral.

    É muita pérola para qualquer porco.

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