Como os Estados Unidos agem na política do Egito

Joseph Massad (Al-Jazeera, Qatar)

O recente confronto entre Muhammad Mursi, presidente do Egito, o Judiciário, o comando do Exército e os EUA é, talvez, a questão mais quente do momento. Diz-se que Washington teria encorajado o recém-eleito presidente egípcio a confrontar o Judiciário e o alto comando militar, por causa da dissolução do Parlamento. O movimento, que foi precipitado, saiu pela culatra e Mursi teve de voltar atrás, depois de ameaçado pelo Judiciário (juízes nomeados por Mubarak).

O recente movimento dos EUA de apoiar a Fraternidade Muçulmana contra o conselho dos militares, como principal aliado, explica-se: Washington afinal percebeu que os generais não poderão mais ajudar os interesses dos EUA, porque não conseguirão impor qualquer estabilidade ao país. A oposição popular contra os militares da era Mubarak é uniforme e forte. Nem repressão massiva, de estilo sírio, é possível, porque causaria revolta ainda mais massiva, não promoveria qualquer estabilidade e apressaria o fim desses militares.

Por outro lado, os EUA têm recebido repetidas garantias e promessas de Khayrat al-Shatir, um dos líderes dos Irmãos Muçulmanos, neoliberal e multimilionário, de que a Fraternidade será aliada neoliberal mais confiável ao capital dos EUA e a favor da estratégia dos EUA para o Oriente Médio, que Mubarak. Os qataris não se cansam de elogiar a presteza da Fraternidade Muçulmana, para tudo que signifique promover os interesses dos EUA.

Essa foi a situação que tornou menos provável o golpe de estado dos militares contra Mursi, depois de eleito; os agentes dos EUA opuseram-se ao golpe, não porque haja alguma restrição norte-americana democrática a ditaduras (nem pensar!), mas porque havia novas análises estratégicas que indicavam que golpe algum restabeleceria a estabilidade; e, muito provavelmente, aumentaria a instabilidade.

Mas os generais, esses, estão decididos a provar a Washington que apostou no cavalo errado, ao apoiar a Fraternidade Muçulmana. Por isso, adotaram a estratégia de minar qualquer possibilidade de o governo de Mursi vir a dar certo; por isso limitaram seus poderes e negaram-lhe o apoio da maioria parlamentar eleita.

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LIBERAIS EGÍPCIOS?

Quanto aos liberais egípcios, eles não apenas aprovaram a dissolução politicamente motivada do Parlamento (estranha aprovação, por liberais democratas, mas considerada ‘normal’ no Egito acometido de fobia antiFraternidade Muçulmana; e considerada ainda mais normal entre liberais ocidentalizados arrogantes e islamófobos). Exemplo: além de aprovar a dissolução do Parlamento, outro daqueles liberais democratas, o empresário e capitão de indústria milionário Mamduh Hamza, conclamou o exército a derrubar imediatamente o presidente recém-eleito.

Como parte da estratégia geral para a região, os norte-americanos continuam a manter as relações de concubinato que sempre os ligaram aos generais e aos liberais do país, apesar da forte atração que sentem agora pela Fraternidade Muçulmana.

O fato de os sauditas terem convidado o presidente Mursi a interromper seu trabalho de governar e ir visitá-los e mostrar-se totalmente subserviente (apesar de os sauditas terem feito oposição à candidatura de Mursi), e o fato de Mursi ter obedecido servilmente, e ter sido humilhado durante a visita, faz perfeito sentido e comprova os laços de subserviência e conivência que unem Fraternidade Muçulmana e sauditas, desde os anos 50.

Joseph Massad é professor de Política e História Intelectual Árabe Moderna
na Columbia University, em New York.

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