Como poderá Lupi sentar-se à mesa da reunião ministerial?

Pedro do Coutto

Esta pergunta – creio – é o X do problema, para lembrar Noel Rosa, e a partir do instante em que a presidente Dilma Rousseff mandou o ex-futuro ministro Carlos Lupi retratar-se das afirmações que fez. Nunca, na história do Brasil, o titular de uma pasta de Estado, desceu ao poço de um comportamento como o que ele adotou. Só saio do Ministério do Trabalho à bala. Disse, como se o cargo fosse vitalício.

Por isso, estranho que a presidente da República tenha determinado, e através da ministra Gleisi Hoffman, chefe da Casa Civil, apenas que ele pedisse desculpas públicas. Não é o caso. O caso é a demissão imediata. Pura e simples. Caso contrário, a protelação para o momento da reforma de sua equipe, em 2012, abala a autoridade da própria chefe do executivo.

Basta imaginar como poderá ela sentir-se confortável tendo-o à mesa das reuniões ministeriais que vier a realizar? A dificuldade de resposta a uma situação constrangedora é a melhor síntese da tempestade desencadeada em função do despreparo do titular do Trabalho para lidar com situações fora do mundo sindical e que se colocam no universo da República.

Na quinta-feira, 10, duas reportagens excepcionais focalizaram a novela. A do Globo, assinada por Maria Lima, Gerson Camaroti, Geralda Doca e Luiza Domé. A da Folha de São Paulo, de autoria de Valdo Cruz e André Sadi. A foto de O Globo é de Marcelo Casal, e da FSP de Pedro França.

Mas a fotografia panorâmica, conjunta, é a ocorrência de um impacto nos bastidores que está fracionando o exercício do poder por Dilma Roussef. Claro que o PDT não iria romper pela substituição de Lupi por outro integrante da legenda. A explicação lógica, portanto, parece encontrar-se num pedido especial de Lula para equilibrar Carlos Lupi na rampa do Palácio do Planalto.

Seja esta hipótese, ou outra menos clara, o fato essencial é que a presidente Dilma Rousseff incide num equívoco. O poder não se divide, tampouco se transfere. É um ato solitário do governante e, se ele se sair bem uma atitude solidária para com a sociedade que o elegeu. Aceitar sua redução não representa um impacto apenas momentâneo, mas algo que produza reflexos em série.

Hoje aqui, amanhã ali, os degraus vão surgindo e não têm fim. A perda da autoridade é algo fatal. Tanto na administração quanto nas urnas, além de nos rumos do processo político como um todo.

Toda vez que ocorreu, a crise veio a galope. Foi assim com Getúlio Vargas, como sempre lembra Helio Fernandes no episódio do manifesto dos coroneis que, em 53, derrubou João Goulart do mesmo Ministério do Trabalho. Foi assim com Café Filho, encurralado pelas pressões desfechadas contra si para que subvertesse o resultado das urnas e negasse a posse a Juscelino. Foi assim com Jango, presidente da República, quando aceitou dividir o poder com as organizações sindicais. Estas se estenderam até as medidas de governo, extrapolando de seu campo de luta que tem, e terá eternamente, o reformismo social como razão de ser. Nunca a revolução, já que esta pertence às armas e, portanto às forças militares.

Foi assim com o presidente Castelo Branco, quando a 27 de outubro de 65, foi obrigado pelo ministro Costa e Silva a editar o ato institucional número 2, redigido pelo jurista Carlos Medeiros e Silva. O mesmo que, dois anos antes havia fornecido ao ministro Pinheiro Neto um parecer sustentando a legitimidade do decreto de Goulart sobre a desapropriação de áreas às margens das rodovias, ferrovias e açudes.

O desabamento do poder atingiu o próprio presidente Costa e Silva, quando levado pelo ministro Gama e Silva, com base em texto ditatorial de Nehemias Gueiros, assinou ato institucinal número 5. Há muito mais exemplos. Porém estes, creio, são suficientes.

A presidente Dilma Rousseff não pode adiar a decisão de Carlos Lupi.

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