Comunicao e cultura so usinas do pensamento

Pedro do Coutto

No se compreende a preocupao de setores do governo em exercer algum tipo de controle social da cultura e de meios de comunicao como a televiso e o rdio, podendo evoluir para algum tipo de incurso na imprensa, ou seja nos jornais. A cultura exige liberdade, no pode ser controlada pelo estado, tampouco os meios de comunicao. Numa democracia, claro. O tipo de interveno imaginado prprio dos regimes de fora, como acontece em vrios pases e como aconteceu no Brasil no perodo de exceo de 64 a 85. A censura sempre foi contestada e seu exerccio conduz ao obscurantismo e, portanto, ao atraso. O PT, no passado, formou entre os que condenavam e combatiam a censura. Inclusive a ascenso do presidente Lula e do seu partido deve-se liberdade de imprensa. Os meios de comunicao projetaram nacionalmente o lder operrio da Grande So Paulo, dando-lhe a repercusso essencial para sua decolagem na vida pblica. No fossem os meios de comunicao, Lula teria sido apenas uma liderana sindical de destaque. Nada mais. Seu ingresso na poltica quando disputou o governo de So Paulo na eleio vencida por Franco Montoro deve-se sua exposio na mdia. Um trabalhador ingressava num universo que no o teria acolhido no fosse a fora da imprensa nos eixos de deciso. Fundou o PT, o partido cresceu em decorrncia do espao que alcanou no noticirio, e aps trs investidas presidenciais, chegou finalmente ao Planalto.

Seu governo consagrado pela opinio pblica e todas as pesquisas do Datafolha, do Ibope, do Vox Populi e do Sensus, que assinalam seu grau de aprovao popular so publicadas com o devido destaque nas pginas dos jornais, veiculadas nas telas da TV, pelas emissoras de rdio. Esta a melhor prova do absurdo de que se reveste o citado controle social. Setores do governo desejam a unanimidade? Isso impossvel. Inclusive as matrias contrrias que so publicadas e veiculadas na realidade representam um servio ao governo, na medida em que chamam ateno para erros, omisses, episdios como os do mensalo, a investida dos aloprados na sucesso paulista de 2006, que levaram o prprio presidente Lula a assinar vrios atos de demisso. Se houve demisses em funo das denncias, porque o presidente as considerou importantes e procedentes. Sob este aspecto, a imprensa atuou como um fator de libertao do chefe do executivo que, no fossem o conhecimento e a repercusso pblica, no teria o volume de informaes necessrias para decidir da forma com que decidiu.

Se, por hiptese, houvesse censura, ele, Lula, permaneceria sem poder agir, enquanto a anarquia administrativa avanava ameaando acumular-se na sombra e enfraquecendo o quadro institucional. Nada disso ocorreu em funo da liberdade que tanto somou para o candidato, o presidente e seu governo, mas vista com restries porque se coloca em posio contrria em vrios pontos e momentos.

No fosse os meios de comunicao, vale acentuar, o escndalo do governo de Braslia no teria chegado ao domnio pblico e, portanto, no teria sido condenado de forma veemente, no s pela populao da capital, mas por todo o pas. Como conseqncia, o governador Jos Roberto Arruda desfiliou-se partidariamente e assim desistiu da reeleio. O vice Paulo Otvio tambm. O fato que cultura e imprensa no podem ser controladas. So usinas der pensamento. Os servios que prestam ao pas dependem exatamente da liberdade com que agem. Sem liberdade de imprensa no h democracia. Basta dizer isto.

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