Congresso: ruim com ele, pior sem ele

Carlos Chagas

Desde antes do Natal e durante todo o mês de janeiro, mais boa parte de fevereiro, o Congresso não funcionará. Qual o significado dessa folga, para 190 milhões de brasileiros? Nenhum. Absolutamente nenhum. Da mesma forma, quando recomeçarem os trabalhos, quem se dará conta? Deputados, senadores, funcionários e jornalistas, é claro. Mais ninguém, exceto se estourar este ano, como nos anteriores, algum malfeito, escândalo ou sucedâneo digno de menção nas folhas e nas telinhas.

É melhor que seja assim. De uns anos para cá, o Congresso tem-se revelado amorfo, insosso e inodoro. Ótimo. É sinal da inexistência de crises, porque Câmara e Senado só despertam a grande atenção nacional em períodos inusitados. A última vez foi quando das denúncias sobre o mensalão. Depois, uma santa pasmaceira, por certo que ajudada por deputados e senadores, cuja realização popularmente mais conhecida de 2011 foi a votação da lei proíbindo os pais de aplicarem palmada nas crianças.

Demonstram os cronistas esportivos que o melhor juiz de uma partida de futebol é aquele que não aparece. Vale o mesmo para o Poder Legislativo, se desenvolve apenas a rotina da discussão e votação de projetos de lei sem importância.

O risco dessa evidência está em que a tranqüilidade pode ser confundida com a desimportância. Não faltarão vozes para perguntar “Congresso, para que Congresso?”

A resposta é clara e serve para calar a boca dos radicais: o Congresso existe para estar à disposição da nação em momentos de crise. A História está pontuada de exemplos em que a intervenção parlamentar serviu para minorar ou até evitar rupturas institucionais. Às vezes não dá, o próprio Congresso vê-se atropelado pelas circunstâncias, mas, como regra, sua intervenção é sempre oportuna.

Sendo assim, não há que lamentar o vazio, seja do recesso, seja dos períodos de pálido funcionamento legislativo. Melhor verificar que, em caso de necessidade, o Congresso marcará presença. Ruim com ele, pior sem ele.

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SEM SURPRESA

Ninguém se espante se amanhã, quarta-feira, ela desembarcar em Brasília e começar a reunir o governo.

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PERCEBENDO ANTES

Certas pessoas, desprezando a chamada clarividência e, muito menos, dotes de profetas e conhecedores sobrenaturais do futuro, simplesmente conseguem raciocinar antes das outras. Percebem a marcha dos processos políticos com mais rapidez. Não se deixam impressionar pelas aparências ou enganar pelas emoções.

No PT tem gente assim, mesmo rara. Companheiros que preferencialmente colocaram-se em cone de sombra para não ofuscar a euforia da multidão de presunçosos, arrogantes, ingênuos e também os sequiosos de gozar as benesses do poder. São os antigos intelectuais, boa parte dos quais abandonou o partido por falta de espaço. Mas alguns bissextos ficaram, por respeito e amor à legenda que um dia pretendeu-se diferente das demais e acabou igual.

Esses doutrinadores andam preocupados. Lembram o exemplo dos militares, que de tanto usufruírem do poder fatiaram-se, desordenaram-se e acabaram superados. Claro que são situações distintas, primeiro porque enquanto detinham os controle nacional mais os generais-presidentes gradativamente suprimiam direitos e liberdades públicas, ao passo em que agora permanece a democracia, com eleições, liberdade de imprensa e sucedâneos. O problema está em que a inspiração é a mesma, ou seja, “nós” de um lado e “eles” do outro.

Assim, o PT caminha para separar-se da sociedade, organizando-se além dela. Poderá colher,como resultado, a derrota nas eleições deste ano, na medida em que deixará de eleger os prefeitos das principais capitais. Ante-sala para perder os quatro estados que governa, Rio Grande do Sul, Acre, Bahia e Distrito Federal. E a presidência da República, como ficaria? Dilma ou Lula são mais do que apostas, pois quase certezas. Quase, se o partido não voltar às suas origens, esquecido de que precisa realizar as mudanças um dia anunciadas e agora abandonadas.

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UMA LUZ, ENFIM

No desarrumado ninho dos tucanos, um fósforo foi aceso: nas bases, mais do que nas cúpulas, germina a proposta de que 2012 é o ano da definição do candidato que em 2014 disputará a presidência da República. Porque apenas com uma liderança fulanizada será possível levar adiante uma proposta alternativa de governo. Empurrar a escolha com a barriga por conta de ambições contraditórias será perder tempo precioso. No Brasil e alhures, infelizmente é assim: são os homens que conduzem os processos, e, com todo o respeito, se não faltam homens no PSDB, uns estão anulando os outros. Pode ser que dê certo o movimento para agilizar a ação partidária. Se não der, adeus tucanos sem rumo…

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