Conselho Superior das Forças Armadas do Egito teve se refugiar atrás de muros de concreto

O comentarista Sergio Caldieri nos envia impressionante reportagem de Bel Trew, Mohamed Abdalla e Ahmed Feteha (da Al-Ahram Online, Cairo). A matéria mostra que as intermináveis batalhas de rua entre a polícia e manifestantes levaram o governo e as Forças Armadas a se esconderem atrás de enorme muros de concreto.

Tudo começou em novembro, quando houve confrontos sangrentos, com 40 mortos, na Praça Tahrir, que foi violentamente evacuada por três vezes. O Conselho Superior das Forças Armadas então tomou a decisão drástica de construir um muro entre a polícia e os manifestantes, na Rua Mohamed Mahmoud permanentemente conflagrada.

Esse muro, que viria a servir de modelo para outros sete muros construídos depois, é uma barricada de blocos de concreto de quase 4m de altura. Clérigos da Universidade Al-Ahzar formaram cordões humanos frente ao muro, para impedir que a multidão o derrubasse.

A área em frente ao muro tornou-se local de risco para mulheres dia 25 de novembro, depois que a jornalista Caroline Sinz da televisão francesa, foi atacada por uma gangue, arrastada para a Praça Tahrir, despida e agredida sexualmente. O muro foi afinal derrubado por manifestantes nos protestos liderados pelos Ultras [torcida organizada do time Ahly, de futebol], dia 2 de fevereiro, contra o Ministério do Interior, a polícia e o Conselho Superior das Forças Armadas.

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17 DE DEZEMBRO: MAIS UM MURO

Ao final dos confrontos na Rua Mohamed Mahmoud, manifestantes iniciaram protesto pacífico, sentados no chão, em frente ao prédio do Gabinete, contra a indicação de Kamal El-Ganzouri, para o posto de primeiro-ministro. Na noite de 15 de dezembro, forças de segurança sequestraram Aboudi Ibrahim, de 19 anos, que participava dos protestos, porque, segundo testemunhas, tentou recuperar uma bola de futebol que caíra à frente da Assembleia Popular.

Quando Aboudi foi solto, nas primeiras horas do dia 16 de dezembro, era evidente que havia sido violentamente espancado. Manifestantes furiosos enfrentaram o exército, que evacuou a Rua Mohamed Mahmoud, ainda na mesma manhã.

Os manifestantes transferiram-se para a rua Qasr El-Aini e durante quatro dias houve sangrentos confrontos, que resultaram na morte de 14 manifestantes.

Foi então construído o muro na rua Qasr El-Aini, para impedir o acesso de manifestantes aos prédios do Parlamento e do Gabinete. A construção começou depois de o exército evacuar com extrema violência a praça, na tarde de 17 de dezembro. Queimaram-se as tendas armadas na praça Tahrir – e os manifestantes recuaram. A batalha continuou, com manifestantes e o exército trocando pedradas por cima do muro.

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19 DE DEZEMBRO – MAIS DOIS MUROS

Na madrugada de 19 de dezembro, soldados do exército e policiais das CSF apareceram à entrada da mesquita Omar Makram, do lado da praça Tahrir. Depois de atirar na direção da praça e pôr abaixo as tendas ainda remanescentes, as forças de segurança usaram fogo pesado e gás lacrimogêneo para manter os manifestantes à distância, enquanto eram erguidos os terceiro e quarto muros.

Um deles foi construído na Rua Sheikh Rehan; o outro, na Rua Youssef El-Guindy. Os blocos de concreto foram dispostos como uma barricada entre a praça Tahrir e a rua lateral que dá acesso aos prédios do Ministério do Interior, quartel-general das Forças Armadas.

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5 DE FEVEREIRO – OUTROS TRÊS MUROS

Foram convocadas manifestações de rua para 2 de fevereiro, depois do massacre no estádio de futebol em Port Said, quando morreram mais de 70 torcedores do Ahly (“Ultras”). A população culpou as forças de segurança pelas mortes, por não terem impedido que se alastrassem as brigas entre torcidas rivais.

A manifestação reuniu-se em frente ao Ministério do Interior. A polícia usou, de início, munição revestida de borracha e gás lacrimogêneo contra a multidão, E houve cinco dias de batalhas esporádicas que se espalharam por todas as ruas da vizinhança.

No domingo, dia 5 de fevereiro, às 3h da madrugada os militares e a polícia começaram a construir mais três outros muros nas ruas levam até o prédio do Ministério do Interior, que resultou completamente cercado de muros.

Manifestantes tentaram impedir a construção do muro e foram atacados com veículos militares blindados.

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6 DE FEVEREIRO – O SÉTIMO MURO

Nesta noite de 5 de fevereiro aconteceram alguns dos ataques mais violentos pelas forças de segurança. Com os três muros já construídos nas ruas Fahmy, Mansour e Felaky, os combates foram empurrados para o oeste, na direção da praça Bab El-Louq e para a área do centro do Cairo. Manifestantes documentaram a presença de atiradores distribuídos nos prédios e uso excessivo de gás lacrimogêneo, enquanto os caminhões percorriam as ruas em várias direções, perseguindo os manifestantes que tentavam proteger-se.

Nas primeiras horas do dia 6 de fevereiro, as Forças Armadas começaram a construir mais um muro na rua Noubar, paralelo aos outros três muros, o que fechou o conjunto de muros em volta do ministério. À noite, um grupo não identificado de civis, que se apresentaram como residentes na área de Abdeen, apareceram com armas de mira telescópica e, segundo testemunhas, uma metralhadora. Todo esse armamento foi usado contra os manifestantes e dois deles foram mortos.

Esta é a realidade da situação no Cairo, com o poder tendo de se esconder atrás de muros de concreto.

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