Conselhos privados viraram públicos

Carlos Chagas

Parece intriga. E é, restando saber quem a espalhou e a quem interessou. Fala-se da versão que  ganhou a imprensa, ontem, sobre ter  estado a presidente Dilma disposta a pedir a exoneração de Orlando Silva, mudando de idéia depois de o ex-presidente Lula recomendar ao ministro do Turismo para não se demitir e ao PC do B para resistir.  Quando desembarcou da África, Dilma reafirmou que confiava em que Orlando se defenderia e que continuava a manter sua confiança. Não foi o antecessor, portanto, responsável pela decisão da sucessora.

O que não dá para entender é como os conselhos do Lula, certamente dados em particular, tornaram-se públicos em menos de 24 horas. O ministro não foi o inconfidente,   ainda que depois confirmasse o telefonema. Talvez o grupo do PCdoB, ávido de ocupar o ministério, porque a hipótese confirma a tese de que quanto menor um partido político, maiores suas disputas internas. Quem sabe companheiros do PT, de olho num ministério que valia pouco, transformado agora  em  jóia da coroa por conta da  Copa do Mundo e das Olimpíadas?

De qualquer forma, seria bom o ex-presidente tomar cuidado. São muitas as correntes a evoluir em torno do governo, algumas inconformadas com a forma de governar da presidente, sempre inflando o ego do Lula para levá-lo a candidatar-se em 2014. Não se trata apenas de gente do PT.  No PMDB, por exemplo, não são poucos os que aspiram pelo retorno do primeiro-companheiro,  bem  mais complacente na arte de nomear e de acomodar interesses.                                                                  

Quanto ao próprio, quer dizer, o Lula, deveria tomar mais cuidado. De sua influência viraram ou continuaram  ministros Antônio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi, Nelson Jobim e Pedro Novais – todos levados a demitir-se em condições no mínimo constrangedoras. Orlando Silva também integrou a quota dos salvados do governo anterior.

***
LEMBRAI-VOS DE NAPOLEÃO

O espetáculo medieval do assassinato e mutilação do  cadáver de Muamar Kadaffi nos leva à suposição de no futuro o  falecido  passar de ditador a vítima, depois mártir e finalmente a  herói em seu país. Será sempre bom lembrar que Napoleão, depois de Waterloo, era mostrado na imprensa européia  como o monstro sanguinário isolado em Santa Helena até a morte.

Com os Bourbon outra vez no trono, a Santa Aliança e a volta das monarquias absolutas, ficou sufocado o sentimento majoritário francês, a ponto de divulgarem que o “filho da Revolução” tornara-se o “genro da Reação.  Passadas poucas décadas, no reinado de Luis Felipe, com o corpo de Napoleão  transladado a Paris, atravessando a cidade em cortejo monumental,  milhões de cidadãos ficaram  nas ruas para pranteá-lo.

Cada país tem o Napoleão que merece. Kadaffi foi um déspota cruel, impôs sua vontade por 42 anos, mas criou uma nova Líbia,   com  maciços investimentos em educação e saúde públicas. Melhor aguardar o pronunciamento da História.

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