Considerações adicionais: prevaleceu a voz rouca das ruas

Carlos Chagas

Ninguém pode ser tão brilhante assim a ponto de produzir em questão de minutos um voto que levou hora e meia para ser lido (e portanto já estava escrito em dezenas de páginas). Fala-se da intervenção do ministro Ricardo Lewandowski na sessão inicial de julgamento do mensalão, quinta-feira. Voto tão longo quanto pleno de sabedoria jurídica, citações aos montes de mestres do Direito e referências variadas a intervenções anteriores dos demais ministros. Essas peças não se recolhem da noite para o dia.

Como o referido ministro funcionou como revisor do processo durante dois anos, portanto aceitando o julgamento conjunto dos 38 réus, sem cogitar de seu desmembramento, a pergunta que se faz é sobre quando terá mudado de concepção. Há uma semana? Um mês?

Teria Ricardo Lewandowski tido conhecimento antecipado de que o advogado Márcio Thomas Bastos levantaria a tese do desmembramento? Bastaria ler os jornais para saber que o ex-ministro da Justiça apresentaria a questão de ordem, mas não deixa de ser sintomática a coincidência de argumentos apresentados por ambos. Já a indagação inversa tem resposta mais difícil: e Márcio Thomaz Bastos, sabia da disposição de Lewandowski de sair em seu auxílio?

O voto de nove ministros pela rejeição da questão de ordem sinaliza que a iniciativa dos dois juristas não sensibilizou a mais alta corte nacional de justiça, importando menos a performance excepcional das partes em litígio. Argumentos existiram, de um lado e de outro, ainda que se possa concluir: prevaleceu a natureza das coisas. Se quiserem, a voz rouca das ruas, que protestaria diante de uma evidente protelação do julgamento. Aliás, foi a única vez em que se flagrou Márcio Thomas Bastos sustentando sem convicção um ponto de vista, ao dizer que o processo estaria pronto e não determinaria delongas em sua apreciação pelos juízes de primeira instância. Porque fácil não seria, aos jovens magistrados, deglutir 50 mil documentos em tempo inferior ao que gastarão os doutos ministros do Supremo.

De qualquer forma, foi dada a partida, prevendo-se lances até inusitados no desenrolar do processo. Melhor assim.

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SEM PERDER A ESPERANÇA

Para José Dirceu, conforme tem alertado sua família, tudo pode acontecer no julgamento agora iniciado. Ele espera ser absolvido, mas está preparado para condenações maiores ou menores. Raciocinando com otimismo, preparou os próximos passos para depois de uma suposta absolvição: solicitará da Câmara dos Deputados a votação de um projeto capaz de anistiá-lo.

Não há hipótese da devolução de seu mandato, cassado na Legislatura anterior, já concluída. Mas recuperaria seus direitos políticos, podendo então concorrer às eleições de 2014, impedido que hoje está de disputá-las, mesmo no caso de absolvido no processo do mensalão. No mínimo, seria candidato a deputado federal por São Paulo.

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LUA DE MEL PORNOGRÁFICA

As oposições deitam e rolam neste início de agosto, não apenas pelos efeitos macabros que o julgamento do mensalão poderá gerar no PT, mas, também, porque do palácio do Planalto surgem sinais de que a presidente Dilma prepara um pacote de monumentais privatizações. Seriam transferidas para a iniciativa privada rodovias e ferrovias ainda controladas pelo poder público. Sem esquecer aeroportos, portos e demais valores de nossa infraestrutura.

A ser verdadeira a informação, estaria o país assistindo à rendição completa do segundo governo do PT ao neoliberalismo explícito, coisa que já sucedeu no primeiro governo, do Lula. Já começa a circular no ninho dos tucanos um slogan não propriamente revolucionário, mas oportuno: “chega de intermediários, Fernando Henrique para presidente!”

Duvidas inexistem de que o PSDB encontra-se em lua-de-mel com o futuro…

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