Constelações financeiras substituem países em nova ordem mundial

Pedro do Coutto

Faço a afirmativa no título embalado pela sensação de segurança e pela atmosfera de estar em caminho certo. Pode não ser o único rumo capaz de explicar as sucessivas crises e soluções financeiras (não econômicas) mundiais. Já atingiram a Rússia, os Estados Unidos na questão dos financiamentos imobiliários sub prime, a Argentina, Portugal, Irlanda, Grécia  que foi amparada pela União Europeia, novamente os EUA em face do montante da dívida interna, e ameaça a Espanha. Em todas as situações, aparece uma medida salvadora no final da ópera, como os herois dos filmes em série de antigamente.

A Grécia recebeu um crédito de 109 bilhões de euros, quarenta anos de prazo para pagar, juros baixos compatíveis com os do mercado internacional, excluído – é claro – o Brasil onde as taxas reais, além da inflação, são as mais altas do mundo. Quando tudo parece perdido, eis que a pomba da paz sobrevoava a nação ameaçada e pousa no seu campo financeiro. O dinheiro aparece.

Assisti a entrevista do excelente Paulo Rabelo de Castro a Guto Abranches e George Vidor, quinta-feira à noite na Globo News. Rabelo de Castro, com seu sólido conhecimento, sinalizou que a tragédia grega do século 21 representou praticamente um perdão parcial na falta de liquidez de Atenas. A exemplo do que há alguns anos ocorreu em relação à Argentina. Se em todas as situações surgem injeções de capital é porque – sem dúvida – o dinheiro há. Caso contrário, ele não poderia aparecer como num passe de mágica. Se existe, tem que estar em algum lugar ou em algumas áreas. Pois ninguém será capaz de criar o que não existe. Está concentrado e cristalizado nos grandes aglomerados.

E tanto existe que o Produto Bruto Mundial continua crescendo na níveis superiores ao aumento da população. Se o PBM avança, é porque existem recursos financeiros para sustentar a escalada econômica. Qual pode ser a resposta, então? Só uma: a de que se formaram no mundo constelações financeiras nem sempre aparentes, mas que se tornaram tão fortes ou até mais fortes do que os Estados. Ao usar a palavra constelação não estou sendo original. Nada disso. Inspiro-me na imagem à qual recorria o grande Santiago Dantas para explicar, na década de 60, porque os governos dos países da América Latina eram marcados pela instabilidade.

Ele me disse numa entrevista para o Correio da Manhã, 1961, logo após retornar da conferência da OEA realizada em Punta Del Leste, quando nosso país foi voto vencido na decisão de isolar Cuba de Fidel Castro. É por essa e outras – afirmou – que o poder nos países do continente é frágil. A constelação de interesses em seu território é tão ou até mais forte do que o próprio estado.

Vejo hoje que a imagem do deputado e professor de Direito Constitucional permanece mas atual do que nunca e não mais se restringe ao campo político. Expandiu-se para o plano econômico-financeiro. Não existe mais um Estados Unidos no mundo. Existem – digo eu – pelo menos dois. Um dentro das fronteiras norteamericanas. Outro fracionado e multiplicado pelos interesses multinacionais no universo. Assim os Estados Unidos da América do Norte não raro entram em choque com os Estados Unidos internacional. Em menor escala, acontece com as maiores potências. Inclusive com a China ex-comunista, credora de Wall Street (quem diria?) em 1 trilhão e 400 bilhões de dólares. Pequim parece estar em todas. Inclusive, a partir de agora, na constelação que, como num filme de Buñuel, leva ao fantástico caminho descoberto por Santiago.

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