Conversa com Jos Antonio, que pergunta se fui torturado nas diversas prises que sofri durante a ditadura militar

Jos Antonio:
Helio, voc foi torturado? Em caso positivo, como? Em caso negativo, por que no?

Comentrio (constrangido) de Helio Fernandes:
Sua pergunta visivelmente pessoal, e tambm visivelmente tendenciosa. Como a terceira vez que faz a pergunta, voc insiste, e nos mesmos termos, vou responder, sabendo que voc dir para si mesmo, exultante, viram, ele no foi torturado, teve que confessar.

Vou inverter a tua colocao: no fui torturado fisicamente e explicarei a razo. Depois de 1963, quando houve a minha primeira priso e julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, passei a ser um nome nacional. Essa priso absurda e sem sentido, foi objeto de manchetes dirias de todos os jornais. E a partir da minha projeo chegou ao auge.

Escrevendo coluna e artigo, dirios, conquistava cada vez mais adeptos e mais adversrios, pela capacidade de me manifestar livre e claramente, sempre a favor do interesse nacional.

Apesar de tudo, mesmo a partir de 9 de abril de 1964 e a posse de Castelo, eleito pelo Congresso, (com a traio quase imediata da cassao de Juscelino) a tortura no era abrangente e em massa, como passou a acontecer em 1967. (Mais em So Paulo e estados do Norte/Nordeste, e depois no Rio ex-capital).

A chamada censura s foi instalada ou instaurada em julho de 1968, e assim mesmo para muitos rgos, era tudo combinado. Mandavam uma matria para ser censurada e outra para ser publicada. A passei a ser preso e desterrado-sequestrado, com enorme e absurda assiduidade. E por que jamais fui torturado fisicamente?

Essa pergunta tem uma resposta, simplesmente com dois nomes: Wladimir Herzog e Fiel Filho. Pouco se conhecia dos dois. Herzog passou a ser um nome NACIONAL, depois de ASSASSINADO. E Fiel Filho, os jornais s citavam como operrio.

Herzog no era para ser ASSASSINADO. Foi preso e comeou a ser interrogado e torturado por desastrados amadores. Exageraram, (ningum sabe a capacidade de algum resistir) foi morto, forjaram a VERSO DO SUICDIO, to burra quanto a ideia da prpria tortura. Geisel soube, telefonou para o general Ednardo Dvila Mello, comandante do II Exrcito, advertiu-o no seu estilo vigoroso, no aceito desculpas, isso no pode se repetir.

Agora, o ASSASSINATO do operrio Fiel Filho, REVELAO completa. Repreendido por Geisel, Dvila telefonou imediatamente para Silvio Frota, Ministro do Exrcito, a quem era ligadssimo, contou o que acontecera. Frota, apesar de Ministro, detestava Geisel, e s foi Ministro porque o efetivo (Vicente Dale Coutinho) morreu no cargo, ele era Chefe do EMFA (Estado Maior das Foras Armadas), foi o substituto interino, teve que ser efetivado. (Grande erro poltico e militar do presidente Geisel).

Frota ouviu o comandante do II Exrcito, respondeu: Esperamos, vamos ver se o Geisel repreende voc novamente, em caso semelhante. Frota tinha tal desprezo por Geisel, que no seu livro de Memrias, (que tem muita coisa interessante nas quase 600 pginas) diz textualmente: Ernesto Geisel sempre foi comunista. to absurdo que nem precisa de comentrio.

Pouco tempo depois, a PROVOCAO: Frota telefona para o comandante do II Exrcito, que ficou liberado para a repetio do caso Herzog. Escolheram o operrio Fiel Filho, achavam que Geisel no reagiria, ainda mais a vtima sendo desconhecida, um simples operrio.

S que nenhum deles conhecia o general Geisel. Havia estabelecido um sistema de vigilncia em volta do comandante do II Exrcito, soube na hora da morte de Fiel Filho. Mandou preparar um avio, recusou a companhia de qualquer pessoa, nem mesmo seu amigo e Chefe da Casa Militar, Hugo Abreu. J telefonara para general Dilermando Gomes Monteiro, foi direto para o gabinete do general Dvila Mello, disse olhando de frente para ele: O senhor est demitido, vou indicar o substituto. pico, dramtico e rigorosamente verdadeiro.

Sem demonstrar que estava TRIPUDIANDO, dali mesmo telefonou para o Ministro Frota, comunicando: Acabei de demitir o comandante do II Exrcito, por insubordinao, o substituto ser o general Dilermando Gomes Monteiro.

Frota no deu uma palavra, Geisel desligou, ficou em So Paulo at a chegada, no dia seguinte, do general Dilermando Gomes Monteiro. O ministro do Exrcito tentou se vingar em 12 de outubro de 1978, quando quis derrubar o presidente. Geisel reagiu com total domnio da situao, demitiu imediatamente o Ministro.

Acaba aqui o relato sobre o fato de EU NO TER SIDO TORTURADO FISICAMENTE. Tive que lembrar e revelar o episdio de So Paulo, que poderia ter acontecido comigo. E o que aconteceu com o deputado Rubens Paiva, que foi ASSASSINADO, esse era o objetivo dos que o prenderam. Grande amigo do reprter, comeou a ser torturado barbaramente na FAB (em frente ao Aeroporto Santos Dumont) e quando perceberam que no resistiria, levado para o DOI-Codi, onde morreu.

S para terminar a fase da NO TORTURA FSICA: em todas as prises, eu ia com MEDO total. Mas era um MEDO interno, no deixava que percebessem. (Quem diz que no tem MEDO, um mentiroso completo). Em 1967, tive a certeza de que SERIA TORTURADO, espalhavam que o Exrcito queria me matar, eu no continuaria VIVO.

(O homem tem MEDO, essa a maior preocupao da humanidade, principalmente o MEDO do desconhecido. Tem MEDO, mas resiste. Tem MEDO, mas combate. Tem MEDO, mas no deserta).

AGORA A TORTURA MENTAL. Como no fui torturado FISICAMENTE, no posso comparar. Mas vejam s, em 1963, preso e sendo julgado com a hiptese de ser CONDENADO a 15 anos de priso, estava quase nascendo meu quinto filho. Minha mulher no admitiu ficar no Rio, foi para Braslia, ganhei por um voto. Logo depois da volta, nasceu Ana Carolina.

Em 1966, candidato a deputado federal pelo MDB, (a maioria exilada ou asilada) as pesquisas me davam 500 mil votos. Fui cassado trs dias antes da eleio. O general Golbery, poderoso Chefe do SNI, tentava com amigos e familiares, o que chamava de soluo: Eu retirava a candidatura, no seria CASSADO. Nem admiti conversar. O que responderia depois aos meus filhos?

Eu tinha um compadre, Procurador da Repblica no Rio, foi procurado por Golbery que lhe disse: Doutor, o presidente no abre mo da cassao. Se o jornalista, apenas com um jornal, nos d tanto trabalho, imagine com outra tribuna disposio?. Resposta: O senhor no conhece o meu compadre.

A cada priso ou ida ao DOI-Codi (e foram umas DEZ) a dor MENTAL era tortura inenarrvel. Posso contar dezenas de fatos, preenchendo laudas e mais laudas. Mas vou encerrar com meu SEQUESTRO-DESTERRO-CONFINAMENTO. No em Fernando de Noronha propriamente dito, mas na viagem.

Viajamos num avio de transporte de tropas dos EUA, velho, mas resistente. S eu e o piloto, um major da FAB, que recebeu ordens de ir direto para Fernando de Noronha.

Chovia assustadoramente, a palavra essa, amos entrar naquela zona amaldioada onde caiu o avio da Air France. O piloto deu a volta, passou um rdio para o brigadeiro Parreiras Horta, comandante da Zona Area de Pernambuco, contou a situao e a ordem do Ministro da Justia.

Resposta do Brigadeiro: O senhor no recebe ordem do Ministro da Justia e sim minha. O senhor est autorizado para fazer o que for necessrio para chegar ao destino, mesmo que seja amanh.

***

PS O piloto deu a volta, chegamos a Natal pelo outro lado. No dia seguinte, fomos para Fernando de Noronha, que na poca no tinha aeroporto, hoje no sei. Pousamos com dificuldade, mas pousamos.

PS2 Jos Antonio, na minha situao, o que voc preferiria? Tortura FSICA ou MENTAL? E como estabelecer a diferena.

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