Conversa com leitores: no fui “simptico” ao golpe de 1964 nem “apoiei” Lacerda. Desde sempre, fiquei contra a ditadura

Antonio Santos Aquino:
Hlio, creio que todos so unnimes, em querer que escrevas tua saga nestes ltimos 50 anos(de 1960 2010). Inclusive para que esclareas, a dvida que todos temos sobre tua posio quando da revoluo de 1964?. Uns dizem que participaste. Outros dizem que eras apenas simptico ao movimento. Outros dizem que teu envolvimento foi em decorrcia da amizade que te unia a Lacerda. Eu particularmente acho que o alijamento de Lacerda, lder civil da revoluo, com a eleio do general Castelo Branco, te fez entrar na luta contra os militares. Seria bom teu esclarecimento, pois esta pgina da histria ainda est nublada.

Comentrio de Helio Fernandes:
Acho que voc pode colocar de 1950 a 2010, pois 1964 comea em 1945 e vai at 1984, com os mesmo personagens militares, se revezando na vitria e na derrota. Em 1945, os generais derrubaram a ditadura, mas no ficaram com o Poder, embora desejassem muito.

Uma ditadura de 15 anos, que terminou sem inelegibilidades, sem cassaes, com todos os que usurparam o Poder, mantendo-o inacreditavelmente. Dutra, que garantiu os militares em todo o regime autoritrio, sendo o condestvel do Estado Novo, foi presidente. E todos os outros, deputados ou senadores.

Foi meu primeiro protesto veemente (que repetiria em 1964), defendendo a inelegibilidade geral dos que implantaram e dominaram o pas atravs de uma ditadura feroz, selvagem e implacvel. Em 1950 Vargas se elegeu, os generais que ganharam em 1945, quiseram impedir a posse dele. (Com apoio de Lacerda e Golbery, naquela poca amicssimos).

Vargas, sem saber o que fazer, emparedado e desarvorado, nomeou ministro da Guerra o general Estilac Leal, presidente do Clube Militar, (naquela poca os presidentes do Clube histrico eram todos da ativa, hoje s podem ser da reserva) e tomou posse. Lacerda e Golbery, silenciados, mas continuou na mesma.

Com os militares comandando tudo, as datas golpistas iam se acumulando. Por que no se acumulariam, se 1889 foi o Golpe da Repblica, com dois marechais ultrapassando uma das melhores geraes de civis, os Propagandistas da Repblica e os Abolicionistas?

Depois da primeira eleio de Vargas, vieram 1954, 1955, 1961, 1963, 1964. Com os mesmos militares, uma ou outra exceo, mas Lacerda e Golbery em todas, at que romperam em 1961.

Nunca participei (no sentido que se d a essa palavra) de movimentos, golpes e conspiraes. Jornalista vigoroso e sem ficar jamais em cima do muro, constru de forma independente o que voc chama de minha saga de 50 anos. Pode at ser, mas sem subordinao a ningum. Tirando 1954, estive JORNALISTICAMENTE em todas as datas, por mim e no por ningum, nem mesmo Lacerda.

Em 1955, como pblico e notrio, Juscelino me convidou para dirigir a comunicao da sua campanha, ressalvando logo: Hlio, no h dinheiro nem para o caf. O que me fez aceitar mais rapidamente. Enquanto Lacerda dizia e escrevia, Juscelino no ser candidato, se for, no ganha, se ganhar, no toma posse, se tomar posse, no governa, eu corria o Brasil todo (que maravilha viver) com Juscelino.

Logo depois de derrotado o golpe, Juscelino viajou como presidente eleito e no empossado, recebido por reis, rainhas, presidentes e primeiros-ministros. Ele e mais 4 pessoas. Entre essas 4, o reprter e o coronel Jose Alberto Bittencourth. JK governou o tempo inteiro, passou o cargo a Jnio Quadros, lanou a candidatura para o prximo mandato em 1965. No chegaramos l. Por causa das foras que apoiavam Jnio. E o prprio presidente.

De 31 de janeiro de 1961 a 1 de abril de 1964, a conspirao foi diria e ininterrupta. Como jornalista, que de 1956 a 1961 (quando fui para a Tribuna da Imprensa) fazia coluna e artigo no Dirio de Noticias, escrevia sobre tudo, o dono do jornal, Joo Dantas, me dizia: Helio, s gosto de ler teu artigo e tua coluna no dia seguinte. (Liberdade de imprensa era isso).

No 11 de novembro, enquanto Lacerda viajava no Tamandar com vrios ministros e militares de alta patente (foram pedir ao governador Jnio Quadros para fazer um governo separado), eu estava com JK, no seu apartamento da S Correa, esquina de Avenida Copacabana. Mantnhamos contato com as mais diversas pessoas, que estavam em reunies nos variados lugares, inclusive no Copacabana Palace.

(Aproveitando para esclarecer: Juscelino tomou posse, no por causa de Lott ou Denys, como se falou, escreveu, repetiu e ameaa entrar para a Histria, e sim por causa de dois bravos coronis gmeos. Eram Jos Alberto e Alexinio Bittencourth, que fizeram tudo. Mas como o Exrcito baseado na hierarquia, no receberam as glrias merecidas. S quem estava presente, sabe e pode revelar o fato).

Os militares deram posse a Juscelino, no conseguiram garantir a VOLTA DE JANIO, foram derrotados, Joo Goulart tomou posse, o que eles no queriam. A partir da, no houve mais tranquilidade, todos conspiravam. Os anos inteiros de 1962 e 1963, foram de conspirao e surpresa.

Impuseram o Parlamentarismo com Tancredo, mas Jango trabalhava intensamente pela volta do PRESIDENCIALISMO, que seria decidido em 6 de janeiro de 1963. Os maiores banqueiros e seguradoras financiaram a campanha, foi um derrame de dinheiro nunca visto. (Esses empresrios exigiram de Jango que nomeasse Roberto Campos embaixador nos EUA. Jango nomeou, no mesmo dia em que foi derrubado, Roberto Campos voltou ao Brasil, assumiu quase tudo).

Retomando os poderes constitucionais, Jango comeou a preparar a CONTINUAO, no fazia outra coisa. S que ningum se entendia. Fui o nico cidado preso em 24 de julho de 1963, incomunicvel, pediram 15 anos de priso para mim. Fui ao Supremo, no mais rumoroso julgamento daquela poca, ficou empatado em 4 a 4 . O que d a impresso de como eu era perigoso, com a nica arma de que dispunha, a palavra escrita.

O presidente do Supremo, Ribeiro da Costa, desempatou a meu favor, fui libertado, continuei como sempre, contra tudo e contra todos. Mas as conspiraes se acentuavam, o PODER ESTAVA SENDO DISPUTADISSIMO. E quem dominava (?) o Poder? Joo Goulart, que no queria sair. Quem tivesse dvidas (ou ainda tiver) lembre dos comcios da Central e do Automvel Clube. Esses discursos representavam o empurro que faltava para o captulo final.

***

PS As coisas estava to confusas, que as prprias foras golpistas se desentendiam. O general Mouro Filho saiu na frente (de Minas), com medo de ficar para trs.

PS2 Carlos Lacerda (j brigado com Golbery), um dos artfices do golpe, por causa de suas ligaes com militares. Foi ele que, no Palcio Guanabara, lanou a candidatura Castelo Branco, provocando a fria de Costa e Silva, que se julgava o grande articulador de tudo.

PS3 No passei nem perto, jamais falei ou estive perto de Castelo, Costa e Silva, os dois Geisel, Mdici, Silvio Frota. Joo Figueiredo. Ento, como dizer ou supor que PARTICIPEI, que fui SIMPTICO ao golpe de 1964?

PS4 O que voc, Aquino, chama de “minha saga’, no se ajusta a apoiar um movimento militar. bem verdade que estava tudo muito confuso, era quase impossvel ver o sol. Mas ainda em abril, consegui abrir uma janela e contar as conversas vergonhosas de Castelo Branco com todo o PSD, na casa do deputado Joaquim Ramos (irmo de Nereu).

PS5 Fui o nico a revelar tudo, a bajulao de Castelo e o convite a Jos Maria Alckmin para vice, o compromisso voluntrio com Juscelino: Presidente, no posso assumir como chefe do Governo Provisrio, no terei foras para manter a eleio de 1965, e o senhor o candidato que ser eleito.

PS6 Ainda em abril ou maio, DENUNCIEI as TORTURAS em Pernambuco, o presidente teve que mandar o seu chefe da Casa Militar, Ernesto Geisel, ir verificar o que havia. Geisel viu tudo, fez um relatrio SIGILOSO e CONFIRMADOR, que est entre os documentos que no querem revelar.

PS7 A fiquei cada vez mais violento, e tentei convencer Lacerda de que no teria nenhuma chance de ser presidencivel. No final de 1964, quando Golbery lanou a PRORROGAO DE CASTELO, alertei-o: Isso contra voc. Lacerda no entendeu assim, s mais tarde foi compreender.

PS8 Acelerei a oposio. Quando Lacerda foi a Castelo se queixar da oposio que os jornais lhe faziam, o presidente abriu uma gaveta, mostrou uma poro de Tribunas, e disse: E eu, governador? Tenho que aturar a oposio violenta do jornalista Helio Fernandes, s que ele nunca veio aqui se queixar.

PS9 Uma noite, vendo cinema no Guanabara, disse a Lacerda: A votao da prorrogao est rigorosamente empatada, voc derruba pelo telefone. Finalmente concordou, falou: Vamos almoar amanh, tomarei posio sobre isso, no meu estilo.

PS10 Cheguei ao meio-dia, encostei meu fusca no lugar de sempre. Lacerda mandou me avisar que estava acabando. Fiquei na janela para o belo parque, quando vi parar um carro e saltarem o doutor Julio Mesquita (do Estado), Armando Falco e Abreu Sodr, que depois seria governador.

PS11 Sabia o que aconteceria, peguei meu carro, fui embora, da janela Lacerda me viu, pediu que me parassem. noite me telefonou, revelou: O doutor Mesquita me disse que, se a PRORROGAO for derrotada, haver novo golpe. Minha resposta imediata: Carlos, no podemos viver intimidados ou assustados, se tm a fora para mais golpes, que faam. Tinham fora.

PS12 Poucos dias depois, a PRORROGAO foi aprovada por 1 voto, escrevi um artigo que gosto de relembrar. No precisa ser lido, est todo no ttulo: 1965: Carlos Lacerda, o candidato invencvel de uma eleio que no vai haver. No houve, eu disse isso com mais de um ano de antecipao. (Est tudo na coleo da Tribuna e na Biblioteca Nacional).

PS13 S para terminar. Um dia, Lacerda me disse: Estive com o presidente Castelo, que me convidou para embaixador na ONU. E perguntou: O que que voc acha? E eu: No h o que achar, Carlos, eles querem mostrar considerao por voc, mas de longe. No disse mais nada, ele entendeu, no aceitou.

PS14 Se rompi com Lacerda para apoiar Juscelino, por que iria segui-lo quando eu j estava numa oposio franca e sem volta, como so e foram todas as minhas posies? E todas por convices, nenhuma por compensao. Nunca existe um golpe s, so sempre dois ou at mais. Como est muito grande, deixo para depois, talvez ainda nesta semana, quem conspirava com quem (fora dos militares) em 1962 e 1963. Nomes, objetivos e destinos junto com o Poder.

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