Conversando com Dorothy sobre Chateaubriand

Helio Fernandes

Não usei a apalavra respondendo, deliberadamente, você leu o livro do Fernando Moraes, eu não. Quando decidiu fazer a biografia de Chateaubriand (que no livro passaria a ser “Chateau”, como era conhecido) Fernando me telefonou: “Helio, estou começando a trabalhar no livro, a última entrevista será com você, gostaria que fosse na tua casa, ninguém nos interromperia”.

O tempo passou, um dia o Fernando me telefonou; “Helio, chegou a hora de você falar sobre Chateaubriand. Marcamos?”. Lógico, marcamos, conversamos, eu que comecei na revista O Cruzeiro, com 13 anos (o Millôr já estava lá desde os 11 anos e meio), ele que devassara a vida de Chateau.

Depois de mais de uma hora, o Fernando quase gritando: “Helio, paramos tudo sobre o Chateau, estou aqui com uma entrevista sensacional, sobre assuntos variados, vamos conversar mais um pouco. Vou publicar na revista Playboy, depois, noutro dia, encaramos o assunto Chateau”.

Imediatamente falei: “Fernando, a Playboy é dos Civitas, eles não publicam meu nome, quanto mais uma entrevista. Resposta do Fernando; “Consigo publicar, ganhei um Prêmio Esso com uma entrevista publicada na Playboy”.

O Fernando me perguntou onde havia um telefone (estávamos longe da era do celular), mostrei, voltou, disse: “Não encontrei ninguém, não tem importância, vai ser uma sensação”. Três ou quatro dias depois, chateado, constrangido, envergonhado, me disse: “Helio, você sabe das coisas. Não tentaram nem disfarçar, disseram que entrevista com você, nem como matéria paga”.

Algum tempo passado, eu estava almoçando com Rosinha em Paris, no Bar Lipp, o Fernando entrou. Ia almoçar com alguém que não chegara, sentou conosco, a pessoa chegou, foi embora. Anos depois fez na GloboNews três programas sobre Carlos Lacerda. Contra ou a favor, é impossível fazer programa sobre Lacerda sem me ouvir.

O jornalista que ia fazer o programa com Moraes (que chegou a presidente do Sindicato dos Jornalistas, ótima pessoa) me disse: “Estamos chateadíssimos, íamos montar o programa na base de conversas com você e do teu conhecimento”.

Ninguém viu o programa, e eu não sou “amaldiçoado” circunstancialmente ou por acaso, é medo mesmo. Nem banqueiros conseguem falar comigo.

CHATEAUBRIAND: HOMEM
E JORNALISTA INCRÍVEL

Por consideração com a tua insistência, Dorothy, vou contar alguma coisa, como não li o livro, pode ser redundância, mas não omissão. Chateau, que entrou na História como das grandes personalidades jornalísticas, até os 23 anos nem imaginava se realizar nesse setor.

Com essa idade, fez concurso para professor catedrático de Filosofia, na Universidade Federal de Pernambuco. Tirou a nota máxima, aprovadíssimo, disseram; “Não pode ser professor de Filosofia tão moço”. E não lhe deram a cátedra. Resolveu vir para o Rio, (Distrito Federal) reivindicar seus direitos. Mas logo desistiu.

Não demorou muito já era dono de “O Jornal”, numa época em que o Rio era dominado pelos matutinos, hoje não existe mais nenhum vespertino. A época era propícia, a Receita Federal não incomodava ninguém, o Banco do Brasil financiava as maiores aventuras, principalmente jornalísticas.

Durante 15 anos, Chateau transacionou com Vargas, contra ou a favor, não importa, os dois no mesmo tabuleiro de xadrez. Outros fizeram fortuna, também contracenavam com Vargas, mas sem tabuleiro e sem peças.

Chateau montou o maior império jornalístico do mundo (proporcionalmente, é claro), foi proprietário de 76 empresas jornalísticas. Jornais, rádios, trouxe a televisão para o Brasil (1952, Tupi) e uma agência, a Meridional, que concorria com as maiores do mundo.

Viajava muito, pelo Brasil e pelo mundo, sempre comprando alguma coisa ou completando sua obsessão por mulheres. Mas escrevia diariamente, em pedaços de papel, restos de maço de cigarro, naquela época havia sempre um linotipista (era o computador da época) para compor seus artigos.

Diante disso, um dia escrevi: “O Brasil tem apenas dois proprietários de jornal que sabem escrever e escrevem diariamente: eu e Chateaubriand”. Quando ele morreu, em 1968, publiquei um obituário sobre ele, e terminava assim: “Agora o Brasil só tem um dono de jornal que sabe escrever”.

CHATEAU INIMITÁVEL

Não quero dizer que Chateau não se interessava por dinheiro, isso seria impossível. Mas destinou uma parte do seu tempo criando para a coletividade. Os Institutos de Puericultura e os Aeroclubes foram duas ideias maravilhosas, que exigiam grandes recursos.

Muitos diziam; “Chateaubriand faz essas coisas, “pois toma dinheiros dos empresários com garrucha”. Pode até ser, mas fazia. Entre seus empreendimento, nenhum maior do que o MASP, Museu de Arte de São Paulo. Até hoje, brasileiros e estrangeiros se perguntam: “como é que o Brasil pode ter um Museu com esse acervo e patrimônio?” Fazendo.

Chateau andava nas redações, com a maior tranquilidade. Um dia, Roberto Marinho, muito mais moço e herdeiro do pai, (o grande jornalista Irineu Marinho, que fundou o Globo e morreu com 49 anos, a mesmo idade com que morreria mais tarde um editor do jornal) convidou Chateaubriand para almoçar.

Durante o almoço, Roberto Marinho, que ainda não era rico e poderoso como ficaria mais tarde, choramingou: “Doutor Assis, não sei o que fazer, a redação do meu jornal está cheia de comunistas”. E o doutor Assis, em cima do laço: “Fazer jornal sem comunistas é a mesa coisa que fazer balé sem veado”. (Naquela época, era a palavra usada, não tinha nada de gay ou homossexual).

Mais tarde, para endeusar o doutor (?) Marinho, na ditadura, inventaram que ele havia dito para os generais: “Nos meus comunistas ninguém toca”.

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PS – Chateau foi senador pelo Maranhão e pela Paraíba. Foi da Academia, e mais tarde embaixador na Inglaterra, a mais aristocrática das cortes da Europa.

PS2 – Em Londres, criou a Ordem do Jagunço, e as pessoas condecoradas ou distinguidas, colocavam na cabeça um chapéu de jagunço. Duques, Lordes, barões (até Churchill) receberam essa Ordem.

PS3 – Brigado com os filhos, criou o Condomínio dos Diários Associados, sem nada para nenhum deles. Para os filhos, só as propriedades fora do jornalismo.

PS4 – Para um homem como ele, que teve vida agitadíssima, morreu imobilizado. Oscar Niemeyer fez para ele uma forma de escrever uma lauda por dia. Era um fio de alumínio pregado em duas pontas da parede, altamente sensível. Ele movia o braço, a mão caía nas teclas de uma máquina de escrever, levava outros cinco minutos para um novo movimento.

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