Conversando com um futuro Assessor de Imprensa

Fernando Pawlow

Sou apresentado a formando no Curso de Jornalismo da UFMG, e a então recente decisão do Supremo que pôs fim à obrigatoriedade de diploma para se exercer o ofício de jornalista no Brasil logo se impôs como tema de nossa conversa.

Declarei-me favorável à decisão, pois sempre me pareceu que talento e cultura geral (aliados à curiosidade sem limites) não se aprendem na academia, muito menos independência e ética (não ética de jornalista, a qual não existia para mestre Claudio Abramo como categoria isolada, ou o sujeito era ético ou não era , independente da profissão).

Muitos dos melhores jornalistas brasileiros não cursaram Faculdade  de Jornalismo e muitos dos que a cursaram declararam que aprenderam mesmo foi com prática e muita leitura.

O estudante de Jornalismo se mostrou contrário e  passou a recitar (em velocidade que o protegia de ouvir argumentos e possíveis dúvidas  que sua mente pudesse lhe enviar) o texto pronto que ele certamente julgava irrespondível e definitivo. Parecia tomado por espírito de missão de afastar as deformações de pensamento que a “mídia conservadora” havia me causado. Era texto batido e como certas canções popularescas, a cada frase que iniciava , era possível adivinhar como terminava.

Começou por atacar o ex-presidente do STF Gilmar Mendes , “conservador” , mas à lembrança (ou informação) minha de que o placar fora folgado e que  o ministro Gilmar Mendes não dera voto de minerva , por desnecessário , ele mudou de repertório, passou às lendas urbanas sobre figuras da “mídia conservadora, o PIG”.

Narrativas sobre preconceitos dos mais arcaicos , que já vi atribuídos a X o eram agora atribuídos a Y e quem discute lendas urbanas sobre Editores–Chefe que vetam matérias “por não gostas de pobre no Noticiário A,da Emissora B”? Eu não discuto, passei a ouvir encantado , e ele se entusiasmou com meu silêncio e metralhava orações (sem muito rigor na construção sujeito-verbo-objeto) sobre  o compromisso dos jornalistas formados , com “consciência social e ligação com os anseios da população que finalmente tem governo sensível”em combater a “aliança entre o judiciário e megaempresários”. O número circense variava do militante de diretório acadêmico  discursando na calourada ao missionário pentecostal , e quem ousa interromper tal oratória?

Minhas observações sobre seu ponto de vista submarxista sobre magnatas, atribuindo-lhes traços de vilão de historia em quadrinhos , quando na verdade são demonizações  orquestradas por grupos igualmente capitalistas, reflexos imprecisos da “luta de grupos disputando o mesmo pote de ouro” (na definição desapaixonada de Leonardo Attucha à conhecida contenda) se tiveram algum efeito, não percebi.

Passei então a visualizar meu antagonista como futuro funcionário de algum jornal provinciano, defendendo as mesquinharias da pequena política, onde os “anseios populares” não entram nem como hipótese improvável, ou como assessor de imprensa de algum político, e a segunda  projeção sobre seu futuro me ocupou  pelos minutos finais de uma conversa onde um falava e outro fingia ouvir.

Imaginei  o “profissional da comunicação com compromissos, com lados”, redigindo as cartas de protesto aos jornais e revistas com o prefixo “Causou -nos estranheza”, ou sua variação “Causou-nos mal estar”, contestando a “reportagem insidiosa “ onde o deputado, (ou o senador, ou mais modestamente, o  vereador) foi “retratado de maneira a induzir o leitor” que o Excelentíssimo Sr. Fulano não apenas sabia das imundícies de correligionários (ou parentes) como se beneficiou delas.

Ou escrevendo aos mesmos jornais e revistas “esclarecendo à população” sobre melhorias que a dita população não consegue, lubridiada pela “mídia conservadora “,  perceber e fazer justiça .

Tais devaneios me levaram a compreender qual direito profissional era defendido e eu apertei as mãos do bacharel em Comunicação Social convencido da legitimidade da reserva de mercado que os de sua casta defendem ferozmente.

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