Conversas mineiras

Sebastião Nery

Três horas da manhã, no governo do general Figueiredo, toca o telefone em casa de Tancredo Neves. Era Gustavo Capanema, de Brasília:

– Olhe, Tancredo, estou acordando você porque estou com um problema e não consigo dormir. Talvez você tenha uma ideia mais clara. Fui chamado hoje à tarde ao Palácio do Planalto e, durante três horas, discuti o projeto do voto distrital com o ministro Leitão de Abreu. Ele estava muito interessado nos meus estudos e acha que o distrital pode ser um bom instrumento para aperfeiçoar a representação política no Congresso.

– Muita gente acha também, Capanema. Embora eu seja contra, reconheço que o assunto é importante e precisa ser discutido. Só não entendo é por que você não consegue dormir. Os estudos são seus, o projeto é seu, você a favor. Quando o governo parece querer, você fica sem dormir?

– Pois é, Tancredo. Não consigo dormir. O ministro me deu pressa, muita pressa, para concluir os estudos.

– Ah, Capanema, ele deu pressa, deu? Então deve haver mais coisas.

– Você também acha? Ótimo que você também ache. Agora vou dormir. Desligou o telefone e dormiu.

***
TANCREDO

Clovis Rossi e Osvaldo Martins, jornalistas da sucursal do “Jornal do Brasil” em Brasília, foram conversar com Tancredo Neves, no governo do general Geisel. Passaram horas dissecando as angústias nacionais. De repente, chega o jornalista Tarcisio Holanda com a nota do ministro do Exército, general Silvio Frota, contra a imprensa. Tancredo pega a nota, lê longamente, parando em cada frase, franzindo a testa. Rossi e Martins estavam curiosos para lerem também. Tancredo se oferece:

– Querem que eu leia em voz alta?

– Ótimo, deputado.

E Tancredo, pausadamente, a voz forte de poderoso orador político, lê a nota inteira. Os quatro ficam algum tempo em silêncio, ruminando a gravidade do assunto. Clovis Rossi fala:

– Deputado, agora uma declaração do senhor.

– Declaração sobre o quê?

– Sobre a nota do ministro Silvio Frota.

– Que nota? Nem li.

***
AÉCIO

O Aécio Neves, por ser o neto predileto, está querendo ser presidente da República como uma reencarnação de Tancredo: dizendo sem falar e falando sem dizer. Mas esquece uma diferença fundamental. Na época em que Tancredo, com todo seu talento, costurou sua candidatura a presidente, o País vivia numa ditadura militar, já nos estertores, mas ainda ditadura. As conversas tinham que ser assim mesmo: discretas, sinuosas, dissimuladas.

Mas, 25 anos depois, o País vivendo em plena democracia, precisando de um debate nacional aberto sobre seu presente e seu futuro, e em 2009 o então governador Aécio Neves sai na capa da segunda maior revista nacional, a “IstoÉ” com uma entrevista “Exclusiva” (a Sergio Pardellas e Otavio Costa), na qual só consegue produzir duas frases:

1 – “Sou uma alternativa para o País”.
Mas não disse por quê. Será porque é cabeludo e José Serra careca? Se tinha um projeto diferente do de Serra, que está faltando à Nação, que dissesse logo.

2 – “Quero prévias no PSDB porque precisamos de uma agenda nova”.
Mas não disse que agenda, com que projetos, programas e propostas. Ou seria uma agenda de bolso? Talvez de mesa? Quem sabe a agenda não seria banho de mar no Posto 9 de manhã e jantar nas Mangabeiras à noite?

***
JK

Daqueles mesmos palácios que Aécio ocupou (Liberdade e Mangabeiras), Juscelino saiu em 1955 com uma bandeira nacional, o desenvolvimento, e um plano de metas objetivo, concreto, de 30 pontos (Brasília foi o 31, a metassíntese) que empolgaram a Nação e ele cumpriu.

Querer ser presidente na base da conversa esperta sem ditadura, agradando governo e oposição, bajulando Lula e Fernando Henrique, Dilma e Serra, é uma traição a Tancredo, a Minas e ao País.

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