Corrente de Dirceu ameaça Dilma, mas rompimento é impossível

Pedro do Coutto

Os três maiores jornais do país – O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo – publicaram ontem, sexta-feira, o movimento desencadeado pela corrente do PT que segue a orientação do ex-deputado José Dirceu de levar documento ao congresso do partido, que se encerra amanhã, em Brasília, defendendo a tese do controle da imprensa e, ao mesmo tempo, tentando colocar a estrutura partidária ao lado do poder exercido pela presidente Dilma Roussef. O grupo não concorda com a tese de faxina contra a corrupção e quer aprovar moção contra a revista Veja pela matéria que publicou semana passada.

A matéria apontou a existência de um governo paralelo no Hotel Naoum. Fica explícito o motivo da manifestação. Tanto assim que será apreciado no encontro moção de desagravo  ao ex-chefe da Casa Civil e de agravo à Veja. Gerson Camaroti e Adriana Vasconcelos, no Globo, Vera Rosa no Estado de São Paulo, Natuza Nery, Cátia Seabra e Bernardo Melo Franco, na Folha de São Paulo, autores das reportagens, focalizaram o tema sob vários prismas. Inclusive a da nem tão velada ameaça de rompimento do governo no exílio com o Palácio do Planalto.Mas aí a ideia torna-se impraticável.

Dilma Roussef sabe muito bem da absoluta impossibilidade, seguramente o ex-presidente Lula vai desaconselhar a investida e desanuviar o ambiente petista. Afinal de contas, como todos pensam, o poder não se divide, tampouco se transfere. Foi o que me disse o presidente Juscelino, no final de 59, a respeito da sucessão do ano seguinte vencida por Jânio Quadros. Hoje, 52 anos depois, dimensiono melhor a afirmação: é muito mais ampla do que parece.

Ao longo da história todas as tentativas de compartilhamento fracassaram. A mais recente, do ex-presidente Ernesto Geisel de assegurar a manutenção do enigmático general Golbery do Couto e Silva na Casa Civil do presidente João Figueiredo. A solução projetada durou apenas quinze meses. A tentativa do mesmo Geisel de garantir a presença de Mario Henrique Simonsen no Ministério do Planejamento do sucessor resistiu somente seis meses. Simonsen não desabou no primeiro choque com Mario Andrezza. Há muitos outros, porém esses dois exemplos creio serem suficientes.

A política, um conjunto de arte e ciência, além de ser igualmente uma técnica de comportamento humano até extralegal muitas vezes, é difícil porque o que se idealiza às vezes não possui base nos limites da realidade. Carlos Lacerda era assim. Por isso mesmo terminou derrotado por si próprio no período militar que ele havia liderado. Brizola também. Se, em 63, tivesse aceitado oferecimento de ser candidato e vice na chapa de JK, sucessão de 65, não teria havido 64. Precipitou-se. Analisou mal o quadro. Embora herói da resistência pela posse de Jango em 61, não tinha chegado a sua vez. Poderia tê-la alcançado em 70, como sucessor de Juscelino.

Que fazer? Assim caminha a humanidade.Um defeito grave, em matéria de análise, é o de se deixar levar pela emoção, e não também pela razão, e achar que o líder pelo qual está torcendo não erra nunca. Incrível. O Jornalista Newton Rodrigues, que dirigiu a redação do Correio da Manhã, do final de 65 à metade de 67, quando foi demitido por Niomar Moniz Sodré Bitencourt, era assim. Ex-comunista, fixara-se na imagem de Lacerda. O governador da Guanabara praticava o smaiores absurdos, mas neles ele via lances táticos irreais. Sempre acabaria vencendo.

Foi tudo ao contrário. O maior erro de Lacerda, o que o lançou no abismo, e levou Costa e Silva ao poder, foi conspirar contra a posse de Negrão de Lima, vitorioso por maioria absoluta nas urnas do Rio. Mas Newton Rodrigues omitia os equívocos decisivos e só via acertos à sua frente. Não foi o único irrealista, tampouco será o último. Veja-se agora a articulação vazia e impossível de José Dirceu.

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