Correspondências entre Lacerda e Carlos Drummond de Andrade

José Carlos Werneck

No Natal de 1975, Carlos Lacerda envia bilhete ao poeta, oferecendo um livro da Nova Fronteira, editora que criou:

“Para Carlos Drummond de Andrade, que não gosta de mim, mas certamente gosta de Fernando Pessoa e há de gostar do Otávio Araújo, a Nova Fronteira oferece, Natal de 75, Carlos Lacerda”.

Resposta de Drummond para Lacerda:

“Agradeço-lhe vivamente, e à Nova Fronteira, o magnífico exemplar de ‘Ode Marítima’ de Fernando Pessoa, com que me distinguiram neste Natal. Realmente, é um fino objeto de arte, a que Otávio Araújo deu contribuição relevante, para maior glória do poeta. Parabéns à arte gráfica do nosso país. A afirmação de que ‘não gosto de você’ seria pelo menos exagerada, se não fosse, como é, totalmente errada. Ninguém é indiferente ao ‘charmeur’ fascinante que você é, e mesmo os que supõem detestá-lo, no fundo gostam de você. Gostam pelo avesso, mas gostam. Quanto a mim, tenho presente que fomos bons camaradas na luta perdida da ABDE, e que lhe dei o meu voto para Governador (voto de que não me arrependi, em face dos lances criativos do seu Governo). Apenas, discordei de posteriores atitudes políticas de você, o que é coisa comum na vida, e não afeta relacionamento pessoal. Certo?”

De Lacerda para Drummond, janeiro de 1976:

“Apresso-me em responder à sua pergunta datada de 25 de dezembro. Foi bom que lhe dissesse e ótimo que você falasse, na carta. Haviam-me dito isso, e eu remordia a mágoa, pela muita admiração que lhe tenho, e não só intelectual, pois respeito também a sua maneira de ser, a sua integridade essencial. Transmiti à Nova Fronteira o seu elogio, que será por todos bem, isto é, devidamente bem recebido. Saúde e paz lhe deseja, com um abraço, o Carlos Lacerda.”

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