Corte de 80 bilhões no orçamento divide o governo Dilma

Pedro do Coutto

O jornalista Valdo Cruz, em reportagem publicada na Folha de São Paulo do dia 4, revelou que o projeto de cortar 80 bilhões de reais no orçamento da União para este ano, de autoria do ministro Joaquim Levy, está dividindo o governo. A presidente Dilma Rousseff, assim, terá que assumir a decisão final quanto à iniciativa, que também depende de aprovação pelo Congresso. Valdo Cruz assinala que os ministros da área política temem que a dimensão de tal corte paralise as ações do Poder Executivo e projete o Brasil num panorama de recessão logo ao início do segundo mandato da presidente reeleita.

Como alguém disse no passado, o remédio pode ser tão forte que, ao invés de curar, faça piorar o doente. O problema não se esgota na redução em si, mas nos seus efeitos junto a população. Some-se a isso a iniciativa das distribuidoras de energia elétrica, que segundo Danilo Fariello em O Globo de sábado, desejam antecipadamente repassar aos consumidores as taxas prováveis de inadimplência, diante do processo de aumento de preços do mercado.

Tal repasse, é claro, seria feito através de nova elevação de tarifas. Como tal elevação evidentemente atingiria a indústria, o comércio, o setor de serviços e também as residências, fácil é concluir que causaria um acréscimo generalizado no mercado de consumo levando a uma ainda maior retração do poder aquisitivo popular.

DESCAPITALIZAÇÃO

Estamos, assim, diante de mais um processo de descapitalização da força de trabalho, pois está implícito que os salários não serão reajustados nos mesmos níveis das majorações projetadas para os preços. Mais uma vez, portanto, o peso dos cortes nos gastos públicos terminaria sendo transferido para todos nós, pois o sistema empresarial condena a concessão de direitos sociais. No final da ópera, a elevação dos preços acima dos salários atingirá ainda com maior intensidade a aprovação do governo Dilma Rousseff.

A matéria de Valdo Cruz tem um significado político muito importante, na medida em que assinala a divisão do Executivo em pelo menos duas correntes, bastante tradicionais no passado, mesmo desde os tempos do presidente Juscelino Kubitschek: as correntes monetarista e estruturalista.

JK conseguiu harmonizar as duas tendências e o resultado foi o êxito de seu plano de metas. O mesmo desafio, 60 anos depois, coloca-se agora à mesa da presidente Dilma Rousseff, só que com uma diferença fundamental da popularidade alcançada por JK e a popularidade negativa registrada agora. O impasse, assim, se acentua e o seu campo de opção diminui e sua decisão torna-se urgente. Ou um caminho ou o outro, que enfrenta o obstáculo de uma inflação acima das metas originais. Essas metas, no entanto, sempre foram fictícias, pois ninguém vai supor que o índice inflacionário depois de atingir 6,5%, em 2014, fosse capaz de retroceder a 4,5 em 2015. Os preços, os exemplos históricos explicam, depois de subir não baixam mais. Estou me referindo, é claro aos preços do mercado de consumo interno, impulsionados expressivamente também pela força devastadora da corrupção que envolve quase todos os setores produtivos nacionais.

DESCRÉDITO

A corrupção gera também um estado de espírito que, se provoca descrédito de um lado nas ações do governo, de outro impulsiona a volúpia do roubo sem limites. Tanto assim que o sistema corrupto não se restringiu à Petrobrás, mas se expandiu a outras áreas vitais para o desenvolvimento econômico como o das obras ferroviárias e rodoviárias.

Vale acrescentar que a volúpia de se apoderar dos bens públicos levou até à montagem de um esquema tenebroso de chantagem na Receita Federal, através de processos em julgamento no CARF. Portanto, tal volúpia generalizou-se no governo, que infelizmente não deu a resposta de firme condenação aos ladrões, que a sociedade esperava. E que continua aguardando.

A reação contrária da opinião pública ao atual governo é um reflexo dessa espera que ameaça eternizar-se. Inclusive como a revista Veja publicou, com a montagem de um esquema destinado a evitar que o empresário Ricardo Pessoa, preso em Curitiba, possa ser atendido na sua proposta de delação premiada. Pessoa, como personagem de Hitchcock é o homem que sabia demais. A edição da Veja está nas bancas esta semana, depois dela não será fácil a confirmação do esquema que ela divulgou.

8 thoughts on “Corte de 80 bilhões no orçamento divide o governo Dilma

  1. As medidas que o ministro Levy quer implementar com base no corte de investimentos, evidentemente recairão sobre o povo brasileiro, aquele que paga a conta.
    Levy deveria considerar em primeiro plano os gastos dos três Poderes, e onde diminui-los, diante da maneira perdulária como gastam dinheiro da população!
    No entanto, conforme eu escrevera em outro comentário, este pessoal do governo não pensa, pois imagina que dói ou tem efeitos colaterais quaisquer raciocínios mais apurados sobre os efeitos de providências mal calculadas, então o povo é quem sofre, menos os causadores dos problemas, os corruptos e desonestos.
    A lamentar, que o cidadão brasileiro está tão acostumado a perder, a arcar com o prejuízo, que não mais reclama, protesta, entra em greve junto com os empresários, que também sofrerão com essas medidas de contenção, diminuindo seus lucros e capacidade de investimentos em seus negócios.
    Enfim, estamos à mercê da incompetência e corrupção, sem que tais males tenham reação contrárias do povo.
    Assim, resta-nos chorar na cama, que é lugar quente.

  2. Quer dizer que o senhor Joaquim Levy esta pedindo um corte de 80 bilhões no orçamentopara endireitar o Brasil? Como isto esta sendo dito por um senhor de elevado saber financeiro, eu acho que posso acreditar!

    Principalmente depois que a PETISTA de Carteirinha e Tatuagem, Graça Foster, declarou na CPI que considerou como “justo” o valor contábil de R$ 88 bilhões referentes a perdas da Petrobras, conforme balanço da empresa apresentado ao Conselho de Administração da estatal, em janeiro.

    Reparem que o valor declarado por Graça Foster é bem maior do que o senhor Levy precisa para endireitar as contas do país.

    Agora, passamos a ter algo próximo da verdadeira dimensão, em 3D, de quanto foi a CORRUPÇÃO no governo Dilma+Lula+PT, somente na nossa PETROBRAS.

  3. Só o povo terá que pagar a conta? Inicialmente é preciso cortar o numero de ministerios(12 seriam suficientes),reduzir em 70% os salarios e benesses de parlamentares,reduzir em 100% o numero de cargos comissionados(gente que não produz nada),cortar gastos das estataias, inclusive não cobrir rombos gerados nestas empresas,pagar o bolsa esmola somente para quem realmente necessita com a obrigação de manter os filhos na escola.Acho que com essas medidas o ministro fara um corte bem maior do que ele proprio estima.Simples não é?

    • Deusdedith Leite, os intocáveis começaram com Pedro Álvares Cabral e a culpa é dos portugueses. O Lulla apenas quadruplicou aquilo que já era ruim no Brasil, mas o teu comentário valeu mil Lullais.

  4. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO nos mostra que o corte proposto de +-R$ 80 Bi no Orçamento Federal de +- R$ 2.800 Bi/2015, divide o Governo DILMA. É natural, porque o nosso Orçamento Federal é “engessado”, sobrando muito pouca “margem de manobra”, para Cortes. Mas não tem outra alternativa, a não ser essa de ir reduzindo o Deficit Fiscal do Governo que passou de -7,5% do PIB, quando o tolerável seria no máximo -2,5% do PIB, ( +- taxa média de crescimento anual do PIB, +- 2,5%aa), para se restabelecer a CONFIANÇA e voltarmos a crescer. Mas como dizem todos, “antes de melhorar, por um tempo, ainda vai piorar”.
    Mais do que ninguém, sabe o Ministro LEVY que não pode causar uma Recessão muito forte, tem que manobrar entre -0,5%, a no máx. -1,0% do PIB. Eventualmente terá que “flexibilizar seus Cortes”.
    Preocupa-se também o grande Jornalista com o efeito que esses Ajustes Fiscais terão sobre a MASSA SALARIAL ( Soma de todos os Salários/Vencimentos da Economia ). Esse é um Índice realmente fundamental. Ele era de +- 39% do PIB quando em 2003 assumiu o Governo PT/Base Aliada, e com esforço foi elevado a +- 43% do PIB, a meu ver, tendendo a retroceder a +- 42% do PIB. Vemos que estamos muito longe de uma MASSA SALARIAL ótima de 65% do PIB, que se atinge quando temos um CAPITALISMO BEM REGULADO, numa Economia de ótima PRODUTIVIDADE.
    Muitos Colegas COMENTARISTAS sugerem Cortar com JUSTIÇA.( Redução de Ministérios, Cargos Comissionados, Cartão Corporativo secreto, Salários/Benesses da alta casta Política, etc). Infelizmente os Cortes seguem a Linha de “Menor Resistência Política”. O POVO precisa aprender a se organizar melhor, para defender seus JUSTOS interesses.
    Assim como nós também temos que aprender a pagar uma pequena Mensalidade de R$ 20 para ajudar a manter essa boa “Tribuna da Internet onLine”. Dados no Canto Superior Direito. Abrs.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *