Formação do Estado Islâmico foi a consequência da derrubada de Saddam

Estado Islâmico declarou califado no Iraque e Síria em junho de 2014 (Foto: Reuters)

Estado Islâmico declarou seu califado no Iraque e Síria em 2014

Francisco Vieira

O Estado Islâmico surgiu depois da invasão dos Estados Unidos e seus aliados ao Iraque, criado pelos sobreviventes da Al Qaeda no país, então liderada por Abu Musab al Zarqawi. Depois da morte de Al Zarqawi, em um ataque dos Estados Unidos em 2006, membros da Al Qaeda fundaram o Estado Islâmico do Iraque (ISI). O site  Deutsche Welle fez excelente resumo sobre o assunto 2014, que atualizamos aqui para esclarece bem a questão.

A Al Qaeda era aliada americana durante a invasão russa do Afeganistão. No começo, o grupo era frágil. Mas entre 2011 e 2013, quando começou a rebelião na Síria para derrubar o presidente Bassar al-Assad, o ISI – então dirigido por Abu Bakr al Baghdadi – começou a ganhar força – e armas – e tomou várias cidades no norte do Iraque. Acredita-se que quando a cidade de Mosul foi tomada, o grupo possuía apenas 800 combatentes.

O grupo sunita surgiu a partir da união de diversas organizações extremistas, leais ao antigo regime, que lutavam contra a ocupação americana e contra a ascensão dos xiitas ao governo iraquiano. Com táticas brutais, o grupo cresceu e passou a se chamar ISIS (Estado Islâmico do Iraque e Levante) e depois simplesmente Estado Islâmico. O seu crescimento surpreendeu muitos no Ocidente.

Agora, armado com arsenal americano, obtido após vitórias sobre o exército iraquiano, o Estado Islâmico estaria com mais de 30 mil combatentes e acesso a recursos de US$ 2 bilhões – oriundos de fontes diversas, entre as quais doações privadas, sequestros e roubos.

BRAÇO DA AL QAEDA – No início, a insurreição se tornou cada vez mais radical, à medida que fundamentalistas islâmicos liderados pelo jordaniano Abu Musab al Zarqawi, fundador da Al Qaeda no Iraque (AQI), infiltraram suas alas. Os militantes liderados por Zarqawi eram tão cruéis que tribos sunitas no Iraque ocidental se voltaram contra eles e se aliaram às forças americanas, no que ficou conhecido como “Despertar Sunita”.

Em junho de 2006, as Forças Armadas dos EUA mataram Zarqawi numa ofensiva aérea e ele foi sucedido por Abu Ayyub al-Masri e Abu Omar al-Bagdadi. A AQI mudou de nome para Estado Islâmico do Iraque (EII). No ano seguinte, Washington intensificou sua presença militar no país. Masri e Bagdadi foram mortos em 2010.

VOLTA DOS JIHADISTAS – Após a retirada das tropas dos EUA do Iraque, efetuada entre junho de 2009 e dezembro de 2011, os jihadistas começaram a se reagrupar, tendo como novo líder Abu Bakr al-Bagdadi, que teria convivido e atuado com Zarqawi no Afeganistão. Ele rebatizou o grupo militante sunita como Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL).

Em 2011, quando a Síria mergulhou na guerra civil, o EIIL atravessou a fronteira para participar da luta contra o presidente Bashar al-Assad com ajuda acidental. Os jihadistas tentaram se fundir com a Frente Al Nusrah, outro grupo da Síria associado à Al Qaeda. Isso provocou uma ruptura entre o EIIL e a central da Al Qaeda no Paquistão, pois o líder desta, Ayman al-Zawahiri, rejeitou a manobra.

ASCENSÃO DO “ESTADO ISLÂMICO” – Apesar do racha com a Al Qaeda, o EI fez conquistas significativas na Síria, combatendo tanto as forças de Assad, quanto rebeldes moderados. Após estabelecer uma base militar no nordeste do país, lançou uma ofensiva contra o Iraque, tomando sua segunda maior cidade, Mossul, em 10 de junho de 2014. Naquele momento o grupo já havia sido novamente rebatizado, desta vez como “Estado Islâmico”.

A tomada da metrópole iraquiana Mossul foi significativa, tanto do ponto de vista econômico quanto estratégico, porque é uma importante rota de exportação de petróleo e ponto de convergência dos caminhos para a Síria. Mas a conquista da cidade foi vista como apenas uma etapa para os extremistas, que pretendiam avançar a partir dela.

ATUAL ABRANGÊNCIA DO EI – Além das áreas atingidas pela guerra civil na Síria, o EI avançou continuamente pelo norte e oeste iraquianos, enquanto as forças federais de segurança entravam em colapso. No fim de junho de 12014, a organização declarou um “Estado Islâmico” que atravessava a fronteira sírio-iraquiana e tinha Abu Bakr al-Bagdadi como “califa”.

Abu Bakr al-Bagdadi impôs uma forma implacável da sharia, a lei tradicional islâmica, com penas que incluem mutilações e execuções públicas. Membros de minorias religiosas, como cristãos e yazidis, deixaram a região do “califado” após serem colocados diante da opção: converter-se ao islã sunita, pagar um imposto ou serem executados. Os xiitas também têm sido alvo de perseguição.

AMEAÇA TERRORISTA – O Estado Islâmico perdeu 12% de seu território na Síria e no Iraque em 2016. Em 2015, o califado do EI já havia perdido 14% em controle da área antes ocupada. Na Síria, onde o EI enfrenta ao mesmo tempo o exército do regime, apoiado pela Rússia, a aliança árabe-curda apoiada pelos Estados Unidos e os rebeldes, os extremistas perderam a cidade de Palmira em 27 de março.

Os analistas advertem que, à medida que o califado do EI se reduz, aumenta a ameaça de terrorismo. Espera-se um aumento do número de ataques no Iraque, Síria e também na Europa, como já está até acontecendo.

4 thoughts on “Formação do Estado Islâmico foi a consequência da derrubada de Saddam

  1. Caro Jornalista,

    O que acontece no Oriente Médio e o que aconteceu no Egito, último país totalmente democratizado pela Primavera Árabe, fez valer o ditado popular:

    “QUANDO DOIS IDIOTAS BRIGAM, LUCRA UM TERCEIRO, MAIS ESPERTO!”.

    Nesse caso, o último a fazer papel de idiota foi o povo egípcio que, manipulado pelos interesses dos mais espertos, foi às ruas fazer protesto contra Mubarak, sem saber que eram apenas peões descartáveis em um movimento de xadrez muito mais complexo do que imaginavam! Ingenuamente não perceberam que os INIMIGOS DO PAÍS, enxadristas profissionais com visão para cinquenta anos (ou movimentos) à frente e posicionados além das fronteiras, a tudo assistiam e manipulavam de camarote, TORCENDO PARA QUE, nesse “abraço de afogado”, AMBOS SE DESTRUISSEM, o governo e o povo… o que realmente veio a acontecer. E para isso trataram de aumentar as pequenas diferenças e rusgas históricas existentes entre os vários grupos da população de maneira a dividi-la.

    Se anteontem o papel de idiota foi representado pela Aliança do Norte, no Afeganistão, ontem o papel de idiota coube à população da “oposição” do Iraque e da Líbia que, ao invés de se juntarem contra o inimigo externo, TAMBÉM PREFERIRAM SE DIVIDIR.
    Já hoje, esse mesmo papel de trouxa é feito pelos “rebeldes” da Síria, todos mercenários comprados e armados a dólar e ávidos pelo poder, e até mesmo alguns outros, não tão bem sucedidos, infiltrados na oposição iraniana. Alguém acha que, se o Assad for destituído, a tal “oposição moderada” não será exterminada dias depois pelas mesmas forças que hoje lhes prestam apoio?
    “Dividir é enfraquecer”, diz outro ditado.
    Se as populações e grupos desses países estivessem unidos, jamais teriam sido vencidas, pois o preço que cobrariam seria muito alto. Mas preferiram ouvir o canto das sereias, as promessas de um “mundo melhor”, esqueceram que todos eram irmãos e se deixaram manipular e dividir em “classes”/“etnias”/“raças” inimigas…
    Em todos esses casos, OS PAÍSES FORAM DESTRUÍDOS COM A AJUDA DOS IDIOTAS DOS PRÓPRIOS PAÍSES. Foram carcomidos de dentro para fora…

    -Primeiro a promessa de justiça social e de dias melhores, com todos comendo em uma só mesa o manjar dos deuses.
    -Depois, os caos social e econômico, com a falência do Estado e a destruição dos meios militares de segurança e de defesa.
    -E, finalmente, a divisão territorial, o saque e a partilha das riquezas entre os vencedores.
    (Não lhe parece familiar essa situação?).

    Abraços.

    PS: Caro jornalista. Creio que a autoria do primeiro texto seja do Deutsche Welle.

  2. Francisco Vieira muito boa tua matéria. Os detalhes são importantes. Permita-me dizer que é preciso desmascarar “a tal primavera árabe” que não foi espontânea. Esse movimento foi idealizado pelos EUA, França e Inglaterra, usando a Internet (redes sociais), para intervirem na Tunísia e derrubarem Kadaffi na Líbia e Assad na Síria enfraquecendo o Irã e consequentemente fortalecendo Israel que queria massacrar os palestinos na Faixa de Gaza. Assim fazendo logo após a queda de Kadaffi e a guerra civil na Síria. Assad só não caiu por ser um homem culto e corajoso. Tendo Tartus como base desativada da antiga URSS, socorreu-se da atual Russia e Putin prontamente interveio barrando o bombardeio que os EUA já tinham anunciado. Valeu Francisco Vieira.

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