Crianças negras ainda são rejeitadas por famílias inscritas para adoção

Paulo Peres

Ontem, comemoramos o Dia da Consciência Negra. Entretanto, “Valeu Zumbi, o grito forte dos Palmares”, versos do saudoso poeta e compositor Luiz Carlos da Vila, ainda não têm significado quando se trata de adoção inter-racial, que continua preterida por cerca de 26 mil famílias candidatas a adotar uma criança, visto que ainda trazem o racismo como herança.

Infelizmente, o Cadastro Nacional de Adoção informa que, mais de um terço das famílias apenas querem adotar crianças brancas, enquanto as crianças negras (pretas e pardas) somam mais da metade das que estão aptas para serem adotadas e aguardam por uma família.

“Apesar das campanhas promovidas por entidades e governos sobre a necessidade de se ampliar o perfil da criança procurada, houve pouco avanço”. explica o supervisor da 1ª Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal, Walter Gomes,. “O que verificamos no dia a dia é que as famílias continuam apresentando enorme resistência à adoção de crianças negras. A questão da cor ainda continua sendo um obstáculo de difícil desconstrução.”

Segundo Gomes, hoje no Distrito Federal há 51 crianças negras habilitadas para adoção, todas com mais de cinco anos. Entre as 410 famílias que aguardam na fila, apenas 17 admitem uma criança com esse perfil. Permanece o padrão que busca recém-nascidos de cor branca e sem irmãos. “O principal argumento das famílias para rejeitar a adoção de negros é a possibilidade de que eles venham a sofrer preconceito pela diferença da cor da pele”.

Todavia, esse argumento é de natureza projetiva, ou seja, são famílias que já carregam o preconceito, e esse é um argumento que não se mantém diante de uma análise bem objetiva, ressalta Gomes. “O tempo de espera na fila da adoção por uma criança com o perfil ‘clássico’ é em média de oito anos. Se os pretendentes aceitaram crianças negras, com irmãos e mais velhas, o prazo pode cair para três meses”.

Para Walter Gomes, é necessário um trabalho de sensibilização das famílias para que aumente o número de adoções interraciais. “O racismo, no nosso dia a dia, é verificado nos comportamentos, nas atitudes. No contexto da adoção não tem como você lutar para que esse preconceito seja dissolvido, se não for por meio da afirmatividade afetiva. No universo do amor, não existe diferença, não existe cor. O amor, quando existe de verdade nas relações, acaba por erradicar tudo que é contrário à cidadania”.

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